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História de pequenos investigadores 9 a 10 anos Leitura 16 min. (1)

A fita amarela e o mistério das moedas da limonada

Lia, uma menina curiosa e metódica, encontra pistas no jardim quando a caixa de moedas da senhora Bia desaparece. Com atenção e sinceridade, ela investiga os sinais e conversa com as pessoas do bairro.

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Lia, 10 anos, rosto concentrado e benevolente, cabelo castanho em rabo de cavalo, veste jaqueta amarela clara e segura um caderninho azul, ajoelha-se junto a um banco de madeira e estende uma pequena caixa metálica de moedas a dona Bia; Nuno, 7 anos, envergonhado mas aliviado, com chapéu de explorador e camiseta vermelha, fica atrás com as mãos juntas perto de um arbusto onde a caixa foi vista; Tomás, 9 anos, entusiasmado, cabelo castanho despenteado, segura um avião de papel amassado e ajuda a contar as moedas ao lado do banco; dona Bia, cerca de 40 anos, de avental verde manchado, sorri emocionada em frente à mesa de limonada; dona Celeste, cerca de 70 anos, com xale rosa e agulhas de tricô, observa sentada à esquerda; senhor Álvaro, cerca de 65 anos, de camisa xadrez e segurando uma vassourinha, sorri ao lado do chafariz; praça pequena com calçamento, chafariz de pedra com respingos brilhantes, mesa de limonada xadrez, árvores com folhas douradas ao pôr do sol, luz quente do fim do dia, momento de devolução e perdão, expressões de vergonha, alívio e ternura, detalhes visíveis: fita amarela amassada numa roda de brinquedo e algumas moedas sujas na terra. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A fita amarela no chão

Lia tinha dez anos, um caderno de capa azul e uma caneta que nunca emprestava “em casos de emergência”. Era organizada de um jeito engraçado: no bolso esquerdo, lenços; no direito, um lápis pequeno; na mochila, tudo em saquinhos com etiquetas.

Nessa tarde de sábado, o bairro parecia bocejar devagar. O sol passava pelas folhas do pequeno square, que ficava entre a padaria e a farmácia. Era um lugar fresco e sombrio, com bancos de madeira, um escorrega, baloiços que rangiam baixinho e um chafariz que fazia “plim-plim”.

Lia foi lá para ler, mas algo chamou a atenção dela antes mesmo de abrir o livro: uma fita amarela, fina e brilhante, estava esticada no chão como se tivesse caído de um pacote de presente. Ao lado, havia uma migalha de bolacha, redonda, com cheiro de canela.

Ela agachou, sem tocar em nada.

No caderno, escreveu:

1) Fita amarela no chão, perto do banco grande.

2) Migalha de bolacha de canela.

3) Não há vento forte hoje. Logo, não foi trazida de longe.

Lia olhou em volta. Perto do escorrega, o Tomás, de nove anos, tentava fazer um avião de papel voar reto e só conseguia fazê-lo mergulhar como um pato cansado. No banco ao lado do chafariz, a dona Celeste tricotava, com um novelo cor-de-rosa no colo. E, perto do portão do square, o senhor Álvaro, que cuidava das plantas, varria folhas num montinho bem certinho.

Foi então que ouviu um suspiro dramático vindo da sombra de uma árvore.

Era a senhora Bia, que vendia limonada numa garrafa grande e tinha sempre um avental verde.

“Desapareceu!”, ela disse, com a mão na testa, como se estivesse num teatro.

Lia fechou o livro devagar.

“Desapareceu o quê?”

“A minha caixa de moedas! Eu tinha lá troco para a limonada. Agora… puf!” A senhora Bia abriu os braços, vazios. “Alguém levou. E sem troco eu fico a vender limonada… a crédito!”

Tomás aproximou-se, com o avião amassado.

“Talvez um esquilo tenha roubado”, sugeriu, muito sério.

Dona Celeste levantou os olhos do tricô.

“Esquilo nenhum carrega moedas, menino.”

Lia respirou fundo. Um mistério no square. E ela tinha um caderno.

“Não se preocupe. Eu posso ajudar a descobrir. Mas preciso de pistas e… sinceridade.

A senhora Bia engoliu em seco.

“Sinceridade eu tenho. Só não tenho é as moedas.”

Capítulo 2: Três suspeitos e um plano

Lia escolheu o banco grande como “central de investigação”. Era o mais perto do lugar onde a fita amarela estava caída. Sentou-se, endireitou o caderno e fez um pequeno mapa do square: chafariz, banca da limonada, escorrega, portão, canteiro das flores.

