Era uma vez, no Reino de Risalume, onde as nuvens pareciam algodão-doce e os sinos das torres tocavam sozinhos só para fazer “trim-trim!” quando alguém espirrava. A magia ali tinha um talento especial: em vez de assustar, fazia cócegas.
Capítulo 1: A princesa e o botão que não devia ser apertado
A Princesa Pimenta chamava-se assim porque tinha um olhar esperto, uma língua rápida e um otimismo teimoso que não largava ninguém. Se uma porta estivesse trancada, ela dizia:
— Ótimo! Assim fica mais emocionante.
Naquela manhã, Pimenta passeava pelo corredor do palácio, onde os tapetes contavam piadas baixinho e as armaduras bocejavam como se fossem avôs cansados. No fim do corredor havia uma placa dourada:
“NÃO APERTAR. Botão Real de Emergência (de Riso).”
Pimenta leu, piscou, e o botão pareceu piscar de volta. O botão era vermelho, redondo e brilhava como uma cereja muito convencida.
— Não apertar… — repetiu ela. — Claro. Entendi perfeitamente.
E apertou.
FZZZ! PLOIM!
Do teto caiu uma chuva de confetes… que cheirava a sopa de cebola. Os candelabros começaram a dançar valsa, as cortinas soltaram gargalhadas e, do alto da escadaria, escorregou um pergaminho enrolado, como se tivesse pés.
Pimenta apanhou o pergaminho. Ele abriu sozinho e leu em voz alta, porque pergaminhos em Risalume adoravam ser lidos:
“ATENÇÃO! O RISO REAL ESCAPOU. ENCONTRAR NO SQUARE DAS FLORES PULANTES. TRAZER DE VOLTA ANTES QUE O REINO SE RIA ATÉ SOLUÇAR.”
A princesa levantou o queixo.
— Excelente! Uma aventura. E eu nem precisei pedir.
Atrás dela, o Mordomo Bico-Fino apareceu com uma bandeja de chá tremendo.
— Alteza… isto é grave. O Riso Real é… é… muito risonho!
— Então vamos buscá-lo, antes que ele aprenda piadas novas — disse Pimenta, já a caminho da porta. — E se eu errei ao apertar o botão… ótimo! Assim eu aprendo errando em grande estilo.
Capítulo 2: O caminho que fazia caretas
Pimenta saiu do palácio com uma mochila, uma maçã e um guarda-chuva (porque em Risalume podia chover bolhas a qualquer momento). O portão se abriu com um “aaah” dramático, como se fosse ator.
A estrada para o Square das Flores Pulantes passava por um bosque onde os cogumelos usavam chapéus maiores do que eles e davam conselhos não pedidos.
— Princesa! — chamou um cogumelo com voz de trompete. — Se vir uma poça com cara, não elogie. Ela fica convencida.
— Obrigada! — respondeu Pimenta. — Vou elogiar só um bocadinho.
A estrada, porém, tinha humor próprio. De repente, ela se dividiu em três caminhos, cada um com uma setinha.
A primeira seta dizia: “POR AQUI É MAIS RÁPIDO (talvez)”.
A segunda: “POR AQUI É MAIS BONITO (às vezes)”.
A terceira: “POR AQUI É MAIS… POR AQUI” (e tinha um desenho de um pato).
Pimenta coçou a cabeça.
— Eu voto no pato. Patos raramente mentem.
Ao pisar no caminho do pato, o chão fez “quac” e deu um pequeno salto, como se estivesse contente. Pimenta quase caiu, mas riu.
— Tá bem, tá bem! Eu já percebi: tu és um caminho divertido.
Mais à frente, uma poça realmente tinha cara: duas pedrinhas de olhos e uma folha de sorriso. Pimenta, teimosa, disse:
— Que poça linda!
A poça inflou-se de orgulho e… espirrou água para cima. Pimenta levou um banho que cheirava a limonada.
— Ai! — ela exclamou, sacudindo o cabelo. — Eu mereci. Nota mental: elogiar poças com moderação.
