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Fantasia histórica 7 a 8 anos Leitura 13 min.

A chama adormecida do lago dos lótus

Ananda e o monge Somchai seguem um mapa encantado pelas portas da cidade, enfrentando provas de coragem, palavras gentis e promessas para despertar um poder antigo escondido no lago dos lótus.

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A personagem principal é Ananda, mulher de rosto redondo e cabelo preto preso por um lenço vermelho, expressão maravilhada e serena, segurando uma pequena chama azul e suave na ponta do dedo; um personagem secundário é Somchai, homem baixo (~35 anos), monge de roupa ocre e cabeça rapada, sorriso tímido, ajoelhado alguns passos atrás com um velho pergaminho que brilha fracamente; outro secundário é o guarda idoso (~70 anos), bigode branco e largo, sentado ao fundo junto a um grande pórtico de elefante, aplaudindo suavemente e segurando uma lanterna de metal; o local é a margem de um lago de lótus ao crepúsculo — água espelhada, grandes flores cor-de-rosa e folhas verdes flutuantes, margens de pedra cobertas de musgo, estátuas de elefantes e um templo antigo com torres esculpidas ao fundo; situação: Ananda desperta uma pequena chama mágica numa concha à beira do lago; a luz azul ilumina os rostos, reflexos dourados dançam na água, atmosfera suave, histórica e fantástica. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A cidade de pedra e ouro

O sol nascia redondo e quente por trás das palmeiras, e a antiga cidade acordava como um tambor: tum-tum, tum-tum, no passo dos elefantes e no riso do mercado. Torres de pedra com rostos de deuses olhavam para baixo, serenas, como se guardassem segredos muito velhos.

Ananda caminhava depressa, com o lenço preso ao cabelo e os olhos brilhantes. Era uma mulher adulta, forte e espontânea, do tipo que decide uma coisa e já está a meio caminho antes de alguém perguntar “porquê”.

“Ananda, espera!” chamou o monge Somchai, pequenino e rápido, com uma bolsa cheia de pergaminhos a bater na perna. “Não se corre num templo!”

“Eu não estou a correr,” ela respondeu, rindo. “Estou a andar com muita vontade.”

Somchai suspirou, mas o sorriso dele era como uma vela acesa. “Hoje é o dia da cerimónia. Os sinos vão tocar.”

“Que toquem! Eu vim por causa do poder adormecido.” Ananda apontou para o grande lago junto ao templo, onde lótus abriam pétalas cor-de-rosa. “Dizem que dorme ali em baixo, não dizem?”

O monge olhou para os lados, como se as estátuas pudessem ouvir. “Há histórias. Uma chama antiga, guardada por um Naga, a Serpente da Água. Mas histórias são como pipas ao vento: bonitas, mas nem sempre aterradas.”

Ananda tirou do bolso uma pequena peça de bronze, antiga, com o desenho de uma espiral. “E isto? Eu encontrei na margem do lago. Quando toquei, senti um calor a subir pela mão. Como se alguém dissesse: ‘Acorda'.”

Somchai arregalou os olhos. “Isso parece um Selo Real. Do tempo dos grandes impérios, quando as palavras tinham peso e a música abria portas.”

Ananda endireitou os ombros. “Então eu vou abrir uma porta. Não para mandar em ninguém. Só… para lembrar.”

“Lembrar o quê?” perguntou Somchai.

“Que a coragem ainda mora aqui,” ela disse, tocando no peito. “E que a sabedoria não é só para os livros.”

O vento passou, suave, e as folhas das palmeiras sussurraram como páginas viradas. Lá longe, um sino cantou: ding… ding… E o lago, por um instante, pareceu brilhar de dentro para fora.

Capítulo 2: O mapa que canta

No pátio do templo, Somchai abriu a bolsa e espalhou pergaminhos no chão, como se fossem tapetes de papel. Um deles era tão velho que cheirava a chuva antiga.

“Este mapa foi desenhado por uma rainha,” disse ele. “Uma rainha guerreira, que falava com os rios.”

Ananda inclinou-se. No mapa havia linhas curvas, como caminhos de água, e três marcas: um elefante, uma estrela e uma concha. No canto, letras pequenas diziam: “Três passos, três tempos, um coração.”