“Regras do caso”, ela disse, com voz calma.

“Primeiro: ninguém acusa ninguém sem prova. Segundo: todos dizem a verdade. Terceiro: quem lembrar de algo, fala. Mesmo se parecer pequeno.”

Tomás levantou a mão como se estivesse na escola.

“Quarto: o meu avião não conta como prova, certo?”

“Certo”, Lia respondeu, sem rir muito para não quebrar o clima de detetive.

Ela aproximou-se da banca improvisada da senhora Bia. Era uma mesinha com toalha aos quadrados. A garrafa de limonada brilhava ao sol. A caixa de moedas, segundo a senhora, ficava ao lado do guardanapo e do pote de bolachas.

Lia analisou com os olhos, sem mexer.

“Onde estava exatamente?”

“Aqui, ao lado das bolachas. Eu fui buscar água à fonte, virei costas por um minuto e… já era.”

“Um minuto é muito tempo para uma caixa pequena”, pensou Lia.

Ela anotou mais:

4) Caixa de moedas desapareceu em menos de 1 minuto.

5) Estava ao lado das bolachas.

O senhor Álvaro aproximou-se empurrando a vassoura como se fosse um carrinho.

“Eu vi gente a passar. Muita gente.”

“Quem?”, perguntou Lia.

Ele coçou o queixo.

“Vi a dona Celeste. Vi o Tomás. Vi… uma criança mais pequena com um chapéu azul. Não reconheci.”

Tomás abriu os olhos.

“Chapéu azul? Eu também vi! Ele estava a correr com alguma coisa na mão… mas parecia um carrinho.”

Lia olhou para o chão e viu outra pista: perto do pé da mesa havia um risco escuro, como marca de rodinha, e um pontinho de terra húmida.

6) Marca de rodinha perto da mesa.

7) Terra húmida (de onde? do chafariz? do canteiro?)

Ela apontou para o chafariz, onde o chão estava sempre molhado.

“Se alguém correu por ali, pode ter sujado as rodas.”

Dona Celeste pigarreou, de um jeito importante.

“Eu só sei que ouvi o barulho de metal. Tin-lim. Como moedas a baterem.”

A senhora Bia apertou o avental.

“E eu lembro de uma coisa… eu tinha fechado a caixa. Com uma fitinha amarela, destas de presente, para não abrir sozinha.”

Lia sentiu um arrepio de entusiasmo.

A fita amarela no chão, perto do banco grande.

Ela olhou para Tomás.

“Missão: vê se encontras esse menino do chapéu azul, mas sem assustar. Observa. Não interrogues como num filme.”

Tomás fez continência e quase derrubou o próprio avião.

“Sim, chefe.”

Lia virou-se para dona Celeste.

“Pode lembrar a que horas ouviu o tin-lim?”

“Ai, minha filha, eu não tenho relógio na cabeça. Mas foi depois de eu trocar a lã do tricô. Olha, foi quando comecei a fazer a manga. Agora está aqui.”

Lia não entendeu bem de mangas, mas anotou:

8) Barulho de moedas ouvido pouco depois de a dona Celeste mudar de parte no tricô.

O senhor Álvaro cruzou os braços.

“E eu digo uma coisa: se alguém levou, vai aparecer. O square é pequeno.”

“Nem sempre”, Lia murmurou. E olhou para o portão, que dava para a rua.

No caderno, fez uma lista de suspeitos possíveis:

A) Criança do chapéu azul (desconhecido).

B) Alguém adulto? (menos provável, mas não impossível).

C) A caixa pode ter caído e rolado.

Ela sublinhou a opção C. Caído e rolado.

A marca de rodinha podia ser de um carrinho… ou da própria caixa?

Capítulo 3: Pistas na sombra

Tomás voltou rápido, ofegante, como se tivesse corrido uma maratona de três metros.

“Encontrei o chapéu azul!”

“E a criança?”, Lia perguntou.

“É o Nuno, do prédio amarelo. Ele tem sete anos. E tem um carrinho vermelho com rodas grandes. Está ali, atrás da árvore mais grossa.”

Lia levantou-se. Caminhou devagar, pelo caminho de pedrinhas, até à sombra da árvore grande. Ali, o ar era fresco e cheirava a terra. Nuno estava sentado no chão, com o carrinho ao lado e uma expressão de quem tinha feito algo… e agora queria virar invisível.

Lia agachou, ficando à altura dele.

“Olá, Nuno. Gosto do teu chapéu. Faz sombra nos olhos, parece de explorador.”

Nuno puxou o chapéu mais para baixo.

