Era uma vez um reino encantado chamado Risolândia, onde as fontes faziam “plim-plim” como se fossem sininhos, as árvores bocejavam confetes quando alguém espirrava, e as nuvens mudavam de forma só para contar piadas ao vento.
No castelo de telhado cor-de-marmelada vivia a Princesa Amora. Ela tinha um cabelo que parecia feito de fios de sol e uma coroa pequena, porque dizia que uma coroa grande demais atrapalhava a cabeça a pensar. Amora era esperta, curiosa e… muito, muito faceta.
Mas havia um problema muito sério, do tipo que faz até os guardas de bigode tremerem de tanto segurar o riso:
A princesa precisava aprender a saudar o povo.
“Saudar é importante”, dizia o Rei Farpado, que tinha um bigode tão pontudo que podia pendurar nele uma toalha. “O povo gosta de ouvir ‘bom dia'.”
“Eu posso dizer ‘bom dia'!”, respondeu Amora, treinando no espelho. “Bom diiiia… bom dídia… bom… dongo?”
“Não é ‘dongo'”, suspirou a Rainha Melodia, que falava como se estivesse sempre cantando uma canção de ninar. “É ‘bom dia', minha flor.”
Amora endireitou os ombros, abriu um sorriso enorme e tentou de novo:
“Bom… dia!”
Só que, nesse exato instante, a magia de Risolândia resolveu ajudar… do jeito dela. O “bom dia” da princesa saiu tão animado que virou uma bolha brilhante, flutuou pelo corredor e estourou na cabeça de um mordomo.
“BOM DIA!”, gritou a bolha, bem em cima da careca dele.
O mordomo deu um pulo tão alto que quase virou cortina.
“Perdão!”, disse Amora, correndo até ele. “Foi meu cumprimento… ele escapou.”
“Escapou com muita educação”, resmungou o mordomo, tentando não rir. “Mas poderia escapar mais baixinho, alteza.”
A Rainha Melodia levou a mão à boca. “Oh, Amora… seus cumprimentos estão… vivos.”
“Que ótimo!”, disse Amora, com os olhos brilhando. “Se eles estão vivos, posso treiná-los como passarinhos!”
O Rei Farpado coçou o bigode, desconfiado. “Só não deixe um ‘boa noite' morder ninguém.”
Amora riu, e o riso dela parecia um chocalho de estrelas.
Capítulo 1
Na manhã seguinte, a princesa decidiu treinar com todo o seu coração… e com as duas mãos, porque ela gostava de acenar com estilo.
No pátio do castelo, ela colocou três alvos: um espantalho com chapéu torto, um balde com cara desenhada e um cavalo de madeira chamado Sir Patafúrdio, que fazia “toc-toc” quando alguém olhava.
“Eu vou acertar um cumprimento em cada um!”, anunciou Amora.
O Duende Mordiscão, pequeno e com orelhas que pareciam folhas de alface, apareceu em cima do muro. Ele era o ajudante oficial de “coisas que dão errado e ficam engraçadas”.
“Posso assistir?” perguntou ele. “Eu trago pipocas invisíveis.”
“Pipocas invisíveis não enchem barriga”, disse Amora.
“Mas enchem o imaginário”, respondeu Mordiscão, muito sério.
Amora respirou fundo e disse, apontando para o espantalho:
“Bom dia!”
A frase saiu da boca dela como um laço de fita dourada. O laço voou, deu uma volta no espantalho e… amarrrou o chapéu dele no chão.
O espantalho ficou com a cabeça pelada de palha, parecendo um penteado maluco.
“Bom dia elegante!”, comentou Mordiscão, mastigando uma pipoca que ninguém via.
Amora tentou com o balde:
“Olááá!”
O “olá” virou um peixe de ar brilhante, nadou no ar até o balde e… ploc! Entrou lá dentro. O balde começou a fazer barulhos de bolhas.
“Agora ele tem aquário”, disse Amora, satisfeita. “Um balde-aquário é um balquário!”
Mordiscão caiu no chão de tanto rir. “Balquário! Posso usar essa palavra no meu currículo de duende?”
