Parte 1: O Relógio que Faz “Tic-Tac, Zuum!”
O Tomás era um guaxinim muito cuidadoso. No mundo dos animais, ele era famoso por duas coisas: lavar as frutinhas antes de comer e arrumar as coisas em caixinhas bem direitas.
Naquela manhã, ele encontrou uma mala pequena, de metal brilhante, atrás da biblioteca da Dona Coruja. Na tampa havia um relógio desenhado e um botão vermelho.
Tomás abriu o seu caderninho de bordo e escreveu:
“Dia ensolarado. Achei uma mala estranha. Vou observar antes de tocar.”
A Dona Coruja piscou devagar.
— Tomás, lembra da regra número um: primeiro escutar, depois agir.
Tomás respirou fundo e escutou. A mala fazia um som baixinho:
— Tic… tac… zuum…
Ele chamou o seu amigo, o Coelho Lino, que era curioso e falava rápido.
— Olha isso! — disse Tomás. — Não vamos apertar sem pensar.
Lino pôs as orelhas bem em pé.
— Eu prometo… tentar!
Tomás leu uma plaquinha colada na alça: “VIAGEM NO TEMPO. Use com cuidado. Não mexa duas vezes no mesmo ‘antes'.”
— “Antes”? — cochichou Lino.
Tomás abriu um pouco mais. Dentro havia um cartão com três regras bem simples, desenhadas com figuras:
1) Pergunte antes de mudar.
2) Não pegue nada que não seja seu.
3) Volte para casa quando o relógio fizer “plim”.
Tomás escreveu no caderno:
“Regras claras. Gostei.”
— Vamos só… espiar? — pediu Lino.
Tomás olhou para a Dona Coruja. Ela escutou o vento, pensou e falou:
— Podem ir, mas com calma. E escutem um ao outro.
Tomás então apertou o botão vermelho, uma única vez. A mala brilhou como vaga-lume. O chão ficou leve. E o mundo fez:
— ZUUUM!
Parte 2: O Salão do Futuro, Todo de Luz
Quando abriram os olhos, estavam num salão futurista luminoso. As paredes pareciam feitas de vidro de arco-íris. No teto, bolinhas de luz dançavam como estrelas mansas. Havia cadeiras redondas que flutuavam devagar, e uma mesa que mostrava desenhos quando alguém sorria.
— Uau… — disse Lino. — É como um sonho com lâmpadas!
Um robô pequeno, com cara simpática desenhada numa tela, aproximou-se.
— Bem-vindos ao Salão do Amanhã! Eu sou a Pipa, assistente do tempo. Por favor, falem baixinho com as regras.
Tomás levantou o caderno.
— Nós temos regras. Três.
Pipa fez um som de aprovação.
— Biiip! Excelente. Vocês vieram aprender e não bagunçar.
Tomás escreveu:
“O futuro é brilhante. Tem um robô educado. Estou calmo.”
Pipa apontou para um relógio grande na parede. Ele não tinha números, só cores.
— Quando a cor ficar azul bem escura, vocês vão ouvir “plim”. Aí é hora de voltar.
Lino já queria correr para apertar tudo, mas Tomás segurou sua patinha.
— Primeiro escutar.
— Tá… — Lino murmurou. — Eu escuto.
No meio do salão havia uma cabine transparente com um botão verde e uma etiqueta: “Mostrador do Ontem”.
Pipa avisou:
— Isso mostra o passado, mas não deixem o passado perceber vocês.
— Como assim, perceber? — perguntou Lino.
Pipa explicou, simples:
— Se o passado mudar por causa de vocês, o presente fica confuso, como uma sopa mexida demais.
Tomás pensou. E decidiu só olhar. Ele apertou o botão verde bem de leve. Dentro da cabine apareceu… a biblioteca da Dona Coruja, só que como era ontem. Tomás viu a si mesmo deixando cair uma bolinha de gude azul perto da porta.
— Ei! Minha bolinha! — Lino arregalou os olhos. — Ela sumiu ontem!
A bolinha brilhava no mostrador, bem ali, no “ontem”.
