Capítulo 1 - O Gato Tagarela
Mafalda sempre achou que o seu gato, Tufão, era estranho. Não só pela mania de roubar meias e escondê-las no lugar mais improvável possível (como dentro das botas do seu pai), mas também pelo hábito de miar num tom quase zangado sempre que não recebia a sua dose diária de atum. Mas nada poderia prepará-la para o que aconteceu numa quinta-feira à noite.
Ela estava deitada na cama, a ler um livro de piadas, quando ouviu um barulho vindo da janela. Espiou por cima dos óculos e viu Tufão sentado na prateleira, a observar atentamente um inseto invisível no teto.
— Tufão, para de ser esquisito — murmurou ela, pousando o livro.
De repente, Tufão virou-se para ela, piscou e disse, com voz grave e arrastada:
— Eu não sou esquisito. Só estou a treinar para apanhar fantasmas de poeira.
Mafalda engasgou-se no ar, atirou os óculos para a testa e arregalou os olhos.
— Tu… TU FALASTE?!
— Não grites, que acordas os humanos normais — respondeu Tufão, lambendo a pata com ar de tédio.
Mafalda sentou-se na cama, boquiaberta. Pensou que talvez estivesse a sonhar ou que o livro de piadas tivesse efeitos secundários estranhos. Mas não havia dúvida: Tufão falava. E, aparentemente, tinha opiniões muito próprias.
— Como… porque… QUANDO aprendeste a falar?
Tufão revirou os olhos amarelos.
— Sempre soube. Só estava à espera que tivesses idade para lidar com um gato tão espetacular.
Mafalda ficou tão espantada que esqueceu a pilha de testos da escola sobre a secretária, o barulho do relógio, a luz ténue do abajur… nada importava, exceto o seu gato tagarela.
Capítulo 2 - Ideias Malucas de Tufão
Na manhã seguinte, Mafalda acordou com Tufão a miar, ou melhor, a falar:
— Acorda, pirralha! Tenho planos para hoje!
Mafalda olhou para o relógio. Ainda eram sete da manhã. Bocejou e enterrou a cabeça na almofada.
— Só mais cinco minutos…
— Cinco minutos?! O mundo pode acabar em menos tempo! — exclamou Tufão, pulando para cima dela. — Eu pensei numa missão importante: vamos invadir a despensa e roubar as bolachas do papá. Dizem que as de chocolate são proibidas para gatos, mas quero arriscar!
Mafalda, a rir-se baixinho, levantou-se.
— Tufão, bolachas de chocolate fazem mal aos gatos.
— Eu sei, mas e as bolachas de morango? — perguntou, com olhos brilhantes.
— Essas, talvez…
Tufão enfiou-se debaixo da cama e saiu de lá com um plano desenhado numa folha de caderno: linhas tortas, setas a apontar para "Alvo: Bolachas", uma caveira desenhada e a frase em letras grandes: “Operação Bolacha!”
A caminho da cozinha, Mafalda tornou-se cúmplice de um gato revolucionário. O mais engraçado era o cuidado com que Tufão se esgueirava pelo corredor, a olhar para trás para se certificar de que ninguém os espiava.
— Rasteja, Mafalda! Pensa como um gato ninja! — sussurrou ele.
Mafalda, a conter o riso, rastejou atrás do gato, só para acabar com o rabo de Tufão a bater-lhe no nariz.
Ao chegarem à cozinha, descobriram que as bolachas estavam no topo do armário. Tufão lançou-lhe um olhar confiante.
— Sobe para os ombros e alcança.
— Achas que sou um gato-gigante? — perguntou Mafalda, meio a sério, meio a brincar.
— És quase tão desastrada quanto eu. Vai lá!
Depois de alguns saltos atrapalhados, dois tombos e uma chuva de pacotes de arroz, Mafalda conseguiu agarrar as bolachas de morango. Mas o barulho chamou a atenção do pai, que entrou na cozinha de pijama às riscas.
— O que se passa aqui?
— O Tufão queria… — começou Mafalda, mas Tufão interrompeu:
— Miaaaau!
O pai encolheu os ombros e saiu. Mafalda piscou um olho ao gato.
— Estás de volta ao modo mudo, não é?
Tufão respondeu com um piscar de olho felino.