“Pode”, disse Amora, muito orgulhosa.
Por fim, ela se virou para Sir Patafúrdio e fez um aceno bem caprichado, do tipo que dá vontade de responder.
“Boa tarde!”
Só que “boa tarde” saiu correndo, literalmente correndo, em forma de duas meias apressadas, e começou a perseguir as patas do cavalo de madeira.
“Toc-toc! Toc-toc! Eu tenho cócegas!”, reclamou Sir Patafúrdio, que de repente parecia ter vida.
Amora arregalou os olhos. “Ops.”
O cavalo de madeira começou a dançar, e o pátio virou um salão de festa: as flores bateram palmas, os pombos fizeram coro, e até o espantalho, sem chapéu, balançou como quem diz “isso é que é dia!”
Mas então aconteceu algo ainda mais engraçado e um tiquinho embaraçoso: os cumprimentos, animados demais, escaparam do pátio e foram pelo castelo, cumprimentando tudo o que viam.
“Bom dia!” para os tapetes.
“Olá!” para as armaduras.
“Boa tarde!” para as colherinhas.
E, claro, uma bolha enorme de “SALVE!” entrou na sala do trono e fez o Rei Farpado espirrar tão forte que o bigode dele se virou para o lado.
“Amora!”, chamou ele, tentando parecer sério. Mas o bigode torto não ajudava. “Você está transformando o castelo em… em… uma feira de cumprimentos!”
Amora mordeu o lábio, preocupada só um pouquinho. “Eu só queria aprender.”
A Rainha Melodia se aproximou, com um olhar doce. “Aprender é bom. Mas talvez você precise de um lugar seguro para seus cumprimentos brincarem sem assustar os mordomos.”
Mordiscão levantou a mão. “Eu conheço um lugar! O Estúdio de Marionetes do Senhor Pompom! Lá tudo fala… e ninguém estranha.”
“Um estúdio de marionetes?”, perguntou Amora, animada de novo. “Perfeito! Se eu treinar com bonecos, posso errar à vontade.”
O Rei Farpado endireitou o bigode com dois dedos. “Desde que nenhum boneco vire ministro.”
“Prometo!”, disse Amora. E cruzou os dedos… por garantia.
Capítulo 2
O Estúdio de Marionetes do Senhor Pompom ficava numa rua de pedrinhas que brilhavam como açúcar. A porta era redonda e tinha uma campainha que, em vez de “trim”, fazia “pum-pum”, bem baixinho, como se tivesse vergonha.
Quando Amora entrou, ficou com os olhos do tamanho de duas luas pequenas. Havia cortinas vermelhas, prateleiras cheias de bonecos, fios pendurados como teias de aranha organizadas, e um cheirinho de madeira nova misturado com risadas velhas.
O Senhor Pompom apareceu de trás de um palco. Ele era um homem magrinho com um nariz tão vermelho que parecia uma cereja teimosa. Tinha também um chapéu que se mexia sozinho, como se cumprimentasse as ideias.
“Bem-vinda, Princesa Amora!”, disse ele, fazendo uma reverência tão longa que quase caiu. “Ou devo dizer… Bem-vinda, Princesa Treinadora de Cumprimentos?”
“Como o senhor sabe?” perguntou Amora.
Pompom piscou. “Em Risolândia, as palavras correm mais rápido que as pernas.”
Mordiscão subiu numa caixa e anunciou: “Nós viemos domar ‘bons dias' e acalmar ‘olás'!”
“Excelente!” Pompom bateu palmas. “Aqui, os bonecos adoram ser cumprimentados. Alguns até pedem bis.”
Ele puxou uma cordinha e um boneco apareceu: era um sapo com casaco, chamado Doutor Coax. Ele tinha uma boca enorme e um jeitão importante.
“Olá, excelência!”, disse Amora, tentando ser formal.
O “olá” escapou de leve, virou uma borboleta verde e pousou na testa do Doutor Coax.
“Coax… COAX!” disse o sapo, encantado. “Que cumprimento delicado! Eu recebi um ‘olá' com asas!”
Outro boneco surgiu: Dona Bigodilha, uma gata com bigodes tão grandes que pareciam vassouras. Ela falava rápido e ria no meio das frases.
