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Mito fantástico 11 a 12 anos Leitura 25 min.

A fita vermelha e o sino sem som

Yuna, uma jovem de Haneulgol, parte numa jornada com um mensageiro alado e uma lâmina de luz para enfrentar uma criatura que nasce do esquecimento, aprendendo que a fidelidade e as promessas podem ser armas poderosas contra o vazio.

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Yuna, jovem de rosto determinado e suave, olhos esperançosos, cabelo preto preso com uma pequena fita vermelha no pulso, avança com uma lâmina de vidro marinho que emite um brilho azul‑esverdeado; ao fundo, a avó idosa de rosto rugoso e olhar sereno, mãos apertando o vestido junto a uma porta de madeira, observa orgulhosa e preocupada; o mensageiro Garam, pássaro branco‑acinzentado, pousa na borda do grande anel do sino; o antagonista Mu é uma massa escura e vaporosa, fissurada e recuando diante da luz; tudo se passa num pequeno pátio de santuário em pedra molhada cercado por pinheiros, com um grande campanário de madeira e um sino inscrito, lajes com manchas e musgo e lanternas tremulando ao vento; Yuna corta o ar e uma fenda de luz se abre ao redor do sino, o Mu se desfaz em volutas, a avó permanece calma e Garam observa — estilo tinta colorida, traços nítidos, contraste de luz azul‑esverdeada contra sombras carvão, atmosfera misteriosa e poética. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Fita Vermelha no Vento

Na aldeia de Haneulgol, onde os telhados curvos pareciam sorrir para o céu, diziam que os ventos tinham memória. Quando sopravam do norte, traziam o cheiro das pinhas e histórias antigas; quando vinham do sul, carregavam risos e poeira dourada.

Yuna acreditava nos dois.

Era jovem, com os cabelos presos por uma fita vermelha que a avó lhe amarrara no pulso quando ela ainda tinha medo do escuro. “Para te lembrar”, dizia a avó, “que a fidelidade é um fio: invisível de longe, impossível de partir de perto.”

Naquela noite, o rio que atravessava a aldeia não cantava. O silêncio era tão espesso que até os grilos pareciam ter engolido a própria música. Yuna saiu de casa com uma lamparina e viu, sobre a água, um reflexo que não combinava com o céu: uma mancha negra, como tinta derramada, mexendo-se sem fazer ondas.

— Avó? — chamou ela, sem virar o rosto, porque a coragem às vezes nasce de não olhar para trás.

A avó apareceu à porta, enrolada no seu casaco azul-escuro, o olhar firme como montanha.

— O nada está a aprender a ter forma — disse, baixinho. — E quando o nada aprende… ele tem fome.

Yuna aproximou-se do rio. A mancha parecia observar, mesmo sem olhos. Em volta, o ar cheirava a vela apagada.

— O que é isso? — sussurrou Yuna.

— Uma criatura nascida do vazio. Os antigos chamavam-lhe Mu. Não vem de um lugar, vem de uma falta. — A avó apertou a fita vermelha no pulso de Yuna. — E só alguém com o coração teimoso o suficiente para permanecer fiel ao que ama pode enfrentar uma coisa que não acredita em nada.

O vento soprou. A mancha tremeu, como se tivesse ouvido.

Nesse instante, uma figura branca pousou no parapeito do poço: uma gralha? Não. Um corvo? Também não. Era um pássaro de penas claras, com olhos que brilhavam como lua em água.

— Uma grua? — Yuna murmurou.

A ave inclinou a cabeça e falou, com voz surpreendentemente prática:

— Sou Garam. Mensageiro do Rei Dragão do Mar Oriental. E tu, Yuna de Haneulgol, foste chamada.

Yuna engoliu em seco.

— Eu? Porquê?

— Porque o Mu está a roer as margens do mundo. E porque tens algo raro: lealdade que não se vende e esperança que não cansa.

A avó colocou na mão de Yuna um pequeno embrulho de pano.

— Leva isto. — Era uma escama azul, fria e lisa, com desenhos que pareciam ondas. — Foi um presente antigo. Um dia eu guardei-o; hoje tu vais usá-lo.

Yuna fechou os dedos em volta da escama. Ela sentiu um pulso suave, como um coração adormecido.

