O crachá que fazia cócegas nas cores
Lia tinha cinco anos e um riso que saltava como pipoca. Naquela manhã, a casa cheirava a bolo fofo e a casca de laranja. Na cozinha, a mamãe pintava ovos com pincéis finos, e o papai tentava desenhar um coelho num guardanapo. O coelho ficou com cara de batata.
— É um coelho… diferente! — disse o papai, muito sério.
Lia gargalhou, quase derrubando um pote de purpurina.
— Parece um coelho que esqueceu onde deixou as orelhas!
A mamãe piscou para ela.
— Páscoa é assim: a gente erra, ri, e fica bonito do mesmo jeito.
Na mesa, havia tintas, fitas, botões e um pedaço de cartolina brilhante. Lia queria fazer uma coisa especial para a caça aos ovos. Não só uma cestinha. Não só um laço. Queria um “crachá de festa”, como os crachás que viu numa visita à escola do primo.
— Um crachá? — perguntou a mamãe. — E o que vai ter nele?
Lia pensou com as mãos na bochecha, como se segurasse uma ideia para não fugir.
— Vai ter meu nome, um coelhinho, e… e… um segredo!
Ela recortou a cartolina em forma de ovo. Colou um botão amarelo no meio, como se fosse um sol pequeno. Desenhou um coelho com lápis de cor. Desta vez, o coelho ganhou orelhas enormes, quase do tamanho do próprio ovo.
— Pronto — disse Lia, prendendo o crachá na camiseta com um alfinete de segurança que a mamãe ajudou a fechar. — Agora eu sou… a Lia da Páscoa!
Quando ela deu dois passos, o botão amarelo pareceu brilhar um pouco. Lia parou.
— Mamãe… o meu botão piscou?
A mamãe sorriu com um ar de quem não tinha certeza se era brincadeira ou magia.
— Talvez ele esteja feliz.
Lia chegou perto da janela da sala. O botão ficou um tiquinho mais verde. Ela arregalou os olhos.
— Ele mudou de cor!
O papai olhou por cima do guardanapo do coelho-batata.
— Deve ser a luz.
Mas Lia sabia que a luz da janela não era verde. Ela encostou o crachá na mesa. Voltou ao tapete. Chegou perto do corredor. O botão mudava: amarelo, verde clarinho, azul bem leve… como se fosse um camaleão educado.
— Acho que meu crachá é um detector de… de… — Lia procurou a palavra.
— De coisa escondida! — completou a mamãe, rindo.
Lia apertou o crachá com cuidado, como se fosse um bichinho.
— Então ele vai me ajudar a encontrar os ovos!
E, como se tivesse entendido, o botão ficou cor-de-rosa por um segundo. Um cor-de-rosa muito animado.
O convite do Coelho e a primeira pista
No quintal, as flores pareciam ter acordado mais cedo. Havia margaridas, um pé de alecrim e uma árvore com folhas novas, bem verdinhas. O vento fazia barulhinho de assobio, como se treinasse uma música.
Lia saiu com sua cestinha e o crachá no peito. O papai levou uma sacola com ovos de chocolate e ovos pintados. A mamãe carregou fitas para marcar alguns cantinhos.
— Regras da caça! — anunciou o papai. — Nada de subir em lugares perigosos. E se achar um ovo, comemora com dança.
Lia fez uma dancinha rápida, só para garantir.
Quando ela deu o primeiro passo no gramado, ouviu um “plim!” bem fininho. Parecia som de sino de bicicleta. Lia olhou ao redor. Ninguém tinha bicicleta ali.
O crachá mudou para azul mais forte.
— Viu? — sussurrou Lia. — Ele está falando comigo.
Ela foi andando devagar, como uma detetive pequena. O botão ficou verde quando ela passou perto do banco de madeira. Ela olhou embaixo do banco: nada. Olhou atrás: só uma folha seca.
— Hummm… — fez Lia, com cara de mistério.
De repente, uma sombra branca correu entre os vasos. Foi rápido, mas Lia viu duas orelhas pulando.
— Coelho! — ela gritou, feliz. — O Coelho da Páscoa!
