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Mito fantástico 11 a 12 anos Leitura 23 min.

A luz que não dorme e a noite que tinha fome

Nira parte numa jornada pelo deserto para encontrar a “lueur” capaz de devolver a luz à sua cidade, reunindo um barqueiro e um jovem sem cidade e enfrentando provas que testam coragem e tolerância.

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Nira, jovem de 18–20 anos, rosto determinado e suave, capuz castanho-avermelhado e túnica areia, segura diante do peito numa urna de barro uma pequena luz prateada; à sua esquerda, En, rapaz de 14–16 anos, pele escura e mechas prateadas, tímido mas corajoso, observa a luz; à direita, Dumuzi, barqueiro robusto de ~40 anos com barba curta e boné torto, apoia-se num bastão e sorri calorosamente; um bibliotecário magro de ~60 anos, dedos manchados de tinta, está nas escadas do pequeno templo atrás de Nira, emocionado; a cena ocorre na praça de uma cidade antiga ao anoitecer, pedra ocre dos paralelepípedos, pequena estátua de deusa e altar de pedra, casas de tijolo e lâmpadas a óleo tremeluzentes sob um céu azul‑índigo; Nira ergue a luz que projeta um fio prateado que se espalha pela praça e acalma a multidão curiosa e emocionada, contraste entre o brilho frio da luz e o calor das lâmpadas, atmosfera mítica e acolhedora, traços nítidos e cores saturadas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Noite que Engoliu as Lamparinas

Na cidade de tijolos de barro e canais estreitos, a noite não chegava: desabava. Caía como um manto pesado sobre os telhados, calava os pássaros e fazia as sombras parecerem mais compridas do que deviam. As pessoas acendiam lamparinas de óleo, depois tochas, depois fogueiras — e mesmo assim a escuridão mordia as bordas da luz, como se tivesse fome.

Nira caminhava entre as casas, o capuz preso com um nó firme. Era jovem, mas carregava o passo de quem já atravessou muitas tempestades. Tinha braços fortes de puxar cordas e carregar cântaros, e olhos atentos de quem repara nas coisas pequenas: a mudança do vento, o rangido de uma porta, o silêncio num lugar onde devia haver grilos.

— Hoje está pior — resmungou um velho oleiro, segurando a lamparina junto ao peito. — A noite está… atrevida.

Nira olhou para a chama. Ela tremia, como se estivesse com frio.

— Não é só o óleo — disse Nira. — É como se algo soprasse por dentro da luz.

Na praça do templo, a estátua de pedra da deusa Inanna brilhava apenas no rosto, e mesmo esse brilho parecia cansado. Ao lado, um altar coberto por poeira guardava um objeto pequeno: um fragmento de cristal leitoso, do tamanho de um grão de tâmaras. Diziam que era uma lueur antiga, uma faísca guardada desde o tempo dos primeiros reis.

Nira aproximou-se do sacerdote-bibliotecário, um homem magro com dedos manchados de argila e tinta.

— Shamash, o Sol, escondeu o rosto — ele murmurou, sem olhar para ela. — E a noite aproveitou.

— Então precisamos de uma luz que a noite não consiga engolir — respondeu Nira.

Ele ergueu a cabeça, como se aquela frase tivesse puxado um fio de memória.

— Há uma história gravada em tábuas antigas. Fala da “Luz que Não Dorme”, escondida no deserto, guardada por seres que não gostam de perguntas. Para acordá-la, é preciso levar até ela uma chama de coragem… e uma palavra de tolerância.

Nira soltou uma risada curta.

— Palavra de tolerância? A noite tem medo de bons modos?

— A noite tem medo do que não consegue dividir — disse o bibliotecário. — O escuro gosta de separar: uns contra outros. A luz, quando é verdadeira, mistura e acolhe.

Nira apertou o cordão do capuz.

— Diga-me onde fica. Eu vou.

— Sozinha?

— A noite já está aqui. Se eu esperar companhia perfeita, nunca saio.

