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Pequenos aventureiros 11 a 12 anos Leitura 21 min.

A fita vermelha e o relógio das rotinas

Tomás encontra um bilhete misterioso e, com a ajuda da Dona Leonor, entra no sótão encantado para proteger as histórias do prédio, enfrentando criaturas do esquecimento com engenho e coragem.

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Um menino de 12 anos, rosto redondo, cabelo castanho bagunçado, sorriso determinado e olhar concentrado, segura uma pequena lanterna acesa e uma longa fita vermelha, inclinado diante de um grande relógio sem ponteiros; à sua direita, uma mulher idosa de cerca de 70 anos, cabelos grisalhos em coque, óculos redondos e blusa florida, observa com bondade e ajuda, segurando um pequeno parafuso junto ao mostrador; ao fundo, um gato creme peludo sentado numa caixa empoeirada observa curioso; o sótão está cheio de caixas marrons, malas antigas, móveis cobertos por lençóis amarelados e uma pequena claraboia por onde entra luz cinzenta com partículas de pó visíveis; a cena mostra o conserto do "Relógio das Rotinas": o garoto encaixa duas agulhas prateadas enquanto a fita vermelha marca o caminho, em clima de aventura suave, cores quentes, sombras simples e contornos nítidos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O bilhete no bolso do casaco

O Tomás tinha 12 anos e uma coragem que às vezes chegava antes do bom senso. Naquela tarde, ele entrou no prédio com o capacete da bicicleta debaixo do braço e o cheiro de pão quente vindo da padaria do rés-do-chão.

No elevador, viu um papel dobrado enfiado na fresta do espelho. Parecia um segredo mal guardado.

“Quem é que deixa bilhetes no elevador?” murmurou.

Abriu devagar. A letra era apressada, como se a caneta tivesse corrido.

“PRECISO DE AJUDA. NO SÓTÃO. TRAZER UMA LANTERNA. — L.”

Tomás sentiu o coração dar um salto. No prédio havia um sótão. Um lugar proibido, cheio de caixas e histórias que os adultos diziam com a mesma voz com que falavam de contas para pagar.

Ele pensou em ir direto para casa. Pensou também no que o pai dizia: “Curiosidade é boa. Mas tem de vir com cabeça.”

A cabeça do Tomás concordou. As pernas, no entanto, já estavam a seguir para as escadas.

No 3.º andar, a porta de casa da Dona Leonor tinha um vaso de manjerico na soleira. E uma placa com “Não tocar na campainha depois das 21h (o gato fica nervoso)”. Leonor era a síndica. Pequena, rápida, com um olhar que via tudo.

Tomás tocou à campainha às 18h, para não assustar o gato.

A porta abriu-se só uma frincha. Um olho apareceu.

— Tomás? — A voz da Dona Leonor vinha baixa, como se as palavras também tivessem medo de fazer barulho. — Tens lanterna?

Tomás levantou a lanterna do telemóvel.

— Serve?

— Serve. Entra. E… obrigado por não rasgares o bilhete.

Ele entrou numa sala cheia de plantas, uma parede com chaves penduradas e um cheiro a chá de limão. Em cima da mesa, havia uma caixa pequena, de metal, com um símbolo gravado: um punho fechado.

— O que é isso? — Tomás perguntou, tentando parecer calmo.

Dona Leonor abriu a caixa. Lá dentro, estava um envelope, uma fita vermelha e um cartão com instruções.

— Preciso de um ajudante com coragem e cabeça. Hoje o prédio pode ficar… sem memória. — Ela disse aquilo como se fosse normal, como quem diz “acabou o açúcar”.

Tomás arregalou os olhos.

— Sem memória?

— Sem as histórias. Sem os pequenos hábitos. Sem os “bons dias” no patamar. — Ela apontou para o símbolo do punho. — Esta é uma missão. E, no fim, tem de ser selada com uma aperto de mão. É tradição.

Tomás engoliu em seco. Missão. Tradição. Aperto de mão. Tudo soava importante e um pouco maluco.

— Eu aceito — disse ele, antes que a coragem fugisse.

Dona Leonor sorriu. O gato, que afinal não era nervoso, saltou para o sofá com ar de juiz.

— Então vamos ao sótão, miúdo temerário. E leva isto. — Ela entregou-lhe a fita vermelha. — Vai ser preciso engenho.

Capítulo 2 — A porta que não queria abrir

As escadas para o sótão começavam atrás de uma porta cinzenta, no último patamar. A porta tinha uma fechadura antiga, daquelas que parecem ter mais personalidade do que as pessoas.