— Eu volto — prometeu Yuna. Prometeu à avó, à aldeia, ao rio que calara.

E, quando disse “volto”, o vento, que tinha memória, pareceu repetir a palavra.

Capítulo 2 — A Ponte dos Espíritos e o Tigre que Ri

Garam voou à frente, baixo o suficiente para Yuna não o perder de vista. O caminho subiu por colinas e desceu por pinhais, até chegar a uma ponte de pedra coberta por musgo. A ponte atravessava uma névoa tão densa que parecia leite derramado.

— Aqui começa o território onde o sobrenatural não pede desculpa por existir — avisou Garam.

— Na minha aldeia também não — respondeu Yuna, tentando soar corajosa. — Só… costuma ser mais educado.

Do meio da névoa veio um som que parecia um espirro seguido de uma gargalhada. Um tigre apareceu, enorme, de pelagem dourada e olhos travessos. Trazia, pendurada ao pescoço, uma pequena campainha.

— Quem atravessa a minha ponte? — rugiu ele… e logo depois disse, num tom quase simpático: — E por favor, não digam “ninguém”, porque isso dá azar.

Yuna endireitou as costas.

— Eu sou Yuna de Haneulgol. Vou derrotar o Mu.

O tigre inclinou-se, como se estivesse a cheirar a coragem dela.

— O Mu? Aquele que faz o mundo esquecer o próprio nome? — Ele balançou a cabeça. A campainha tilintou. — Corajosa, sim. Prudente… veremos.

Garam pousou no ombro de Yuna.

— Este é Daeho, um guardião antigo. Ele testa os viajantes.

Daeho sentou-se no meio da ponte, bloqueando a passagem com a cauda.

— Um teste simples — disse ele. — Diz-me: o que é fidelidade?

Yuna pensou na avó, no rio silencioso, na fita vermelha.

— Fidelidade é ficar — respondeu. — Mesmo quando seria mais fácil ir embora. É lembrar, mesmo quando alguém tenta apagar. É segurar o fio quando o vento puxa.

O tigre abriu um sorriso enorme, mostrando dentes, mas sem ameaça.

— Boa resposta. Agora a resposta difícil: a quem és fiel?

Yuna respirou fundo.

— À minha avó. À minha aldeia. Aos espíritos que protegem este lugar. E… a mim mesma. À pessoa que eu quero ser.

Daeho deu uma gargalhada tão forte que a névoa tremeu.

— Gostei dessa parte. Muita gente esquece a última.

Ele levantou-se e afastou-se, finalmente deixando a ponte livre. Antes de desaparecer na névoa, virou-se:

— O Mu vai tentar fazer-te duvidar. Vai sussurrar que as promessas são tolas. Não escutes. E se precisares de coragem, toca na tua fita. Ela lembra-te do caminho.

Yuna atravessou. A pedra sob os pés estava fria, mas o coração dela estava quente, como brasa protegida em cinza.

Do outro lado, a névoa abriu-se como cortina, revelando um vale cheio de lanternas penduradas nas árvores. Elas acendiam-se sozinhas, uma a uma, como se saudassem a visitante.

Yuna sentiu que o mundo a observava com atenção—não para julgar, mas para acompanhar.

Capítulo 3 — O Mar Oriental e o Rei Dragão

A viagem levou-a até à costa. O Mar Oriental estendia-se diante dela, vasto e azul-escuro, com ondas que pareciam escamas gigantes. Um cheiro a sal e algas encheu-lhe os pulmões. O céu estava claro, mas havia algo estranho: no horizonte, uma faixa pálida, como se a cor estivesse a ser apagada.

— Ali — disse Garam, apontando com o bico. — Onde o mar fica sem gosto de mar.

Yuna segurou a escama azul dentro do embrulho de pano. Assim que a tirou, ela brilhou. A água, ao redor, respondeu com um brilho próprio. Pequenos peixes saltaram, como se rissem.

— Entra — disse Garam, simplesmente.

— Entrar? — Yuna olhou para as ondas. — Eu… eu não trouxe roupa de nadar.

Garam revirou os olhos, de um jeito muito humano.

— Não vais nadar. Vais ser recebida.

Yuna deu um passo. A água subiu até aos tornozelos… e, em vez de a puxar, sustentou-a. Como uma mão firme. Como uma promessa cumprida. Ela caminhou mar adentro, sem afundar, com as ondas a lamberem-lhe os pés.

