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Pequenos aventureiros 11 a 12 anos Leitura 25 min.

As Asas da Imaginação

Clara, uma menina criativa, descobre um livro de invenções no sótão e constrói uma máquina voadora que a leva a uma ilha misteriosa, onde encontra um mapa do tesouro que a conduz a uma nova e emocionante aventura.

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Menina de 12 anos com rosto salpicado de areia, cabelo castanho em rabo de cavalo, olhos grandes e curiosos, expressão corajosa, segurando um caderno e uma bússola numa mão e um mapa amassado na outra, ao lado de uma bicicleta transformada em máquina voadora com grandes asas de lona bege e armação de madeira; um garoto de ~12 anos, cabelo preto despenteado e camiseta às riscas, parece preocupado mas leal, segurando uma cauda improvisada de madeira e olhando para a menina e as asas. Cena numa enseada de areia clara molhada com rochas cobertas de algas, pequenas poças brilhantes e uma colina gramada com uma árvore solitária ao fundo, algumas gaivotas voando baixo. Luz suave de início de tarde, cores pastel saturadas (céu azul profundo, reflexos prateados na água, madeira quente e lona creme), texturas visíveis na lona e na areia. Momento logo após o pouso: a menina pisa na areia, a máquina ainda morna, mapa aberto sugerindo uma busca; sensação de maravilha, aventura e leve vertigem. Detalhes sobrepostos em estilo doodle: setas onduladas, mini‑asas, pequenas estrelas e anotações manuscritas como “cofre” e uma rosa dos ventos. Estilo ilustrativo juvenil, traços limpos, cores planas com sombras suaves, composição centrada na menina e na máquina, ambiente acolhedor e convidativo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Sótão Que Rangia Segredos

Clara tinha 12 anos e uma curiosidade que parecia ter rodas nos pés. Ela andava pela casa como quem procura um “clique” escondido no ar. Naquele sábado, chovia fino. A mãe dizia que era “chuva de preguiça”. Clara dizia que era “chuva de investigação”.

— Clara, não inventa moda no sótão — avisou a mãe, da cozinha. — Está cheio de caixas e poeira.

— Eu só vou… olhar — respondeu Clara, já com um sorriso de quem mentia um pouquinho para o bem da ciência.

A escada do sótão rangia como se contasse uma história a cada degrau. Lá em cima, o ar tinha cheiro de madeira antiga e de roupa guardada. Um feixe de luz entrava por uma telha transparente, iluminando partículas de pó que dançavam, importantes, como se fossem estrelas.

Clara abriu uma caixa e encontrou brinquedos de quando o pai era pequeno. Numa outra, cartas amarradas com fita. Embaixo de um cobertor grosso, havia um baú baixo, com uma fechadura enferrujada.

— Aposto que aqui tem… — ela sussurrou, como se o sótão pudesse se assustar.

A fechadura cedeu com um “clac” tímido. Dentro, havia um livro grande, de capa azul, com marcas de dedos e uma mancha redonda que parecia café.

No alto da primeira página, escrito à mão, lia-se: “Caderno de Invenções do Sr. Otávio”.

Clara arregalou os olhos. O Sr. Otávio era o avô que ela não conheceu. Diziam que ele consertava tudo. Relógios, bicicletas, guarda-chuvas teimosos. E, segundo o tio, “até ideias”.

Ela folheou. Havia desenhos, setas, listas de materiais. Alguns projetos eram simples: uma lanterna de lata, um apito para chamar o cachorro. Outros eram… diferentes.

Na página do meio, um desenho saltou como um pássaro: uma máquina com asas dobráveis, pedais e um leme.

Embaixo, uma frase: “Se o mundo pesa, faça asas. Mas nunca voe sem coragem.”

Clara engoliu em seco, mais animada do que assustada.

— Isso é… uma bicicleta voadora? — ela murmurou.

De repente, lá embaixo, a mãe chamou:

— Clara! Cadê você?

Clara fechou o livro com cuidado, como se guardasse um segredo que ainda aprendia a respirar.

— Já vou! — gritou.

Mas ela não foi. Não ainda. Porque, naquele instante, a chuva lá fora parecia uma plateia. E o sótão, um palco. E Clara, a única pessoa no mundo com um mapa para o impossível.