O bibliotecário entregou-lhe uma pequena tábua de argila com símbolos e um saquinho de óleo perfumado.

— Se ouvires um canto, não fujas. Se vires um estranho, não o empurres para a sombra.

Nira guardou tudo, respirou fundo e deu o primeiro passo para fora do círculo de luz da praça. A noite tentou fechar-se sobre ela. Ela não deixou.

Capítulo 2 — O Barqueiro que Falava com o Rio

O caminho até o grande canal era uma fita escura entre palmeiras. O cheiro de água e lodo subia como um segredo antigo. Nira chegou ao cais e encontrou um barco baixo, com as bordas gastas. Sentado nele, havia um barqueiro com um gorro torto e um sorriso que parecia saber piadas antes de ouvi-las.

— Se procuras atravessar, sobe — disse ele, e apontou para a proa. — Se procuras fugir da noite… bom, isso dá mais trabalho.

— Não estou a fugir — respondeu Nira. — Estou a procurar uma lueur para reacender a cidade.

— Ah! — O barqueiro bateu palmas, como se tivesse acabado de ouvir uma canção animada. — Uma pessoa com missão. Gosto. As pessoas com missão pagam com histórias.

— Pago com moedas.

— Moedas afundam. Histórias flutuam — ele retrucou, e já empurrava o barco com uma vara comprida.

O canal abriu-se em águas mais largas. A corrente parecia murmurar palavras. Nira sentiu, com um arrepio, que o rio a observava.

— Como te chamas? — perguntou ela.

— Dumuzi — disse ele, piscando. — Mas só quando estou de bom humor. Hoje podes chamar-me “ei, tu”.

— Ei, tu. — Nira cruzou os braços. — O rio fala contigo?

— Fala com toda a gente. Alguns fingem que não ouvem porque dá trabalho responder.

Nira encarou a água. Entre reflexos, havia sombras que não pertenciam a nada. Como peixes sem corpo.

— A noite está a espalhar-se pelo rio também — ela disse.

Dumuzi ficou sério por um instante, o que tornou o seu sorriso ainda mais estranho quando voltou.

— A noite gosta de lugares onde todos olham para baixo. A água faz isso: obriga a olhar para o próprio reflexo. E nem todos gostam do que veem.

Um som de remos aproximou-se. Um segundo barco surgiu do nevoeiro, conduzido por uma figura encapuzada. Nira levou a mão ao bolso onde guardava a tábua.

— Não te assustes — sussurrou Dumuzi. — É só alguém que prefere sombras.

O barco encapuzado parou ao lado. A figura ergueu o capuz: era um rapaz da idade de Nira? Não. Era mais novo, mas com olhos antigos. A pele era escura como barro molhado, e o cabelo tinha fios prateados.

— Procuras a Luz que Não Dorme — disse ele, sem rodeios.

Nira ergueu o queixo.

— E tu procuras o quê?

— O mesmo. — Ele mordeu o lábio, como se escolher palavras fosse atravessar espinhos. — Chamam-me En. Não sou de cidade nenhuma.

Dumuzi tossiu, disfarçando uma gargalhada.

“Não sou de cidade nenhuma”, diz ele, como se isso fosse um casaco novo. Nira, cuidado: este tipo de gente aparece do nada e depois desaparece com as tuas sandálias.

— Eu não roubo sandálias — disse En, ofendido. — Só… não gosto de ficar preso a um lugar.

Nira lembrou-se do aviso do bibliotecário: “Se vires um estranho, não o empurres para a sombra.”

— Então vem — disse ela. — Mas se tentares desaparecer com as minhas sandálias, vou obrigar-te a andar descalço até ao fim do mundo.

En piscou, surpreendido. Depois, um sorriso tímido abriu-se como uma pequena janela.

— Combinado.

Os três barcos — ou melhor, dois barcos e uma ideia teimosa — seguiram juntos, cortando o escuro como quem abre caminho numa cortina pesada.

