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História sobre o dia dos pais 7 a 8 anos Leitura 16 min.

Panquecas com canela e uma playlist de memórias

Rita e os amigos preparam um pequeno-almoço-surpresa e uma playlist de memórias para o Dia do Pai, aprendendo sobre paciência, partilha e carinho durante as peripécias na cozinha.

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Quatro personagens: uma menina de 7 anos, cabelos castanhos lisos com uma mecha rebelde, olhos redondos brilhantes, vestido amarelo com bolinhas brancas, em pé ao centro segurando um prato de panquecas empilhadas e um bilhete; um menino de 7 anos, cabelos castanhos desgrenhados, camiseta azul e farinha no nariz, à esquerda levantando os braços e sorrindo; uma menina de 7 anos, cabelos pretos em rabo de cavalo, bata verde, em cadeira de rodas com autocolantes, à direita segurando um telemóvel com playlist e a adicionar mel numa panqueca; um homem adulto (pai) ~35 anos, barba por fazer, cabelo despenteado, suéter mostarda, atrás da cadeira central com as mãos no coração, emocionado. Local: pequena cozinha luminosa de paredes creme, azulejos coloridos, cortina-flor na janela, mesa de madeira clara com toalha, tigelas e farinha espalhada, frigideira no fogão e pote de mel dourado refletindo a luz. Situação: surpresa calorosa — as crianças ofereceram pequeno-almoço caseiro para o Dia dos Pais; panquecas empilhadas com fatias de banana e morango, migalhas e vestígios de farinha na mesa, telemóvel com ícone de música e notas flutuantes, ambiente suave e alegre em tons pastéis, sombras suaves e traços arredondados. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: Um plano com cheiro a canela

A luz da manhã entrou pela cozinha como se fosse uma manta amarela. Era Dia do Pai, e a Rita acordou com uma ideia que lhe fazia cócegas no peito: preparar uma surpresa com as próprias mãos.

Ela tinha sete anos e um jeito especial de reparar nos detalhes: a chávena preferida do pai, a forma como ele assobiava quando procurava as chaves, o modo como sorria com os olhos quando dizia “bom dia”.

A Rita chamou os dois melhores amigos, que moravam no mesmo prédio. O Tomás apareceu primeiro, com o cabelo todo eriçado, como se tivesse dormido em cima de um pincel. A seguir veio a Lila, empurrando a cadeira de rodas com rapidez e cuidado, como quem já conhece bem as curvas do corredor.

“Reunião secreta?”, perguntou o Tomás, a tentar sussurrar, mas a voz saiu alta.

A Rita levou o dedo aos lábios, divertida. “Shhh. É uma surpresa para o meu pai. Vamos fazer um pequeno-almoço especial. E… uma playlist de memórias.

A Lila abriu um sorriso redondo. “Playlist de memórias? Isso soa a magia.”

“É magia, sim. Mas da nossa”, disse a Rita. “E também vamos fazer… panquecas!”

O Tomás arregalou os olhos. “Eu sei partir ovos!”

“Ótimo”, respondeu a Rita. “Eu sei mexer sem espalhar… quase sempre.”

A Lila levantou a mão. “Eu posso escolher músicas. E posso misturar a massa, se puserem a tigela aqui à minha altura.”

A Rita ajustou tudo na mesa, com um cuidado bonito e simples, como quem aprende a partilhar sem pensar demasiado. Ali, na cozinha, cada um tinha um lugar.

Na bancada, a Rita alinhou os ingredientes: farinha, leite, ovos, um pouco de açúcar, canela, e um frasco de mel que parecia dourado como sol engarrafado.

O Tomás esticou o braço para o mel. “Posso provar só um bocadinho? Para… testar.”

“Testar o quê?”, riu-se a Rita.

“Se está com bom humor”, respondeu ele, muito sério. A Lila riu com uma gargalhada leve, daquelas que enchem a sala.

A Rita pegou no telemóvel da mãe por uns minutos, porque já tinha pedido autorização no dia anterior, e abriu a aplicação de música. “Vamos escolher canções que lembrem o pai. Coisas que ele canta, ou que tocaram em dias felizes.”

A Lila aproximou-se. “Primeira música: aquela que ele põe no carro e canta desafinado.”