“Parece fácil,” Ananda comentou. “Eu adoro coisas fáceis.”

Somchai riu. “As coisas fáceis costumam ser as mais difíceis, só para nos pregar partidas.”

Ananda pegou na peça de bronze e colocou-a sobre o desenho da concha. De repente, o bronze vibrou. Não era um som alto, mas um murmúrio musical, como uma tigela a cantar quando se passa o dedo na borda.

“Ouviste?” Ananda sussurrou.

“Ouvi,” Somchai respondeu, espantado. “O mapa… está a acordar.”

As linhas do mapa começaram a brilhar de um verde suave, como luz de vaga-lume. E, bem no meio, apareceu uma frase que antes não estava lá: “Vai ao Portão do Elefante. Leva uma palavra gentil.”

“Uma palavra gentil?” Ananda franziu a testa. “Eu ia levar uma espada.”

“Leva as duas,” Somchai disse, muito sério. “Mas usa primeiro a palavra.”

Eles atravessaram a cidade até ao Portão do Elefante, uma entrada enorme com esculturas de elefantes a erguerem trombas para o céu. À frente do portão havia um guarda velho, sentado numa sombra, a abanar-se com uma folha de palmeira.

“Bom dia!” Ananda disse, com voz clara. “O seu bigode é o mais respeitável que eu já vi.”

O guarda piscou, surpreendido. “O meu bigode?”

“Sim. Parece um pincel de pintar nuvens,” ela continuou, sem vergonha nenhuma. “Posso passar?”

O velho soltou uma gargalhada, tão redonda como o sol. “Pouca gente elogia bigodes. A maioria só pede. Passa, passa! E leva também isto.” Ele entregou-lhes uma pequena lanterna de óleo. “Para os corredores escuros. Mas não te preocupes: os escuros só assustam quando a gente não leva luz.”

Somchai fez uma vénia. “Obrigadíssimo.”

Ananda piscou para o guarda. “Vês? A palavra gentil funciona.”

E o mapa, dentro da bolsa de Somchai, voltou a cantar baixinho, como se aprovasse.

Capítulo 3: Três tempos, um coração

Depois do portão, havia um caminho de pedra que descia para ruínas cobertas de musgo. Pássaros azuis saltavam entre colunas partidas, e a água corria em canais antigos, ainda teimosa em cumprir o seu trabalho.

“Segundo o mapa, primeiro é o Elefante,” Somchai disse, apontando para uma estátua meio escondida. “Já passámos.”

“Depois é a Estrela,” Ananda falou, olhando para o céu. “Mas de dia quase não há estrelas.”

Somchai tirou a lanterna. “Talvez a estrela seja feita de outra luz.”

Eles entraram numa sala de pedra. No teto havia um buraco redondo, e um feixe de sol caía mesmo no centro, como um dedo dourado. No chão, uma estrela estava desenhada com pedras claras.

Ananda colocou a peça de bronze no meio da estrela. O ar ficou fresco, como se alguém tivesse aberto uma janela para a noite.

Uma voz suave apareceu, não de alguém escondido, mas de todo o espaço: “Quem pisa a estrela precisa de coragem. Coragem não é não ter medo. Coragem é avançar com cuidado e amor.”

Somchai engoliu em seco. “Eu… eu estou a avançar.”

“E com amor,” Ananda acrescentou, dando-lhe um toque no ombro. “Estás a tremer um bocadinho, mas isso é só o teu corpo a dizer que está vivo.”

A estrela brilhou e mostrou uma imagem no feixe de luz: um rio largo, com barcos de vela e bandeiras antigas. O mapa, na bolsa, mexeu-se sozinho, como um peixinho.

“É o segundo tempo,” Somchai murmurou. “O tempo do rio.”

“Vamos ao rio, então!” Ananda disse, já a andar.

Chegaram a uma margem onde um barco pequeno balançava. Não havia ninguém, mas o remo encostado parecia esperar. Ananda entrou sem cerimónia.

Somchai hesitou. “E se for perigoso?”

Ananda ergueu a lanterna. “Olha: nós temos luz, nós temos um mapa que canta, e eu tenho um elogio pronto para qualquer bigode de serpente. Vamos.”

O barco avançou sozinho, devagar, como se o rio conhecesse o caminho. A água fazia sons de risos pequenos: plip-plip.