“Obrigado.”

Lia não falou da caixa logo. Primeiro, olhou para o carrinho. Havia um fio amarelo preso numa roda.

“Posso ver o carrinho?” perguntou, com voz suave.

Nuno hesitou, mas empurrou o carrinho para a frente.

“É meu.”

“Claro”, disse Lia. “E eu não vou tirar. Só observar.”

Ela apontou para a roda.

“Sabes o que é isto?”

Nuno mordeu o lábio.

“Uma fita.”

“Uma fita amarela, como de presente. Onde encontraste?”

Nuno ficou vermelho até às orelhas.

“Eu… eu… estava no chão.”

Lia manteve o tom calmo.

“Entendo. E hoje alguém perdeu uma caixa com moedas, que estava fechada com uma fita amarela. A senhora Bia está preocupada. Moedas servem para dar troco. Sem elas, as pessoas ficam sem limonada.”

Nuno olhou para o chão.

“Eu só queria comprar uma bolacha… mas eu não tinha dinheiro.”

Tomás deu um passo à frente e sussurrou para Lia:

“Ele roubou?”

Lia levantou a mão, pedindo silêncio.

“Nuno”, Lia continuou, “eu preciso que sejas sincero. Sinceridade é como uma lanterna. Pode doer um pouco no começo, mas ajuda a ver o caminho.”

Nuno apertou os olhos como se fosse chorar.

“Eu vi a caixa. Brilhava. Eu pensei… que era tipo caixa de brinquedo. Peguei e pus no carrinho. Depois ouvi a senhora Bia falar alto e… fiquei com medo. Levei para trás da árvore.”

Lia sentiu alívio por ter uma resposta, mas também um aperto por ver o medo dele.

“Obrigado por dizeres a verdade. Onde está a caixa agora?”

Nuno apontou para trás de um arbusto baixo. Lá estava uma caixinha metálica, meio escondida, com a tampa torta. Ao lado, algumas moedas tinham caído na terra.

Lia contou as moedas com os olhos, sem pegar primeiro. Havia marcas de terra húmida nelas. Fazia sentido: o carrinho passou pelo chafariz e deixou a marca de rodinha perto da mesa. E a fita amarela tinha caído no caminho.

Ela escreveu rapidamente:

9) Fita presa na roda do carrinho do Nuno.

10) Caixa escondida atrás do arbusto.

11) Terra húmida confirma percurso perto do chafariz.

Tomás soltou um “Ahá!” tão alto que um pombo assustou-se.

Lia olhou para Nuno.

“Agora vem a parte importante. Devolver e pedir desculpa. Eu vou contigo.”

Nuno assentiu, com os olhos brilhantes.

“Ela vai gritar comigo?”

“Talvez fale sério”, disse Lia. “Mas o square também serve para aprender.”

Capítulo 4: A verdade faz menos barulho que as moedas

Eles voltaram pelo caminho sombreado. A senhora Bia estava de braços cruzados, olhando a mesa como se ela tivesse traído a confiança dela. Dona Celeste tricotava mais rápido, fingindo que não estava curiosa. O senhor Álvaro parou de varrer. Até o chafariz parecia fazer “plim-plim” mais devagar.

Lia aproximou-se, com a caixa nas mãos, mas sem abrir.

“Encontrámos.”

A senhora Bia arregalou os olhos.

“A minha caixa!”

Nuno ficou atrás de Lia, quase colado.

“Eu… fui eu”, ele disse, com voz pequenina. “Eu peguei. Eu pensei que era brinquedo. Eu queria bolacha e… eu fiquei com medo.”

O silêncio do square durou dois segundos, mas pareceram vinte. Depois, a senhora Bia soltou o ar devagar.

“Obrigada por dizeres. Isso é importante.”

Tomás sussurrou:

“Uau. Ela não explodiu.”

A senhora Bia pegou na caixa, abriu com cuidado. Algumas moedas estavam sujas de terra.

“Olha o estado disto…”, ela começou, mas parou. Olhou para Nuno. “Tu sabes por que eu fiquei tão aflita?”

Nuno abanou a cabeça.

“Porque eu trabalho para vender. E o troco é como… a roda do teu carrinho. Sem roda, não anda.” Ela apontou para a fita amarela. “Eu fechei com fita porque a tampa às vezes abre sozinha. E olha, abriu mesmo.”

Nuno engoliu em seco.

“Desculpa. Eu posso limpar.”

O senhor Álvaro assentiu.

“Boa ideia. Eu tenho um pano no carrinho de limpeza.”

Dona Celeste inclinou-se para a frente.