A escama azul aqueceu na palma dela. Então o mar abriu-se, não com barulho, mas com solenidade. Um corredor de água elevou-se dos dois lados, e Yuna entrou num palácio submerso que parecia feito de luz.

Lá dentro, o silêncio não era vazio; era respeito.

No centro do salão, sobre um trono de coral, estava o Rei Dragão. A sua forma mudava ligeiramente, como se o olhar de Yuna não conseguisse decidir se ele era um homem coroado, um dragão serpentiforme, ou uma tempestade com olhos.

— Yuna de Haneulgol — disse ele, e a voz ecoou como concha encostada ao ouvido. — Trazes a minha escama. Portanto, trazes também a minha atenção.

Yuna fez uma reverência, tentando não parecer uma sardinha fora de água.

— Vim porque o Mu apareceu. O rio da minha aldeia calou-se.

O Rei Dragão ergueu uma garra—ou uma mão, ou uma onda—e o chão brilhou, mostrando imagens: campos cinzentos, árvores sem sombra, risos que se transformavam em suspiro.

— O Mu nasce do nada e alimenta-se de esquecimento — disse ele. — Começa pequeno: apaga uma canção, apaga um nome. Depois cresce: apaga um laço, apaga um “eu volto”.

Yuna apertou a fita vermelha.

— Como se derrota algo que não tem origem?

— Com aquilo que ele não consegue engolir — respondeu o Rei Dragão. — Uma história lembrada. Um juramento mantido. Uma amizade fiel.

Garam bateu as asas, impaciente.

— Majestade, dá-lhe a arma. O tempo está a ficar sem tempo.

O Rei Dragão inclinou a cabeça, como se sorrisse.

— Não é uma arma, Garam. É um farol.

Ele soprou, e uma bolha de água flutuou até Yuna. Dentro, havia uma pequena lâmina curta, não de metal, mas de vidro marinho—transparente, com luz presa por dentro.

— A Lâmina de Alga-Luz — explicou. — Não corta carne. Corta véus. Abre caminho através de ilusões. Mas só brilha quando a mão que a segura é fiel ao que promete.

Yuna segurou-a com cuidado. A lâmina cintilou, reconhecendo-a.

— Onde encontro o Mu? — perguntou ela.

O Rei Dragão apontou para a faixa pálida no horizonte.

— No Santuário do Sino Sem Som, nas montanhas. Onde os antigos guardavam nomes sagrados. O Mu quer esse lugar porque lá os nomes têm peso… e ele quer que caiam no vazio.

Yuna fez outra reverência.

— Eu vou.

— E voltarás — disse o Rei Dragão, com certeza tranquila. — Porque é isso que fazes com as promessas.

Quando o mar se fechou atrás dela, Yuna sentiu o mundo enorme à sua volta. Mas, dentro do pulso, a fita vermelha era uma linha firme. Dentro da mão, a lâmina era uma estrela pequena. E dentro do peito, a missão era clara como sino—mesmo antes de tocar.

Capítulo 4 — O Santuário do Sino Sem Som

As montanhas eram antigas e cheiravam a pedra molhada. Yuna subiu por trilhos estreitos, acompanhada por Garam, que a corrigia sempre que ela ia pelo caminho mais bonito em vez do mais seguro.

— Se vires um arbusto com bagas brilhantes, não comas — disse ele.

— Porquê?

— Porque brilham para te seduzir. E depois cantas ópera durante três dias. — Garam fez uma pausa. — A menos que gostes.

— Não gosto — respondeu Yuna, rindo apesar do frio.

Quando finalmente viu o santuário, parou sem querer. Era um pátio de pedra cercado por pinheiros, com um grande sino pendurado numa estrutura de madeira escura. O sino tinha inscrições em espiral, como rios desenhados. No entanto, mesmo com o vento a bater nele, não fazia som nenhum.

— Estranho — murmurou Yuna. — Um sino que não toca.

— Ele toca — disse Garam, baixinho. — Só que não para qualquer ouvido.

Yuna entrou no pátio. O ar ali dentro era mais frio, como se o sol respeitasse o lugar e não ousasse ser demasiado quente. No chão, havia marcas negras, como queimaduras em forma de dedos.