Capítulo 3 — As Tábuas de Argila e o Leão de Pedra

Do outro lado do canal, o deserto começava sem pedir licença. Era um mar de areia com ondas imóveis. O vento soprava quente, mas a noite continuava fria, uma contradição que fazia os ossos estranharem o próprio corpo.

Nira caminhava à frente. En seguia perto, leve como uma sombra que decidiu ser útil. Dumuzi… bem, Dumuzi cantava baixinho, desafinando com orgulho.

— Se vais cantar, canta direito — disse Nira.

— Eu canto como o rio me ensinou — respondeu ele. — O rio não se importa com “direito”. Ele só quer continuar.

A tábua de argila que Nira carregava tinha marcas em forma de estrelas e setas. À luz fraca de uma lamparina, ela parecia mudar de sentido, como se estivesse viva.

— Não confies só na tábua — disse En de repente. — As coisas antigas gostam de testar quem lê.

— E em quê eu confio, então? — perguntou Nira.

En apontou para o peito dela.

— No teu fôlego. Na tua insistência. E… — ele hesitou — em quem caminha contigo.

Dumuzi fez uma reverência exagerada.

— Ouviram? Ele acha que sou importante.

Nira não sorriu, mas o canto da boca cedeu um pouco. No deserto, até meio sorriso era uma fogueira.

Ao longe, uma estrutura apareceu: ruínas de um pórtico meio enterrado, coberto de símbolos. Dois leões de pedra guardavam a entrada. Um deles tinha o focinho quebrado; o outro parecia inteiro demais, como se estivesse à espera de alguém.

Quando Nira passou entre eles, o leão inteiro mexeu os olhos. Não a cabeça. Só os olhos. Um movimento pequeno, mas impossível.

— Eu vi isso — murmurou Dumuzi.

— Eu também — disse En, engolindo em seco.

A voz do leão veio baixa, raspando como pedra em pedra.

— Quem pisa o limiar deve responder. O que procuras na noite?

Nira sentiu o coração bater no pescoço. Mesmo assim, a voz saiu firme.

— Procuro uma lueur para que a cidade volte a ver o rosto uns dos outros.

O leão piscou, lentamente.

— Boa resposta. E quem caminha contigo?

Dumuzi abriu a boca, pronto para dizer “um barqueiro famoso”, mas Nira falou primeiro.

— Um amigo do rio. E alguém que não pertence a cidade nenhuma. Todos têm lugar na minha travessia.

O leão soltou um som que podia ser riso.

— Tolerância. Palavra rara. Passa.

A areia dentro do pórtico girou, formando um corredor. As paredes pareciam feitas de argila escura, e nelas brilhavam inscrições como vaga-lumes presos.

— Isto é… um caminho para baixo? — perguntou Dumuzi.

— Para dentro — corrigiu En. — Lugares sagrados não descem. Eles entram no mundo.

Nira respirou fundo. Uma lueur precisava ser acordada. E para isso, às vezes era preciso atravessar o que assusta.

Capítulo 4 — O Jardim de Ereshkigal

O corredor terminou numa caverna imensa, aberta como uma boca. Lá em baixo, havia um jardim que não devia existir: árvores de folhas negras e frutos que brilhavam por dentro, como lâmpadas fechadas. Um lago refletia um céu que não estava lá.

No centro, sentada num trono de pedra, estava uma mulher alta, com véu escuro e uma coroa de ossos polidos. Os olhos dela eram profundos, como noites antigas. Nira soube o nome antes de o ouvir: Ereshkigal, senhora do subsolo, guardiã de fronteiras.

— Quem entra no meu jardim traz consigo barulho e esperança — disse Ereshkigal. — Ambos são irritantes.

Dumuzi inclinou-se tanto que quase caiu.

— Senhora, eu posso ser silencioso se for preciso.

— Não pode — respondeu ela, sem sequer olhar para ele.

En ficou rígido, como se a presença da deusa puxasse uma memória dolorosa.

Nira deu um passo à frente.

— Não vim roubar o que é teu. Vim pedir uma lueur para reacender a noite da minha cidade.

