Capítulo 1: Manhã quente e planos simples
O sol já aquecia a rua quando o Tomás abriu a janela. O ar cheirava a pão acabado de fazer e a creme protetor. As férias de verão tinham começado e, mesmo assim, o Tomás sentia as pernas cheias de energia, como se fossem molas.
No portão, a Leonor apareceu com uma garrafa de água na mão. Atrás dela vinha o Gui, com uma bola de borracha, e a Marta, com um chapéu de palha quase do tamanho da cabeça.
“Hoje vamos fazer mil coisas!”, disse o Gui, a saltar no lugar.
A Marta riu. “Mil? Eu só trouxe um chapéu. Dá para umas… cinco coisas.”
O Tomás sorriu, mas por dentro sentiu um apertinho. Ele gostava de brincar, claro. Só que, às vezes, o barulho e a pressa deixavam-no cansado sem ele perceber.
A mãe do Tomás apareceu à porta com uma toalha dobrada. “Bom dia, exploradores. Lembrem-se: hoje à tarde há atividades na sala polivalente do village. É fresquinho lá dentro.”
“A sala polivalente!”, repetiu a Leonor. “A do teto alto e das janelas grandes!”
“Sim,” disse a mãe. “E podem levar um jogo para partilhar. Mas também podem aprender a fazer pausas. O verão não é só correr.”
O Gui fez uma careta divertida. “Pausas? Isso come-se?”
A mãe riu. “Come-se com os olhos. Olhar para as coisas com calma.”
O Tomás pensou nisso. Olhar com calma. Talvez fosse uma aventura diferente.
Eles passaram a manhã na rua. Jogaram à macaca com uma pedra lisa, fizeram uma corrida até à sombra da figueira e beberam água bem devagar. O chão estava quente, mas a sombra era fresca, como um abraço.
Mesmo assim, quando o Gui gritou “Mais uma corrida!”, o Tomás sentiu o peito a bater depressa demais.
A Leonor reparou. “Tomás, estás bem?”
“Estou… só um bocadinho cansado,” respondeu ele, meio envergonhado.
A Marta pôs a mão no chapéu, como se tivesse uma ideia guardada lá dentro. “Então vamos fazer uma coisa de férias: sentar e ouvir as cigarras.”
O Gui abriu muito os olhos. “Ouvir? Mas as cigarras não têm botão de volume!”
Todos riram. E, por uns minutos, eles sentaram-se na calçada, a ouvir o zzzzz suave das cigarras, como se o verão estivesse a cantar baixinho.
Capítulo 2: A sala polivalente e o calor lá fora
À tarde, caminharam até à sala polivalente do village. O sol fazia o ar tremer um pouco por cima da estrada. Quando entraram, foi como mergulhar numa sombra fresca. Lá dentro cheirava a madeira e a limpeza, e havia mesas compridas com folhas, lápis de cor e uma caixa cheia de jogos.
A senhora Ana, que organizava as atividades, acenou. “Olá, crianças! Hoje temos desenho, um canto de leitura e um espaço para jogos calmos.”
O Gui apontou para a caixa. “Jogos calmos? A minha bola é calma. Quando está parada.”
A senhora Ana sorriu. “Ótimo. Mas hoje vamos experimentar coisas que não precisam de correr. O corpo também gosta de descanso.”
O Tomás sentiu-se aliviado. Ele gostava de desenhar. Sentou-se com a Leonor e a Marta numa mesa perto da janela. A luz entrava em quadrados no chão.
“Vou desenhar o verão,” disse a Leonor. “Com limonada e melancia!”
A Marta começou a pintar um chapéu gigante a flutuar no céu. “O meu chapéu vai ser um balão. Para não perder a cabeça.”
O Tomás pegou num lápis azul e desenhou ondas pequenas, como as do rio onde tinham ido no ano passado. Enquanto desenhava, respirava mais devagar.
O Gui, ao lado, tentou ficar no canto de jogos calmos. Escolheu um puzzle, mas as peças pareciam fugir-lhe das mãos. “Isto é impossível,” resmungou. “Eu prefiro coisas que saltam.”
O Tomás olhou para ele e teve vontade de ajudar. Só que também queria continuar o desenho. Sentiu-se dividido, como um sanduíche com dois recheios.
A Leonor inclinou-se. “Podemos ajudar todos um bocadinho. Sem pressa.”
“Sem pressa,” repetiu o Tomás, como se fosse uma senha secreta.
Eles foram até ao Gui. O puzzle era de um farol com gaivotas. Algumas peças estavam ao contrário.
A Marta falou com cuidado. “Gui, vamos fazer assim: tu procuras as peças das bordas. Eu e o Tomás procuramos as do céu. A Leonor procura as do farol.”
O Gui cruzou os braços. “Mas eu queria ser o do farol.”
A Leonor encolheu os ombros, simpática. “Podemos trocar a meio.”
O Gui fez uma pausa. Os olhos dele olharam para o chão, depois para os amigos. “Está bem. Mas eu quero trocar mesmo, hein.”
“Combinado,” disse o Tomás.
Trabalharam em silêncio por um tempo. Só se ouvia o som das peças a baterem na mesa e uma ventoinha a soprar ao longe. O Tomás reparou como aquele silêncio não era vazio. Era um silêncio cheio de atenção.
