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História sobre um medo de criança 11 a 12 anos Leitura 14 min.

Os gritos na noite e a banda do pátio

Quatro amigos enfrentam o medo dos sons noturnos, investigam um grito misterioso e aprendem, juntos, estratégias para lidar com a ansiedade e agir com calma.

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Quatro crianças de 12 anos numa pequena cour entre prédios de tijolo: Tomás, cabelo castanho despenteado, camiseta azul clara, segura a bola de basquete no centro após marcar; Rafa, cabelo curto ruivo, jaqueta kaki, sorri segurando uma folha dobrada à esquerda; Gui, cabelo preto em pontas, camiseta às riscas, braços cruzados com sorriso maroto à direita do cesto; Nuno, cabelo curto, veste com capuz, numa cadeira de rodas estilizada empurrando a roda com energia à direita e um pouco à frente. Ambiente ao entardecer com chão de lajes gastas e folhas, cesta com rede rasgada num muro, vassoura encostada e poste lançando luz laranja suave; a bola atravessa a rede, expressões de incentivo e gestos amigáveis, atmosfera quente e acolhedora de solidariedade e pequena vitória sobre o medo, traços simples e cores quentes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O som no corredor

O quarto do Tomás ficava meio escuro, com a luz do candeeiro a fazer um círculo amarelo na parede. A casa inteira parecia respirar devagar. Era a hora em que as sombras ganham formas novas e a cabeça, cansada, inventa filmes sem pedir autorização.

Tomás tinha doze anos e uma imaginação que não sabia desligar. O lençol virava uma tenda de exploradores. A cadeira na esquina virava um guarda de costas largas. Até o casaco pendurado na porta parecia um bicho a bocejar.

Ele puxou o cobertor até ao queixo e tentou contar as respirações.

Então ouviu.

Um grito, curto, do lado de fora. Depois outro, mais longe. Parecia gente. Parecia também uma coisa que não devia estar ali àquela hora.

O coração de Tomás fez um salto, como se tivesse tropeçado num degrau invisível.

“E se…?” A pergunta apareceu sozinha. E logo vieram imagens: ladrões, monstros, sombras a correr.

Ele agarrou o telemóvel, mas o ecrã iluminou o quarto e isso só fez as sombras ficarem mais evidentes, como se se tivessem ofendido por serem descobertas.

No grupo “Banda do Pátio”, onde estavam ele, o Rafa, o Gui e o Nuno, escreveu com dedos rápidos: “Ouvi gritos no corredor. Vocês ouviram?”

A resposta do Rafa veio quase imediato: “Ouvi um berro. Achas q é alguém a discutir?”

O Gui: “Tou acordado. Aqui tb deu p ouvir.”

O Nuno: “Eu ouvi e a minha mãe tb. Ela foi ver. Esperem.”

Tomás engoliu em seco. Ficou a olhar para a porta do quarto como se ela pudesse contar segredos.

Capítulo 2 — A banda combina uma missão

No dia seguinte, na escola, o assunto não ficou preso à noite. Saltou para o intervalo como uma bola de futebol.

Encontraram-se junto ao portão do pátio, onde o vento cheirava a pão da cantina e a folhas esmagadas. O Nuno chegou primeiro, a empurrar a cadeira de rodas com a mesma pressa de sempre, como se tivesse um motor invisível. Encostou ao banco e disse:

— Foi no prédio da frente. A minha mãe viu pela janela. Havia um senhor no passeio, a gritar “Socorro!” e “Ajuda!”

O Gui, que gostava de imaginar o pior e depois rir-se do pior, abriu os olhos.

— Então era um assalto!

Rafa abanou a cabeça, já com um ar de detetive.

— Ou alguém que se aleijou. Tomás, tu ouviste de onde vinha?

Tomás franziu a testa, a tentar voltar ao som.

— Parecia… no corredor, mas talvez fosse a rua. O som entra pela janela do meu quarto. Eu fiquei a pensar que vinha mesmo de dentro.

O Nuno encostou os dedos ao queixo.

— A minha mãe disse que um vizinho saiu, viu o senhor, e ligou para o 112. Depois veio uma ambulância. Mas ela não sabia mais nada.

O silêncio durou um segundo. Nesse segundo, Tomás reparou numa coisa importante: o grito não tinha desaparecido dentro dele. Ficara lá, feito eco.

Rafa deu um toque leve no ombro dele.

— Sabes o que acho? A gente pode descobrir. Mas sem maluquices. Só… perguntar, perceber, aprender. Assim, à noite, não fica tudo na nossa cabeça a crescer.

Gui sorriu.

— Missão realista. Sem capas. Sem lanternas dramáticas.

Nuno levantou uma sobrancelha, divertido.

— Eu posso ser o chefe das perguntas difíceis.

Tomás soltou uma risada pequena. Foi a primeira vez desde a noite anterior que o ar lhe entrou no peito sem apertar.

