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História sobre a confiança em si mesmo 11 a 12 anos Leitura 13 min.

Um minuto de coragem do Tomás

Um rapaz tímido enfrenta o medo de gravar um minuto em inglês, praticando com pequenos passos e aprendendo a respirar e a persistir. A história acompanha seus ensaios, tropeços e descobertas de coragem.

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Um garoto de 12 anos, rosto levemente corado, sorriso tímido mas decidido, olhos concentrados; cabelos castanhos curtos, suéter azul vivo e jeans, sentado diante de um microfone de estúdio com fones nas orelhas, uma mão no botão vermelho de gravação e a outra sobre uma folha de notas amassada; a mãe (~35 anos) está discretamente junto à porta com a mão na maçaneta e olhar tranquilizador, a irmã adolescente (~16 anos) apoia-se numa mesa atrás dele sorrindo e dando um joinha, e um professor (~40 anos) de óculos e jaqueta sóbria observa um pouco afastado com uma tablet; ambiente de laboratório de línguas moderno com fileiras de computadores, micro estreito em pedestal, grandes fones pretos, pôsteres nas paredes, luz branca suave e uma pequena lâmpada amarela iluminando a folha; o momento exato em que ele aperta “gravar” e a luz vermelha acende, atmosfera de concentração, mistura de apreensão e coragem, partículas de poeira visíveis num feixe de luz que reforçam a intimidade da cena. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — Um objetivo do tamanho do bolso

O Tomás tinha 11 anos e um hábito: pensar muito antes de agir. Às vezes, pensava tanto que o corpo ficava parado, como um boneco na prateleira.

Naquela noite de segunda-feira, ele estava sentado na cama, com a luz do candeeiro a fazer um círculo amarelo no caderno. Lá fora, a rua respirava devagar. Um carro ao longe. Um cão a ladrar uma vez e a calar-se.

A escola tinha avisado: na sexta-feira, cada aluno ia gravar um áudio no laboratório de línguas. Em inglês. Um minuto. Só um minuto… mas para o Tomás parecia uma montanha.

Ele escreveu no topo da página: “OBJETIVO”.

E por baixo, com letra cuidada:

“Vou falar um minuto em inglês sem fugir a meio.”

Ficou a olhar para aquilo como quem olha para uma porta fechada.

— Um minuto… — murmurou. — Eu nem consigo falar um minuto sobre o meu pequeno-almoço em português sem me distrair.

A mãe apareceu à porta, com a camisola de pijama e um sorriso de quem não faz barulho.

— Ainda acordado, campeão?

Tomás encolheu os ombros.

— Sexta-feira… laboratório de línguas. Tenho de gravar. E se eu… engasgo? E se me dá um branco?

A mãe sentou-se na beira da cama. A colcha afundou um bocadinho, confortável.

— E se te dá um branco… respiras. E dizes uma frase simples. E continuas. Um passo. Depois outro.

Tomás franziu o nariz.

— Isso é fácil de dizer.

— Sim — ela concordou, sem pressa. — Mas também é possível de fazer. E não tens de ser perfeito. Tens de ser tu.

Ele ouviu a palavra “tu” como se fosse uma coisa importante, como um casaco que se veste por dentro.

— Vou tentar — disse, baixinho. Não era um “sim” enorme. Era um “sim” do tamanho do bolso. Mas era um sim.

Capítulo 2 — Ensaios pequenos, coragem miúda

No dia seguinte, o Tomás decidiu treinar de um modo que não assustasse.

Na cozinha, enquanto o leite aquecia, ele abriu o frigorífico e falou para o iogurte, como se o iogurte fosse um professor muito exigente.

— Hello… my name is Tomás. I am eleven years old.

O iogurte não se riu. Ponto para o Tomás.

A irmã mais velha, a Leonor, entrou e apanhou a cena a meio. Ficou a olhar para ele, com uma sobrancelha levantada.

— Estás a fazer amizade com o iogurte?

Tomás corou.

— Estou a… praticar.

— Boa. — A Leonor abriu a gaveta dos talheres. — Praticar é mais fixe do que fingir que não existe.

— Fixe para ti. Tu falas como uma rádio.

— Eu também tremi, sabias? No meu primeiro debate. Só que tremi por dentro. — Ela apontou para o peito. — Truque: fala devagar. E se te enganares, repetes. Ninguém vai chamar a polícia do inglês.

Tomás deixou escapar uma risada.

— A polícia do inglês… “Pare! Disse ‘he have'! Mãos ao ar!”

