Capítulo 1 – As pedras são ranzinzas antes das dez
Folhico, um dragãozinho de bolso (do tamanho de um esquilo, mas com asas de borboleta e chifres de musgo), acordou com um espirro de poeira mágica no nariz. Era uma manhã como outra qualquer no Bosque dos Sussurros, exceto pelo fato de que as pedras do caminho estavam especialmente mal-humoradas. E não era um mau humor qualquer: era daqueles de revirar olhos, bufar alto e resmungar palavras feias (mas não tão feias assim, pois eram pedras educadas).
Folhico saiu de sua toca de sabugueiro, espreguiçando as asas verdes.
"Hoje vai ser o dia", disse para si mesmo, com um sorriso torto. "Hoje eu faço as pedras sorrirem!"
No primeiro passo, ouviu um "Ai!" vindo do chão. Era Cascudão, uma pedra ovalada, sempre de cara fechada.
"Vai pisar em outro, dragão enxerido! Não está vendo que estou tentando cochilar?", reclamou Cascudão.
Folhico se agachou, aproximando seu focinho colorido.
"Mas Cascudão, você vive cochilando! O que te faz tão ranzinza logo de manhã?"
"Ficaria mais feliz se ninguém tentasse conversar comigo", bufou Cascudão, girando para o lado oposto.
Folhico riu baixinho. Em vez de desistir, encheu o peito de coragem, curiosidade e traquinagem. Afinal, se as pedras eram ranzinzas, alguém precisava descobrir o porquê.
Capítulo 2 – O segredo das pedras mal-humoradas
Folhico foi saltitando pelo bosque, conversando com cada pedra que encontrava. Pedra-Girassol, Pedra-Borrachenta, Pedra-Cabeçuda... Todas estavam igualmente emburradas.
Embaixo de um cogumelo, Folhico encontrou sua amiga Formiga Rita, arrastando uma folha.
"Bom dia, Rita! Você já viu pedras tão mal-humoradas?", perguntou ele.
"Hoje? Só hoje? Elas são sempre assim. Mas ouvi dizer que, no fundo, só querem atenção", respondeu Rita, piscando rápido.
"Atenção? Como assim?", indagou Folhico, curioso.
"Pedras gostam de ouvir histórias, mas ninguém conta nada para elas. Só ouvem passos e resmungos", explicou Rita, coçando uma das antenas.
Folhico pôs a mãozinha no queixo. "Então, se eu contar uma história, elas vão sorrir?"
Rita assentiu. "Ou talvez riam tanto que rolem até a lagoa!"
O dragãozinho agradeceu a dica e foi pular sobre o barranco, já planeando a aventura. Agora, ele só precisava pensar numa história absolutamente sensacional... ou inventar uma na hora, o que Folhico achava muito mais divertido.
Capítulo 3 – O concurso de histórias improvisadas
No centro do bosque, Folhico empilhou as pedras mais ranzinzas em círculo. Cascudão, Pedra-Girassol, Pedra-Cabeçuda e Pedra-Borrachenta estavam ali, resmungando e torcendo seus narizes de granito.
"Preparem-se!", anunciou Folhico, com uma reverência extravagante. "Hoje teremos o primeiro Concurso de Histórias Improvisadas do Bosque dos Sussurros!"
As pedras se entreolharam, desconfiadas.
"Se sua história for chata, vamos te atirar na poça de musgo", ameaçou Cascudão, mas com um brilho divertido nos olhos.
Folhico respirou fundo e começou:
"Certa vez, uma pedra se apaixonou por um caracol. Ela tentou segui-lo, mas como era pedra, foi devagar, devagarinho... O caracol já estava na próxima folha quando ela finalmente mexeu sua primeira ruguinha!"
As pedras ficaram em silêncio, depois soltaram um pequeno... "Humpf."
Folhico continuou: "Mas a pedra era esperta! Chamou todas as gotas de orvalho para deslizar até o caracol, e juntos eles viraram o casal mais brilhante das manhãs!"
Dessa vez, Pedra-Borrachenta soltou uma risadinha abafada.
"Eu DUVIDO que pedras se apaixonem por caracóis!" disse Pedra-Cabeçuda, mas estava sorrindo.
"Na minha história, podem! E até dançam em festas de lama!", respondeu Folhico, dançando desajeitadamente.
Agora as pedras já tilintavam de tanto tentar segurar o riso.
Capítulo 4 – O feitiço da risada e o quiproquó da confusão
Enquanto Folhico improvisava, percebeu um detalhe: quanto mais as pedras riam, mais leves ficavam. Pedra-Girassol até saltitou sem querer. Rita, a formiga, deu um grito do meio da plateia:
"Cuidado! Se riarem muito, podem voar para longe!"
As pedras, assustadas, tentaram segurar o riso. Mas era tarde demais. Folhico, animado, contou outra história cheia de peripécias envolvendo um sapo cantor e uma borboleta com medo de voar. A gargalhada foi tão forte que... ZUUUM! Cascudão rolou até a raiz de um velho carvalho.
"AJUDA!", gritou Cascudão.
Pedra-Cabeçuda girou como um pião, Pedra-Borrachenta se espalhou em mil pedrinhas pequenas e Pedra-Girassol, rindo tanto, virou de cabeça para baixo.
Folhico voou de asa aberta até Cascudão, tentando ajudá-lo:
"Não se preocupem! Dragõezinhos de bolso também são especialistas em resgates de pedregulhos!"
No fim, todos, até as formigas, riram com a confusão. Folhico percebeu que às vezes, para alegrar alguém, basta dividir uma aventura divertida – e não se importar com alguns tropeços.
Capítulo 5 – O grande desenho colorido
No dia seguinte, as pedras estavam diferentes. Quando Folhico se aproximou, foram elas que o chamaram:
"Ei, dragãozinho, tem mais história?", perguntou Pedra-Borrachenta, com um sorriso aberto.
"Hoje a história vem em cores!", anunciou Folhico, puxando seu kit de tintas mágicas (feito de pétalas e pólen colorido).
Pedras e amigos do bosque se reuniram. Juntos, pintaram as pedras com listras, bolinhas, bigodes, chapéus altos e até sapatos imaginários. Quem passou por ali depois juraria que nunca vira pedras tão alegres.
No final do dia, Folhico desenhou, bem no centro da clareira, um enorme quadro colorido no chão: um dragãozinho de bolso sorrindo ao lado de quatro pedras felizes. Todos deram as mãos (e patas, e asas, e antenas) e disseram em coro:
"Que venham mais risadas, mais histórias e mais aventuras!"
E as pedras? Ah, continuaram ranzinzas antes das dez, mas agora, depois das histórias, riam até o sol se pôr.