Combinaram: depois das aulas, passavam no prédio do Tomás e falavam com a porteira. Se fosse seguro, perguntavam também a algum vizinho.

Capítulo 3 — A porteira e a verdade com nomes

O fim da tarde estava morno. As mochilas pareciam mais pesadas quando a curiosidade empurrava por dentro.

À porta do prédio, a porteira, Dona Celeste, varria folhas com uma paciência que parecia infinita. Tinha sempre cheiro a sabonete e a café.

Rafa foi o primeiro a falar, educado:

— Boa tarde, Dona Celeste. Ontem à noite… ouvimos uns gritos. Sabe o que aconteceu?

Dona Celeste parou a vassoura e olhou para eles como quem mede se já cresceram o suficiente para ouvir coisas sérias.

— Ah, isso. Ainda bem que perguntam, em vez de inventarem. Foi o senhor Álvaro, do prédio da frente. Escorregou no passeio e deslocou o ombro. Doeu-lhe muito. Gritou porque estava sozinho e não conseguia levantar-se.

Tomás sentiu uma onda quente de alívio, mas também um aperto diferente, como vergonha por ter imaginado monstros onde havia dor de gente.

— Ele está bem? — perguntou, quase num sussurro.

— Está. Já está em casa. A filha veio ficar com ele uns dias. — Dona Celeste continuou, com voz macia. — À noite, os sons mudam. Parece tudo mais perto. E a cabeça… preenche o resto.

Gui tentou uma piada, para aliviar:

— Então o único monstro foi o chão escorregadio.

Dona Celeste riu-se, mas depois ficou séria, sem assustar.

— Sabem, gritos existem. Às vezes são de medo, às vezes são de dor, às vezes são só gente a discutir na televisão. O importante é: se ouvirem de novo e acharem que é alguém em perigo, chamem um adulto. E respirem. Não precisam carregar a noite sozinhos.

Nuno assentiu.

— Eu ontem fiquei a ouvir com atenção. Quando a ambulância chegou, deu para perceber que era ajuda de verdade.

Rafa olhou para Tomás.

— Vês? A gente não precisa inventar. Pode descobrir.

Tomás fez que sim, mas sabia que à noite a imaginação era rápida. E a coragem, às vezes, chegava atrasada.

Capítulo 4 — Treino de coragem no pátio

Antes de cada um ir para casa, ficaram no pátio entre os prédios. Era um sítio pequeno, com um baloiço que rangia e um cesto de basquete com rede rasgada. O sol já estava baixo, a pintar tudo de laranja.

Rafa tirou do bolso uma folha dobrada.

— Fiz uma lista de “coisas que ajudam quando o medo aparece”. Não riam.

Gui pôs a mão no peito, teatral.

— Eu só rio se a lista tiver “abraçar uma almofada como se fosse um escudo”.

— Isso é válido — disse Nuno, com naturalidade.

Rafa abriu a folha e leu:

— Um: dar nome ao medo. Dois: confirmar os factos, se possível. Três: respirar devagar. Quatro: imaginar um final realista. Cinco: pedir ajuda.

Tomás inclinou a cabeça.

— Dar nome ao medo?

— Sim — explicou Rafa. — Porque “medo” sozinho é um saco enorme. Mas “medo de gritos à noite” é mais pequeno. Cabe na mão.

Nuno apontou para o cesto de basquete.

— Vamos fazer um jogo. Cada um diz um medo e atira a bola. Quando a bola entra, a gente diz uma frase de coragem. Tipo… “posso ter medo e mesmo assim agir.”

Gui bufou, mas já estava a sorrir.

— Isso é meio… fofo.

— Fofo e útil — respondeu Nuno, e atirou a bola com um movimento rápido. Não entrou, bateu no aro e caiu. — O meu medo: perder o controlo quando as coisas mudam. Frase: “Eu posso pedir tempo. E posso pedir ajuda.”

Rafa atirou e acertou na tabela.

— Medo: dececionar as pessoas. Frase: “Eu aprendo com erros.”

Gui atirou com força, a bola quase fugiu.

— Medo: barulhos estranhos. Frase: “Barulho não é prova de perigo.”

Tomás ficou com a bola nas mãos. Pesava mais do que devia, ou talvez fossem os pensamentos.

— O meu medo… — ele respirou. — É ouvir gritos e achar que há algo terrível, e depois ficar preso nisso. Frase… — procurou as palavras como quem procura uma chave. — “Eu posso investigar com calma. E nem tudo o que imagino é real.”

Atirou. A bola entrou, limpinha, e a rede rasgada fez um som leve, quase um aplauso.

Os três olharam para ele como se tivessem visto uma luz acender.

— Boa! — disse Gui. — A rede concordou contigo.

Tomás riu, e o riso foi como abrir uma janela.

Capítulo 5 — O teste na noite seguinte

Nessa noite, o quarto de Tomás parecia o mesmo, mas ele não era o mesmo. O candeeiro fazia o círculo amarelo. As sombras tentavam as suas brincadeiras. O casaco na porta continuava com cara de bicho cansado.