Dona Leonor tirou um molho de chaves do bolso, escolheu uma e tentou. Não virou.

Tentou outra. Nada.

Tomás aproximou-se e iluminou com a lanterna. Havia arranhões à volta da fechadura, como se alguém tivesse insistido com pressa.

— Alguém já tentou abrir — disse ele.

— Eu tentei de manhã. E ontem. — Dona Leonor respirou fundo. — A chave certa existia. Mas desapareceu. E quando uma chave desaparece, outras coisas seguem o exemplo.

Tomás olhou para a fita vermelha na mão.

— Para que serve?

— Para marcar caminhos. Para lembrar o caminho de volta. Às vezes, o sótão gosta de baralhar quem entra.

Tomás soltou uma gargalhada nervosa.

— Um sótão com vontade própria?

— Se já viste uma meia desaparecer na máquina, já acreditas em qualquer coisa — respondeu ela, com humor doce.

Tomás observou a porta. No canto, havia uma placa pequena: “Acesso técnico”. Técnica. Isso significava parafusos, alavancas, truques.

Ele agachou-se e viu, por baixo da porta, uma fresta maior do que devia. O prédio era velho. As coisas empenavam.

— Dona Leonor… tem um cartão velho? Tipo cartão de biblioteca?

Ela abriu a carteira e tirou um cartão gasto.

— Já não empresto livros. Agora empresto paciência.

Tomás passou o cartão na fresta entre a porta e o batente. Empurrou com cuidado, tentando apanhar o trinco. A primeira tentativa falhou. A segunda fez um “clac” pequenino.

— Está quase! — sussurrou ele.

Com mais um empurrão, o trinco cedeu. A porta abriu-se um palmo, como se tivesse sido convencida a colaborar.

Dona Leonor arregalou os olhos.

— Engenhoso. E respeitoso. Não partiste nada.

Tomás encolheu os ombros, a fingir que não estava a vibrar por dentro.

— Só conversei com a porta.

— Então vamos conversar com o resto.

Subiram uma escada estreita. O ar ficou mais frio e cheirava a madeira antiga e poeira. No topo, uma segunda porta esperava, com um cadeado.

Tomás apontou para o cadeado.

— E agora?

Dona Leonor levantou um dedo.

— Agora, escutamos.

Ficaram em silêncio. Do outro lado, ouviu-se um som muito baixo. Como páginas a virar sozinhas.

— Estão a mexer nas histórias — disse ela, com um brilho preocupado.

Tomás apertou a lanterna.

— Então vamos rápido.

Dona Leonor tirou do bolso um gancho pequeno, como os que se usam em cortinados.

— Não gosto disto. Mas às vezes a engenhosidade tem de fazer o trabalho da chave.

Com paciência, ela introduziu o gancho e mexeu no mecanismo. Tomás segurou a lanterna. O cadeado resistiu, teimoso. Depois, como se tivesse desistido, abriu com um estalinho.

— Pronto — disse ela. — Agora, fita na mão. E olhos abertos.

Tomás amarrou a ponta da fita vermelha ao corrimão.

— Se o sótão tentar baralhar-nos, eu baralho de volta — disse, meio a rir.

— É essa a atitude — respondeu Dona Leonor. — Mas sem exageros. O sótão não gosta de fanfarrões.

— Eu não sou fanfarrão… sou só… confiante.

— Isso é outra palavra para “fanfarrão educado”.

Entraram.

Capítulo 3 — O labirinto das caixas e o relógio sem ponteiros

O sótão era maior do que Tomás imaginava. O teto inclinava-se como se estivesse a ouvir o chão. Havia filas de caixas, malas antigas, móveis cobertos por lençóis e uma bicicleta sem rodas, como um animal estranho a descansar.

A luz da lanterna fazia círculos no pó, que dançava no ar.

Tomás puxou a fita vermelha, desenrolando-a. Passou-a por um prego, depois por outro, marcando o caminho.

— Boa ideia — disse Dona Leonor. — Vamos por aqui. Onde o ar está mais frio.

O ar frio vinha de uma zona ao fundo, onde uma claraboia pequena deixava entrar um fio de luz cinzenta. Perto dela, havia um objeto em cima de um caixote: um relógio grande, redondo, sem ponteiros.

— Um relógio… sem tempo — murmurou Tomás.

Dona Leonor aproximou-se com cuidado.