— O Mu esteve aqui — disse Yuna.

Uma voz respondeu, mas não veio de pessoa nenhuma.

— Ainda estou.

A sombra levantou-se por trás do sino, crescendo como fumaça. Não tinha rosto definido. Às vezes parecia um animal; às vezes parecia um buraco no mundo. E, no entanto, quando falou, soou íntimo, como um pensamento que não pedimos.

— Yuna… — sussurrou o Mu. — Idealista. Leal. Tão cansativo.

Yuna sentiu um arrepio. A lâmina de Alga-Luz na sua mão ficou morna, mas não brilhava muito—como se estivesse à espera de algo.

— Eu sei o que tu és — disse Yuna, firmando a voz. — És o vazio a fingir que é importante.

O Mu riu, mas o riso não tinha alegria.

— Eu sou descanso. Eu sou esquecer a dor. Eu sou libertar-te de promessas pesadas. — A sombra aproximou-se. — A tua avó vai envelhecer. A tua aldeia vai mudar. E tu vais falhar. Sempre falhas, no fim. Deixa que eu apague isso por ti.

Yuna pensou na avó, no olhar firme, na mão quente. Pensou na aldeia, nos telhados sorridentes, no rio que cantava. E, por um segundo, o medo tentou convencer o coração de que o Mu tinha razão.

Garam pousou no sino e falou alto:

— Yuna! Lembra o fio!

Ela tocou na fita vermelha. Sentiu o nó. Sentiu a textura. E com a textura veio a memória: o dia em que prometeu voltar para casa antes do anoitecer e voltou; o dia em que uma amiga chorou e ela ficou sentada ao lado, mesmo sem saber o que dizer; o dia em que a avó a ensinou a preparar chá e disse: “Fidelidade é também paciência.”

Yuna ergueu a lâmina.

— Eu não te devo o meu esquecimento — disse. — Eu devo o meu lembrar a quem me ama.

A lâmina brilhou. Um clarão suave, azul-esverdeado, como aurora dentro de água.

O Mu recuou, como se a luz fosse um sabor amargo.

— Não podes vencer o nada! — rosnou ele. — Não podes cortar o que não existe!

— Posso abrir caminho — respondeu Yuna, e avançou.

Ela não atacou como num duelo. Ela girou a lâmina no ar, desenhando um arco de luz ao redor do sino. A luz tocou as marcas negras no chão, e elas tremularam, como carvão soprando.

O Mu lançou-se para ela, tentando envolver-lhe a cabeça com sombras. Yuna sentiu a visão escurecer. Ouviu, no fundo da mente, uma voz parecida com a dela a dizer: “Desiste. Ninguém vai notar.”

E, no entanto, por trás disso, ela ouviu outra coisa: um eco de passos, risos, o “eu volto” repetido pelo vento.

— Eu noto — disse Yuna, com esforço. — Eu noto.

Com a lâmina, ela cortou o véu que lhe cobria os olhos. O escuro rasgou-se como tecido velho. Ela viu o centro do Mu: não um coração, mas uma rachadura, um ponto onde o mundo parecia ter sido apagado com pressa.

— Aí — sussurrou Garam. — O núcleo.

Yuna aproximou-se do sino. Encostou a lâmina ao ar diante do núcleo. Não para ferir, mas para revelar. E, com um movimento firme, cortou o espaço como quem abre uma janela.

A luz entrou.

O Mu gritou, não de dor, mas de medo—medo de ser visto, medo de ter contorno.

O sino, finalmente, tremeu. As inscrições brilharam. E um som nasceu, pequeno no início, depois amplo: um tom profundo que parecia chamar nomes perdidos de volta ao mundo.

Yuna sentiu lágrimas nos olhos, sem saber porquê. O som era bonito, mas tinha peso.

O Mu encolheu, como fumaça em chuva. Ainda não tinha desaparecido, mas estava menor, menos certo de si.

— Isto não acabou — sussurrou ele, recuando para as sombras das árvores. — Eu volto quando te cansares.

Yuna levantou o queixo.

— Então eu vou continuar — disse ela. — Uma vez. Outra vez. Quantas vezes for preciso.

E o sino, como se concordasse, vibrou no ar frio.