O papai levantou as sobrancelhas.
— Deve ser um gato do vizinho…
Mas Lia já estava atrás das orelhas. Perto do vaso de hortelã, o crachá ficou vermelho. Vermelho como tomate.
— Aha! — disse Lia.
Ela enfiou a mão com cuidado entre as folhas. E lá estava: um ovo pintado de azul com estrelinhas douradas.
— Encontrei!
— Dança! — lembrou o papai.
Lia dançou com o ovo na mão, rodopiando. O ovo quase escapou, mas ela segurou a tempo.
— Ufa! Ovo fujão!
Uma risadinha baixinha veio de trás do vaso. Lia se abaixou. Entre duas pedras, apareceu um coelhinho bem pequeno, branco como algodão, com um laço verde no pescoço. Ele não parecia de verdade… mas também não parecia de brinquedo. Seus olhos brilhavam como duas gotinhas de chocolate.
— Olá — disse o coelhinho, mexendo o nariz. — Seu crachá é muito elegante.
Lia abriu a boca, surpresa e encantada.
— Você fala!
— Só hoje — respondeu o coelhinho. — Em dias de Páscoa, a magia fica mais tagarela.
Lia riu.
— E você é o Coelho da Páscoa?
— Eu sou um ajudante. O Coelho grande está ocupado com um mapa que voa. — Ele fez um gesto com a patinha, como quem explica algo normal. — Posso te dar uma dica?
Lia aproximou o rosto.
— Pode!
O coelhinho apontou para o crachá.
— Esse crachá muda de cor quando você está perto da boa cacheta… quer dizer, da boa “escondeta”… — Ele se embolou e fez uma careta. — Ah! Da boa escondida!
Lia caiu na gargalhada.
— Boa escondida! Eu gostei!
O coelhinho ficou ofendido por dois segundos e depois riu também.
— Humor é importante. Senão os ovos ficam sérios demais.
Ele piscou e correu para trás das flores, sumindo.
Lia olhou para o crachá, que agora estava amarelo, calminho. Ela abraçou a cestinha.
— Tá bom, crachá. Vamos trabalhar.
O ovo que não era chocolate e o susto engraçado
A caça continuou. O crachá fazia um show de cores. Perto do escorregador, ficou verde e Lia achou um ovo de chocolate embrulhado em papel roxo. Perto da cerca, ficou azul e ela encontrou um ovo pintado de listras, escondido dentro de um regador velho.
— Você está virando campeã — disse a mamãe, dando um beijo na testa dela.
Lia encheu a cestinha e o coração também. Mas ainda sentia que faltava algo. O coelhinho ajudante tinha falado de “boa escondida” como se fosse uma coisa especial.
Ela foi até a parte do quintal onde havia um arbusto grande, cheio de folhas. Ali, o crachá começou a mudar muito rápido: amarelo, verde, azul, roxo… e então ficou dourado. Um dourado que parecia sol de fim de tarde.
— Uau! — sussurrou Lia. — Dourado!
Ela se agachou e afastou as folhas com cuidado. Atrás do arbusto, havia uma caixinha pequena de madeira, com um desenho de cenoura na tampa. Lia abriu devagar, esperando ver um ovo gigante de chocolate.
Dentro, havia… uma pena colorida. E um bilhete dobrado.
Lia fez uma careta engraçada.
— Uma pena? O Coelho está fazendo cócegas nos meus planos.
Ela pegou o bilhete e leu com ajuda da mamãe, que se aproximou silenciosa:
“Parabéns, Lia da Páscoa! Às vezes, o melhor presente não derrete. Use a pena para fazer um desejo de primavera. Assinado: Um ajudante de orelhas rápidas.”
Lia segurou a pena. Ela era azul-turquesa com pontinhas verdes, como se tivesse sido pintada pelo vento.
— Um desejo de primavera… — repetiu Lia.
O papai se aproximou com cara curiosa.
— Posso desejar que meu coelho no guardanapo ganhe orelhas?
Lia riu tanto que quase sentou no chão.
— Você já tem orelhas suficientes, papai!