No topo de uma colina, ela avistou finalmente o Square das Flores Pulantes: um jardim redondo, cercado por bancos de madeira e postes que assobiavam. As flores realmente pulavam, como pipocas coloridas. E no meio do square havia algo ainda mais estranho: uma gargalhada solta no ar, como um balão invisível.
Capítulo 3: O square das flores pulantes e a gargalhada fugitiva
Assim que Pimenta entrou no square, as flores fizeram uma onda, como numa plateia de teatro. Uma tulipa saltou até a altura do nariz dela e disse:
— Olá! Temos uma emergência de… “hihihi”.
— Eu vim por causa do Riso Real — explicou Pimenta. — Ele está aqui?
Uma margarida apontou com as pétalas:
— Está, mas não para quieto. Está a brincar de esconde-esconde com a própria alegria.
Pimenta ouviu um “HAHA!” vindo de trás de um banco. Correu… e encontrou apenas um esquilo com um bigode falso.
— Não fui eu — disse o esquilo, tirando o bigode. — Eu só faço teatro.
Outro “HIHI!” veio de cima. Pimenta olhou e viu um riso brilhante, como um fio de luz enrolado, saltitando entre os postes. Cada vez que ele tocava num poste, o poste soltava um assobio desafinado.
— Pára aí! — gritou Pimenta. — Eu não estou zangada! Só quero… que tu voltes para o palácio antes que o rei comece a rir em reuniões importantes!
O Riso Real respondeu com um “HÓHÓHÓ!” e fez as flores pularem ainda mais alto, como se tivessem trampolins invisíveis.
Pimenta teve uma ideia.
— Certo. Vamos brincar. Se eu te apanhar, tu voltas. Se eu não apanhar… eu continuo a tentar. Combinado?
O riso fez “Tlim!” como se fosse um sino a concordar.
Pimenta tentou capturá-lo com o guarda-chuva aberto, como se fosse uma rede. O riso desviou e ela acabou por “pescar” um pombo confuso que estava ali só a passear.
— Desculpa — disse Pimenta ao pombo. — Tu não és o riso. Tu és… muito sério.
O pombo respondeu com um olhar ofendido e saiu a andar como quem diz “hum”.
Pimenta tentou outra vez, desta vez usando uma maçã como isco.
— Ei, Riso! Maçã crocante!
O riso aproximou-se… e fez a maçã dar uma gargalhadinha. A maçã rolou, rindo, rindo, rindo, e parou no pé de uma estátua de sapo que começou a rir também. O square inteiro parecia uma panela a ferver de “ha-ha”.
Pimenta pôs as mãos na cintura.
— Ok. Eu errei duas vezes. Mas isso não significa que eu seja má caçadora de risos. Significa que eu estou a aquecer.
Ela respirou fundo e olhou ao redor. Viu os bancos, os postes, as flores pulantes… e um lago pequeno no canto do square, liso como um espelho.
— Já sei — sussurrou.
Capítulo 4: A armadilha gentil e a lição do “ops”
Pimenta aproximou-se do lago e falou com a água, porque em Risalume tudo ouvia quando queria.
— Lago, podes ajudar-me sem assustar ninguém?
A água fez uma ondinha, como quem diz “talvez”.
Pimenta subiu num banco e chamou:
— Riso Real! Vem cá! Tenho a melhor piada do reino!
O riso parou, curioso, flutuando como um balão que esqueceu de ter corda. Aproximou-se devagar.
Pimenta anunciou, muito séria:
— A piada é esta: “NÃO APERTAR” é, afinal, uma frase que me faz apertar.
O riso explodiu num “HAHAHAHA!” tão forte que as flores deram três pulos seguidos e um poste assobiou como chaleira. Mas, ao rir, o riso ficou mais pesado—como se a própria gargalhada tivesse peso—e desceu, desceu… até refletir no lago.
No reflexo, o riso viu-se a si mesmo: brilhante, enrolado, meio desarrumado, parecendo um novelo de luz.