No meio do rio, surgiram círculos na superfície, e uma cabeça enorme apareceu—não assustadora, mas brilhante, com olhos calmos. Era um Naga, uma serpente da água, com escamas que pareciam feitas de lua.

Somchai apertou as mãos. “S-s-senhor Naga…”

O Naga inclinou-se, como um rei educado. “Não precisam de medo. Medo comprido cansa o coração. Digam-me: por que procuram a chama adormecida?”

Ananda levantou o queixo. “Porque o nosso mundo esqueceu algumas coisas. Esqueceu de ouvir. Esqueceu de ter coragem. Eu quero acordar um poder… mas um poder que ensina, não que manda.”

O Naga fitou-a, como se lesse as palavras dentro dela. “A tua coragem é rápida, como um pássaro. Mas lembra-te: pássaros também pousam.”

Ananda respirou fundo. “Eu sei pousar. Às vezes.”

O Naga sorriu, e o rio pareceu sorrir junto. “O terceiro sinal é a Concha, no fundo do Lago dos Lótus. Lá dorme a chama. Só acorda com uma promessa.”

“Que promessa?” Somchai perguntou.

“Prometer voltar com sabedoria,” disse o Naga. “E partilhá-la. A chama não gosta de ficar sozinha.”

O barco voltou à margem como se fosse levado por mãos invisíveis. O Naga desapareceu em círculos de água, deixando apenas silêncio e um cheiro fresco.

Capítulo 4: A chama e o regresso da sabedoria

De volta ao lago dos lótus, o céu já estava cor de manga madura. O templo parecia maior, como se também estivesse à espera.

Somchai segurou o mapa e leu a frase que agora brilhava: “Um coração corajoso, uma palavra gentil, uma promessa verdadeira.”

“Eu já dei a palavra gentil,” Ananda disse. “E o coração… bem, ele bate forte.”

“E a promessa?” Somchai perguntou.

Ananda ajoelhou-se na margem do lago. A água era lisa, com folhas verdes e flores abertas como sorrisos. Ela colocou a peça de bronze na água. Em vez de afundar, a peça flutuou e girou, fazendo pequenos círculos de luz.

Ananda falou com calma, como se falasse com alguém querido: “Eu prometo acordar a chama para que ela ilumine, não para queimar. Prometo usar coragem para proteger, e sabedoria para ouvir. E prometo ensinar isto a quem esquecer.”

A água brilhou. Uma concha enorme subiu, devagar, sem salpicar, como se o lago fosse seda. A concha abriu-se, e dentro havia uma chama pequena, azulada, que não fazia fumo. Era uma chama tranquila, como um pensamento bom.

Somchai abriu a boca, mas só conseguiu sussurrar: “Que bonita…”

A chama ergueu-se um pouco e pousou na ponta do dedo de Ananda, sem a magoar. Ela sentiu um calor doce, como chá morno num dia de chuva.

Uma voz, agora bem perto, falou dentro do peito dela: “O poder dormia porque o orgulho gritava. Acorda porque a coragem escuta.”

Ananda sorriu. “Eu posso escutar.”

A chama transformou-se num fio de luz e entrou na peça de bronze, que ficou com um brilho suave. As flores de lótus inclinaram-se, como se fizessem uma vénia.

Somchai respirou aliviado. “Então… está feito?”

“Está começado,” Ananda respondeu. “Agora a parte mais difícil: voltar e partilhar.”

Eles caminharam pela cidade, e tudo parecia mais vivo: as pedras, os canais, os rostos de deuses esculpidos. No mercado, uma criança chorava porque tinha deixado cair uma fruta. Ananda agachou-se.

“Ei,” ela disse, “sabes o que é coragem?” A criança fungou. “É apanhar a fruta, limpar a poeira e tentar outra vez.”

A criança riu um pouco e fez exatamente isso.

Somchai observou Ananda e murmurou: “A chama não é só luz. É jeito de viver.”

Ananda tocou na peça de bronze, agora quente e calma. “O Naga tinha razão. Eu corro, mas também posso pousar.”

À noite, os sinos tocaram novamente. Ding… ding… E, no meio do som, parecia haver uma resposta antiga, como um rio que lembra o caminho: a sabedoria a voltar, passo a passo, para casa.

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