“Cumprimenta-me, menina!”, pediu Dona Bigodilha. “Mas com estilo, hein!”
Amora respirou e fez um aceno.
“Bom dia!”
O “bom dia” saiu em forma de pãozinho quente e caiu nas mãos da gata.
“Que delícia!”, disse Dona Bigodilha. “Cumprimento quentinho! Dá até vontade de passar manteiga.”
Mordiscão sussurrou: “Eu sempre quis ser cumprimentado com pão.”
“Você já é pão de duende”, respondeu Amora. “Pão… de… duende. Entendeu?”
Mordiscão demorou um segundo e depois riu como um chocalho. “Entendi tarde, mas entendi!”
Tudo estava indo bem, até que o boneco mais curioso apareceu: o Capitão Pirilampo, um soldadinho com capacete luminoso. Ele falava alto e adorava regras.
“Princesa!”, gritou ele. “Cumprimentos devem ser alinhados em fila! Um por vez! Sem empurrar!”
Amora tentou controlar a magia, mas a magia dela estava com vontade de brincar. Quando ela disse:
“Boa tarde!”
A “boa tarde” virou um tapete voador minúsculo e começou a carregar os bonecos um por um, como se fosse um ônibus.
“O próximo!”, gritou o tapete.
Doutor Coax subiu e deu tchau.
Dona Bigodilha subiu e penteou o ar com os bigodes.
Capitão Pirilampo subiu e começou a organizar as nuvens pela janela.
“Isso está… muito divertido”, disse Amora, rindo. “Mas eu preciso aprender a fazer cumprimentos quietinhos, para o povo não voar sem querer.”
Pompom coçou o nariz-cereja. “Cumprimento tem duas partes: a palavra e a intenção. A palavra pode pular, mas a intenção pode abraçar.”
“Abraçar com intenção?”, repetiu Amora, pensando.
“Sim”, disse Pompom. “Quando você saúda, você diz: ‘Eu vejo você. Eu compartilho este momento com você.' É como dividir um pedaço de bolo invisível.”
Mordiscão levantou a mão. “Eu prefiro bolo visível, mas entendi.”
Amora deu uma risadinha e fechou os olhos. Ela imaginou a praça do reino cheia de gente: padeiros, costureiras, jardineiros, crianças correndo, e até as estátuas que gostavam de ouvir elogios. Imaginou que seu cumprimento era um presente que podia ser dividido, como uma bola que passa de mão em mão.
Então ela falou, bem suave:
“Bom dia.”
Dessa vez, a frase saiu como um sopro de vento morno. Ela não virou bolha nem pão, não virou tapete nem borboleta. Ela virou… um brilho pequenino que se espalhou pelo estúdio, encostando em cada boneco como um carinho.
Os bonecos ficaram quietos por um segundo. E então, todos juntos, responderam:
“Bom dia!”
E o “bom dia” deles não escapou. Ele ficou no ar, bonitinho, como uma música.
Amora abriu os olhos, emocionada e contente. “Eu consegui!”
Pompom sorriu. “Conseguiu porque você pensou em compartilhar.”
Mordiscão fungou. “Eu vou compartilhar minhas pipocas invisíveis… com alguém imaginário.”
Capítulo 3
No dia da grande saudação, a praça de Risolândia estava enfeitada com bandeirinhas que mudavam de cor conforme o humor de quem olhava. Havia uma banda de flautas que tocava “piri-piri-pom”, e uma fonte treinando para não rir alto demais.
Amora ficou atrás da varanda do castelo, olhando para o povo. O coração dela fazia “tum-tum” como um tambor pequenino.
O Rei Farpado ajeitou o bigode. A Rainha Melodia segurou a mão da filha. Mordiscão estava escondido dentro de um vaso, porque ele dizia que vasos eram ótimos camarotes.
“Você está pronta?”, perguntou a rainha.
“Estou”, disse Amora. E completou: “Se eu tropeçar nas palavras, eu levanto com um sorriso.”
“Isso é ser princesa de verdade”, disse o rei, meio sério, meio orgulhoso.