Ereshkigal ergueu uma sobrancelha.

— A noite da tua cidade? A noite é de todos. Eu conheço cada sombra pelo nome.

— Então conhece uma sombra nova — disse Nira. — Uma que devora luz. Não é tua. É uma fome sem rosto.

O lago ao lado tremeu, como se concordasse.

Ereshkigal levantou-se. O véu dela parecia feito de poeira de estrelas apagadas.

— Há uma lueur guardada aqui, sim. Mas luzes não são moedas. São promessas. Para acordá-la, tens de oferecer algo que a noite não consegue engolir.

Dumuzi cochichou:

— Eu ofereço a minha melhor história.

Ereshkigal olhou para ele.

— Histórias são boas. Mas eu quero ver o que fazes quando tens medo.

Nira sentiu a garganta apertar. Ela tinha medo, claro. Mas o medo não era o dono dela.

— O que tenho de fazer? — perguntou.

Ereshkigal apontou para três frutos brilhantes na árvore mais alta.

— Cada fruto mostra um rosto diferente. Um mostra o rosto de quem te entende. Um mostra o rosto de quem te rejeita. Um mostra o teu próprio rosto quando erras. Escolhe um para comer. E não mintas sobre o sabor.

— Isso é… cruel — murmurou En.

— É honesto — corrigiu Ereshkigal. — Tolerância começa quando aceitas que o mundo não tem um único sabor.

Nira subiu na árvore com mãos firmes. Pegou o primeiro fruto. Ele pulsava como um coração. Ela desceu e, sem dramatizar, mordeu.

O sabor foi doce e quente. Por um instante, ela viu a mãe dela a rir, e a cidade iluminada, e mãos diferentes — velhas, novas, claras, escuras — acendendo lamparinas juntas. Um rosto que a entendia.

— Doce — disse Nira, com a voz a tremer. — Doce como voltar para casa.

Ereshkigal assentiu.

Nira pegou o segundo fruto e mordeu. O sabor foi amargo e frio. Ela viu pessoas a apontarem para En, a dizer “não pertence”, a fecharem portas. Viu também olhares de desconfiança para ela, como se coragem fosse insolência.

— Amargo — confessou Nira. — Amargo como ser deixado do lado de fora.

En baixou os olhos. Dumuzi parou de mexer os pés.

Nira pegou o terceiro fruto. Antes de morder, respirou fundo.

— Este é o pior — disse En, quase sem som.

— Talvez. Mas é necessário.

Ela mordeu. O sabor foi estranho: azedo e salgado, como lágrimas escondidas. Ela viu a si mesma a falhar, a responder com dureza, a julgar rápido demais. Viu o próprio orgulho a criar sombras.

— O sabor é… verdade — disse Nira, engolindo com dificuldade. — Dói, mas acorda.

Ereshkigal estendeu a mão. No centro da palma, apareceu uma pequena chama prateada, tão pequena quanto o fragmento do templo, mas viva, inquieta, teimosa.

— Esta é a lueur — disse a deusa. — Ela não dorme. Mas ela apaga quando é usada para separar. Usa-a para juntar.

Nira estendeu as mãos como quem recebe água rara.

— Eu prometo.

Ereshkigal inclinou a cabeça.

— E leva isto também: um conselho. A noite não se vence com luta. Vence-se com direção. Mostra-lhe para onde ir.

Capítulo 5 — A Tempestade de Sombra

O caminho de volta não foi gentil. O deserto, que antes era apenas vasto, agora parecia impaciente. O vento levantou areia em espirais, e no meio dessas espirais havia sombra — não a sombra normal do corpo, mas uma sombra grossa, como tinta derramada no ar.

A lueur prateada dentro de um pequeno recipiente de argila brilhava no cinto de Nira. Mesmo assim, a escuridão vinha, testando, empurrando, tentando entrar pelos pensamentos.

— Ela está a seguir-nos — disse En, ofegante.

Dumuzi tentava manter o humor, mas a voz falhou.

