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História sobre um medo de criança 11 a 12 anos Leitura 16 min.

O mapa dos sons e a árvore que dizia boa noite

Tomás, assustado com ruídos na casa da avó, junta-se a Inês, Miguel e à avó para criar um “mapa dos sons” e aprender a enfrentar os medos com planos simples, respirações e verificação cuidadosa.

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Quatro personagens: Tomás (12 anos) cabelo castanho curto, olhos grandes e inquietos, pijama azul, à esquerda junto à janela puxando a cortina com uma mão e segurando a manga de Miguel com a outra; Inês (12 anos) cabelo castanho claro em rabo de cavalo, sorriso tranquilizador, suéter rosa, no centro apontando para um galho que bate no vidro; Miguel (quase 12) cabelo preto bagunçado, camiseta verde, atrás à direita com uma lanterna brilhante na mão direita iluminando o galho; avó (c.70) cabelo grisalho em coque, óculos redondos, robe creme, junto à porta segurando uma vela elétrica e observando calmamente. Local: sala antiga e acolhedora à noite com chão de madeira escura, tapete claro, sofá verde, grande janela com cortinas de linho molhadas pela chuva e relógio de parede a marcar o tic-tac; mesa com uma folha intitulada "mapa dos sons" e biscoitos. Situação: noite chuvosa, galho bate suavemente na janela, cortina levantada, gotas correndo no vidro, reflexo quente da lâmpada, expressões de surpresa e conforto, luz da lanterna projetando a sombra nítida do galho no tapete. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O barulho no corredor

O Tomás tinha quase doze anos e ouvia o mundo como se tivesse uma lupa nas orelhas.

Um estalo na madeira parecia um passo. Uma porta que rangia parecia uma mão a rodar uma maçaneta devagar.

Nessa noite, ele estava em casa da avó, porque os pais tinham ido a um jantar. A casa era antiga, cheirava a chá de camomila e a livros guardados. As tábuas do corredor tinham personalidade: gemiam, suspiravam, estalavam.

A Inês, também com doze, estava sentada no tapete da sala a montar um puzzle. O Miguel, que fazia doze dali a duas semanas, construía uma torre de cartas com uma seriedade quase científica.

— Ouviste? — sussurrou o Tomás, a meio de um desenho animado baixo demais para ser útil.

— Ouvi a tua garganta a engolir em seco — respondeu a Inês, sem levantar os olhos. — Foi o corredor. É um corredor muito dramático.

O Tomás riu-se de leve, mas o riso saiu-lhe curto.

— E se… alguém entrar? — perguntou. A palavra “alguém” era grande e escura.

O Miguel pousou uma carta e olhou para o Tomás com calma.

— A avó tem alarme. E o cão do vizinho ladra até com as borboletas. — Depois apontou para o corredor. — Mas podemos verificar, se isso te ajudar.

O Tomás engoliu outra vez. Não queria parecer bebé. Mas também não queria ficar com o coração a bater como um tambor dentro da camisola.

— Vamos — disse ele, baixinho.

Foram os três, em fila. A Inês à frente, como se fosse a apresentadora de um programa sobre mistérios domésticos. O Miguel no meio, com uma lanterna pequena que tinha no porta-chaves. O Tomás atrás, a agarrar a manga do casaco do Miguel.

A lanterna desenhou um círculo de luz na parede e depois no chão.

No corredor, não havia ninguém. Só um cabide com casacos que, na penumbra, parecia uma criatura com ombros enormes.

— Vês? — disse a Inês, com um ar de quem tinha acabado de resolver um caso. — É o monstro “Casaco-Comprido”. Muito perigoso quando está com frio.

O Tomás soltou um ar pela boca, meio riso, meio alívio.

— Podemos pôr os casacos noutro sítio? — sugeriu ele.

— Boa ideia — disse o Miguel. — É como arrumar a cabeça: tiras coisas assustadoras do caminho.

E ali, os três tiraram os casacos do cabide e dobraram-nos numa cadeira. O corredor ficou mais simples. E o Tomás sentiu, por um instante, que tinha mudado o mundo com um gesto pequeno.