Tomás deitou-se e deixou o telemóvel na mesa, virado para baixo, para não chamar as sombras à atenção.

Fechou os olhos. Contou quatro respirações. Depois mais quatro.

Então ouviu. Não um grito. Um som alto, rápido, como algo a cair. Depois uma voz, irritada:

— Ai! Raios!

Tomás abriu os olhos e sentiu o medo a querer pegar no volante. A imaginação já puxava uma imagem de invasores, de perigos.

Ele sentou-se na cama e falou baixo, para si mesmo, como se fosse um segredo:

— Nome: medo de barulho e gritos. Factos: ouvi um “Ai” e um “Raios”. Parece alguém que se magoou ou deixou cair alguma coisa.

A mão tremia um pouco, mas ele respirou devagar, como tinha treinado.

Levantou-se, calçou as pantufas e foi até à porta. Não abriu logo. Encostou o ouvido. Ouviu passos apressados e a voz da mãe, no corredor:

— Está tudo bem? O que foi isso?

Uma outra voz respondeu, mais abafada, do apartamento ao lado.

— Deixei cair a panela. Assustei-me, desculpe!

A mãe riu-se.

— Ainda bem que foi só isso.

Tomás sentiu uma coisa nova: não era ausência de medo. Era um medo mais pequeno, a encolher quando ele lhe punha luz.

Voltou para a cama e pegou no telemóvel. No grupo, escreveu: “Barulho agora. Era só panela do vizinho. Fiz a respiração e pensei nos factos.”

O Gui respondeu: “Panela assassina derrotada.”

Rafa: “Boa, Tomás. Pequenos passos contam.”

Nuno: “Vês? Treino funciona. Amanhã falamos.”

Tomás pousou o telemóvel e olhou para o teto. As sombras estavam lá, mas pareciam menos importantes, como figurantes.

Capítulo 6 — Esperança para as próximas mudanças

Na manhã seguinte, no caminho para a escola, o céu estava claro e o ar cheirava a roupa lavada. Tomás caminhava com os amigos e sentia que dentro dele havia espaço para coisas boas.

— Sabem — disse ele — eu acho que o pior do medo é quando a gente fica sozinho com ele. Ele cresce, inventa braços e pernas.

Rafa concordou.

— E quando a gente fala, ele volta a ser o que é: um alarme. Às vezes toca à toa, mas está a tentar proteger.

Nuno olhou para a rua, onde uma senhora atravessava devagar.

— E gritos… podem ser pedidos de ajuda. Ontem foi o senhor Álvaro. Noutra vez pode ser outra coisa. Mas a gente pode responder com calma, não com pânico.

Gui chutou uma pedrinha.

— Eu ainda vou ter medo de barulhos. Mas agora, quando ouvir, vou lembrar: primeiro penso, depois faço filme.

Tomás sorriu.

— Eu também. E se um dia houver uma mudança grande… tipo uma obra no prédio, ou alguém novo, ou uma coisa inesperada… eu quero acreditar que vou conseguir lidar.

Rafa levantou o polegar.

— Vamos lidar juntos.

Nuno acrescentou, com a voz firme e tranquila:

— E se não der à primeira, a gente tenta de novo. Coragem não é um botão. É um hábito.

Tomás sentiu o peito leve, como se tivesse tirado uma mochila invisível. Pensou na noite anterior, no som da panela, no jeito como conseguiu respirar e entender. Não foi mágico. Foi real. E isso era ainda melhor.

Ao entrarem no portão da escola, ele olhou para os amigos e teve uma certeza simples: os próximos gritos, os próximos sustos, as próximas mudanças… não precisavam ser o fim do mundo. Podiam ser só o começo de um novo passo.

E, com essa ideia, todos os quatro levaram para o dia uma esperança partilhada, tranquila, pronta para acender quando a noite voltasse.

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Candeeiro
Lâmpada com suporte que ilumina o quarto à noite.
Imaginação
Capacidade de inventar imagens, histórias e ideias na cabeça.
Lençol
Tecido que se põe sobre a cama para cobrir o corpo.
Telemóvel
Aparelho portátil para fazer chamadas e enviar mensagens.
Porteira
Mulher que cuida da entrada e da limpeza de um prédio.
Varria
Forma do verbo varrer; ação de limpar o chão com vassoura.
Deslocou o ombro
Quando o osso do ombro sai do lugar, causa muita dor.
Ambulância
Veículo que leva pessoas doentes ou feridas ao hospital.
Corredor
Espaço estreito dentro de uma casa ou prédio para andar.
Baloiço
Assento preso por cordas para balançar no parque.
Cadeira de rodas
Cadeira com rodas que ajuda pessoas a andar.
Rede rasgada
Parte da cesta de basquete que está cortada ou furada.
Pantufas
Calçado suave e confortável usado dentro de casa.
Pátio
Espaço ao ar livre entre prédios onde as pessoas se juntam.

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