Parte 1
Numa terra encantada, onde o rio cantava baixinho, vivia um crocodilo chamado Coco. Coco tinha olhos verdes como folhas novas e um sorriso grande, mas suave. Ele gostava de ouvir o “plim-plim” da água e o “toc-toc” das sementes a cair.
Numa manhã dourada, Coco viu um problema pequenino, mas chato. Muitos animais queriam atravessar o rio para chegar ao Prado das Flores. Do outro lado havia morangos, sombra fresquinha e risos. Mas não havia ponte.
O coelhinho Pipo saltou na margem e disse, com as orelhas a tremer:
“Eu quero ir! Mas o rio é largo.”
A tartaruga Tita suspirou:
“Eu também. Eu vou devagar, mas não sei nadar bem.”
A passarinha Lili bateu as asas:
“Eu posso voar, mas os meus amigos não podem.”
Coco olhou para a água. A água brilhava como um lençol de prata. E dentro de Coco nasceu uma ideia, como uma estrelinha a acender.
“Vamos construir uma ponte,” disse ele. “Uma ponte para todos.”
Os animais olharam para o crocodilo. Um crocodilo a ajudar? Sim. Naquele lugar, os corações eram maiores do que os medos antigos.
A raposa Rute, esperta e risonha, apareceu com a cauda como um pincel.
“Uma ponte é coisa séria,” disse ela. “Precisa de madeira e de nós bem dados.”
Coco abanou a cabeça:
“Eu tenho dentes fortes para segurar troncos. E tenho paciência. Vamos juntos.”
Eles foram ao Bosque dos Sussurros. As árvores falavam em folhas:
“Shhh… shhh…”
Coco pediu com educação:
“Podem dar-nos alguns ramos caídos? Só os que já estão no chão.”
O bosque pareceu sorrir. O vento empurrou raminhos secos para perto, como quem oferece presente.
Pipo juntou ramos. Tita trouxe cordas feitas de cipó, enroladas como fitas. Rute ensinou:
“Assim, assim… dá a volta e puxa.”
Lili procurou folhas largas para fazer bandeirinhas.
Quando tinham um monte de madeira, Coco parou e olhou para o rio outra vez. A corrente parecia mais rápida agora. Coco sentiu um friozinho na barriga, como uma nuvem pequenina.
“E se não der?” pensou.
Tita tocou-lhe na pata, bem de leve.
“Coco,” disse ela, “a esperança é como uma lanterna. A gente segura e ela ilumina.”
Pipo repetiu, para dar coragem:
“Lanterna! Lanterna!”
E Coco sorriu. O friozinho foi embora, como folha levada pela água.
Parte 2
No dia seguinte, começaram a construir. Coco entrou na água até metade. A água fazia cócegas e cantava “glu-glu”. Ele segurou um tronco comprido com os dentes, firme, firme.
“Um… dois… três!” disse Rute.
“Agora!” gritou Lili do alto.
Coco empurrou o tronco até ficar atravessado, de uma margem à outra. Não era uma ponte completa, era só o começo, como o primeiro risco num desenho.
Pipo trouxe mais ramos. Tita amarrou com calma. Rute fez nós apertadinhos, como abraços. Lili colocou folhas em cima, para ficar macio.
De repente, uma onda passou mais forte. “Chaaap!”
Os ramos tremeram. Pipo arregalou os olhos.
“Vai cair?”
Coco falou com voz mansa:
“Não vai. Eu estou aqui. E vocês também.”
Ele abriu bem as patas na lama, como raízes. A ponte ficou mais estável. Tita disse:
“Devagar, devagar. Coisa boa cresce devagar.”
E todos repetiram:
“Devagar, devagar.”
O sol subiu. Depois desceu um bocadinho. O trabalho continuou. Tronco, nó, ramo, folha. Tronco, nó, ramo, folha. Era quase uma canção.
Quando o último nó ficou preso, Rute levantou as orelhas e anunciou:
“Está pronta!”
Lili colocou a última bandeirinha. Uma folha amarela que dançava.
“Para a ponte saber que é feliz,” disse ela.
Coco saiu da água. Estava molhado, mas contente. A ponte era simples. Não era um castelo. Mas era um caminho. Um caminho de amizade.
Agora vinha o teste. Pipo queria ser o primeiro, claro.
“Eu vou!” disse ele.
Tita tossiu, com jeitinho:
“Um de cada vez.”
Pipo deu um passo. A ponte fez “crec”. Depois ficou quieta. Pipo deu outro passo. “Crec.” Quietinha. Pipo chegou ao meio e olhou para baixo. A água parecia um tapete a mexer.
“Estou a conseguir!” disse ele, rindo.
Tita atravessou devagar, devagar. Rute atravessou com leveza. Outros animais vieram: um esquilo, um ouriço bem simpático, e até um sapinho que cantava “croac-croac” como aplauso.
Do outro lado, o Prado das Flores abriu os braços. As flores eram pequenas lanternas cor-de-rosa. Os morangos pareciam botões vermelhos.
Pipo disse:
“Coco, tu és corajoso!”
Coco abanou a cauda:
“Eu fiquei com um friozinho.”
Rute piscou o olho:
“Coragem não é não ter friozinho. Coragem é ir com a esperança na mão.”
Parte 3
Quando todos estavam no prado, fizeram um piquenique. Partilharam morangos, folhas doces e água fresca. O céu era um cobertor azul, sem pressa.
Lili cantou:
“A ponte, a ponte, a ponte do bem!”
E todos acompanharam, batendo palmas devagar.
Coco olhou para a ponte. Ela brilhava um pouco com o sol, como se tivesse um segredo. Ele pensou: “Hoje ajudámos a fazer um caminho. Amanhã podemos fazer outro.”
Tita aproximou-se e disse:
“Sabes, Coco, a esperança é como semente. A gente planta com um gesto pequeno.”
Pipo completou:
“E cresce!”
Rute riu:
“E dá sombra e dá risos.”
Antes de irem embora, colocaram perto da ponte uma pedrinha pintada. Tinha um desenho simples: um sol. Para lembrar que ali havia sempre uma luz.
Coco sentou-se na margem. Os animais não se separaram dele por muito tempo. Ficaram ali, conversando, contando histórias, voltando e atravessando outra vez, só por diversão.
E o rio, que antes era barreira, virou música de fundo. A ponte ficou ali, calma e segura, como um abraço de madeira.
Naquela noite, quando a lua apareceu redonda como um prato de leite, Coco fechou os olhos. O coração dele era um barquinho. Dentro desse barquinho havia uma lanterna acesa.
E ele adormeceu pensando: “Quando a gente constrói junto, a esperança encontra caminho.”