Leonor fez voz grossa:

“You are under arrest for crimes against grammar!”

Riram os dois, e o riso tirou um pouco do peso do minuto.

Mais tarde, no quarto, ele escreveu um mini-texto. Coisas reais. Coisas dele.

A sua bicicleta azul. O cão do vizinho que se chama Trovão e tem medo de aspiradores. A sua comida preferida: massa com atum (e muito queijo, se ninguém estiver a contar calorias).

Releu e sentiu o coração bater rápido. Não de pânico. De vontade.

— Um passo — disse para si mesmo. — Depois outro.

Capítulo 3 — O laboratório de línguas cheira a plástico e a coragem

Na sexta-feira, o corredor da escola parecia mais comprido do que o normal. As paredes tinham cartazes de verbos irregulares e mapas do mundo. Tomás caminhou com a turma até ao laboratório de línguas.

A porta abriu-se com um clique. Lá dentro havia computadores alinhados, fones grandes, microfones finos. O ar cheirava a plástico aquecido e a detergente. As luzes eram brancas, direitas, como se não permitissem mentiras.

O professor Rui falava com calma, como quem regula o volume de um rádio.

— Um de cada vez. Sentam-se, colocam os fones, testam o microfone. Depois carregam em gravar. Lembrem-se: não estamos a avaliar quem é perfeito. Estamos a avaliar quem tenta.

Tomás ouviu a palavra “tenta” e segurou-se nela.

O colega ao lado, o Mauro, abanava a perna como uma mola.

— Estou lixado — sussurrou. — Eu escrevi um texto e agora parece que está numa língua de marcianos.

Tomás engoliu em seco.

— Se calhar os marcianos falam bem. — Tentou uma piada. A voz saiu fina.

Mauro soltou um meio sorriso.

— Se eu for raptado por marcianos, ao menos vou ter com quem praticar.

A Inês, do outro lado, inclinou-se.

— Tomás, tu tens sempre cara de quem está a pensar numa estratégia secreta.

Tomás piscou.

— A minha estratégia secreta é… sobreviver.

— Funciona — disse a Inês. — Eu também estou nessa.

Chegou a vez dele. O professor chamou:

— Tomás, podes ir para o computador 7.

O número 7 parecia um destino.

Tomás sentou-se. As mãos estavam um pouco húmidas. Colocou os fones. O som do mundo ficou mais longe, como se estivesse debaixo de água. Testou o microfone.

— Teste… um, dois… hello…

A própria voz, ampliada, assustou-o por um segundo. Parecia mais séria. Mais alta. Como se estivesse a ser ouvida por toda a escola, por toda a cidade, por toda a Via Láctea.

— Respira — lembrou-se.

Carregou em “Gravar”.

Capítulo 4 — Um minuto, três respirações e um tropeção

O indicador vermelho acendeu. O tempo começou a contar.

Tomás olhou para o papel. Mas decidiu não ficar preso. Ele queria falar, não ler como um robot.

— Hello. My name is Tomás. I am eleven years old. I live in a small… — parou.

A palavra “street” desapareceu. Puf. Como uma bolha.

O silêncio dentro dos fones pareceu enorme. Tomás sentiu o calor a subir-lhe ao rosto.

“E se me dá um branco… respiras.” Lembrou-se da mãe. Lembrou-se da Leonor: “Ninguém vai chamar a polícia do inglês.”

Ele respirou. Uma. Duas.

— I live in a small… road. — disse, escolhendo outra palavra. Não era perfeita, mas era verdadeira.

Continuou, com frases curtas, como passos em pedra molhada.

— I like my blue bicycle. I ride it after school. Sometimes I go too fast and my hair looks… crazy.

Quase se riu ao dizer “crazy”. Imaginou-se no espelho, cabelo em pé, vento a fazer festas bruscas.

— My neighbor has a dog. His name is Thunder. He is big, but he is afraid of the vacuum cleaner.

Tomás percebeu que estava a falar. Estava mesmo. Não a fugir, não a esconder-se. A falar.

Houve outro tropeção, pequeno: disse “he are afraid”. Ouviu o erro, e o coração deu um salto.

Mas, em vez de parar, corrigiu, simples:

— He is afraid.

E seguiu.

— My favorite food is pasta with tuna and cheese. A lot of cheese. — Fez uma pausa e acrescentou, com coragem e humor: — Maybe too much cheese.

O minuto aproximava-se do fim. Tomás respirou outra vez, mais leve.

— This is me. Thank you for listening.

Parou a gravação.