Capítulo 2 — Parafusos, Paciência e um Plano Maluco

No dia seguinte, o céu estava limpo. Clara esperou a mãe sair para trabalhar e o pai levar o carro para a revisão. A casa ficou com aquele silêncio que parece prometer confusão.

Ela arrastou o livro para o quarto, junto com um caderno novo. Escreveu no topo: “Projeto Asa”.

— Ok, Clara. Sem drama. É só… construir uma máquina voadora — falou para si mesma, e riu, porque soou totalmente normal. Quase.

A primeira lista de materiais era longa. Mas o avô tinha sido esperto. Usava coisas de quintal, de oficina, de feira.

Clara desceu até a garagem. Lá havia uma bicicleta velha, sem corrente, encostada num canto.

— Desculpa, amiga, mas você vai virar lenda — disse Clara, passando a mão no guidão.

Ela encontrou ripas de madeira, corda resistente, um saco de parafusos e uma caixa de ferramentas que cheirava a metal e a aventura. No armário de limpeza, achou lona. No varal, prendedores. E, no fundo da gaveta da cozinha, elásticos grossos que ninguém lembrava por quê.

Ela trabalhou em etapas. Primeiro, reforçou o quadro da bicicleta com madeira e corda. Depois, montou duas asas leves com ripas e lona, seguindo os desenhos. As asas dobravam e abriam como um enorme leque teimoso.

As mãos de Clara ficaram sujas de graxa. Ela prendeu o cabelo com um lápis. O cotovelo bateu na quina da mesa e ela mordeu a língua para não chorar.

— Ai. Tá. Eu consigo. Eu consigo — repetiu, como se fosse um feitiço.

No meio da tarde, o melhor amigo dela, Tomás, apareceu no portão com uma bola debaixo do braço.

— Clara! Bora jogar? — ele gritou.

Clara hesitou. O segredo pesava e brilhava ao mesmo tempo. Tomás era bom de guardar confidências. Às vezes. Bom… quase sempre.

Ela abriu o portão só um pouco e cochichou:

— Entra. Mas sem gritar. E sem… desmaiar.

— Eu desmaio com filme triste, não com segredo — disse Tomás, entrando e já olhando para os lados. — O que foi?

Clara levou-o até a garagem. Tomás viu a bicicleta com asas e ficou parado, com a bola escorregando devagar das mãos.

— Isso… é uma bicicleta… com… cortinas? — ele perguntou, com uma cara tão séria que era engraçada.

— É uma máquina voadora. Quase pronta.

Tomás piscou várias vezes, como se as palavras precisassem de tradução.

— Clara. Você vai… voar?

— Vou testar. Com cuidado. E com um plano.

— Plano é bom. Eu gosto de planos. Eles evitam… morte — falou Tomás, engolindo em seco.

Clara abriu o caderno.

— Primeiro: capacete. Segundo: campo vazio. Terceiro: vento baixo. Quarto: você fica no chão e me diz se eu estou parecendo um ganso descontrolado.

Tomás riu, aliviado.

— Fechado. Mas se você virar ganso, eu vou te chamar de “Capitã Gansa”.

— Nem pense — Clara respondeu, mas riu também.

À noite, ela deitou e encarou o teto. A ideia de voar era enorme. E o medo vinha junto, como um irmão chato.

Só que, no livro, a frase do avô não saía da cabeça: “Nunca voe sem coragem.”

Coragem, Clara pensou, não era não ter medo. Era ir mesmo com medo, mas com cuidado.

Ela fechou os olhos. E ouviu, quase como se fosse o ranger da escada: o sótão chamando de novo.

Capítulo 3 — O Primeiro Voo e o Vento que Mudou Tudo

No domingo de manhã, Clara e Tomás empurraram a máquina até um campo perto da escola. Era um lugar com grama alta, duas árvores grandes e um cheiro de terra quente.

Clara vestiu o capacete de bicicleta. Parecia enorme nela.

— Você está pronta? — perguntou Tomás, segurando a cauda improvisada da máquina, um pedaço de madeira com tecido amarrado.

— Eu nasci pronta — Clara mentiu com tanta convicção que quase acreditou.

Ela subiu. Apertou as mãos no guidão. Os pedais rangiam. As asas, dobradas, tremiam um pouco.

— Se eu gritar “pato”, você puxa o freio de emergência — disse Clara.