A Rita sorriu. Era verdade: o pai cantava como se estivesse a conversar com a melodia. E era impossível não rir.

O Tomás apontou para a lista vazia. “E uma música de super-herói. Porque os pais acham sempre que são discretos… mas a gente sabe.”

A Rita escolheu também uma música calma, que o pai ouvia enquanto lavava a loiça. “Para lembrar que ele ajuda, mesmo quando está cansado.”

A playlist começou a crescer, como uma árvore feita de sons.

E então começou a parte das panquecas: a parte que parecia fácil… até a farinha decidir voar.

O Tomás abriu o saco com entusiasmo, e uma nuvem branca subiu como um fantasma simpático. A Rita ficou com a ponta do nariz branca. A Lila olhou para ela e disse, com voz de cientista: “Acho que viraste uma estátua de açúcar.”

A Rita espirrou e riu. “Ok. A farinha está animada. Vamos com calma.”

Ali, no meio da confusão pequena e feliz, a Rita aprendeu a primeira coisa do dia: esforço não é fazer tudo perfeito. É continuar, mesmo quando a bancada parece uma montanha de farinha.

Capítulo 2: A paciência também se mexe com colher

A Rita respirou fundo, como tinha visto a mãe fazer quando algo não saía como queria. “Primeiro: tigela. Depois: farinha aos poucos.”

O Tomás, desta vez, segurou o saco como quem segura um segredo importante. A Lila colocou a tigela mais perto dela e começou a mexer devagar, com uma colher grande. O som da massa a misturar era quase uma música também: ploc, ploc, ploc.

“Parece lama doce”, comentou o Tomás, inclinando-se para ver.

“A lama mais deliciosa do mundo”, corrigiu a Rita, a partir um ovo com cuidado. O primeiro ovo caiu bem. O segundo… caiu com uma casca teimosa.

O Tomás fez uma cara aflita. “Ui. Estragámos tudo?”

A Rita pegou num pedacinho de casca com dois dedos, como se fosse um tesouro muito frágil. “Não estragámos. Só temos uma mini missão.”

A Lila assentiu. “Missões pequenas são mais fáceis. E dão o mesmo orgulho.”

Eles continuaram: leite, canela, um toque de açúcar. A massa ficou lisa e cheirosa. A Rita fechou os olhos por um segundo. Cheirava a casa. Cheirava a domingo. Mesmo sendo outro dia.

A frigideira aqueceu. A Rita pediu ao Tomás: “Passa um bocadinho de manteiga. Só um bocadinho, não precisamos de fazer um lago.”

O Tomás exagerou um pouco, claro. A manteiga derreteu e fez um “shhh” contente.

“Pronto”, disse ele, com cara de artista. “Um palco brilhante.”

A Rita deitou a primeira concha de massa. A panqueca formou um círculo que parecia uma lua pequena. Eles ficaram a observar como se estivessem a ver uma coisa raríssima: bolhinhas a aparecer, a rebentar, a dizer que era hora de virar.

A Rita pegou na espátula. “Agora é preciso… paciência.”

O Tomás balançava o corpo, impaciente como um relógio. “Eu sou bom em… tentar ser paciente.”

A Lila sugeriu: “Enquanto esperamos, escolhemos mais duas músicas.”

A Rita acenou. A Lila colocou na playlist uma canção que lembrava o pai a contar histórias antes de dormir. O Tomás escolheu outra que fazia lembrar gargalhadas, porque tinha um refrão engraçado.

A Rita virou a panqueca. Ela voou um pouco e caiu torta.

O Tomás prendeu a respiração. A Lila fez uma pausa dramática.

A Rita olhou para a panqueca torta e declarou: “Panqueca em forma de coração… quase.”

Os três riram. A Rita percebeu, naquele momento, que improvisar era como dançar com as coisas quando elas não querem obedecer. E estava tudo bem.

Fizeram mais panquecas: algumas redondinhas, outras com lados estranhos, uma com um buraquinho que parecia um olho. No prato, porém, todas juntas ficavam bonitas, como uma família de panquecas.

A Rita cortou uma banana em rodelas e espalhou por cima. O Tomás colocou morangos. A Lila fez um desenho com mel: uma espiral que parecia um caracol a passear num jardim doce.