Ela pensou no que queria. Podia desejar mais chocolate. Podia desejar um brinquedo. Mas olhou para o quintal, para as flores, para o céu que estava bem claro.
— Eu desejo… que a gente encontre um lugar novo para a Páscoa entrar na nossa casa. Um lugar que a gente sempre veja.
A mamãe franziu a testa, tentando entender.
— Um lugar?
Lia apontou para a janela da sala, que dava para o quintal. A janela estava fechada.
— Ali.
Nesse momento, um vento manso passou e fez “plim!” de novo, como um sino. A pena na mão de Lia brilhou por um segundo, e o crachá ficou verde-claro, suave, como folha nova.
— Acho que a magia concordou — sussurrou a mamãe.
Lia correu até a janela e tentou abrir. Estava um pouco dura. O papai ajudou, com cuidado. A janela se abriu e, junto com ela, entrou um ar cheirando a grama e a flor. O som dos passarinhos ficou mais alto, como se estivessem esperando permissão.
Lia encostou o rosto no ar fresco.
— Olá, primavera — disse ela, baixinho.
E então aconteceu um mini-rebote: um papelzinho colorido, que estava preso na janela, soltou e caiu bem em cima da cabeça do papai. Era um adesivo de coelho.
O papai ficou parado, com o adesivo grudado no cabelo.
— Acho que o Coelho me escolheu.
Lia e a mamãe riram tanto que as risadas saíram pela janela e correram pelo quintal.
A janela aberta e o final quentinho
Com a janela aberta, a sala parecia mais brilhante. A mamãe colocou os ovos pintados num prato perto da luz. As cores ficaram vivas: vermelho, azul, amarelo, verde, com pontinhos e listras. Pareciam pequenos planetas felizes.
Lia prendeu o crachá bem no centro da camiseta e fez pose.
— Crachá, você trabalhou muito.
O botão voltou a ser amarelo, como no começo, como se dissesse “de nada”.
O coelhinho ajudante apareceu uma última vez do lado de fora, perto do alecrim. Só Lia viu. Ele levantou a patinha, cumprimentando, e fez uma cara muito séria… séria demais para um coelho tão pequeno. Aí ele espirrou: “Atchim!” E o laço verde dele tremeu.
Lia deu uma risadinha silenciosa para não assustar a magia.
— Saúde, coelhinho.
Ele respondeu com um salto e sumiu atrás do vaso.
O papai trouxe o guardanapo com o coelho-batata e colocou na mesa, ao lado do prato de ovos.
— Olhem, agora ele tem orelhas! — disse ele, apontando para dois pedaços de fita que tinha colado.
O coelho continuava parecendo uma batata, mas uma batata orgulhosa.
— Agora sim — disse Lia. — Ele está pronto para a festa.
Eles sentaram para lanchar. Comeram bolo, dividiram chocolate, contaram quantos ovos tinham achado. Lia explicou o crachá que mudava de cor, e o papai fingiu que queria um crachá para encontrar suas meias perdidas.
— O meu ia ficar sempre roxo de desespero — disse ele.
Lia riu.
— Ou vermelho perto do sofá! As meias se escondem lá!
A mamãe abriu mais um pouco a janela, e uma pétala entrou voando e pousou na mesa, bem ao lado do coelho-batata. Parecia um recadinho delicado.
Lia olhou para fora. O quintal estava cheio de luz, e o vento fazia as folhas dançarem, como se também estivessem comemorando.
Ela sentiu um calor bom no peito. Não era só chocolate. Era a sensação de ter feito parte de uma coisa alegre, colorida e meio mágica. E de ter rido muito no caminho.
— Páscoa é isso — disse Lia, com voz tranquila. — A gente procura, acha, erra um pouco, ri… e abre uma janela.
A mamãe beijou a mão dela.
— Uma janela para o quê?
Lia olhou para o céu azul e para o verde novo das plantas.
— Para a primavera entrar. E para a gente lembrar que a alegria também gosta de vento.
O crachá brilhava suave. A janela ficou aberta. E a casa, cheinha de risos, parecia respirar junto com o começo da estação.