— Por que “pato”? — Tomás perguntou.

— Porque “socorro” é óbvio. “Pato” é mais… criativo.

Tomás abriu um sorriso nervoso.

— Combinado. Pato.

Clara pedalou. Primeiro devagar. Depois mais rápido. O vento bateu no rosto, gelado e bom. Ela puxou uma alavanca, e as asas se abriram com um “flap” que fez Tomás dar um salto para trás.

— Uau… — ele sussurrou.

A máquina ficou mais leve. Muito mais leve. Por um segundo, as rodas pareceram não querer mais chão.

Clara sentiu um puxão no estômago, como em montanha-russa. Ela riu alto.

— TOMÁS! EU TÔ…!

E então o vento mudou.

Veio uma rajada de lado, inesperada. A máquina balançou. Clara tentou corrigir com o leme, mas a asa esquerda pegou mais vento e levantou demais.

— Clara! — gritou Tomás.

Ela viu o campo ficando pequeno. O coração disparou. O mundo ficou grande demais e rápido demais.

— Pato! — Clara berrou, mais por hábito do que por humor.

Tomás correu atrás, mas já era tarde. A máquina subiu, passou por cima das árvores, e a cidade virou um tabuleiro lá embaixo.

Clara apertou os dentes.

“Ok. Sem pânico. Pânico não ajuda ninguém.”

Ela puxou outra alavanca para recolher um pouco as asas. Funcionou. A máquina baixou, mas continuou indo, como se o vento tivesse decidido adotar Clara por um tempo.

À frente, uma névoa fina apareceu, como um lençol esticado no ar. Não era nuvem comum. Parecia brilhar por dentro.

— Isso não estava no plano… — ela disse para o vento, que não respondeu, claro, porque vento é educado só quando quer.

A máquina atravessou a névoa.

E, de repente, o barulho da cidade sumiu. O ar ficou com cheiro de sal. O céu parecia mais azul. E abaixo dela havia água. Um mar inteiro, cintilando.

Clara arregalou os olhos.

— Eu… eu não moro perto do mar — ela murmurou, sentindo o medo virar espanto.

À direita, surgiu uma ilha. Pequena, verde, cercada por rochas. No centro, uma colina com uma árvore solitária no topo, como um guarda de braços abertos.

A máquina começou a descer sozinha, como se conhecesse o caminho. Clara tentou controlar, mas o leme parecia pesado, como se alguém estivesse segurando do outro lado.

O chão se aproximou. Ela viu areia clara, pedras e um pedaço de gramado.

— Tá. Aterrissagem. Aterrissagem! — falou, tentando soar como piloto.

As rodas tocaram a areia com um solavanco. A máquina derrapou. Clara quase caiu, mas apoiou o pé e conseguiu parar.

Silêncio.

O tipo de silêncio que faz você ouvir seu próprio coração pedindo explicação.

Clara desceu devagar. Olhou em volta. Não havia casas. Não havia pessoas. Só gaivotas e o vento, agora manso, como se dissesse: “Pronto. Era aqui.”

— Tomás vai me matar — ela disse, e riu sozinha, porque era tão absurdo que só dava para rir.

Ela puxou a máquina para um lugar mais firme e olhou para a colina.

A curiosidade, que nela sempre acordava primeiro, levantou a mão e disse: “Vamos?”

Clara respirou fundo e começou a caminhar.

Capítulo 4 — A Ilha, a Árvore e o Mapa que Sussurrava

O caminho até a colina era cheio de coisas pequenas que pareciam importantes. Pedras redondas como ovos, conchas com listras, um lagarto que parou para encarar Clara como se ela fosse a visitante estranha. E ela era mesmo.

— Olá — disse ela ao lagarto. — Eu também não sei como vim parar aqui.

No meio do trajeto, Clara encontrou algo que não combinava com a natureza: uma placa de madeira semi-enterrada, com letras apagadas. Ela limpou com a mão.

“Para quem chega pelo ar: não corra. Observe.”

Clara sentiu um arrepio bom.

— Pelo ar… — repetiu.

Subiu mais devagar, então, prestando atenção. A grama mudava de cor em alguns trechos. Mais escura, mais baixa. Parecia… caminho.

— Isso é como um jogo — ela sussurrou. — Um jogo antigo.

