Capítulo 1 — O pedido brilhante
Tomé tinha sete anos e um chapéu que fazia cócegas na cabeça quando ele ria. Morava na torre da Dona Celeste, a vizinha que fazia chá de estrelas e cozinhava bolos que piscavam. Numa manhã azul-claro, Dona Celeste chamou Tomé com um tom que parecia uma flauta a dançar.
"Tomé, preciso de ti," disse ela, puxando do bolso um objecto pequeno e redondo que brilhava como um sorriso — o compasso da amizade. "A Hora das Luas está atrasada. As luas andam a brincar entre as nuvens e a rirem-se umas das outras. Preciso que as arrumes."
Tomé pegou o compasso. Ele pesava como uma promessa e, quando Tomé sorriu, o ponteiro apontou para o seu coração. Era um compasso que só funcionava com gentileza. "Eu vou," respondeu Tomé, com os olhos a cintilar como dois peixinhos de luz.
Dona Celeste entregou-lhe uma sacola com ferramentas: uma chave de prata, uma escova para poeira lunar e um saco de bolinhas de pão para as luas famintas. "E cuidado com as vassouras," avisou ela, piscando. "Elas são... facéticas."
Assim começou a missão de Tomé: subir até o Relógio das Luas, no alto da Colina do Sussurro, onde cada lua tinha um tique diferente e a noite contava histórias.
Capítulo 2 — Vassouras que dançam
Ao subir a colina, Tomé encontrou o primeiro problema: um comboio de vassouras corria à sua frente, rodopiando como piões. Uma delas, de nome Pipo, deu um salto e pousou bem no chapéu de Tomé.
"Oi!" trinou Pipo, fazendo cócegas no cabelo dele. As outras vassouras riram em coro, um som que parecia puré de nuvem.
Tomé podia ter empurrado as vassouras, mas o compasso tremeluziu e apontou para a mão que se oferecia. Em vez disso, Tomé cantou uma canção curta que sua avó lhe ensinara, uma canção de limões e luares. A voz dele era como mel rápido. Uma a uma, as vassouras acalmaram as cerdas. Pipo pousou no ombro de Tomé e disse:
"Se nos fizeres festa, levamos-te a toda a parte!"
Assim, as vassouras tornaram-se transporte e companhia. Voaram por sobre campos de trigo que cochichavam segredos, passando por nuvens que faziam bolhas brancas. O compasso da amizade brilhava quando Tomé partilhava um pedaço de pão com cada lua que encontravam. Quando alguém se sentia triste, o ponteiro inclinava-se e sussurrava: "Sê gentil."
Chegaram ao relógio. Era uma torre redonda com quatro lunetas, cada uma com uma lua diferente: a Lua de Prata, a Lua de Mel, a Lua de Pano e a Lua de Chuva. As lunetas rodopiavam desordenadas, como carrinhos de parque. Uma risada travessa escapava do relógio, e as luas pareciam molas fora do lugar.
Capítulo 3 — O segredo da engrenagem
Tomé subiu as escadas que rangiam como acordeões. No salão do relógio havia peças soltas: engrenagens que pareciam rodas de queijo, parafusos com olhos e um velho carretel que bocejava. No centro, em cima de um pedestal, uma pequena lua de vidro tremia. Era a lua coração — a peça que marcava o tempo das outras luas.
Mas a lua coração estava coberta por um ninho de vassouras felpudas, que tinham decidido fazer um piquenique ali. "Nós guardamos a lua," explicou Pipo, com um ar culposo. "Ela cheirava a biscoitos."
Tomé sorriu. O compasso pulsou como um tambor de marinheiro. Ele sabia que, para que a lua coração voltasse ao seu lugar, precisava de algo mais do que força: precisava de calma. Então, sentou-se no chão e contou uma história às vassouras: uma história sobre uma lua que aprendeu a dançar devagar.
As vassouras ouviram com atenção. Uma delas fechou as cerdas como se fossem pálpebras. Quando Tomé terminou, as vassouras espreguiçaram-se e moveram-se, arrumando-se de forma ordeira ao redor do pedestal, formando uma escada macia. Tomé subiu e, com a chave de prata, encaixou a lua coração no seu lugar com um clique que soou como um beijo.
"Está feito!" exclamou Tomé. As lunetas pararam de rodopiar e respiraram fundo. A Lua de Mel deu uma lambida de luz, a Lua de Pano ajeitou o seu lenço e a Lua de Chuva sacudiu gotas que viraram pérolas.
Mas ainda havia uma última coisa: o relógio precisava de uma contagem suave para voltar a marcar as noites. Tomé colocou a mão sobre a lua coração e, lembrando-se do compasso, sussurrou uma palavra gentil para cada lua. O compasso brilhou, e um som doce começou a sair do relógio, como pombas a bater asas devagar.
Capítulo 4 — O riso que acalma
Quando o relógio voltou a andar, as luas alinharam-se como colares brilhantes. Lá fora, as crianças adormeciam com sonhos de balões. As vassouras fizeram uma salva-de-cerdas e Pipo fez uma mini coreografia que deixou Tomé a rir até a barriga doer.
"Tu conseguiste, Tomé!" disse Dona Celeste, que apareceu na entrada como um fumo cheiroso de canela. Tomé entregou-lhe o compasso da amizade. O ponteiro bateu palmas silenciosas quando Dona Celeste o colocou no peito do rapaz por um momento, como se dissesse: "Bom trabalho, meu querido."
Antes de partir, Tomé deu um abraço nas vassouras. Elas responderam com uma vibração suave, como cordas de violão afinadas. "Volta sempre que a noite precisar de calma," murmurou a Lua de Prata.
Tomé desceu a colina montado numa vassoura que agora voava certinha, como se tivesse aprendido a andar de bicicleta. Pelo caminho, contava as estrelas, que piscavam mais devagar, em ritmo de ninar. O compasso descansou, encostado ao seu peito, e o ponteiro apontou para o coração de Tomé como se dissesse: "Acalma-te."
Quando chegou à torre, Tomé sentou-se à janela. A lua do relógio mandou-lhe um beijo prateado. Ele riu, um riso pequeno e largo, como um rio que encontra um lago tranquilo. O riso foi-se tornando suave, baixinho, até que se transformou num suspiro feliz. No silêncio que ficou, havia paz — uma paz que parecia um cobertor quente e macio.
E assim, sob o brilho das luas bem arrumadas, Tomé adormeceu com um sorriso. Do lado de fora, a noite sorriu também, e o mundo inteiro pareceu suspirar de alívio. O último som, antes do sono, foi um riso que se apaziguou, como sinos a adormecer.