Parte 1
O ogre Tito acordou com o sol a fazer cócegas na janela. Ele bocejou devagar. A sua cama era grande, feita de folhas macias e mantas de lã. Tito era um ogre, sim. Mas era um ogre gentil. Tão gentil que as borboletas pousavam no seu nariz sem medo.
Lá fora, a floresta brilhava. As folhas pareciam dizer “bom dia” com um sussurro. Tito cheirou o ar e sorriu.
“Cheira a pão doce”, disse ele.
No caminho, ele encontrou uma pedra redonda, bem lisinha, com um risquinho em forma de sorriso. Tito pegou nela com cuidado.
“Olá, pedrinha sorridente”, falou ele. “Queres vir comigo?”
A pedrinha não respondeu, mas pareceu ficar ainda mais contente no bolso do ogre.
Tito andou, andou. Os seus passos faziam “tum… tum… tum”, como um tambor calmo. E ele cantou baixinho, só para a floresta ouvir:
“Tum tum, passo grande,
coração pequeno… e muito, muito amável.”
Perto do riacho, uma luz dourada apareceu. Não era forte. Era suave, como uma vela. Da luz saiu uma criatura pequenina, com asas finas e um chapéu de folha.
Era uma fada.
A fada pousou numa pedra e fez uma vénia.
“Bom dia, Tito”, disse ela.
“Bom dia”, respondeu o ogre, com voz doce. “Eu não te conheço… mas gosto do teu chapéu.”
A fada riu, um riso pequenino. “Chamo-me Lili. E eu sei quem tu és. És o ogre que diz ‘por favor' às árvores.”
Tito coçou a cabeça, um pouco envergonhado.
“Eu só… gosto de ser simpático.”
Lili apontou para o caminho.
“Hoje a floresta vai ter uma visita. Um ancião muito antigo vai passar por aqui. Ele ajuda quem é gentil.”
“Um ancião?”, perguntou Tito. “Como um avô?”
“Sim”, disse Lili. “Um avô muito, muito velho. Com passos lentos e olhos que sabem histórias.”
Tito sentiu o coração a bater forte, mas de um jeito bom.
“Eu quero dizer ‘obrigado' a ele”, falou Tito. “Posso?”
“Podes”, disse Lili. “E é uma boa ideia.”
Parte 2
Tito e Lili seguiram juntos. O caminho parecia um tapete verde. Aqui e ali, havia flores roxas e amarelas, como confetes.
De repente, um barulho: “ploc… ploc… ploc”.
Tito parou.
“Que som é esse?”
Lili espreitou por trás de uma folha.
“É um unicórnio a beber água.”
E era mesmo. Um unicórnio branco, com uma crina cor-de-rosa, bebia no riacho. Quando viu Tito, levantou a cabeça. Os olhos eram brilhantes, mas tranquilos.
“Olá”, disse o unicórnio, com voz de sino.
“Olá”, disse Tito. “Eu sou o Tito. Eu sou grande… mas sou amigo.”
O unicórnio inclinou a cabeça. “Eu sou Nuvem. Eu gosto de amigos.”
Tito sorriu tão largo que quase parecia um arco-íris.
“Estamos a procurar um ancião antigo”, contou Tito. “Quero agradecer.”
Nuvem deu um passo leve. “Eu sei onde ele passa. Sigam-me. Eu conheço os caminhos macios.”
Enquanto andavam, uma sombra divertida apareceu entre as árvores: um dragão pequeno, do tamanho de um cão. Tinha escamas verdes e bochechas redondas.
Ele espirrou. “Atchim!”
E saiu uma bolha de sabão, que flutuou no ar.
Tito abriu os olhos.
“Um dragão de bolhas!”
O dragão sacudiu a cauda, orgulhoso.
“Eu sou Pipo”, disse ele. “Eu não faço fogo. Eu faço ‘plim-plim'.”
E soprou mais uma bolha que virou um coração.
Lili bateu palmas.
“Que lindo!”
Pipo aproximou-se de Tito, sem medo.
“Tu és enorme”, disse Pipo.
“E tu és… muito engraçado”, respondeu Tito. “Posso guardar uma bolha no meu bolso?”
Pipo riu. “Bolha não gosta de bolso. Mas gosta de nariz.”
E colocou uma bolha na ponta do nariz do ogre.
Tito ficou muito sério, para não a rebentar.
“Eu sou um ogre com bolha”, sussurrou ele, e todos riram baixinho, sem fazer muito barulho.
Chegaram a uma clareira. No meio havia uma árvore muito velha. O tronco era largo. As raízes pareciam braços a abraçar a terra. Debaixo da árvore, estava o ancião.
Ele tinha uma barba longa, branca como leite. Usava um manto cor de terra. E o seu sorriso era calmo.
“Bem-vindos”, disse ele. “Eu sou Avô Carvalho.”
Tito deu um passo à frente, devagar.
“Avô Carvalho… eu queria agradecer.”
O ancião olhou para Tito com olhos quentes.
“Por quê, grande amigo?”
Tito respirou fundo.
“Porque a floresta me ensina todos os dias. Ensina-me a ser gentil. E tu… tu guardas as histórias da floresta. Eu sinto isso.”
Avô Carvalho assentiu.
“A gentileza é uma chave. Abre portas que não se veem.”
Tito tirou do bolso a pedrinha sorridente.
“Eu trouxe isto para ti. É pequena, mas é feliz.”
Avô Carvalho pegou na pedra com cuidado, como quem pega numa estrela.
“Obrigada, Tito”, disse ele. “Uma pedra com sorriso aquece o chão.”
Parte 3
O vento passou, bem leve. As folhas fizeram “shhh… shhh…”, como uma canção de embalar.
Avô Carvalho levantou a mão e mostrou algo: uma bolota brilhante, dourada e suave.
“Esta é para ti”, disse ele. “Não é para comer. É para lembrar.”
“Lembrar o quê?”, perguntou Tito, com voz baixinha.
“Lembrar que ser gentil é um tipo de magia”, disse o ancião. “E tu tens essa magia no peito.”
Tito segurou a bolota. Ela estava morna, como um abraço.
Lili voou em círculos, contente.
Nuvem balançou a crina e fez um som feliz.
Pipo soprou uma bolha que virou uma estrelinha e pousou no ombro do ogre.
Tito olhou para Avô Carvalho.
“Obrigado”, disse ele. “Obrigado por me veres. Às vezes eu sou grande e penso… será que assusto?”
Avô Carvalho sorriu ainda mais.
“Tu não assustas quando o teu coração fala primeiro”, disse ele. “E o teu coração fala com doçura.”
Tito sentiu-se leve, mesmo sendo pesado.
“Então eu vou continuar”, prometeu ele. “Vou dizer ‘bom dia'. Vou ajudar. Vou partilhar. Vou ser… um ogre gentil.”
Avô Carvalho fez uma vénia lenta.
“E a floresta vai sorrir contigo.”
O sol começou a descer, pintando tudo de laranja. Era hora de voltar.
Tito caminhou para casa com os amigos ao lado. “Tum… tum… tum”, os passos. E, no bolso, a bolota dourada fazia “tic… tic”, como um pequeno segredo bom.
Quando chegou, Tito deitou-se na cama de folhas macias. Olhou pela janela. A lua parecia uma lanterna de leite.
Ele sussurrou:
“Boa noite, floresta. Obrigado.”
E adormeceu com um sorriso, tranquilo, enquanto uma bolha-estrela brilhava devagar no escuro, como um carinho.