Capítulo 5 — O Nome Guardado e o Último Passo

O pátio do santuário parecia mais claro depois do toque do sino. Os pinheiros, que antes estavam imóveis, agora balançavam com um vento leve, como se respirassem aliviados.

Garam desceu do sino e aproximou-se de Yuna.

— Foste bem — disse ele, num tom que tentava ser sério, mas deixava escapar orgulho.

— Eu quase acreditei nele — confessou Yuna, olhando para as próprias mãos. — Quase deixei que o medo fosse mais convincente do que eu.

— O Mu é bom nisso — respondeu Garam. — Ele não inventa mentiras; ele escolhe verdades tristes e faz delas uma prisão.

Yuna olhou para o sino.

— Se ele voltar, eu posso tocar o sino outra vez?

— Podes — disse Garam. — Mas há algo melhor. O sino chama nomes, mas tu tens de guardar um nome em ti, como uma chama. Um nome que o Mu não consegue apagar porque não está escrito em pedra. Está escrito em fidelidade.

Yuna franziu o sobrolho.

— Que nome?

Garam saltitou, como se procurasse palavras.

— O teu juramento. Dá-lhe um nome. Assim, quando o Mu vier, tu chamas pelo juramento como se chamasses por uma amiga no meio da multidão.

Yuna pensou. Lembrou-se da fita, da avó, da promessa. E falou, com a simplicidade de quem acende uma vela:

— Chamar-se-á “Volto”.

O ar pareceu aceitar a palavra. A lâmina brilhou por um segundo, como se sorrisse.

Mas então, do bosque, veio um som estranho: um estalar de galhos que não eram pisados, um arranhar de nada em nada. O Mu não estava completamente fora dali. Estava a tentar fugir… ou a tentar levar alguma coisa.

Yuna correu para a lateral do santuário, onde havia uma pequena sala de pedra com portas de madeira. A porta estava entreaberta. Lá dentro, prateleiras vazias e um pedestal no centro. Em cima, um rolo de seda antiga, quase desfeito.

— O que é isto? — perguntou Yuna, aproximando-se com cuidado.

Garam pousou no pedestal.

— Um registo de nomes sagrados. Os guardiões escreviam aqui os nomes de quem prometia proteger as margens do mundo. O Mu quer apagar isto para que ninguém se lembre de defender nada.

Yuna abriu o rolo com delicadeza. As letras eram finas, elegantes. Alguns nomes estavam desbotados. No fim, havia um espaço vazio—como se o rolo estivesse à espera.

— Ele quer esse vazio — sussurrou Yuna.

Uma sombra escorreu pelo chão da sala. O Mu, agora menor, tentou agarrar o rolo com tentáculos de escuro.

— Dá-me — sibilou ele. — Deixa-me ser o final de tudo. É tão simples… tão leve…

Yuna não puxou o rolo para si como quem protege um objeto. Em vez disso, colocou a mão sobre a seda e, com a outra, tocou a fita vermelha. Lembrou-se: fidelidade é ficar. Fidelidade é lembrar. Fidelidade é segurar o fio quando o vento puxa.

Ela pegou num pincel que estava ao lado, seco mas ainda inteiro. Molhou a ponta numa tigela de água que, surpreendentemente, ainda tinha tinta—uma tinta azulada, como mar em noite calma.

Yuna escreveu uma palavra no espaço vazio. Não um nome de pessoa, mas um nome de promessa:

VOLTO.

No instante em que a palavra apareceu, o rolo brilhou. As letras antigas acordaram, como estrelas numa constelação. O Mu tentou engolir a seda, mas a luz não lhe deu espaço. Era como tentar morder o próprio sol.

— Não! — gritou ele, e a sua voz falhou, como som de corda partida.

Yuna ergueu a Lâmina de Alga-Luz e fez um corte no ar, um corte limpo que abriu uma fenda de claridade entre o Mu e o rolo. A claridade não o feriu; apenas o desfez, como nevoeiro ao meio-dia.

O Mu encolheu, encolheu… até se tornar apenas uma mancha do tamanho de uma unha. Depois, um sopro de vento levou-o para longe, não como vitória barulhenta, mas como limpeza.

Garam soltou um longo suspiro, como se só agora se lembrasse de respirar.

— Conseguiste.

Yuna fechou o rolo e colocou-o no pedestal.

