Capítulo 1: O Renardo e o Despertar Preguiçoso
Renardo era um renardinho ruivo, com uma cauda tão fofa que parecia um espanador de princesa magrela. Ele tinha olhos esperto-sonolentos e um ar de quem sempre estava pronto… para dormir mais cinco minutos. Morava numa toca confortável na encosta de uma colina, bem no coração do Bosque dos Pancadões, um lugar onde as árvores cochichavam piadas e os sapos sabiam cantar óperas desafinadas.
Numa manhã que já estava quase virando tarde, Renardo acordou com um barulho esquisito. Era como se alguém estivesse batucando em latas de biscoito, só que nenhuma das latas era dele — Renardo nunca guardava biscoitos, comia todos de uma vez.
— Ai, que barulho é esse logo cedo? — gemeu, olhando para o relógio de sol que não funcionava porque estava chovendo.
Arrastou-se pelo tapete de folhas secas, tropeçou em suas próprias patas e foi espreguiçando até a entrada da toca. Ali, debaixo de um cogumelo lilás, estava Ruca, a tartaruga mais impaciente do bosque.
— Renardo! Preciso da tua ajuda! — gritou Ruca, que levava um óculos torto e um cachecol enorme, mesmo em dias quentes.
Renardo coçou atrás da orelha.
— Ruca, ajuda é uma palavra muito forte logo de manhã. Não preferes um cochilo?
— Rápido! A festa das Framboesas Saltitantes vai começar e o Guardião esqueceu onde guardou a chave do portão!
Renardo deu de ombros.
— Por que não usas tua super memória de tartaruga?
Ruca bufou.
— Eu esqueci também. Mas ouvi dizer que só alguém com muito azar pode encontrar a chave escondida nos Buracos dos Ladrilhos Cambaleantes.
O renardinho até sorriu. Se tem uma coisa que ele tinha de sobra, era azar.
— Parece trabalho para mim, então. Mas só se depois eu puder deitar mais um pouco.
Ruca revirou os olhos.
— Claro, senhor Preguiça. Só venha logo!
Assim, começou outro dia estranho no Bosque dos Pancadões.
Capítulo 2: A Busca dos Buracos Cambaleantes
Renardo e Ruca partiram para os tais Buracos dos Ladrilhos Cambaleantes. O caminho era uma trilha de folhas brilhantes e cogumelos falantes, que não perdiam a oportunidade de tirar sarro quando alguém passava.
— Olha o Renardo, vai salvar o mundo ou vai dormir de novo? — gritou um cogumelo.
Renardo bocejou.
— Se salvar o mundo tivesse uma cama no fim, eu até correria…
Ruca ria, mas logo tropeçou numa casca de banana azul — no Bosque ninguém plantava bananas, elas simplesmente apareciam.
Quando chegaram ao local, a cena era tão caótica que parecia uma pintura feita por um polvo com cócegas: havia buracos de todos tamanhos, ladrilhos que trocavam de posição sozinhos e fadas vestidas de pijama. Um grupo de duendes jogava cartas ao lado de uma poça de geleia.
— Então… só tem que achar uma chave — disse Renardo, pouco empolgado.
Ele deu um passo. Pronto. O ladrilho embaixo dele girou, lançando-o como um muffin numa festa de aniversário. Renardo voou com a elegância de um saco de batatas e caiu de barriga num cacho de flores sonoras, que começaram a cantar desafinadas, assustando até as abelhas.
— Ai, que música horrível! — protestou o renardinho.
Ruca se aproximou devagar.
— Encontra a chave! Mas tenta não cair em todos os buracos!
Renardo, com sua sorte — ou falta dela — pisou em outro ladrilho. A terra tremeu. Um buraco abriu-se e, de repente, ele estava debaixo do chão, numa sala escura iluminada apenas por vaga-lumes de boné.
Um deles cochichou com Renardo:
— Olá, sonolento! Procuras uma chave, não é?
— Sim… — resmungou, olhando ao redor. — Sabes onde está?
O vaga-lume apontou para uma caixa enorme, trancada com um cadeado do tamanho de uma melancia.
— A chave está dentro da caixa. Para abrir a caixa, precisa responder a charada do Guardião das Enguias Preguiçosas.
Um buraco se abriu mais ainda e, dele, saiu uma enguia com um pijama listrado.
— Que sono… — disse a enguia, bocejando. — A charada é: O que é verde, pula de lado e nunca diz bom dia?
Renardo pensou, pensou, mas como era preguiçoso, logo ficou com preguiça de pensar.
— Ah… sei lá… um sapo mal-educado?
A enguia sorriu, ou talvez dormiu, ninguém sabe. Mas a chave caiu do teto direto no focinho de Renardo.
Ele agradeceu, meio sem acreditar, e subiu pelo buraco (depois de errar a saída três vezes), voltando para a superfície, onde Ruca já cochilava.
— Conseguiste? — perguntou, acordando de repente.
Renardo mostrou a chave dourada.
— Claro. Foi só usar minha falta de talento!
Os duendes aplaudiram, as fadas soltaram confetes, e até os cogumelos choraram de rir.
Capítulo 3: O Portão das Framboesas Saltitantes
De volta à clareira, Renardo e Ruca correram — na verdade, Renardo caminhou devagar e Ruca quase rolou — até o enorme portão de biscoito crocante das Framboesas Saltitantes.