Capítulo 2: O mapa dos sons

De volta à sala, a avó apareceu com três canecas de leite morno e uma bandeja de bolachas. Era baixa, usava chinelos fofos e tinha um olhar que parecia uma luz acesa.

— Vi-vos a fazer uma expedição — disse ela. — Encontraram algum dragão?

— Um casaco — respondeu a Inês, a sério demais para ser verdade.

A avó riu.

O Tomás mexeu o leite com cuidado.

— Avó… eu assusto-me com barulhos. Às vezes penso que… pode ser alguém a entrar.

A avó sentou-se, como se aquela frase merecesse tempo.

— O cérebro é um guarda — disse ela. — Um guarda zeloso. Quando ouve um som estranho, pergunta logo: “É perigo?” Às vezes acerta. Outras vezes… exagera.

O Miguel pegou numa folha e num lápis da gaveta.

— Vamos fazer um “mapa dos sons” — propôs ele. — Tipo… os sons normais da casa. Assim o guarda do Tomás aprende a reconhecer os amigos.

A Inês bateu palmas uma vez, satisfeita.

— Sim! E damos nomes às coisas. Nomear ajuda.

A avó trouxe mais folhas e o Miguel desenhou um retângulo para a casa: sala, corredor, cozinha, escadas. Depois escreveram uma lista.

“O frigorífico: hum-hum.”

“As tábuas: creque.”

“O vento na chaminé: uuu.”

“A torneira: ploc.”

— Falta um som importante — disse a avó, com olhos brilhantes. — O som do relógio. Tic-tac. É o som do tempo a fazer o seu trabalho.

O Tomás ouviu. Lá estava ele. Tic-tac, tic-tac. Não parecia ameaça. Parecia companhia.

— E se houver um som que não está no mapa? — perguntou ele.

O Miguel endireitou o papel.

— Então fazemos duas coisas. Primeiro, parar e respirar. Segundo, confirmar com alguém. Nada de imaginar mil filmes sozinho.

A Inês acrescentou:

— E terceiro, se for só um barulho parvo, rimo-nos dele para perder força.

O Tomás olhou para o mapa e sentiu-se menos preso. Era como ter uma lanterna por dentro.

Capítulo 3: A ronda da coragem

Mais tarde, a avó disse que era hora de se prepararem para dormir. O Tomás sentiu logo uma onda no estômago. De dia, os sons eram só sons. À noite, os sons pareciam vestir roupa escura.

A Inês e o Miguel iam dormir no quarto de hóspedes, ao lado do do Tomás. A avó ficava no quarto dela, no fundo do corredor.

— Antes de deitarem, fazemos uma ronda — propôs a avó. — Não porque haja perigo, mas porque o corpo gosta de rotinas.

A ronda parecia uma coisa de pessoas corajosas e organizadas. O Tomás gostou da ideia.

Foram juntos: fecharam a janela da cozinha, confirmaram a porta da rua, deixaram uma luz pequena acesa na sala. A avó mostrou o alarme: um painel com luzinhas verdes.

— Verde é “tudo bem” — explicou ela. — Se estivesse vermelho, eu chamava ajuda. Mas agora está feliz.

O Miguel apontou para o telemóvel.

— E eu tenho os números importantes aqui. Só para o caso de precisarmos. Saber que temos um plano acalma.

O Tomás olhou para a porta da rua. Era pesada. Com duas voltas de chave. E uma corrente.

— Parece uma armadura — disse ele.

— É mesmo — respondeu a Inês. — A casa está a usar armadura e nós só vamos dormir.

No quarto, o Tomás deitou-se, mas a cabeça começou a inventar sombras.

— E se alguém… — começou ele.

— O “e se” é um campeão em assustar — interrompeu o Miguel, num tom tranquilo. — Vamos fazer um exercício. Escolhe um barulho que te assusta.

O Tomás ouviu um estalo vindo do corredor.

— Esse — disse ele, tenso.

A Inês inclinou a cabeça.

— Vamos aplicar o mapa. Tábuas: creque. O corredor é antigo. Está a alongar-se.