No topo da colina, a árvore solitária era enorme. O tronco tinha marcas, como se muitas mãos tivessem passado por ali. E, numa das raízes, havia uma abertura pequena, escondida por musgo.

Clara ajoelhou e puxou o musgo com cuidado. Dentro, uma caixa de metal, do tamanho de uma lancheira.

O coração dela fez um “tum” decisivo.

A caixa não estava trancada. Ela abriu.

Lá dentro havia um mapa enrolado, preso por um cordão vermelho. E um bilhete.

Clara desenrolou o bilhete primeiro. A letra era parecida com a do livro.

“Se você encontrou isto, é porque conseguiu. Sim, você. A coragem é uma chave. A curiosidade, a outra. O tesouro não é só ouro. Às vezes, é o próximo passo. — Otávio”

Clara ficou parada, com a folha tremendo nas mãos.

— Vovô… — ela disse, baixinho.

Ela desenrolou o mapa. Era desenhado à mão, com linhas firmes e símbolos divertidos. Havia uma rosa dos ventos e um desenho de asa no canto. No centro, um X. Ao lado, escrito: “O Cofre da Maré Baixa”.

O mapa mostrava a ilha e também… algo estranho: uma segunda ilha, indicada só como “Depois”.

Clara engoliu em seco.

— Então não termina aqui.

Um barulho de asas a fez se virar. Uma gaivota pousou num galho baixo e inclinou a cabeça, curiosa.

— Você é a guia? — Clara perguntou.

A gaivota soltou um som curto, quase como uma risada.

Clara colocou o mapa dentro da blusa, bem protegido, e voltou a descer a colina, procurando no desenho o caminho até o tal cofre.

O mapa indicava uma passagem entre rochas, acessível só quando a maré baixasse. Clara olhou para o mar. A água parecia recuando, deixando uma faixa de areia molhada aparecer, brilhante como vidro.

— Ok. Maré baixa. Agora — ela falou.

Ela caminhou até as rochas. A passagem era estreita e úmida. As pedras tinham algas escorregadias, e Clara foi com cuidado, testando cada passo.

— Devagar, Clara. Você não vai virar personagem que cai por causa de pressa — ela disse para si mesma.

A passagem se abriu numa pequena enseada escondida. Ali, entre duas pedras, havia uma portinha de madeira, com um puxador de ferro.

Na portinha, alguém tinha gravado um símbolo: uma asa.

Clara respirou fundo e puxou.

A porta rangeu, como a escada do sótão. Como se reconhecesse a mesma história.

Lá dentro, não havia ouro brilhando nem coroas. Havia um baú simples e um cheiro de papel velho.

Clara abriu o baú.

Dentro, havia um pequeno caderno impermeável, uma bússola e um pedaço de tecido dobrado com cuidado. No caderno, na primeira página, estava escrito:

“Para não voar sozinha.”

Clara sentiu os olhos arderem, mas não era tristeza. Era aquela emoção que dá quando alguém, mesmo de longe, acredita em você.

Ela pegou a bússola. A agulha girou e, por um segundo, apontou para o nada. Depois se firmou, como se dissesse: “Pronta?”

Clara fechou o baú.

— Eu preciso voltar — ela falou alto. — Tomás e minha mãe… e o mundo real.

Mas o mapa dentro da blusa parecia mais pesado agora. E o “Depois” desenhado lá, pequeno, parecia chamar como um sino distante.

Capítulo 5 — Voltar Também é Coragem

Clara correu até a praia onde deixou a máquina. Ela estava lá, meio torta, mas inteira. As asas tinham areia grudada e uma concha pendurada na lona, como um enfeite.

— Certo, máquina. Agora você vai me levar para casa. Sem surpresas — ela disse, batendo de leve no guidão. — Eu já tive emoção suficiente para… dois meses.

Ela amarrou o tecido encontrado no cofre ao braço. Era como uma faixa. No tecido havia pequenos pontos bordados, formando outro símbolo de asa. Parecia um “uniforme” de exploradora.

A bússola indicava uma direção que não fazia sentido em um mapa normal. Mas Clara decidiu confiar. Afinal, já estava numa ilha que não existia na aula de geografia.

Ela empurrou a máquina até uma parte firme da areia. Subiu, ajustou as asas e começou a pedalar. O vento ajudou, como se fosse um empurrão gentil nas costas.

