Parte 1: A missão depois da chuva
No alto de um monte verde, havia um castelo de pedra cinzenta com bandeiras coloridas. Naquela manhã, uma grande chuva tinha caído sobre o reino. Pingos grossos bateram nas janelas, e o céu ficou escuro como uma capa.
Quando a chuva parou, tudo brilhou. As folhas pareciam lavadas. O caminho de terra ficou cheio de poças que refletiam o céu.
No pátio do castelo, o Cavaleiro Tomás apertou o cinto da sua armadura. Ele era gentil e sorria com os olhos. No escudo, havia um desenho de um sol dourado.
O velho Rei Afonso chamou-o com voz firme:
— Cavaleiro Tomás, aproxima-te.
Tomás caminhou com passos calmos. A armadura fazia um som leve: clinc, clinc.
O rei apontou para as muralhas, onde uma bandeira grande costumava tremular.
— A nossa bandeira caiu durante a tempestade. Ela foi levada para lá… para além do bosque encharcado. Essa bandeira é o coração do nosso povo. Preciso que a tragas de volta, depois da aveia… — o rei engasgou e tossiu — depois da averse, da chuva, percebes?
Tomás inclinou a cabeça, corajoso:
— Sim, meu rei. Eu vou. E vou voltar.
A Princesa Leonor, com um vestido azul, deu um passo à frente. Ela segurava um pequeno lenço, preocupada.
— Tomás, o caminho está escorregadio. E o bosque parece diferente quando está molhado.
Tomás sorriu, com doçura:
— Eu tenho medo às vezes, princesa. Mas eu não deixo o medo mandar em mim.
O escudeiro Nico, um rapaz pequenino e esperto, trouxe o capacete de Tomás.
— Eu posso ir contigo? Eu sou rápido!
Tomás pensou um pouco. A missão era importante. Mas Nico tinha olhos atentos.
— Podes. Vais ajudar-me a pensar e a ver. Mas tens de me prometer uma coisa: se eu disser “para”, tu paras.
Nico endireitou-se:
— Prometo!
E assim, os dois saíram pelo portão do castelo. O sol apareceu por entre as nuvens, como se espreitasse para ver a aventura começar.
Parte 2: O bosque das poças e das surpresas
O caminho descia até ao bosque. A terra estava macia e húmida, e as botas faziam “chup-chup” no barro.
— Olha! — disse Nico. — As poças parecem espelhos!
Tomás viu o reflexo do seu capacete nas poças e riu baixinho.
— Espelhos que não dizem mentiras — falou ele. — Só mostram o que está.
À entrada do bosque, as árvores eram altas e tinham troncos escuros de chuva. Gotas caíam das folhas: plim… plim… plim…
De repente, ouviram um som:
CRAC!
Nico agarrou-se ao braço de Tomás.
— O que foi isso?
Tomás parou e levantou a mão.
— Calma. Vamos escutar.
Do meio dos arbustos saiu… um veado castanho. Tinha olhos grandes e um galho preso entre as hastes. Ele sacudiu a cabeça, aflito.
— Oh! — disse Nico. — Ele está preso!
Tomás aproximou-se devagar, com voz calma:
— Não tenhas medo, amigo.
O veado respirava rápido. Tomás colocou a mão com cuidado no galho e puxou. O galho saiu com um estalinho. O veado ficou livre.
O veado olhou para Tomás por um instante, como se dissesse “obrigado”, e correu para dentro do bosque.
Nico sorriu.
— Tu és mesmo gentil. Até com veados!
Tomás respondeu:
— A coragem também é isto: ajudar sem fazer barulho.
Continuaram. O bosque ficou mais fechado, como um corredor de folhas. E então veio o primeiro mini-problema: uma ponte de madeira sobre um riacho. Só que a ponte estava partida no meio, por causa da chuva.
A água corria depressa, fazendo “shhhhhh”.
Nico engoliu em seco:
— Como vamos passar?