— Alongar-se? — repetiu o Tomás.

— Sim — disse ela. — Como quando nós esticamos as pernas antes de correr. As tábuas também se mexem com o frio.

O Miguel acrescentou:

— E se ainda assim ficares inquieto, podes usar a regra dos três: respirar três vezes devagar, dizer três coisas que vês, mexer três dedos. Ajuda o corpo a perceber que estás aqui, seguro.

O Tomás experimentou.

Inspirou. Expirou.

Viu o candeeiro, o livro na mesa, a mochila no chão.

Mexeu os dedos dos pés dentro das meias.

O coração abrandou um pouco. Não desapareceu o medo. Mas o medo ficou mais pequeno, como um cão que parou de puxar a trela.

Capítulo 4: O som que não cabia no mapa

Já quase a adormecer, um som novo apareceu. Não era estalo. Não era tic-tac. Era um “tum… tum” distante, como se alguém tivesse batido duas vezes numa parede.

O Tomás sentou-se logo, com os olhos bem abertos.

— Ouviram? — sussurrou.

A Inês levantou-se a meio, com o cabelo todo para o lado.

— Ouvi. Não vou fingir que não.

O Miguel já tinha a lanterna na mão.

— Regra do plano — disse ele. — Primeiro, respirar. Depois, confirmar com alguém.

Foram até à porta do quarto da avó. O Tomás bateu de leve.

— Avó?

A avó abriu a porta quase imediatamente, como se já estivesse acordada.

— Também ouviram o “tum”? — perguntou ela, antes de qualquer explicação.

O Tomás sentiu um alívio estranho: não era só ele. Não era um medo inventado.

— Sim — disse ele, a voz a tremer. — Pode ser alguém?

A avó acendeu a luz do corredor e falou num tom sereno, como quem arruma roupa dobrada.

— Pode ser muitas coisas. E vamos descobrir, com calma.

Desceram até à sala. O “tum” veio outra vez, mais suave.

— Está a vir da janela grande — murmurou o Miguel, apontando.

A Inês aproximou-se e viu o cortinado mexer.

— Vento? — arriscou ela.

A avó abriu um pouco o cortinado. Lá fora, uma árvore tocava no vidro com um ramo, empurrada pela brisa. Tum. Tum.

O Tomás ficou parado a olhar. Era só isso. Um ramo, uma árvore, o vento a brincar.

— Afinal… era a árvore a bater à janela — disse ele, sem saber se ria ou se suspirava.

A Inês riu por ele.

— A árvore só queria dizer “boa noite”.

O Miguel encostou o ramo para o lado com cuidado e fechou melhor a janela.

— E agora já cabe no mapa — disse ele, sorrindo. — “Árvore: tum tum”.

O Tomás sentiu uma coisa quente no peito. Não era só alívio. Era orgulho. Tinha sentido medo, mas tinha feito o que combinara: respirar, confirmar, descobrir.

— Obrigado — disse ele, olhando para os dois e para a avó.

— Ajuda é para isso — respondeu a avó. — Ninguém precisa de ser corajoso sozinho.

Capítulo 5: A tempestade como canção

Quando voltaram para os quartos, o céu decidiu mudar de assunto. Um relâmpago iluminou as paredes por um instante, como uma fotografia rápida. Depois veio o trovão, enrolado e forte.

O Tomás encolheu-se, por reflexo. Mas desta vez, o medo do “alguém a entrar” não veio com tanta força. Era mais… barulho do mundo.

A Inês deitou-se no colchão e puxou o cobertor até ao queixo.

— Pronto. Agora temos orquestra — disse ela. — Relâmpago é luz, trovão é bateria.

O Miguel abriu um pouco a persiana e espreitou.

— Está longe. Vês? O som chega depois da luz. Isso quer dizer que a tempestade está a fazer o seu caminho lá fora.

A avó apareceu na porta com uma vela elétrica pequena, daquelas que imitam chama.

— Para dar conforto — explicou. — E para lembrarmos que estamos juntos.