— É o Relógio das Rotinas. É ele que segura as pequenas coisas do dia: o cheiro do café do Sr. Álvaro, a música que a Carolina ouve alto demais, o “boa noite” que alguém diz sem pensar.

Tomás imaginou o prédio em silêncio, as portas a fechar sem cumprimentos. A ideia deu-lhe um arrepio.

— E quem está a mexer nisso?

Como resposta, algo caiu dentro de uma caixa. Depois outra. Um sussurro atravessou a madeira, como vento a fazer troça.

Tomás apontou a lanterna e viu uma criatura do tamanho de um gato, mas feita de poeira e fios de teia. Tinha olhos brilhantes como botões perdidos.

Ela puxava etiquetas das caixas e mastigava papel.

— O que é aquilo?!

— Um Apagador — disse Dona Leonor, com voz firme. — Vive de esquecer. Se come etiquetas, come nomes. Se come nomes, come histórias.

O Apagador olhou para eles e fez um som como “tss-tss”, ofendido por ter sido interrompido no lanche.

Tomás sentiu as pernas quererem recuar. Mas lembrou-se do bilhete. Lembrou-se do prédio, da padaria, do manjerico, das pessoas que eram pequenas rotinas que davam calor.

— Não vais comer isto — disse ele, tentando que a voz não falhasse.

O Apagador saltou para trás do relógio e começou a arranhar o metal, como se quisesse abrir uma tampa.

Dona Leonor estendeu a mão.

— Tomás, a fita. Rápido. Um laço.

Tomás entendeu. A fita servia para marcar. E também para prender.

Ele correu, mantendo a lanterna apontada com a outra mão, e fez um laço grande no ar, como tinha visto num vídeo de escuteiros. Não ficou perfeito. Mas ficou honesto.

— Agora! — gritou Dona Leonor.

O Apagador avançou. Tomás lançou o laço. A fita apanhou a criatura na cintura de poeira. Ela debateu-se, deixando cair pedacinhos de teia.

— Ele está a desfazer-se! — Tomás disse, assustado e aliviado ao mesmo tempo.

— Não o magoes. Só o impede. — Dona Leonor puxou a fita com firmeza. — Ele é teimoso, não é mau por gosto. Só tem fome de esquecimento.

Tomás prendeu a fita num gancho do teto. O Apagador ficou pendurado, resmungando.

— E agora o relógio? — perguntou Tomás, ofegante.

Dona Leonor tocou no relógio sem ponteiros.

— Precisamos de lhe devolver o ritmo. Mas falta a peça principal: os ponteiros.

Tomás iluminou o chão. No pó, havia marcas pequenas, como rastos de dedos.

— Ele levou os ponteiros — concluiu.

Dona Leonor assentiu.

— Então seguimos o rasto. E sem nos perdermos.

Tomás deu um puxão na fita. O caminho estava marcado. Sentiu uma confiança nova, feita de medo bem arrumado.

— Vamos caçar ponteiros — disse ele.

— Vamos recuperá-los — corrigiu Dona Leonor. — Caçar é para quem quer troféus. Nós queremos que o prédio se lembre de ser casa.

Tomás sorriu.

— Recuperar, então. E com estilo.

Capítulo 4 — A guerra dos objetos esquecidos

O rasto levou-os a uma zona onde as caixas estavam empilhadas como paredes. Parecia um bairro de cartão. Havia etiquetas com “Natal 2009”, “Roupas Pequenas”, “Coisas Importantes (não mexer)”. Tomás achou que aquela última era quase um convite.

De repente, a lanterna iluminou uma cena estranha: objetos espalhados no chão, como se tivessem caído de uma prateleira. Um guarda-chuva partido, um sapato sozinho, um boneco de peluche sem uma orelha.

No meio, brilhava algo metálico.

— Os ponteiros! — Tomás apontou.

Mas antes que desse um passo, o chão pareceu tremer. Os objetos mexeram-se. O sapato virou-se como um caranguejo. O guarda-chuva abriu e fechou, ameaçador. O peluche ergueu-se, com ar de quem não dorme há anos.

Tomás ficou imóvel.

— Isto… isto é uma brincadeira?

— Não — disse Dona Leonor. — São as Coisas Esquecidas. Quando o Apagador anda por perto, elas acordam e ficam nervosas. Não gostam de ser deixadas para trás.

O guarda-chuva avançou com um “clac-clac”, como dentes.

Tomás levantou as mãos.

— Calma! Eu também já perdi um guarda-chuva. E uma vez perdi dois na mesma semana. Não foi pessoal.