Capítulo 3 - O Mal-entendido da Escola
Na escola, Mafalda não conseguia parar de pensar nas habilidades de Tufão e nas suas ideias excêntricas. Quando chegou a casa, mal largou a mochila, correu para o quarto e encontrou Tufão deitado na almofada.
— Tufão, hoje ouvi dizer que vão fazer um concurso de talentos na escola. Queres inscrever-nos? Podemos fazer um número juntos!
— Eu sou ótimo em equilibrar coisas na cabeça — disse Tufão, animado. — Já equilibrei o sapato do pai e nem caiu!
Mafalda imaginou a cena e desatou a rir.
— Mas ninguém pode saber que falas! Só temos de fazer truques normais de gato.
Tufão pareceu ofendido:
— Normais? Eu sou extraordinário! Mas tudo bem… desde que haja prémio.
Na tarde seguinte, Mafalda levou Tufão para a escola, dentro da sua mochila, embrulhado num cachecol. Mal chegou, todos os colegas vieram espreitar.
— O teu gato é mesmo fofo! Vai fazer truques? — perguntou a Inês.
— Vai… equilibrar coisas, saltar obstáculos... — respondeu Mafalda, a tentar não rir.
Quando chegou a vez de Mafalda e Tufão, a professora acenou:
— Vamos lá ver o espetáculo da Mafalda e do… Tufão!
Tufão pulou para cima da mesa, olhou em volta, escolheu a régua da professora e equilibrou-a no focinho, depois fez uma pirueta para apanhar uma borracha e, de repente, num impulso, começou a miar de modo tão dramático que parecia cantar ópera.
Os colegas aplaudiam, riam, alguns até filmavam. Mafalda, nervosa, sussurrou:
— Por favor, não fales!
— Já estou a improvisar — respondeu Tufão, baixinho.
No final, todos achavam que Mafalda tinha o gato mais bem treinado do mundo. Mas houve um problema: o aluno mais convencido da turma, o Bernardo, ficou desconfiado.
— Esse gato é muito estranho… aposto que tens um comando secreto.
Mafalda sorriu, fingindo mistério:
— Talvez tenha. Ou talvez seja só magia de amizade!
Capítulo 4 - Tufão no Mercado
No sábado de manhã, Tufão decidiu inventar outra aventura.
— Temos de ir ao mercado — anunciou ele, com um MIAU sonoro.
— Para quê? — perguntou Mafalda, já a adivinhar uma ideia maluca.
— Vou inscrever-me no concurso do melão mais bonito. Quero provar que um gato sabe escolher frutas melhores que qualquer humano.
Mafalda revirou os olhos, mas não resistiu ao entusiasmo do amigo felino. Vestiu o casaco, meteu Tufão dentro de uma mochila adaptada (com buracos para respirar!), e lá foram ao mercado municipal.
O colorido das frutas, o cheiro do pão fresco, os pregões dos vendedores — tudo era uma festa. Tufão espreitava pela mochila, dando ordens em sussurros:
— Esquerda! Agora direita! — dizia ele sempre que via um melão apetitoso.
Depois de meia hora a cheirar e a afagar melões, o vendedor, um senhor de bigode farfalhudo, olhou Mafalda com curiosidade:
— Estás a escolher melões para algum concurso, menina?
— O meu… amigo é especialista — disse ela, tentando parecer séria.
Tufão roçou o focinho num melão, depois noutro, até finalmente pousar a pata num com uma risca torta.
— É este! — disse ele.
Mafalda comprou o melão e inscreveu-se no concurso. Quando chegou a hora do resultado, o júri ficou impressionado:
— Este é o melão mais… perfumado e engraçado. Tem até uma marca em forma de bigode! — comentou uma das senhoras.
O presentador entregou um diploma a Mafalda, que sorriu de orelha a orelha, enquanto Tufão miava triunfante dentro da mochila.
Capítulo 5 - No Mundo das Meias Perdidas
Nessa noite, Mafalda preparava-se para dormir quando deu pela falta das suas meias preferidas: umas cor-de-rosa com desenhos de polvos a fazer acrobacias. Procurou debaixo da cama, dentro das gavetas, e nada.
— Tufão, tu sabes onde estão as minhas meias?
O gato fez ar misterioso.
— Talvez sim, talvez não. Mas posso mostrar-te um segredo.
Mafalda seguiu Tufão pelo corredor até ao armário do sótão, onde nunca ia.