— Já tive peixes maiores a morder o meu anzol… mas este peixe não tem boca.

A sombra tomou forma como um animal sem olhos. A areia congelou por um segundo, como se o mundo prendesse a respiração.

Nira parou. Não por falta de coragem, mas por escolha.

— Chega — disse ela para a noite, alto o suficiente para o deserto ouvir. — Eu sei o que queres: queres que eu empurre os outros para a escuridão para me salvar.

A sombra ondulou, como se achasse graça.

— Não vou — continuou Nira. — En, fica ao meu lado. Dumuzi, não fujas. O medo gosta de filas separadas. Nós vamos como um só caminho.

En respirou fundo e aproximou-se. Os dedos dele tremiam, mas ele ficou. Dumuzi engoliu em seco e parou de recuar.

— Eu fico — disse o barqueiro. — Mas se eu morrer, quero que alguém conte a versão em que eu fui herói.

— Eu conto — prometeu Nira. — E vou exagerar.

A sombra avançou, tentando apagar o brilho do recipiente. Nira pegou-o, ergueu-o e falou, não como quem grita, mas como quem acende.

— Esta lueur não é minha. É nossa. Não é para dividir. É para ver.

Ela olhou para En, depois para Dumuzi.

— En, quando te chamarem de “ninguém”, lembra-te: ninguém é só um nome que a cidade inventa para não aprender o teu.

En piscou rápido, segurando as lágrimas.

— E tu — disse Nira a Dumuzi —, quando te disserem que és só barulho, lembra-te: às vezes o barulho é a prova de que o coração ainda bate.

Dumuzi fez uma careta emocionada.

— Isso foi… bonito demais para mim.

A lueur brilhou mais forte, como se gostasse daquelas palavras. A sombra recuou um passo, hesitante. Ela não podia engolir o que não estava sozinho.

Mas ainda não era o fim. A sombra girou ao redor deles, formando um círculo.

— Para onde ir? — sussurrou En.

Nira lembrou-se do conselho de Ereshkigal: “Mostra-lhe para onde ir.”

Ela apontou para o horizonte, onde uma linha pálida anunciava a cidade.

— Para lá — disse Nira, firme. — Para o lugar onde vai ser vista. Sombra também precisa de lugar. Não vou fingir que ela não existe. Vou guiá-la para que não mande em nós.

E, passo a passo, eles caminharam. A sombra seguiu como um cão teimoso, mas menos feroz. A lueur não a destruía; apenas a empurrava para trás, como quem abre espaço numa sala cheia.

Capítulo 6 — O Canto que Acalma

Quando chegaram à cidade, a noite estava no auge: escura, espessa, quase sólida. As lamparinas eram pequenas ilhas num mar grande demais. As pessoas reuniam-se na praça do templo, com rostos tensos. Alguns olhavam para En com desconfiança. Outros cochichavam sobre Nira: “Quem ela pensa que é?”

Nira subiu os degraus do altar. O bibliotecário estava lá, olhos cansados.

— Trouxeste? — ele perguntou.

Nira mostrou o recipiente. A lueur prateada tremeluziu, como se reconhecesse o lugar.

A sombra do deserto chegou à beira da praça. Não atacou. Apenas observou, como um problema que quer ser ouvido.

Nira ergueu as mãos.

— Escutem — disse ela. A voz não era enorme, mas carregava. — A noite tentou fazer-nos separar. Tentou fazer-nos culpar o diferente, apontar dedos, fechar portas. Mas eu trouxe uma lueur que não dorme. E ela só vive se nós também não dormirmos por dentro.

Um homem gritou:

— E por que ele está aqui? — apontou para En. — Ele nem é daqui!

En deu um passo atrás, pronto para desaparecer como sempre fizera.

Nira colocou-se entre ele e a multidão.

— Justamente por isso — disse ela. — A cidade não é um muro. É uma fogueira. E fogueira que escolhe lenha só de um tipo apaga mais rápido.