Amora deu um passo à frente. A praça ficou silenciosa como uma biblioteca de algodão.
Ela levantou a mão, acenou devagar e falou:
“Bom dia, Risolândia!”
As palavras saíram certinhas, como passarinhos bem treinados. Mas, porque Risolândia é Risolândia, um pouco de magia apareceu, só para deixar a cena mais alegre: um brilho dourado desceu como chuvisco e formou corações minúsculos que viraram… pãozinhos! Pãozinhos do tamanho de moedas, quentinhos e perfumados.
O povo começou a rir.
“Olha! Cumprimento pãozinho!”, disse um padeiro, encantado.
“Eu peguei dois!”, gritou uma menina. “Vou dividir com meu irmão!”
“Eu também!”, disse um jardineiro. “Um pra mim, um pra minha roseira.”
Amora arregalou os olhos. Ela não tinha planejado pãozinhos, mas… era perfeito. Sem confusão, sem susto. Só alegria.
“Compartilhem!”, disse a princesa, com a voz clara. “É um bom dia que cabe em todas as mãos.”
E a praça virou um grande piquenique de cumprimentos. As pessoas repartiam os pãozinhos, partiam ao meio, ofereciam aos vizinhos, até aos guardas de cara séria — que ficaram com cara séria… mastigando e tentando não sorrir.
Mordiscão saiu do vaso, com farelos imaginários no queixo. “Eu sabia! Cumprimentos alimentam!”
O Senhor Pompom apareceu na multidão, segurando um boneco pequeno que parecia a própria princesa. O boneco acenou.
“Bom dia!”, disse o boneco.
O povo respondeu rindo: “Bom dia!”
Amora achou aquilo tão engraçado que quase falou “bom dongo”, mas segurou. Ela respirou e fez outro cumprimento, bem doce:
“Olá!”
Dessa vez, o “olá” virou várias fitinhas coloridas que pousaram nos ombros das pessoas como se fossem medalhas de amizade. Ninguém ficou preso, ninguém voou sem querer. Só ficou mais bonito.
A Rainha Melodia limpou uma lágrima feliz. “Minha filha aprendeu.”
O Rei Farpado tossiu, tentando esconder que estava emocionado. “Aprendeu e ainda distribuiu lanche.”
Amora riu. “Eu descobri que saudar não é só dizer. É dar um pedacinho de alegria.”
A fonte da praça fez “plim-plim” como se aplaudisse.
Capítulo 4
Quando o sol foi ficando cansado e pintando o céu de laranja, Amora voltou para o quarto. Ela sentou na janela e viu a noite chegar de mansinho, como um gato que não quer acordar ninguém.
Lá em cima, a Lua apareceu, redonda e curiosa, com cara de quem escutou todas as histórias do mundo e ainda quer mais.
Amora apoiou o queixo nas mãos e sussurrou:
“Boa noite, Lua.”
A “boa noite” subiu devagar, como um balão de seda. Não fez barulho, não virou tapete, nem pão, nem borboleta. Virou apenas um brilho prateado que tocou a Lua de leve, como um dedo fazendo cócegas.
E então a Lua… piscou.
Amora arregalou os olhos. “Você piscou pra mim?”
A Lua piscou de novo, bem devagar, como quem responde: “Eu vi você. Eu compartilho este momento com você.”
A princesa riu baixinho para não acordar o castelo inteiro. Lá embaixo, Mordiscão, que tinha seguido até o corredor, perguntou:
“O que foi? A Lua te contou uma piada?”
“Quase”, sussurrou Amora. “Ela me mandou um cumprimento de volta.”
Mordiscão colocou as mãos na cintura. “Eu sabia! Até a Lua gosta de dividir.”
Amora acenou uma última vez para o céu. E, bem lá do alto, a Lua pareceu sorrir um sorriso fininho, do tamanho de uma fatia de pãozinho de “bom dia”.
E assim, em Risolândia, onde a magia fazia rir e onde os cumprimentos podiam ser presentes, a Princesa Amora adormeceu tranquila, com a certeza de que compartilhar é uma forma muito bonita de dizer: “Olá, mundo.”