Quando o puzzle ficou quase pronto, o Gui sorriu, mesmo tentando parecer sério. “Ok… isto até é fixe.”
A Marta apontou para uma gaivota no céu. “Vês? Até as gaivotas descansam a planar.”
O Tomás sentiu uma alegria calma. Como uma bola que, desta vez, não precisava de saltar para ser divertida.
Capítulo 3: O pequeno conflito das canetas
Depois do puzzle, voltaram às mesas de desenho. A senhora Ana trouxe uma caixa nova de canetas coloridas e pôs no meio.
“Podem partilhar,” disse ela. “E lembrem-se: aqui falamos com respeito.”
O Gui esticou a mão e pegou na caneta vermelha, a mais brilhante. A Leonor também queria o vermelho para desenhar uma melancia.
“Gui, posso usar a vermelha só um bocadinho?” perguntou a Leonor.
“Mas eu preciso dela,” respondeu o Gui, segurando com força. “O meu farol vai ter uma porta vermelha. Uma porta muito importante!”
A Leonor franziu a testa. “A minha melancia também é importante…”
O Tomás sentiu o calor subir, não do sol, mas da tensão. Ele não queria que discutissem. O verão era para estar leve, como o chapéu da Marta no desenho.
A Marta, com voz suave, disse: “Podemos resolver. Sem puxar, sem gritar.”
O Gui mordeu o lábio. “Mas eu… eu peguei primeiro.”
A Leonor olhou para a caneta e depois para o Gui. “Eu não quero brigar. Só não sei como fazer a melancia sem vermelho.”
O Tomás respirou fundo, lembrando-se do “olhar com calma”. Ele olhou para a caixa: havia um lápis cor-de-rosa escuro e uma caneta laranja-avermelhada.
“Leonor,” disse ele, “podes fazer a melancia com o rosa escuro e depois sombrear com o laranja. Fica diferente, mas bonito. E, Gui, podes usar a vermelha primeiro e depois emprestas por dois minutos. A senhora Ana tem um relógio ali.”
O Gui olhou para o relógio de parede, que fazia tic-tac como um coração. “Dois minutos?”
“Sim,” disse a Marta. “Podemos contar juntos. E depois trocam.”
A Leonor concordou com a cabeça. “Está bem. Eu posso experimentar o rosa.”
O Gui soltou um pouco a mão. “Ok. Mas prometem que me avisam quando acabar?”
“Prometemos,” disseram os três.
Enquanto o Gui desenhava a porta do farol, o Tomás observou. O Gui fazia um traço bem cuidadoso, como se a porta fosse de verdade. A Leonor, com o rosa e o laranja, fez uma melancia diferente, com um brilho engraçado.
“Parece uma melancia ao pôr do sol!” brincou a Marta.
A Leonor riu. “Melancia de férias!”
Quando o tempo passou, o Tomás disse com voz tranquila: “Gui, os dois minutos.”
O Gui entregou a caneta vermelha sem reclamar. “Pronto. Até é justo.”
A Leonor usou a vermelha para as sementes e devolveu logo. “Obrigada.”
O Tomás sentiu o corpo leve outra vez. Eles não precisaram de empurrões nem de zangas. Só precisaram de palavras e de tempo.
Capítulo 4: O fim do dia e um abraço fresco
No final da tarde, a senhora Ana juntou os desenhos numa parede. A sala polivalente parecia uma pequena exposição de verão: faróis, melancias, ondas, chapéus voadores. As cores brilhavam como gelados.
“Vocês trabalharam muito bem,” disse ela. “E resolveram problemas com calma. Isso também é aprender.”
Ao sair, o calor lá fora já estava mais suave. O céu tinha uma cor dourada, e o ar cheirava a relva regada. Eles caminharam devagar, sem correr, como se quisessem guardar aquele pedaço de tarde no bolso.
O Gui chutou uma pedrinha, mas sem força. “Acho que até gosto de jogos calmos… às vezes.”
A Marta levantou o chapéu e abanou-se. “O segredo é alternar. Um pouco de correr, um pouco de parar.”
A Leonor olhou para o Tomás. “E tu, Tomás? Gostaste de fazer pausas?”
O Tomás pensou nas cigarras, no puzzle, no tic-tac do relógio, e no silêncio cheio. “Gostei. Descobri que, quando eu paro um bocadinho, eu ouço melhor… e fico mais feliz.”
Chegaram à casa do Tomás. A mãe estava à porta. “Então? Como correu?”
O Tomás mostrou o desenho das ondas. “Correu bem. Tivemos um problema com uma caneta, mas resolvemos a falar.”
A mãe pegou no desenho com cuidado. “Que orgulho. E o teu corpo, como se sente?”
“Calmo,” disse o Tomás, e foi verdade. “Como sombra numa tarde quente.”
A mãe abriu os braços. “Então vem cá.”
O Tomás entrou no abraço dela. Era um abraço fresco, como a sala polivalente, e seguro, como a sombra da figueira. Atrás dele, ouviu os amigos a despedirem-se com risos baixos.
“Até amanhã!” gritou o Gui.
“Até amanhã,” respondeu o Tomás, ainda abraçado.
E a noite começou a chegar devagar, sem pressa, como as melhores coisas do verão.