Houve silêncio. A frase ficou no ar como faísca.

Dumuzi, ao lado, limpou a garganta.

— Eu sou barqueiro — disse ele. — E aprendi com o rio uma coisa: a água não pergunta de que aldeia vem a chuva. Ela só… junta.

Algumas pessoas soltaram risos curtos, nervosos. A tensão afrouxou, um pouco.

Nira colocou o recipiente no altar. A lueur subiu, fina e prateada, desenhando no ar um fio de luz que tocou a testa da estátua de Inanna. O rosto de pedra pareceu ganhar calor. Depois, a luz espalhou-se pela praça, não como explosão, mas como amanhecer decidido.

A sombra na beira da praça estremeceu. Não desapareceu — apenas se sentou, como um animal cansado que finalmente encontrou chão. A noite ficou… noite normal. Escura, sim, mas sem fome.

O bibliotecário fechou os olhos, aliviado.

— Falta o último gesto — ele disse. — A lueur acordou, mas precisa de ser embalada. Um canto que acalme. Um canto que lembre que todos cabem sob a mesma noite.

Nira olhou ao redor. Ninguém parecia saber por onde começar. Então En deu um passo à frente, com a timidez a lutar contra a coragem.

— Na minha “não cidade” — ele disse —, cantávamos para as sombras não assustarem as crianças. Posso tentar.

Dumuzi sussurrou:

— Se for horrível, eu finjo que é arte.

En lançou-lhe um olhar que quase era sorriso. Depois começou a cantar, baixo, numa língua antiga que parecia feita de vento e água. Nira acompanhou com palmas lentas, marcando o ritmo. Aos poucos, outras vozes entraram — primeiro tímidas, depois firmes — cada uma com um sotaque, cada uma com uma história.

O canto falava de passos na areia, de mãos que se encontram, de portas abertas. Falava de uma lueur pequena, teimosa, que não dorme. Falava, repetia, repetia: “Juntos, juntos, juntos”, como se a palavra fosse um cobertor.

A sombra, no limite da praça, baixou-se até ficar só uma mancha tranquila. A noite pareceu respirar. As lamparinas arderam sem tremer.

Nira fechou os olhos por um instante. Sentiu o fôlego, a insistência, e quem caminhara com ela. Sentiu a cidade a voltar a ver o rosto uns dos outros.

E, enquanto o canto continuava, a noite deixou de ser inimiga e virou apenas cenário — um céu escuro onde a lueur podia brilhar sem pressa, embalada por vozes diferentes, unidas no mesmo refrão que acalma.

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Lamparinas
Pequenas luzes portáteis que usam óleo para queimar e iluminar.
Manto pesado
Uma peça de roupa grande e grossa que cobre o corpo e pesa.
Capuz
Parte de roupa que cobre a cabeça e protege do frio ou da chuva.
Cântaros
Vasos grandes usados para guardar ou transportar água e líquidos.
Resmungou
Falou baixinho e reclamando, mostrando descontentamento.
Tremia
Movia-se de forma rápida e pequena por causa do medo ou do frio.
Fragmento de cristal leitoso
Pedaço pequeno de cristal com aspecto opaco e cor clara.
Lueur antiga
Uma luz fraca e antiga, como uma faísca guardada há muito tempo.
Bibliotecário
Pessoa que cuida dos livros e dos documentos numa biblioteca.
Altar
Mesa ou espaço sagrado onde se fazem oferendas ou rituais.
Proa
Parte da frente de um barco ou embarcação.
Nevoeiro
Nuvem baixa perto do chão que dificulta ver ao longe.
Pórtico
Entrada grande com colunas ou portas que leva para um lugar importante.
Leões de pedra
Estátuas de leões feitas de pedra que costumam proteger entradas.
Limiar
O espaço de passagem entre dois lugares, como uma porta ou entrada.
Trono de pedra
Cadeira alta e forte feita de pedra, usada por um governante.
Véu escuro
Tecido que cobre o rosto ou a cabeça, de cor escura e misteriosa.

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