Numa manhã muito clara, quando o sol parecia uma laranja dourada no céu, a galinha Rosinha acordou bem cedo. As penas dela eram macias como nuvem e tinham a cor de um pôr do sol cor-de-rosa. Rosinha vivia num pequeno quintal ao lado de um bosque encantado, onde as flores cochichavam ao vento e as borboletas dançavam como pedacinhos de arco‑íris.
Rosinha era uma galinha bondosa. Ela cuidava dos seus três ovinhos brancos, que brilhavam como pérolas num ninho de palha cheirosa. Todos os dias ela dizia baixinho:
— Eu vou cuidar bem de vocês. Este é o meu dever.
Mas, no fundo do coração, Rosinha tinha um desejo que brilhava como uma estrelinha: ela queria ser corajosa. Achava que, para ser corajosa, precisava fazer algo muito grande, como voar até a lua ou enfrentar um dragão de fogo. Só que Rosinha tinha medo até de subir no telhado do galinheiro.
Um dia, o Coelho Alfazema, com o pelo macio e cheiroso de mato fresco, veio correndo do bosque.
— Rosinha, Rosinha! — chamou ele, ofegante. — O riacho está triste!
— Riacho não fica triste, Coelho — disse Rosinha, inclinando a cabeça.
— Mas ele está tão baixinho, tão baixinho… — explicou o coelho. — A Fada do Bosque mandou avisar: precisamos levar sementes de flores para enfeitar as margens do riacho. Assim ele se enche de alegria de novo. É o dever de todos que moram por aqui.
Os outros animais logo começaram a falar:
— Eu não posso ir, tenho que guardar minhas nozes — disse o Esquilo Castanho.
— Eu não posso, preciso terminar minha teia brilhante — murmurou a Aranha Prateada.
Rosinha olhou para seus ovinhos, quentinhos no ninho. Sentiu o coração bater acelerado, como tambor pequenino.
— Eu… eu tenho medo do bosque — confessou, baixinho. — Mas é meu dever ajudar?
Lá de cima, um pássaro azul, que parecia um pedacinho de céu, pousou na cerca.
— Coragem não é não ter medo — cantou o pássaro. — Coragem é fazer o que é certo, mesmo com medo.
Rosinha respirou fundo. O vento cheirava a terra molhada e flores novas.
— Eu vou — disse ela, com a voz ainda tremida. — Mas alguém cuida dos meus ovinhos?
A Vaca Malhada, sempre calma como uma tarde de verão, respondeu:
— Pode ir, Rosinha. Eu fico aqui olhando seus ovinhos. Este é o meu dever.
O coração de Rosinha ficou mais quente que café com leite. Ela pegou um pequeno saco de sementes coloridas, que pareciam pedrinhas de arco‑íris, e partiu ao lado do Coelho Alfazema.
O caminho pelo bosque era cheio de sombras fresquinhas e luzes dançantes. As folhas faziam um som de sussurro macio. Às vezes, Rosinha sentia um arrepio de medo, como se um gelo passasse pelas penas. Mas então ela olhava para as sementes e lembrava do riacho triste.
— Eu estou indo cumprir meu dever — repetia para si mesma, como quem canta uma canção. — Estou indo ajudar.
Quando chegaram ao riacho, viram que ele corria devagarinho, como se estivesse cansado. As pedras do fundo pareciam cinzas e as margens estavam sem flores.
— Vamos começar — disse o Coelho Alfazema.
Rosinha picou a terra com o bico, devagarinho, e colocou uma sementinha em cada buraquinho. O coelho ajudava, cavando com as patinhas. De vez em quando, uma brisa leve passava e parecia dizer: “Obrigado…”
Quanto mais Rosinha trabalhava, menos medo sentia. Ela pensou em seus ovinhos, na Vaca Malhada cuidando deles, nos outros animais do bosque, todos precisando da água clara do riacho.
— Estou fazendo isto por todos — murmurou. — Este é o meu dever.
Quando terminaram, o riacho brilhou um pouquinho mais. O sol se deitou sobre a água, como um gato dourado, e fez mil estrelinhas dançarem ali dentro. De repente, algo muito suave aconteceu: pequenas flores começaram a brotar rapidamente nas margens, como se tivessem pressa de viver.
E então, sobre o riacho, surgiu a Fada do Bosque. Era tão leve que parecia feita de pólen e luz.
— Rosinha — disse a fada, com voz doce como mel —, você trouxe coragem escondida dentro do seu dever. Enquanto cuidava do riacho, o medo foi encolhendo, encolhendo… como uma sombra ao meio‑dia.
Rosinha sentiu as penas se arrepiarem de alegria.
— Mas eu só fiz o que precisava ser feito — respondeu, tímida.
— É isso que torna você tão especial — sorriu a fada. — Quem cumpre o seu dever com amor acende luzes no mundo.
No caminho de volta, o bosque já não parecia assustador. Era como uma grande sala cheia de amigos verdes, marrons e floridos. Os galhos acenavam, os passarinhos cantavam, e o vento passava como um abraço.
Ao chegar ao quintal, Rosinha encontrou seus ovinhos muito bem guardados e todos os animais à sua espera.
— Viva a Rosinha! — mugiu a Vaca Malhada.
— Você foi muito corajosa! — exclamou o Esquilo Castanho.
Rosinha sorriu, com o olhar brilhando como estrela em lago calmo.
— Eu ainda sinto um pouquinho de medo — confessou. — Mas agora sei que posso fazer o que é certo, mesmo assim.
Nessa noite, quando o céu vestiu seu manto azul‑escuro bordado de estrelas, Rosinha se deitou junto dos ovinhos. O quintal cheirava a paz e a flor.
Antes de fechar os olhos, ela sussurrou:
— Meu dever é cuidar, ajudar e amar. E, quando faço isso, encontro a minha coragem.
E o vento, passando de mansinho, levou suas palavras pelo bosque afora, ensinando a todos que o verdadeiro valor está em cumprir com carinho o pequeno dever de cada dia.