Lino esticou a pata para abrir a cabine.
— Eu posso pegar! Assim ela não some!
Tomás falou firme, mas doce:
— Regra dois: não pegue nada que não seja seu… e mesmo sendo seu, é do “ontem”. A gente não pode.
Lino fez bico.
— Mas eu quero!
Tomás então escutou, de verdade.
— Você está triste porque perdeu, né?
Lino baixou as orelhas.
— Sim.
Tomás olhou para Pipa.
— Tem outro jeito?
Pipa fez um “biiip” pensativo.
— Há um jeito seguro: deixar um recado para o futuro, não para o passado. Um recado que ajude vocês no presente quando voltarem.
Tomás sorriu.
— Isso eu gosto. Ajuda sem bagunçar.
No canto do salão havia uma “Caixa de Mensagens para Depois”. Tomás escreveu com letras bem redondas:
“LINO: OLHE PERTO DA PORTA DA BIBLIOTECA. SUA BOLINHA AZUL ESTÁ NO VASO VERMELHO.”
— Mas… eu não vi vaso vermelho ontem! — disse Lino.
Pipa piscou a tela.
— No futuro, o vaso existe. No presente, talvez ele já esteja lá e vocês só não notaram.
Lino riu.
— Então eu que estava distraído!
Mini-reviravolta: a mesa que mostrava desenhos, de repente, fez aparecer um desenho do próprio Tomás… segurando duas bolinhas azuis!
Tomás arregalou os olhos.
— Duas?
Pipa falou rápido:
— Ah! Isso é um pequeno paradoxo malicioso. Se alguém pega a bolinha no ontem, ela aparece duas vezes. Por isso, nada de pegar. Só olhar!
Tomás fechou a cabine.
— Sem pegar! Eu prometo.
Lino levantou a pata como se fosse juramento.
— Eu também.
Parte 3: O “Plim” e a Canção de Volta
O relógio de cores começou a escurecer. As luzes do salão ficaram mais macias, como fim de tarde.
Tomás escreveu:
“Hora de voltar. Estou contente. Aprendi a ouvir e a esperar.”
Pipa aproximou-se e entregou a Tomás um adesivo brilhante.
— Para lembrar: o tempo é um amigo, mas gosta de gentileza.
— Obrigado, Pipa — disse Tomás. — Eu vou cuidar bem do agora.
Lino olhou ao redor, um pouco com saudade.
— Futuro é legal… mas eu gosto da nossa floresta.
— Eu também — falou Tomás. — A gente tem a Dona Coruja, e o cheiro de folhas.
O relógio fez a cor azul bem escura.
E então, bem clarinho:
— Plim!
A mala de metal brilhou de novo. ZUUUM!
Quando chegaram, estavam atrás da biblioteca, no mesmo lugar. O sol estava igual. Como se nada tivesse acontecido, e ao mesmo tempo tudo tivesse.
Lino correu até a porta.
— Vaso vermelho… vaso vermelho…
E lá estava: um vaso pequeno, vermelho, com uma plantinha. Dentro, brilhava a bolinha de gude azul.
Lino deu um pulinho.
— Estava aqui o tempo todo!
Tomás riu.
— Às vezes, a gente não precisa voltar no tempo. Precisa olhar melhor e escutar.
A Dona Coruja apareceu na janela.
— E então?
Tomás respondeu:
— Seguimos as regras. E aprendemos que mexer no ontem pode bagunçar o hoje.
Lino completou:
— E que é melhor ouvir o amigo do que correr primeiro.
A Dona Coruja sorriu.
— Isso é sabedoria.
Tomás guardou a mala atrás de uma estante, bem segura. Depois, os dois sentaram na grama. O vento fez as folhas dançarem.
Lino perguntou baixinho:
— Tomás, você canta para eu ficar calmo?
Tomás começou a cantarolar uma canção suave, bem simples, e Lino acompanhou:
“Agora é meu lugar,
tic-tac sem pressa no ar,
eu ouço, eu cuido, eu sei,
o tempo passa, e eu também.
Plim-plim, volto a sorrir,
no presente eu vou dormir.”