O indicador vermelho apagou-se. E com ele apagou-se um bocadinho do medo.

Ele ficou quieto, só a ouvir o próprio coração, que agora parecia bater num ritmo mais normal, como uma música conhecida.

Capítulo 5 — Ouvir-se a si mesmo (e não desatar a fugir)

O professor Rui aproximou-se, como quem não quer assustar um animal tímido.

— Queres ouvir?

Tomás engoliu. Ouvir a própria voz era como olhar para uma fotografia em que se vê uma orelha esquisita. A vontade era dizer “não, obrigado, adeus, vou ali mudar de escola”.

Mas ele lembrou-se do objetivo no caderno. E do sim do tamanho do bolso.

— Quero — disse. E a palavra saiu firme, surpreendendo-o.

Carregou em “Reproduzir”.

A voz do Tomás encheu os fones. Era ele… mas também era um Tomás diferente: um Tomás que não desistiu quando a palavra sumiu. Um Tomás que corrigiu um erro sem drama. Um Tomás que fez uma piada sobre queijo.

Ele ouviu o “road” e pensou: “Não é street, mas dá para entender.” Ouviu o “He is afraid” e pensou: “Eu consegui consertar.”

Sentiu uma coisa rara: respeito por si mesmo. Não orgulho gigante. Respeito calmo.

Mauro passou atrás e sussurrou:

— Então? Sobreviveste?

Tomás tirou um lado dos fones.

— Sobrevivi. E… até foi. — Procurou a palavra certa. — Foi melhor do que eu achava.

Mauro arregalou os olhos.

— Não me dês esperança, que eu ainda desmaio.

Tomás riu.

— Se desmaiares, eu gravo por ti: “My friend Mauro is sleeping dramatically.”

A Inês levantou o polegar.

— Vês? Estratégia secreta.

O professor Rui assentiu.

— Boa gestão do silêncio, Tomás. O silêncio não é inimigo. Às vezes é só uma pausa para respirar.

Tomás guardou essa frase como se fosse um bilhete no bolso.

Capítulo 6 — Um “sim” medido para o próximo passo

Nessa noite, o Tomás voltou ao seu quarto. A rua lá fora respirava devagar outra vez. O candeeiro fazia o mesmo círculo amarelo no caderno, como se o mundo repetisse a cena para ele a completar melhor.

Abriu na página do “OBJETIVO”. Por baixo, escreveu:

“Consegui falar um minuto. Tive um branco. Respirei. Continuei.”

Leu em voz baixa, para que o quarto também aprendesse.

— Eu não fui perfeito. Eu fui persistente.

A mãe apareceu à porta, igual à outra noite, como uma repetição boa.

— Então? Como correu?

Tomás pensou no microfone, no indicador vermelho, no silêncio, no “road”, no “He is afraid”, no “too much cheese”.

— Correu… — começou. E depois escolheu ser honesto. — Correu com medo. Mas correu.

A mãe entrou e deu-lhe um beijo no cabelo.

— Correu contigo. É o que importa.

Tomás olhou para o caderno mais uma vez e escreveu um novo objetivo, pequeno, possível:

“Na próxima semana, vou levantar a mão uma vez na aula de inglês.”

Ficou a observar a frase. O medo não desapareceu por magia. Mas parecia menor, como uma sombra quando se acende uma luz.

Ele deitou-se. Puxou a colcha até ao queixo. Sentiu o corpo pesado e seguro.

— Eu digo… sim — sussurrou para o escuro. Não um sim gigante, não um sim barulhento. Um sim medido. Um sim que cabe na palma da mão. Um sim que dá para levar para amanhã.

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Hábito
Ação que se repete muitas vezes, como um costume diário.
Candeeiro
Objeto que dá luz dentro do quarto ou na mesa.
Prateleira
Tábua fixa na parede onde se põem livros ou bonecos.
Laboratório
Sala na escola com computadores e material para aprender línguas.
Gravar
Guardar som ou voz num aparelho para ouvir depois.
Microfone
Pequeno aparelho que capta a voz para a gravação.
Indicador vermelho
Luz que mostra que a gravação está a acontecer.
Detergente
Produto usado para limpar e tirar sujidade das coisas.
Estratégia secreta
Plano pessoal e simples que alguém usa sem explicar a todos.
Persistente
Pessoa que continua a tentar, mesmo quando é difícil.
Silêncio
Ausência de som, momento calmo sem barulho.
Pausa
Pequeno intervalo para respirar ou pensar antes de falar.

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