O guarda-chuva hesitou, como se estivesse a avaliar se Tomás estava a gozar.

Tomás teve uma ideia. Pegou no sapato sozinho com cuidado e levantou-o.

— Isto deve ter um par. Ninguém gosta de ficar pela metade. — Ele olhou em volta e viu outro sapato enfiado numa caixa aberta. — Olha! Encontrei!

Juntou os dois sapatos e colocou-os lado a lado. Depois pegou no peluche e ajeitou-lhe a orelha, como se fosse possível.

— E tu… desculpa. — Ele deu um nó num pedaço de fita solta e prendeu a orelha com jeitinho. Ficou torta, mas simpática.

As Coisas Esquecidas abrandaram. O guarda-chuva fechou-se devagar. O peluche sentou-se, como se finalmente tivesse recebido atenção.

Dona Leonor observava, impressionada.

— Estás a negociar com o esquecido.

Tomás encolheu os ombros.

— Se estão zangados por serem esquecidos, talvez precisem de ser… lembrados.

Ele apontou para os ponteiros no chão. Estavam a brilhar como duas agulhas de prata.

Tomás deu um passo, depois outro. O guarda-chuva não atacou. Pelo contrário, inclinou-se, como a abrir caminho.

— Obrigado — disse Tomás, com sinceridade.

Apanhou os ponteiros e segurou-os como se fossem frágeis. Sentiu um peso pequeno, mas importante.

— Agora falta voltar ao relógio — disse Dona Leonor. — E rápido, antes que o Apagador se solte.

Tomás olhou para a fita vermelha que marcava o caminho.

— A fita é o nosso mapa. — Ele sorriu. — E eu sou bom com mapas… quando eu os faço.

Voltaram pelo corredor de caixas. Ao longe, ouviu-se um som de fita a esticar.

— Ele está a puxar — disse Dona Leonor.

Tomás apertou o passo. O coração batia como se também quisesse ter ponteiros.

Capítulo 5 — O conserto do tempo e o desafio final

Chegaram ao relógio. A fita tremia no gancho onde o Apagador estava preso. A criatura de poeira fazia força, como se fosse um atleta irritado.

— Ele vai soltar-se — disse Tomás.

— Então temos de ser mais rápidos do que a fome dele — respondeu Dona Leonor.

Ela abriu a tampa do relógio, que tinha parafusos pequenos. Tomás segurou a lanterna e os ponteiros.

— Como se coloca isto?

— Com calma e firmeza. Como quem diz “eu sei o que estou a fazer”, mesmo quando não sabe tudo.

Tomás entregou os ponteiros. Dona Leonor encaixou o primeiro, depois o segundo. O metal fez um som suave, como um suspiro.

Durante um segundo, nada aconteceu.

Depois… tic.

E outro… tac.

O relógio começou a trabalhar. Sem números, sem ponteiros grandes demais. Só com um ritmo certo, como um coração que encontra o passo.

O ar do sótão mudou. Ficou menos pesado. O pó parecia cair com mais ordem, como se também tivesse voltado a lembrar-se de onde pertencia.

O Apagador parou de puxar. Olhou para o relógio, confuso. Os olhos de botão perderam um pouco do brilho agressivo.

Tomás aproximou-se devagar.

— Ouve — disse ele, baixinho. — Se tens fome, posso… posso ajudar-te de outra forma. Há coisas que podem ser esquecidas sem fazer mal. Tipo… o meu embaraço quando tropeço à frente da Lara.

Dona Leonor tossiu, escondendo um sorriso.

O Apagador inclinou a cabeça, como se a palavra “embaraço” fosse deliciosa.

— Podemos fazer um acordo — continuou Tomás. — Tu comes só coisas leves. Coisas que já não servem. E deixas as histórias importantes em paz.

O Apagador soltou um “tss” mais curto. Parecia menos ameaçador.

Dona Leonor pegou numa caixa marcada “Recibos Antigos” e abriu-a. Papéis amarelados, contas velhas, listas de compras.

— Isto é esquecimento permitido — disse ela, com solenidade divertida.

Tomás pegou num papel e abanou-o.

— Queres?

O Apagador estendeu um braço de teia. Tocou no papel e ele desfez-se em poeira fina. A criatura pareceu relaxar, como quem finalmente encontra um snack sem culpa.

Tomás desatou a fita com cuidado e afastou-se um passo. O Apagador não atacou. Ficou ali, a mastigar recibos, satisfeito.