— Mas está escuro…
Tufão bateu com a cauda na porta. Um feixe de luz revelou uma pilha gigante de meias de todos os tamanhos e cores, entrelaçadas com novelos de lã e cinco ou seis ratinhos de brinquedo.
— Uau! É um esconderijo de meias!
— É o meu reino privado — disse Tufão, orgulhoso. — Aqui dou festas secretas para gatos da vizinhança. E as tuas meias servem de tapete para a pista de dança!
Mafalda riu-se tanto que quase perdeu o equilíbrio.
— Se continuares a roubar meias, vou ter de cobrar rendas!
— Só se for em sardinhas — respondeu Tufão.
Os dois sentaram-se entre as meias, a conversar sobre festas de gatos e bolos de atum até Mafalda quase adormecer.
Capítulo 6 - Fuga Noturna e Mal-entendidos
Uns dias depois, Tufão acordou Mafalda a meio da noite, sussurrando:
— Mafalda! Hora da missão impossível!
— O quê? — resmungou ela, meio a dormir.
— O Bernardo vai espiar-nos amanhã. Ele quer descobrir o meu segredo. Temos de pregar-lhe uma partida antes!
Mafalda esfregou os olhos.
— Que ideia tens?
Tufão sorriu com o seu bigode.
— Vamos fingir que sou… um robô-controlado-por-controle-remoto!
No dia seguinte, Mafalda apareceu na escola com Tufão dentro de uma caixa, cheia de botões desenhados com caneta. Quando o Bernardo se aproximou, Mafalda carregou num botão falso e Tufão começou a dar voltas, miar e até fazer o pino.
O Bernardo ficou boquiaberto.
— Eu sabia! É um robô! — disse ele, a correr para contar a toda a gente.
Tufão riu-se baixinho:
— Acho que lhe demos cabo da cabeça!
No recreio, Tufão fez mais truques, sempre com Mafalda a fingir usar o comando. Toda a escola ficou convencida de que a Mafalda era uma génia da eletrónica.
Durante o almoço, Tufão comentou:
— Espero que não me peçam para ligar o wi-fi. Os gatos preferem peixe, não internet.
Mafalda riu-se tanto que entornou o sumo em cima do lanche.
Capítulo 7 - Reflexões à Luz da Lua
Nessa noite, Mafalda e Tufão estavam sentados à janela, a observar a lua cheia.
— Sabes, Tufão, nunca pensei que teria um amigo assim — disse Mafalda, abraçando o gato.
— Um génio? Um rei das meias? — brincou ele.
— Um gato falante, com mais ideias malucas do que todos os humanos juntos!
Tufão ronronou.
— Gosto de te ver rir. Os humanos deviam rir mais antes de adormecer. Faz bem aos sonhos.
Mafalda olhou para as estrelas, pensativa.
— Às vezes sinto que ninguém percebe quando estou triste ou quando quero fugir do normal…
— Mas eu percebo, Mafalda. E prometo aventuras sempre que quiseres. — Tufão deu-lhe uma lambidela na mão.
— Amanhã, nova missão? — perguntou ela.
— Amanhã… roubamos o gorro do papá e colocamo-lo na cabeça do carteiro. Quero ver se ele nota — planeou Tufão, com ar maroto.
Mafalda já imaginava a cena: o carteiro a distribuir cartas com um gorro de lã cor-de-rosa, enquanto Tufão espreitava por trás da cortina a divertir-se.
Os dois riram-se até as lágrimas lhes correrem pelo rosto.
Capítulo 8 - Sonhos Felinos e Risos Infinitos
Antes de adormecer, Mafalda pensou em todas as aventuras: as bolachas roubadas, as festas de meias, os truques na escola, o melão vencedor, os planos de disfarce… e sorriu.
— Tufão, prometes que vais ser sempre assim, meio maluco?
— Prometo. E se algum dia me calar, é só porque estou a inventar a próxima partida.
A luz apaga-se, o silêncio enche o quarto. Mas na imaginação de Mafalda, ela e o Tufão continuam a correr pelos telhados, a rir, a inventar palavras estranhas, a pregar sustos sem maldade, a viver cada noite como uma nova aventura.
E assim, entre risos e sussurros, Mafalda adormece, sonhando com gatos que falam, festas de meias perdidas e dias cheios de surpresas, certa de que, ao acordar, haverá sempre uma nova ideia maluca à espera dela.