Tomás olhou para os lados. Viu pedras grandes perto da margem. Viu um tronco caído, molhado, mas firme.
— Vamos pensar — disse Tomás. — A pressa faz tropeçar. A cabeça faz avançar.
Ele testou as pedras com a ponta da bota. Uma delas mexeu.
— Essa não — disse ele.
Nico apontou:
— E aquele tronco? Se o empurrares um pouco, ele pode encostar na outra margem.
Tomás gostou da ideia.
— Boa, Nico. És esperto.
Juntos, empurraram o tronco com esforço. Tomás fazia força com o ombro, Nico com as mãos pequenas. O tronco deslizou e encaixou de um lado ao outro do riacho.
— Uma ponte nova! — Nico deu um saltinho.
Tomás atravessou primeiro, com passos lentos para não escorregar.
— Lembra-te: um pé de cada vez.
Nico atravessou atrás, com a língua de fora de concentração. Quando chegou, levantou os braços.
— Consegui!
Logo depois, ouviram um som estranho, como um assobio longo: uuuuu…
Nico arregalou os olhos.
— Um fantasma?
Tomás inclinou a cabeça.
— Não. Fantasmas não cheiram a folhas molhadas.
O som vinha de uma árvore oca. O vento entrava e saía, fazendo o assobio.
Nico riu, aliviado.
— Ah! É só o vento a brincar.
— O vento às vezes assusta. Mas muitas vezes só canta — disse Tomás.
E então, numa clareira, viram algo vermelho e dourado preso num emaranhado de ramos e trepadeiras. Era a bandeira do reino! Estava suja de lama, mas ainda brilhava.
Nico apontou, excitado:
— Ali! A bandeira!
Tomás sentiu o coração bater mais forte. Mas havia um problema: a bandeira estava no alto, presa num ramo quebrado, sobre um chão cheio de lama funda.
— Se eu entrar aí, posso ficar preso — disse Tomás.
Nico olhou em volta. Viu um montinho de pedras. Viu uma corda velha caída, talvez de um caçador.
— Tomás, usa a corda! Amarra na tua cintura e em mim. Assim, se escorregares, eu puxo. Eu sou pequeno, mas posso chamar ajuda ou fazer força contigo.
Tomás ajoelhou-se, admirado.
— Nico, isso é inteligência e confiança. Vamos fazer com cuidado.
Amarraram a corda com um nó firme. Tomás testou o nó duas vezes.
— Confiança não é fechar os olhos — disse ele. — É preparar bem e seguir em frente.
Tomás entrou na lama devagar. A lama puxava as botas como mãos pegajosas.
— Ufa… — ele murmurou.
— Eu estou aqui! — disse Nico, segurando a corda com as duas mãos.
Tomás esticou o braço, tentando alcançar a ponta da bandeira. Quase… quase…
Um ramo estalou e a bandeira escorregou mais um pouco, ficando ainda mais longe.
Nico soltou um “oh!”:
— Ela está a fugir!
Tomás respirou fundo. O seu rosto ficou sério, mas não zangado.
— Não vai fugir. Eu não vou desistir.
Ele mudou de ideia. Olhou para o tronco caído ao lado e puxou-o com esforço para fazer uma espécie de apoio. Depois subiu nele, com cuidado para não cair.
Mais alto, ele conseguiu alcançar o tecido. Puxou com jeito, sem rasgar. O pano soltou-se com um “flap” suave.
— Consegui! — Tomás levantou a bandeira.
Nico gritou baixinho, como se a floresta fosse um salão de castelo:
— Viva!
Mas, ao tentar voltar, Tomás escorregou. A lama agarrou uma bota com força.
— Tomás! — Nico puxou a corda.
Tomás segurou a bandeira com uma mão e, com a outra, apoiou-se no tronco. Ele não entrou em pânico.
— Nico, puxa devagar. Não muito rápido.