“Está a ficar… muito especial”, disse a Rita, baixinho.

E depois veio o toque final: um bilhete feito à mão. A Rita escreveu com letras grandes, para ficar bem claro: “Feliz Dia do Pai. Obrigada por seres o meu abraço.”

O Tomás acrescentou, com a sua caneta azul: “E por contares piadas mesmo quando ninguém pede.”

A Lila desenhou três pequenas estrelas ao lado, porque disse que o pai da Rita era do tipo que acende o dia.

A cozinha ficou arrumada o suficiente para não denunciar o segredo. O segredo, afinal, já cheirava a canela e a carinho.

Capítulo 3: A playlist de memórias

Com o pequeno-almoço pronto, os três sentaram-se por um minuto, só para recuperar o fôlego. A Rita sentiu as mãos um pouco cansadas, mas o coração estava leve, como uma bexiga.

“Agora precisamos da playlist perfeita”, disse ela, abrindo o telemóvel outra vez.

A Lila estava concentrada, com um ar de DJ profissional. “Uma playlist não é só músicas. É como uma estrada. Tem curvas, tem subidas e tem paragens bonitas.”

O Tomás inclinou a cabeça. “E tem música para quando a gente quer dançar na sala sem motivo.”

“Essa tem”, garantiu a Rita.

Eles escolheram mais algumas:

— Uma música que lembrava o pai a cozinhar massa ao domingo, a cantarolar sem perceber.

— Uma música que tocou na festa da escola, quando ele filmou tudo e depois chorou um bocadinho, mas disse que era “poeira no olho”.

— Uma música tranquila para os dias em que o pai fazia silêncio bom, aquele silêncio que não assusta, só aquece.

A Rita deu um nome à playlist: “Coisas que o meu pai faz o dia ficar maior”.

O Tomás fez um som de aprovação. “Uau. Parece nome de filme.”

A Lila acrescentou uma música com um piano suave. “Para o final. Final bonito tem piano. Ou então tem risos.”

A Rita olhou para a hora. “Ele deve acordar já.”

De repente, ouviram passos no corredor. A Rita fez sinal para os amigos se esconderem atrás da porta da cozinha. Não era um esconderijo perfeito, porque os pés do Tomás ficavam sempre a aparecer, mas a intenção valia muito.

O pai da Rita entrou, com cara de sono e cabelo desalinhado. Cheirava a sabonete e a manhã.

A Rita saiu do esconderijo e disse, tentando não rir: “Surpresa!”

O Tomás e a Lila apareceram logo a seguir. O Tomás levantou os braços como se estivesse num palco. A Lila acenou com entusiasmo.

O pai ficou parado por um segundo, como se o coração dele tivesse feito uma pausa para bater mais forte.

“Vocês… fizeram isto?”, perguntou, com a voz mais macia do mundo.

“Fizemos. Com esforço, paciência… e um bocadinho de farinha no ar”, contou a Rita.

O pai olhou para a bancada e viu, numa esquina, um pontinho branco que a Rita não tinha conseguido limpar. Sorriu ainda mais.

Sentaram-se à mesa. A Rita colocou o prato à frente do pai como se fosse um presente raro. “E também fizemos uma playlist. De memórias.”

O pai ergueu as sobrancelhas. “Uma playlist… só minha?”

“Sua e nossa”, explicou a Rita. “Porque as memórias são melhores quando cabem em mais do que uma pessoa.”

A Lila acenou. “É para ouvir e lembrar coisas boas.”

O Tomás acrescentou: “E para dançar na cozinha, se for preciso. A dança melhora qualquer panqueca torta.”

O pai riu, um riso que parecia bater palmas por dentro. Começou a comer. Fechou os olhos no primeiro pedaço, como quem prova um abraço.

“Está delicioso”, disse ele. “Sabe a… amor.”

A Rita sentiu uma alegria que não fazia barulho, mas enchia tudo. E percebeu outra coisa: partilhar dá trabalho, sim. Mas dá uma felicidade que fica mais tempo.

Eles puseram a playlist a tocar baixinho. Uma música começou, e o pai reconheceu logo. Ele apontou para a Rita, divertido. “Esta é a minha do carro!”

“Exato”, disse ela. “E agora é também a nossa.”