“E eu tenho um pouco de água num frasquinho. Para as minhas plantas.”

Em poucos minutos, o grupo fez uma pequena “oficina de reparação”. Lia organizou tudo: pano primeiro, depois água, depois secar. Tomás ficou encarregado de contar as moedas e colocar de volta na caixa, uma por uma, como se fosse um tesouro de pirata muito certinho.

Enquanto trabalhavam, Lia explicou, apontando para o caderno:

“A fita no chão mostrou que a caixa tinha estado ali. A marca de rodinha perto da mesa mostrou que algo com rodas passou. A terra húmida indicou o caminho pelo chafariz. E o chapéu azul ajudou a encontrar quem tinha passado por perto.”

O senhor Álvaro sorriu.

“Uma detetive com método.”

Lia ficou um pouco corada, mas manteve a postura séria.

“E com sinceridade. Sem isso, não há final feliz.”

Quando tudo ficou limpo, a senhora Bia fechou a caixa e prendeu com uma fita nova, desta vez com um nó duplo.

“Pronto. Mais segura.”

Nuno respirou, como se tivesse tirado uma mochila pesada das costas.

“Eu posso… ajudar a vender limonada hoje? Para compensar.”

A senhora Bia pensou um pouco e depois acenou.

“Podes. E vais aprender a dar troco. Mas com calma.”

Tomás riu.

“Troco é matemática. Vai ser mais assustador que detetive!”

Nuno fez uma careta, mas sorriu.

Capítulo 5: Uma tisana para fechar o caso

O fim da tarde chegou com luz dourada por entre as folhas do square. A banca da limonada voltou a funcionar. Nuno ajudou a entregar copos e a dizer “obrigado” com um cuidado especial, como se cada palavra fosse uma moeda nova. Tomás finalmente fez um avião que voou reto… por dois segundos. Ele decidiu que era um recorde mundial.

Lia guardou o caderno, satisfeita. Antes de ir embora, a senhora Bia chamou todos para junto do banco grande.

“Hoje, em vez de limonada, eu trouxe uma coisa para aquecer o coração. Tisana de camomila com um pouquinho de mel. A minha avó dizia que ajuda a acalmar ideias e a pôr as coisas no lugar.”

O senhor Álvaro trouxe quatro copos de papel. Dona Celeste guardou o tricô com cuidado, como se também fechasse uma história com um laço. A senhora Bia serviu a tisana. O vapor subiu em espirais, cheirando a flores.

Eles sentaram-se na sombra, com o chafariz a fazer “plim-plim” como um aplauso discreto.

Nuno segurou o copo com as duas mãos.

“Eu não vou pegar em coisas que não são minhas”, disse. “E se eu quiser bolacha… eu vou perguntar.”

A senhora Bia assentiu.

“Pedir é mais fácil do que esconder.”

Lia tomou um gole pequeno. A tisana estava morna e doce.

“E dizer a verdade”, ela acrescentou, “é como abrir uma janela. Entra ar. A gente volta a respirar.”

Tomás olhou para o próprio copo.

“Então… o caso está encerrado?”

Lia fechou o caderno com um “clac” satisfeito.

“Encerrado. Mas mantenham os olhos abertos. O mundo adora esconder pistas… até em fitas no chão.”

Dona Celeste sorriu.

“E no fim, uma tisana resolve quase tudo.”

No square, as folhas balançaram devagar, como se concordassem. E a tarde terminou com risos pequenos, o coração leve e a certeza de que a sinceridade, às vezes, é a melhor investigação de todas.

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Bocejar
Abrir a boca e soltar ar quando se está com sono ou cansado.
Square
Pequena praça ou espaço com bancos e plantas, onde as pessoas se encontram.
Chafariz
Fonte decorativa com água que sai para cima ou cai em bacia.
Avental
Peça de tecido que se põe à frente para proteger a roupa ao trabalhar.
Novelo
Bola de fio usada para fazer tecidos com agulhas ou dedos.
Pigarreou
Fazer um som na garganta para limpar ou chamar atenção sem falar alto.
Ofegante
Respirar rápido e pesado, geralmente por cansaço ou corrida.
Migalha
Pedaço pequeno de pão, bolacha ou bolo que cai no chão.
Maratona
Prova de corrida muito longa; aqui usada como brincadeira de curta distância.
Lanterna
Objeto que dá luz para ver no escuro ou mostrar o caminho.
Sinceridade
Dizer a verdade com honestidade e sem esconder o que se sente.
Tricotava
Ação de fazer tecidos com duas agulhas e fios, chamada tricô.

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