O senhor Tó Zeca era um homem com cabelo despenteado e um sorriso grande. Ele morava numa casa pequena, com um quintal cheio de coisas úteis… e outras nem tanto. Tinha latas, rodas, cordas, colheres e uma bota sozinha.
Numa manhã calma, ele bateu palmas e disse:
“Hoje vou ter uma ideia brilhante!”
Ele abriu o seu caderno de inventor. Era um caderno com manchas de tinta e desenhos tortos. E escreveu bem grande:
“Máquina de Fazer Cócegas nas Meias!”
“Nas meias?” perguntou a vizinha, a dona Lina, que regava uma planta.
“Nas meias!” disse o Tó Zeca. “Porque os pés merecem rir. E eu não gosto de meias tristes.”
Ele pegou numa meia às riscas, azul e amarela, e falou com ela, muito sério:
“Minha senhora Meia, prepare-se para as cócegas.”
A meia, claro, não respondeu. Mas parecia contente.
O Tó Zeca foi buscar material. Ele andava de um lado para o outro, tum-tum-tum, com os sapatos a fazer barulho.
Pegou numa escova de dentes velha.
Pegou numa colher de pau.
Pegou num ventilador pequeno.
Pegou numa mola que fazia “boim!”.
E pegou em três penas muito macias que encontrou no quintal.
“Perfeito, perfeito, perfeito,” ele repetiu. Repetir ajudava a pensar.
Na mesa da cozinha, ele começou a montar tudo. Prendeu as penas na colher de pau.
Colou a mola ao ventilador.
Depois amarrou a escova de dentes com um fio.
No fim, parecia… um polvo de cozinha.
Ele olhou e disse:
“Está lindo. Um pouco torto. Mas lindo.”
Chegou o momento do teste.
Ele pôs a meia numa caixa de sapatos.
Fechou a caixa, deixando só uma pontinha da meia de fora.
Ligou a máquina.
“Um, dois, três… já!”
O ventilador começou: “vuuuu”.
A mola saltou: “boim!”
As penas rodaram: “fufufu”.
E a meia… escapou!
Zás! A meia voou pela cozinha como um passarinho de pano.
“Ah!” disse o Tó Zeca, sem medo nenhum, só com surpresa. “Meia muito rápida!”
A meia bateu numa tigela.
A tigela virou.
E de lá saiu farinha, como neve: puf!
Ficou tudo branco. O nariz do Tó Zeca ficou branco. O bigode ficou branco. Ele espirrou:
“Atchim!”
Dona Lina apareceu à porta e viu o inventor coberto de farinha.
Ela riu baixinho.
“Está a nevar na tua cozinha, Tó Zeca?”
“É neve de pão!” disse ele. “Sem perigo. Só faz cócegas no nariz.”
O Tó Zeca apanhou a meia e falou com ela:
“Desculpa, minha senhora Meia. A máquina ficou demasiado animada.”
Ele limpou a mesa com um pano.
Fez uma pausa.
Depois escreveu no caderno:
“Problema: Meia foge. Solução: Fazer a máquina mais calma.”
“Mais calma?” perguntou dona Lina.
“Sim. Uma máquina fofinha. Uma máquina que faz cócegas devagarinho, como um gato a passar.”
Ele tirou o ventilador.
Tirou a mola.
E colocou, no lugar, um rolo de papel de cozinha. Era macio. Era redondo.
Colou as penas no rolo.
E pôs uma manivela. Uma manivela que ele fez com uma tampa de frasco.
Ele girou a manivela com a mão.
As penas mexeram-se: “fiu, fiu, fiu”.
Bem devagar.
“Agora sim,” disse ele. “Cócega com educação.”
Mas faltava uma coisa.
Ele queria que a meia dissesse “hi-hi-hi!” quando recebesse cócegas.
“Assim eu sei que resultou,” explicou.
Ele pegou num apito pequeno.
Enfiou o apito num copo de plástico.
Prendeu o copo na caixa de sapatos, como se fosse uma boca.
“Quando a meia mexer, sopra o apito,” disse ele, como se fosse muito simples.
Novo teste.
A meia voltou para a caixa.
O Tó Zeca respirou fundo.
“Um, dois, três… já!”
Ele girou a manivela.
As penas fizeram cócegas na meia: fiu-fiu-fiu.
A meia abanou um pouco.
E então… o apito fez:
“Piii!”
O Tó Zeca arregalou os olhos.
Dona Lina tapou a boca para não rir alto.
O apito voltou a fazer:
“Piii! Piii!”
“Ela está a rir!” disse o Tó Zeca, muito feliz. “A meia está a rir!”
Mas, de repente, o apito ficou preso e fez um som comprido:
“Piiiiiiiiii…”
O gato do quintal, o Galocha, apareceu a correr, curioso. Não assustado. Só curioso.
Ele cheirou a caixa. Cheirou a meia. Cheirou o apito.
E, com uma patinha, tocou no copo.
O som parou.
Silêncio bom.
“Obrigado, Galocha,” disse o Tó Zeca. “Tu és um técnico excelente.”
O gato sentou-se, muito importante, e lambeu a pata.
Dona Lina disse:
“Então, a máquina funciona?”
“Funciona!” disse o Tó Zeca. “Mas ainda pode ficar melhor. Pode ter um botão de ‘mais pouquinho' e outro de ‘só um bocadinho'.”
Ele abriu a caixa e tirou a meia com cuidado.
A meia estava quentinha e enrolada, como se estivesse a descansar.
O Tó Zeca fez uma festa na meia e falou baixinho:
“Agora as meias não vão ficar aborrecidas. Vão rir. Vão rir muito baixinho.”
Dona Lina sorriu.
“E os pés também.”
“E os pés também,” repetiu ele, contente.
Nessa tarde, ele e dona Lina beberam leite com bolachas. O gato Galocha ficou ao lado, a piscar os olhos.
O Tó Zeca escreveu no caderno, com letras grandes e tortas:
“Invenção do dia: Máquina de Fazer Cócegas nas Meias. Resultado: risos pequenos, casa feliz, farinha opcional.”
E a cozinha, já limpa, ficou com um cheirinho doce.
O senhor Tó Zeca olhou para a meia às riscas e disse:
“Amanhã invento uma coisa nova. Talvez um pente para nuvens.”
E a meia, quietinha, parecia dizer: “Hi-hi-hi.”