Dona Leonor fechou o relógio e respirou fundo.

— O prédio vai lembrar-se outra vez. — Ela olhou para Tomás. — Fizeste mais do que abrir portas. Usaste engenho. E coragem. E… uma estranha habilidade para falar com guarda-chuvas.

— Eu pratico no espelho — brincou ele.

Desceram as escadas. A porta cinzenta já não parecia tão carrancuda.

Quando chegaram ao patamar, ouviram sons do prédio: alguém a rir num apartamento, um rádio ligado, passos apressados, a campainha da padaria a tocar lá em baixo. Tudo parecia… vivo.

Dona Leonor parou diante do Tomás.

— Falta a última parte — disse ela. — A missão tem de ser selada.

Tomás endireitou-se. Sentia-se cansado e leve ao mesmo tempo.

— Com um aperto de mão, certo?

— Certo. E com palavra dada.

Ela estendeu a mão. Tomás apertou-a com firmeza, como se apertasse também um compromisso.

— Missão selada — disse Dona Leonor.

Tomás sorriu.

— Missão selada.

Capítulo 6 — A legenda completada

De volta à sala das plantas, Dona Leonor abriu um caderno grande, de capa dura. Nas páginas, havia letras antigas, desenhos de chaves e pequenos mapas do prédio. Tomás aproximou-se como quem espreita um tesouro.

— Isto é…?

— A Lenda do Prédio da Rua do Miradouro — explicou ela. — Cada geração acrescenta uma linha quando alguém faz algo que protege as histórias daqui. Hoje foi a tua vez.

Tomás sentiu as bochechas aquecerem.

— Eu? Mas eu só… ajudei.

— Ajudaste com engenho. E isso conta. — Dona Leonor molhou a ponta da caneta. — Diz-me: como queres que a linha fique?

Tomás pensou no sótão, na fita vermelha, no relógio a fazer “tic-tac”, no Apagador a comer recibos como se fossem bolachas secas.

Pensou nas rotinas que pareciam pequenas, mas que seguravam o prédio como pilares invisíveis.

— Escreva assim — disse ele, devagar, para não errar.

Dona Leonor escreveu, e Tomás leu por cima do ombro, com um orgulho silencioso:

“Na noite em que o tempo quase perdeu o caminho, Tomás, de 12 anos, entrou no sótão com uma lanterna e uma fita vermelha. Abriu portas sem partir nada, acalmou o que estava zangado por ser esquecido, devolveu os ponteiros ao Relógio das Rotinas e fez um acordo inteligente com o Apagador. No fim, selou a missão com um aperto de mão, e o prédio voltou a lembrar-se de ser casa.”

Dona Leonor fechou o caderno com cuidado, como se fechasse um abraço.

Tomás levantou-se.

— Então… se eu ouvir páginas a virar outra vez…

— Já sabes o caminho. Mas de preferência, avisa um adulto primeiro — disse ela, piscando o olho. — Coragem com cabeça, lembra-te.

Tomás pegou no capacete e dirigiu-se à porta.

No corredor, encontrou o Sr. Álvaro a carregar um saco de compras.

— Boa noite, Tomás! — disse o Sr. Álvaro, sorrindo.

Tomás respondeu com vontade, como se fosse uma palavra nova.

— Boa noite!

Desceu as escadas e, ao passar pelo patamar, ouviu ao longe um “tic-tac” imaginário, como uma música discreta do prédio.

Lá fora, a rua cheirava a pão e a início de aventura. Tomás ajustou o capacete, montou na bicicleta e pensou que, afinal, o quotidiano era um mapa secreto.

Bastava ter olhos atentos, uma ideia esperta… e alguém com quem dar a mão no fim.

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Rés-do-chão
Andar térreo de um prédio, onde ficam lojas ou entradas.
Síndica
Pessoa que cuida do prédio e organiza regras e consertos.
Manjerico
Pequena planta aromática, com cheiro forte e usada em janelas.
Fresta
Abertura estreita entre duas partes, como numa porta ou janela.
Trinco
Pequena peça de metal que trava uma porta para fechar.
Claraboia
Janelinha no telhado que deixa entrar luz no sótão.
Apagador
Criatura da história que faz as coisas serem esquecidas.
Relógio das Rotinas
Objeto mágico que mantém o ritmo das pequenas rotinas do prédio.
Aperto de mão
Saudação que se faz juntando e apertando as mãos.
Etiquetas
Pedaços de papel com nomes ou notas colados em caixas ou objetos.
Recibos Antigos
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