Capítulo 1 – O Começo de Trás para Frente
No dia em que tudo começou ao contrário, Tomás acordou de pijama... mas com os pés na almofada e a cabeça aos pés da cama. Espreguiçou-se, abriu um olho, depois o outro, e percebeu que até o sol tinha nascido do lado errado da janela.
“Que estranho… será que a casa decidiu brincar comigo?”, murmurou, esfregando os olhos, ainda meio amassado como pão fresco.
Ao sair do quarto, encontrou o pequeno gato, Miúdo, a caminhar de costas, como se estivesse a desfilar numa passarela invisível. O relógio da sala girava no sentido contrário, e o leite do pequeno-almoço saltava do copo para a garrafa. Tomás riu-se tanto que quase ficou com soluços.
No entanto, o mais engraçado foi mesmo quando abriu a porta da rua e, em vez do jardim, encontrou uma enorme esplanada cheia de espelhos de todos os tamanhos e feitios. Havia espelhos redondos, quadrados, altos como girafas e baixinhos como cogumelos. Todos brilhavam ao sol, piscando para Tomás como se fossem velhos amigos.
Capítulo 2 – A Esplanada dos Espelhos Engraçados
Tomás deu um passo à frente e, de repente, ouviu um barulhinho: plim! Olhou para baixo e viu um pequeno caillou cor-de-laranja a brilhar mesmo à sua frente. “Olá! Podes levar-me no bolso?”, disse o caillou, com uma vozinha fina e alegre.
Tomás sorriu, apanhou o caillou e enfiou-o na algibeira. “És falador, hem? Espero que gostes de aventuras de cabeça para baixo!”, brincou Tomás.
À medida que caminhava pela esplanada, cada espelho mostrava um reflexo diferente e engraçado: num, Tomás tinha orelhas de coelho; noutro, pernas de centopeia; e, no espelho mais baixinho, aparecia com um bigode de espuma de leite.
O caillou ria-se em surdina e dizia: “Olha para aquele! Agora tens cabelo de algodão doce!” Tomás não conseguia parar de rir. Era como estar preso numa caixa de surpresas, mas sem tampa e com muitos sorrisos.
Capítulo 3 – O Desafio do Espelho Ziguezague
No centro da esplanada, havia um espelho gigante em forma de ziguezague. Era impossível evitar, pois brilhava tanto que parecia chamar pelo nome de Tomás. Quando se aproximou, o espelho começou a tremer e falou com voz de trovão de algodão:
“Para atravessar e sair deste lugar, tens de conseguir andar para trás sem tropeçar e sem deixar cair o teu novo amigo caillou!”
Tomás olhou para o caillou, que deu um pulinho dentro do bolso. “Pronto para a missão?”, perguntou Tomás. O caillou respondeu: “Sempre!”
Tomás inspirou fundo e começou a andar para trás. Primeiro, um passo de cada vez, como se estivesse a dançar ao contrário. O caillou fazia cócegas sempre que Tomás hesitava. “Não pares! Estamos quase!”, incentivava ele.
No caminho, Tomás teve de saltar sobre uma poça de espuma, passar por um espelho que o fazia parecer uma girafa a dançar ballet e rodopiar quando ouviu um espelho a cantar uma canção de caracóis. Cada desafio era mais divertido que o anterior, e Tomás ria-se tanto que o caillou, coitado, quase ficou zonzo.
Capítulo 4 – A Saída Surpreendente
Depois de muitos passos de dança ao contrário e gargalhadas pelo caminho, Tomás chegou ao fim do espelho ziguezague. Do outro lado, uma porta dourada apareceu, brilhando como se fosse feita de raios de sol em dia de passeio.
Antes de sair, Tomás olhou para o caillou. “Ficas comigo?”, perguntou, já a imaginar novas aventuras. O caillou respondeu: “Claro! No teu bolso, tudo é divertido, até andar de trás para a frente!”
Tomás abriu a porta, e, num piscar de olhos, estava de volta ao jardim de casa. Tudo parecia normal outra vez: o gato já andava para a frente, o relógio marcava as horas certinhas, e o leite do pequeno-almoço estava onde devia. Só o caillou, no bolso, brilhava como se tivesse guardado um bocadinho da esplanada dos espelhos engraçados.
Capítulo 5 – Um Final de Sorrisos
Tomás sentou-se no degrau da porta, com o sol a aquecer-lhe o rosto e o caillou a dar voltas no bolso, como um pião contente. O menino pensou em tudo o que tinha vivido: espelhos que falam, reflexos de coelho, bigodes de espuma e passos de dança ao contrário.
“Às vezes, o mundo fica um bocadinho ao contrário só para nos ensinar a rir de nós próprios”, disse Tomás, sorrindo para o caillou.
E, nessa tarde, sempre que o vento fazia as folhas dançarem, Tomás tinha a certeza de ouvir um riso pequenino e alegre, como o som de um caillou a saltitar no bolso de um menino feliz.
E assim, devagarinho, como quem fecha um livro depois de uma boa história, o dia foi terminando, sereno e doce, pronto para um novo começo… talvez, quem sabe, de trás para a frente outra vez.