A máquina levantou. Desta vez, Clara controlou melhor. Fechou um pouco as asas quando o vento apertou. Manteve a respiração ritmada.

— Calma. Eu mando. Eu mando… mais ou menos — ela murmurou.

A névoa brilhante apareceu de novo, no mesmo lugar do céu, como uma porta que alguém deixou aberta.

— Lá vou eu — disse Clara.

Ela atravessou.

O cheiro de sal sumiu. O som da cidade voltou, distante. Logo ela avistou o campo, as duas árvores, e uma figura correndo em círculos como um frango desesperado.

Tomás.

Clara desceu em espiral, devagar, e pousou com um solavanco menos humilhante do que o primeiro.

Assim que parou, Tomás veio correndo, os olhos enormes.

— CLARA! Você… você… — ele ofegou. — Eu achei que você tinha virado lenda! Ou pato! Ou os dois!

Clara desceu e segurou o braço dele, para ter certeza de que era real.

— Eu tô aqui. Eu tô bem.

— Onde você foi? — Tomás perguntou, com a voz tremendo e brava ao mesmo tempo. — Eu quase liguei para… para todo mundo!

Clara respirou fundo. O segredo agora não cabia só nela.

— Eu fui numa ilha.

Tomás piscou.

— Uma… ilha. Tipo… água. Mar. Peixe.

— Sim.

Ele olhou para a máquina, depois para Clara, como se o cérebro estivesse tentando montar um quebra-cabeça impossível.

— Você foi numa ilha de bicicleta voadora.

— Sim.

Tomás passou as mãos no cabelo.

— Tá. Eu vou fingir que isso é normal por cinco segundos, só para não explodir.

Clara tirou o mapa e mostrou.

— Eu encontrei isso. E acho que… tem mais.

Tomás aproximou o rosto, lendo devagar.

“Cofre da Maré Baixa”“Depois”… Clara, isso é tipo… caça ao tesouro de avô inventor?

Clara assentiu.

— E tem uma frase: “Para não voar sozinha.”

Tomás ficou quieto. Depois, de um jeito surpreendentemente sério, ele disse:

— Eu fiquei com muito medo. Mas… também fiquei com inveja. Uma inveja respeitosa.

Clara deu uma risadinha.

— Eu também fiquei com medo. Muito. Mas eu pensei… se eu entrar em pânico, eu caio. Então eu… fiz do medo um passageiro. Não o piloto.

Tomás ergueu o polegar.

— Isso foi bonito. E meio assustador vindo de você.

— Obrigada… eu acho.

Eles empurraram a máquina para debaixo das árvores, escondendo com galhos e um pano velho que Tomás tinha no bolso por algum motivo que ninguém quis perguntar.

— E agora? — Tomás perguntou.

Clara guardou o mapa e a bússola na mochila.

— Agora eu vou para casa. Vou dizer para minha mãe que eu estava estudando.

— Isso é mentira.

— É… uma versão criativa da verdade.

Tomás suspirou.

— E depois?

Clara olhou para o céu, onde a névoa já não estava.

— Depois… a gente planeja direito.

Tomás sorriu, finalmente.

“A gente”, né?

“A gente”.

Capítulo 6 — O Próximo X e as Asas Dentro de Casa

Naquela noite, Clara jantou tentando agir normal. O que, para ela, era difícil, porque a cabeça estava cheia de ilha, mapa e o “Depois”.

— Você está quieta — comentou o pai, servindo arroz. — Tudo bem?

— Tudo — respondeu Clara, rápida demais.

A mãe estreitou os olhos.

— Quietinha assim, ou você aprontou ou está doente.

Clara pensou na máquina escondida no campo, na névoa no céu e num cofre secreto numa ilha que talvez nem existisse.

— Acho que estou… cansada — disse ela, escolhendo a opção menos explosiva.

Mais tarde, no quarto, ela abriu o caderno impermeável que achou no baú. As páginas eram cheias de espaços em branco e, no meio, algumas instruções curtas, como pistas.

“Quando a porta aparecer, não entre correndo.”

“Leve água. Leve lápis. Leve um amigo.”

“Ouça os sons. O vento avisa antes.”

Clara sorriu.

— Você pensou em tudo, vovô.