— Eu só… fiquei — disse ela, com um sorriso cansado. — Fiquei fiel.

— E isso, pelos vistos, é a coisa mais perigosa para o nada — respondeu Garam.

Quando saíram do santuário, o sino tocou uma última vez, suave, como despedida. A faixa pálida no horizonte parecia menos pálida. O mundo recuperava as cores devagar, como quem acorda sem pressa.

Yuna desceu a montanha sentindo os pés pesados e o coração leve, repetindo por dentro, como uma canção baixa: volto, volto, volto.

Capítulo 6 — O Chá que Guarda o Calor

O caminho de regresso pareceu mais curto, talvez porque a saudade empurra as pernas com pressa. Quando Yuna finalmente viu os telhados curvos de Haneulgol, o sol estava a cair, pintando as paredes de laranja e as sombras de violeta.

O rio, antes silencioso, cantava outra vez. Não era uma canção alta—era um murmúrio contente, como alguém que voltou a lembrar uma melodia antiga.

A avó estava sentada à porta, como se nunca tivesse saído dali. Quando viu Yuna, não correu; apenas abriu os braços, e isso foi mais forte do que corrida.

Yuna abraçou-a com cuidado, como se a avó fosse feita de tempo precioso.

— Voltei — disse Yuna, e a palavra parecia encaixar no mundo como peça certa.

A avó segurou o pulso dela e beijou a fita vermelha.

— Eu sabia — respondeu. — Não porque o mundo é fácil. Mas porque tu és fiel.

Garam, do lado de fora do abraço, pigarreou de um jeito teatral.

— A missão terminou, mas aceito pagamento em bolinhos de arroz.

A avó arqueou uma sobrancelha.

— Um pássaro que fala e negocia? O mundo está mesmo moderno.

Yuna riu, e o riso dela soou como sino bom, como água viva.

Dentro de casa, a avó acendeu o fogão. As mãos dela moviam-se com a calma de quem já venceu muitas coisas sem espada. Colocou folhas de chá numa chaleira e despejou água quente. O vapor subiu, rodopiando, cheirando a pinho e flor seca.

Yuna observou, sentindo o cansaço a descer pelos ombros como um cobertor.

— O Mu… pode voltar? — perguntou ela, num tom baixo.

A avó colocou duas chávenas na mesa, de porcelana simples.

— O nada sempre tenta — disse. — Mas agora tens um nome guardado. Tens “Volto”. E tens as tuas memórias presas ao coração como nós bem feitos.

A avó serviu o chá. O líquido era dourado, com um brilho suave, como luz de fim de tarde.

Yuna pegou na chávena. O calor passou para os dedos, depois para o peito. Ela fechou os olhos por um instante e viu, lá dentro, o santuário, o sino, a palavra escrita, a sombra a recuar.

Quando abriu os olhos, a avó estava a beber devagar. Garam, em cima da prateleira, observava tudo com a dignidade de alguém que claramente esperava bolinhos.

Yuna deu um gole. O chá tinha um sabor simples e profundo, como uma história boa: começava com doçura, seguia com mistério e terminava com paz.

E, enquanto o rio cantava lá fora e o vapor desenhava nuvens pequenas no ar, Yuna pensou que fidelidade era isto também: voltar, sentar, partilhar calor. Guardar o mundo com gestos que parecem pequenos, mas que o nada não consegue engolir.

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Fidelidade
Lealdade ou constância em cumprir promessas e ficar com alguém.
Pulso
Parte do corpo no braço onde se sente o coração bater.
Embrulho
Pano ou papel que envolve algo para guardar ou oferecer.
Escama
Cada placa que cobre peixes ou animais parecidos com peixe.
Serpentiforme
Que tem forma parecida com a de uma serpente, alongada.
Solenidade
Atitude ou momento sério e cheio de respeito.
Véus
Tecido fino que cobre ou esconde alguma coisa.
Santuário
Lugar protegido e respeitado, por vezes para cuidar de coisas sagradas.
Inscrições
Letras ou desenhos gravados em pedra, metal ou outro material.
Espiral
Linha ou desenho que gira em volta, formando círculos crescentes.
Musgo
Planta pequena e macia que cresce em lugares úmidos e sombreados.
Névoa
Nuvem baixa e fina que deixa o ar com aparência borrada.

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