A manhã passou com conversas curtas e muito sorriso. O Tomás contou uma história sobre uma panqueca que queria ser astronauta. A Lila inventou que o mel era um rio onde as bananas iam nadar. O pai ouvia como se cada frase fosse importante, porque era.

E a Rita guardou aquilo tudo dentro dela, como quem guarda conchas no bolso.

Capítulo 4: Um coração na janela

Depois do pequeno-almoço, o pai ajudou a arrumar a mesa. A Rita tentou impedir, porque era o Dia do Pai, mas ele piscou o olho. “Hoje o presente é estar com vocês. E estar com vocês inclui ajudar.”

Arrumaram juntos. O Tomás secava pratos com dedicação exagerada, como se fosse um campeão. A Lila organizava os talheres, com uma atenção calma. A Rita limpava a bancada e encontrava, aqui e ali, vestígios de farinha como pequenas pegadas do plano secreto.

Quando tudo ficou pronto, foram para a sala. A playlist continuava a tocar. Em certa música, o pai levantou-se e estendeu a mão à Rita.

“Dá-me essa dança, chefe das panquecas”, disse ele.

A Rita riu e aceitou. Dançaram devagar, sem passos certos, só com carinho. O Tomás dançou sozinho, dando voltas. A Lila mexia os ombros e as mãos ao ritmo, como quem faz uma coreografia inventada.

Num momento mais calmo, a Rita encostou a cabeça no ombro do pai. Não precisava dizer muita coisa. Mas queria dizer uma.

“Pai… obrigada por tudo. Mesmo pelas coisas pequenas.”

Ele beijou-lhe a testa. “As coisas pequenas são as que fazem a vida grande.”

Mais tarde, o Tomás e a Lila tiveram de ir para casa. Despediram-se com abraços e promessas de voltar para ouvir mais músicas da playlist.

A Rita ficou com o pai. Foram à janela ver o céu. Lá fora, o dia estava limpo, e o sol parecia sorrir também.

A janela tinha um pouco de buço, uma névoa fina por causa do calor da casa e do ar fresco lá fora. A Rita aproximou-se, soprou de leve no vidro e viu a mancha redonda de vapor aparecer, como um pequeno lago de neblina.

O pai observou. “O que vais desenhar?”

A Rita levantou o dedo e, com cuidado, desenhou um coração na buée. Não era um coração perfeito, mas era um coração verdadeiro, com a ponta um pouco torta, como a panqueca.

Ao lado, escreveu “Pai”.

O pai ficou em silêncio por um instante, um silêncio bom, cheio de luz. Depois disse, baixinho: “Este vai ficar na minha memória para sempre.”

A Rita encostou o dedo ao coração desenhado, como se pudesse guardá-lo ali. E percebeu que a festa não era só o pequeno-almoço nem a playlist. Era o esforço feito com alegria. Era a paciência aprendida no tempo das bolhinhas da panqueca. Era o partilhar, que faz o amor caber em mais gente.

A música da playlist tocou a última canção, aquela do piano suave. A Rita olhou para o pai, e o pai olhou para a Rita. E, por um momento, pareceu que o dia inteiro cabia naquele coração na janela: simples, quente, e cheio de “gosto de ti” desenhado em vapor.

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Manta
Peça de tecido que aquece, como um cobertor usado na cama ou no sofá.
Cócegas
Sensação que faz rir quando alguém toca numa parte sensível do corpo.
Reparar
Notar algo, prestar atenção a um pormenor que antes não viste.
Playlist de memórias
Lista de músicas que lembra momentos especiais ou pessoas queridas.
Tigela
Recipiente redondo usado para misturar ou comer comida.
Bancada
Superfície alta na cozinha onde se prepara a comida.
Frigideira
Tacho raso e largo usado para fritar ou fazer panquecas.
Espátula
Utensílio largo e fino usado para virar ou tirar comida da frigideira.
Improvisar
Fazer algo sem planear muito, usar o que tens para resolver.
Coreografia
Conjunto de passos combinados para uma dança ou apresentação.
Névoa
Camada fina de vapor ou ar húmido que torna o vidro esbranquiçado.
Buço
Pelos finos ou sombra acima do lábio, ou marca no vidro por vapor.

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