Ela pegou o livro de invenções e folheou até a página da máquina voadora. No canto, havia um desenho pequeno que ela não tinha notado: duas crianças lado a lado, uma apontando e a outra segurando uma bússola.

Clara encostou o dedo no desenho.

No dia seguinte, ela encontrou Tomás na biblioteca da escola, porque era o lugar mais seguro para conspirar sem parecer conspiração.

— Trouxe o mapa? — Tomás perguntou, sussurrando como se livros fossem policiais.

— Trouxe. E a bússola.

Eles abriram o mapa sobre uma mesa. Clara colocou uma régua por cima e um lápis na orelha, imitando cientista. Tomás colocou óculos que não precisava, só para “entrar no clima”.

— Certo — disse Clara. — O “Depois” não tem desenho completo. Só uma direção. Então talvez o próximo passo não esteja no mapa… esteja na bússola.

Tomás girou a bússola. A agulha tremelicou e apontou para a janela da biblioteca. Lá fora, o céu estava comum, mas uma nuvem fina passava devagar, quase como… um rastro.

— Ela tá apontando para fora da escola — Tomás disse. — Para o lado do parque.

Clara mordeu o lábio, pensando.

— O parque tem o lago, o coreto e aquele depósito de ferramentas da prefeitura.

Tomás ergueu uma sobrancelha.

— E tem também o senhor que vende pipoca e sabe tudo sobre todo mundo.

Clara riu.

— Isso pode ser útil.

Ela dobrou o mapa com cuidado.

— Só que, dessa vez, sem voar sem avisar. A gente vai preparar. Capacete, lanterna, corda… e um horário em que ninguém ache que a gente sumiu do planeta.

Tomás bateu na mesa com o dedo, animado.

— Eu faço uma lista. Eu sou ótimo em listas. As listas me fazem sentir que tenho controle sobre o caos.

— O caos agradece — disse Clara.

Eles saíram da biblioteca com passos leves, como se carregassem um segredo no bolso. E carregavam.

Clara olhou para as mãos. Ainda havia uma manchinha de graxa no canto da unha. Aquilo a fez sorrir. Porque lembrava que ela podia construir coisas. Consertar. Inventar.

E também lembrava que a aventura não precisava começar longe. Às vezes, começava no sótão. Às vezes, no campo. Às vezes, numa simples pergunta que ninguém mais fazia.

Antes de se separar, Tomás perguntou:

— Clara… você acha que o tesouro é mesmo um tesouro?

Clara pensou na ilha, no bilhete do avô, na frase “Para não voar sozinha”.

— Acho que é um tesouro que ensina — ela respondeu. — E que testa a gente. Para ver se a gente sabe ser corajoso sem ser bobo. Inteligente sem ser metido. E forte… sem fingir que não sente nada.

Tomás sorriu, mais tranquilo.

— Então tá. Amanhã, no parque?

— Amanhã, no parque.

Clara caminhou para casa com o sol da tarde no rosto. O mundo parecia o mesmo. As casas, as ruas, o barulho de carros. Só que agora tudo tinha um brilho discreto, como se cada coisa escondesse uma portinha.

Ela olhou para o céu. Nenhuma névoa. Nenhuma ilha. Só azul.

Mesmo assim, Clara sentiu, por dentro, algo abrindo. Como asas.

E ela soube: a próxima aventura já estava esperando. Não para fugir da vida. Mas para aprender a viver com mais coragem, mais cuidado e mais imaginação.

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Sótão
Parte alta da casa, perto do telhado, onde se guardam coisas velhas.
Feixe de luz
Um conjunto de raios de luz que entra por uma abertura e fica visível.
Fechadura enferrujada
Peça de metal que trava portas, com ferrugem por estar velha e molhada.
Mancha
Marca diferente numa superfície, como um sinal de sujeira ou líquido seco.
Ripas
Tiras finas e compridas de madeira usadas para construir ou reforçar coisas.
Lona
Tecido grosso e resistente usado para cobrir ou fazer asas e toldos.
Graxa
Substância oleosa que se usa para lubrificar peças e evitar rangidos.
Alavanca
Peça longa que se puxa ou empurra para mover ou controlar outra parte.
Rajada
Sopro forte e rápido de vento que aparece de repente.
Névoa
Camada fina de gotículas no ar que parece um vapor e dificulta ver longe.

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