Nico puxou com todo o cuidado que conseguiu. Tomás mexeu a perna, rodou o pé e libertou a bota com um “plop” engraçado.
Os dois caíram sentados na relva do lado de fora da lama. Estavam sujos, ofegantes… e a bandeira estava salva.
Nico riu.
— Pareceste um peixe a saltar!
Tomás riu também.
— Um peixe cavaleiro.
Eles limparam a bandeira como puderam, com folhas grandes e um pouco de água do riacho. O vermelho voltou a aparecer mais vivo.
Tomás segurou o pano junto ao peito.
— Agora, para casa.
Parte 3: O regresso e o vento suave
O caminho de volta pareceu mais curto, mas ainda tinha desafios. Uma poça enorme tinha crescido e cobria o trilho.
Nico apontou para umas pedras secas ao lado.
— Podemos saltar por ali, como se fossem ilhas!
Tomás assentiu.
— Ilhas de coragem.
Saltaram, um a um. Nico quase escorregou, mas Tomás segurou-lhe a mão.
— Obrigado — disse Nico, com voz baixinha.
— Um cavaleiro gentil não caminha sozinho — respondeu Tomás.
Quando saíram do bosque, o céu já estava claro. Uma luz dourada caía sobre as colinas. O castelo apareceu ao longe, com as suas torres altas.
No portão, o rei, a princesa e alguns guardas esperavam. Quando viram a bandeira, todos abriram sorrisos.
A Princesa Leonor bateu palmas.
— Ele voltou!
Tomás ajoelhou-se e entregou a bandeira ao rei. O pano, ainda um pouco húmido, parecia mais importante do que ouro.
O Rei Afonso colocou a mão no ombro de Tomás.
— Cavaleiro Tomás, tu és valente. Não por lutares com espadas, mas por não desistires quando o chão te puxa para baixo. Trouxeste a nossa bandeira depois da chuva. Trouxeste também esperança.
Tomás ficou corado.
— Eu tive ajuda, meu rei. O Nico pensou bem e segurou firme.
Nico endireitou-se, orgulhoso, mas sem se gabar.
— Eu só fiz a minha parte.
O rei sorriu.
— E isso é grande.
Os guardas subiram as escadas da muralha. Com cuidado, prenderam a bandeira no mastro. Ela subiu, subiu, até ficar no alto, onde todos podiam ver.
Por um segundo, o pano ficou pesado e quieto, por causa da humidade.
Nico sussurrou:
— E se ela não mexer mais?
Tomás olhou para cima, confiante.
— Vai mexer. Ela só precisa de um empurrãozinho do céu.
Como se tivesse ouvido, um vento leve passou pelo pátio. Não era um vento forte, nem zangado. Era um sopro macio, como uma mão carinhosa.
A bandeira abriu-se, devagar, e começou a dançar. Vermelho e dourado brilharam ao sol.
O rei falou alto para todos:
— Vede! A bandeira voltou! O nosso reino continua unido!
As pessoas aplaudiram. Nico olhou para Tomás com olhos brilhantes.
— Eu também posso ser corajoso, não posso?
Tomás ajoelhou-se para ficar à altura dele.
— Podes. Coragem é confiar em ti e tentar de novo. Mesmo quando a bota fica presa na lama.
Nico riu.
A Princesa Leonor aproximou-se e colocou no pescoço de Nico uma pequena fita azul.
— Para o escudeiro que teve um coração atento.
Nico segurou a fita, emocionado.
O rei ofereceu a Tomás um broche com o desenho de um sol.
— Para o cavaleiro gentil que trouxe luz depois da chuva.
Tomás agradeceu com uma reverência.
Nesse fim de tarde, sentaram-se no pátio para comer pão quentinho e sopa. A chuva já parecia uma história antiga. O castelo cheirava a pedra fresca e a alegria.
E lá em cima, no mastro, a bandeira tremulava ao ritmo do vento suave. Como se dissesse, bem baixinho:
“Confia. Segue. Volta.”