— Olá — disse Pimenta ao riso, como quem fala com um gato arisco. — Tu és lindo, mas estás a fazer confusão. No palácio, tu ajudas as pessoas a rir na hora certa. Aqui, tu estás a fazer o reino quase tropeçar de tanto rir.
O riso tremelicou, como se ficasse envergonhado.
— E eu também fiz confusão — continuou Pimenta. — Apertei um botão que dizia para não apertar. Foi um “ops” real. Mas… olha: ninguém explodiu, ninguém virou sapo (ainda), e eu aprendi. Errar não me fez pior. Fez-me… mais esperta.
O riso deu um “hihizinho” pequeno, mais calmo.
Pimenta abriu o guarda-chuva ao contrário, como uma concha.
— Queres vir comigo? Prometo que no caminho podemos rir… mas sem assustar pombos.
O riso entrou no guarda-chuva com um “plim!” e ficou lá dentro como uma lanterna alegre. As flores bateram palmas com pétalas, e até a poça com cara apareceu no canto do square para dizer:
— Eu não vou espirrar… muito.
— Agradeço moderadamente — respondeu Pimenta.
Capítulo 5: O regresso, o palácio e a affiche seca
No caminho de volta, o guarda-chuva brilhava por dentro, e de vez em quando escapava um “hehe” discreto, como quem faz cócegas no próprio nariz. Pimenta caminhava mais devagar agora, sentindo o vento cheirar a biscoitos de manteiga.
Quando chegou ao palácio, o Mordomo Bico-Fino estava à porta com uma toalha, como se estivesse pronto para qualquer coisa, até para uma tempestade de pudim.
— Alteza! Encontrou…?
Pimenta abriu o guarda-chuva e o Riso Real saiu, flutuando com cuidado, como se tivesse aprendido a andar sem correr. Ele entrou pela janela do salão do trono e encaixou-se num grande relógio dourado, onde sempre morou. O relógio soltou um “toc-toc” satisfeito, e o reino inteiro pareceu respirar melhor.
O rei, que tinha um bigode que tremia quando ele sorria, olhou para Pimenta.
— Minha filha, ouvi dizer que houve… confete com cheiro de sopa.
— Houve — confessou ela. — Eu apertei o botão. Eu errei.
Silêncio. Até uma armadura parou de bocejar.
Pimenta levantou as mãos, pronta para um sermão do tamanho de um dragão. Mas o rei deu uma risada pequena, bem na medida.
— Errar acontece. O importante é o que se faz depois do “ops”. E tu foste atrás do problema com coragem… e com um guarda-chuva bastante inteligente.
O Mordomo Bico-Fino, aliviado, deixou cair uma bolacha de tão feliz.
— Então… não haverá castigo?
— Haverá — disse o rei, com olhos brilhantes. — Um castigo educativo e muito chato: a Princesa Pimenta vai pendurar um aviso no corredor. Um aviso que diga a verdade.
Pimenta sorriu.
— Eu gosto de avisos. Principalmente os que eu escrevo.
Ela pegou um cartaz de papel grosso e escreveu com letra caprichada:
“SE DISSER ‘NÃO APERTAR', PERGUNTA PRIMEIRO ‘PORQUÊ'.
E SE APERTARES MESMO ASSIM… RESPIRA, RI UM POUCO, E CONSERTA.”
Depois, para garantir que o aviso durasse, ela levou-o à cozinha, onde a magia do forno secava tudo com cuidado. O cartaz saiu quentinho e bem seco, como uma bolacha gigante, só que sem migalhas.
Pimenta pendurou a affiche seca no corredor, bem ao lado do botão vermelho. O botão pareceu menos convencido.
E, naquela noite, quando o relógio do Riso Real deu “toc-toc”, ele soltou um risinho manso, como um segredo bom. Pimenta deitou-se e pensou, com o coração leve:
— Amanhã eu talvez não aperte. Talvez. Mas, se eu apertar… eu sei o caminho de volta.
E o Reino de Risalume, malicioso e bondoso, adormeceu a sorrir, devagarinho, como quem fecha um livro com cuidado.