A festa estava prestes a começar, mas ninguém podia entrar sem a chave. Do outro lado do portão, as framboesas pulavam feito pipoca e gritavam: “Queremos brincar!”
O Guardião, um esquilo com bigode trançado, estava em pânico.
— Se não abrirem logo, as framboesas vão explodir de energia e sair correndo pelo bosque todo!
Renardo se aproximou, tentando colocar a chave no buraco da fechadura. Mas nada encaixava.
— Tens certeza que é essa chave, Renardo? — perguntou o Guardião, suando.
— Era a única que achei… talvez o portão esteja errado! — respondeu o renardinho, afagando a cauda.
Ruca suspirou.
— Isso é impossível, Renardo. Portão de biscoito crocante só pode ser esse!
O Guardião ideou:
— Talvez precise dizer palavras mágicas!
Renardo resolveu tentar qualquer coisa.
— Portão, portão, abre-te, por favor… ou então, dorme mais um pouco.
Nada aconteceu.
O esquilo tentou:
— Biscoito crocante, crocante, abre de repente!
O portão tremeu, rangiu, e abriu… para dentro, esmagando uma pilha de biscoitos sortidos que estavam escorados atrás.
As framboesas saltaram para eles, girando no ar e fazendo cambalhotas, enquanto todos gargalhavam do desastre delicioso. Renardo foi soterrado por biscoitos de chocolate, e só seu nariz aparecia debaixo de tudo.
— Acho que mereço uma soneca agora… — disse, com a voz abafada.
As framboesas, agradecidas, fizeram coro:
— Dorme, Renardo! Dorme e sonha com goiabada!
Capítulo 4: O Concurso de Desastres Divertidos
Depois de comerem mais biscoitos do que podiam contar nos dedos das patas, as criaturas do bosque tiveram uma ideia: fazer o Concurso dos Desastres Divertidos, para ver quem era o maior azarado — e quem conseguia se virar melhor com suas atrapalhadas.
Renardo foi nomeado presidente do júri, pois todos concordavam que ninguém dava tanto azar como ele, e ainda conseguia sair sorrindo (ou pelo menos bocejando).
Primeiro, foi a vez de Ruca, a tartaruga. Ela tentou equilibrar seis framboesas nas costas enquanto dançava samba. Escorregou, as framboesas voaram e foram parar dentro do chapéu de um gnomo, que pensou que tinha virado um framboeseiro ambulante.
Depois, um duende tentou fazer malabares com ovos mágicos e deixou todos caírem. Os ovos chocaram e nasceram passarinhos com vozes de pato, que fizeram um coral desastroso.
Logo foi a vez de Renardo. O desafio era simples: pular numa poça de geleia sem sujar o pelo.
Renardo deu impulso, tropeçou na própria cauda, escorregou, rodopiou no ar feito um pião e caiu de bunda na poça. Geleia roxa voou para todo lado, cobrindo plantas, bichos e até o portão de biscoito, que ficou parecendo um quadro moderno.
Todos riram tanto que as árvores balançaram de emoção.
O Guardião gritou:
— Temos um campeão do azar e da alegria: Renardo! O rei da trapalhada!
Renardo sorriu, lambendo a geleia da pata.
— Desastre também é diversão… se ninguém se machuca e o lanche é de graça!
Capítulo 5: O Dia em Que Tudo Deu Certo… Ou Quase
No dia seguinte à festa, Renardo acordou cedo (por engano), espreguiçou-se e pensou em fazer algo produtivo. Ele queria provar, pelo menos uma vez, que conseguia passar um dia inteiro sem tropeçar, cair ou causar confusão.
Primeiro, tentou arrumar sua toca. Espalhou almofadas novas, varreu as folhas e até pendurou um quadro torto de uma árvore sorridente.
— Hoje, nada de azar! — declarou, animado.
Logo, Ruca apareceu.
— Renardo, e se fosse pedir um favor às abelhas saltitantes? Queria um potinho de mel para o café…
Renardo aceitou. Foi andando pelo bosque, desviando de cogumelos zombeteiros e pulando galhos.
Chegou à colmeia, cumprimentou as abelhas em voz baixa e pediu um pote de mel. As abelhas, camaradas, deram a ele um pote bem gordo.
— Não derruba, hein! — avisaram.
No caminho de volta, tudo parecia em paz. Até um esquilo atabalhoado trombar com Renardo, que caiu… mas caiu de pé! O mel não derramou.
— Incrível! — comemorou. — Hoje é o meu dia de sorte!
Mas, ao abrir a porta da toca, tropeçou no tapete, rolou escada abaixo e o pote de mel voou, acertando Ruca em cheio.
Ruca soltou um “Ai!” e depois riu:
— Renardo, tu até tentaste… mas a sorte é tua amiga de pernas pro ar.
Renardo gargalhou.
— Se o mel não foi pro pão, foi pra tua cabeça. E rir é sempre melhor do que chorar!
Assim, acabou mais uma aventura atrapalhada do renardinho mais preguiçoso e azarado do Bosque dos Pancadões, mas também o mais divertido e querido de todos.
Quem sabe o que o amanhã traria? Só uma coisa era certa: seria, no mínimo, desastrosamente engraçado!