O Tomás ouviu a chuva começar. No início, gotas espaçadas. Depois, um tamborilar constante no telhado. O corredor estalou uma vez, preguiçoso. O relógio continuou: tic-tac.

O Tomás apertou o lençol.

— Ainda sinto um bocadinho de medo — confessou.

A avó sentou-se na beira da cama dele.

— Medo não é vergonha — disse ela. — É um aviso. O segredo é ensinar o aviso a não gritar quando não é preciso.

O Miguel falou do outro colchão:

— Vamos fazer uma lista rápida: o que prova que estamos seguros?

A Inês levantou um dedo.

— Portas fechadas.

O Miguel, outro.

— Alarme verde.

A avó, outro.

— Estamos quatro, e a casa conhece-nos.

O Tomás pensou e levantou o dedo dele.

— E… agora sabemos que barulhos podem ser árvores, vento, tábuas… não ladrões.

A Inês sorriu no escuro.

— Olha. O Tomás acabou de crescer meio centímetro.

O Tomás soltou uma gargalhada baixa, e essa gargalhada pareceu empurrar o medo para um canto mais distante.

A tempestade continuou, mas o som começou a ficar… redondo. Como um cobertor de água.

O Tomás fechou os olhos. A chuva passou a ser um ruído de fundo. Um “shhh” enorme, como se o céu estivesse a dizer para todos dormirem.

Capítulo 6: Manhã de mãos dadas

De manhã, a casa cheirava a torradas. O chão estava frio, mas o sol entrava pelas janelas com uma coragem tranquila.

Na cozinha, a avó fazia chá e cortava fruta. O Miguel contava quantas bolhas apareciam no leite a aquecer. A Inês desenhava no papel do “mapa dos sons”, que agora tinha um novo item: “Tempestade: shhh + bum”.

O Tomás pegou no lápis e acrescentou, com cuidado: “Árvore: tum tum (amiga)”.

A avó olhou para ele.

— E então? Como foi a noite?

O Tomás pensou antes de responder. Não queria dizer “foi perfeita”, porque não tinha sido. Tinha havido medo. Mas também tinha havido passos úteis.

— Foi… melhor — disse ele. — Assustei-me, mas não fiquei sozinho com a minha cabeça. Usei o plano. E funcionou.

O Miguel levantou a caneca.

— À equipa do plano.

A Inês brindou com o copo de água.

— À equipa do casaco dobrado.

A avó juntou a dela.

— À entreajuda. É a melhor fechadura que existe.

O Tomás riu e sentiu uma alegria leve, daquelas que cabem no peito sem empurrar nada para fora. Lá fora, ainda havia poças no chão e folhas brilhantes de chuva. Um pássaro sacudiu as asas e cantou como se não tivesse acontecido nada de especial.

E, de certa forma, era isso mesmo: tinha acontecido uma coisa especial.

O Tomás aprendera que os barulhos nem sempre são ameaças. Às vezes são só a casa a viver. Às vezes são a natureza a passar. E, quando o medo aparecia, havia mãos, palavras e planos para o tornar mais pequeno.

Na mesa, os três amigos morderam as torradas ao mesmo tempo e, por um segundo, riram sem motivo. A tempestade da noite anterior já era apenas uma memória tranquila. Um ruído de fundo que tinha ficado para trás, enquanto a manhã, quente e clara, começava com uma alegria partilhada.

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Viagem feita para descobrir algo ou investigar um lugar.
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Que cuida com muito cuidado e atenção para proteger algo.
Científica
Relacionada à ciência, que segue regras e estudos para explicar coisas.
Entreajuda
Ajuda mútua entre pessoas, quando todos se ajudam uns aos outros.
Creque.
Som das tábuas a ranger, um estalo seco na madeira.
Tic-tac
Som do relógio que marca os segundos, ritmo lento e regular.
Relâmpago
Luz forte no céu durante uma tempestade, muito rápida.
Trovão
Ruído forte no céu depois do relâmpago, sinal de tempestade.
Ronda
Passagem rápida pela casa para verificar se está tudo certo.
Brisa
Vento fraco e fresco que se sente suave no rosto.
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