Parte 1: A menina dos bilhetes dourados
A Bia tinha cinco anos e um bolso muito especial. Não era um bolso qualquer. Era um bolso que gostava de guardar ideias.
Nesse dia, o Circo do Sorriso Brilhante estava montado no campo, com uma lona enorme, vermelha e amarela, a dançar ao vento como uma capa de super-herói. Havia cheiro de pipocas, algodão-doce e… um cheirinho misterioso a tinta fresca.
A Bia entrou com a mãe pela entrada das luzinhas e parou logo, de boca aberta. Um palhaço passou a correr com uns sapatos gigantes e quase tropeçou num balde de purpurinas.
“Ups! Purpurina fugida!” disse ele, a rir.
A Bia riu também, mas de repente reparou numa coisa: os bilhetes do circo eram todos iguais, cinzentos, com letras pequeninas. Pareciam bilhetes tristes.
“E se os bilhetes fossem… dourados?” pensou ela, com os olhos a brilhar.
Na bancada da limonada, a Bia encontrou uma cartolina amarela, um lápis e uma caixa de lápis de cera que alguém tinha deixado. Parecia que o bolso das ideias dela tinha dado um empurrãozinho ao mundo.
A Bia sentou-se numa caixinha de madeira e começou a trabalhar. Desenhou um bilhete grande, com estrelas e uma lua com sorriso. Depois pintou tudo de amarelo bem forte, quase a parecer ouro.
Mas faltava uma coisa.
Ela olhou para a caixa e viu um lápis brilhante, quase mágico: dourado!
“Uau,” sussurrou a Bia, como se tivesse encontrado um tesouro.
Ela fez risquinhos brilhantes no bilhete. Ficou mesmo um bilhete dourado. E como a Bia era criativa, fez mais: bilhete dourado com bigodes, bilhete dourado com um elefante de chapéu, bilhete dourado com uma torta a voar (porque, no circo, as tortas têm vontade própria).
De repente, um som forte fez PUM PUM PÁ! PUM PUM PÁ!
A Bia levou as mãos às orelhas, mas estava a sorrir. Era um bater de tambor que parecia dizer: “Vamos! Vamos! Vamos!”
Um homem alto, com um tambor preso ao peito por uma faixa vermelha, passou a marchar. Tinha um bigode enrolado e um chapéu com uma pena que tremia.
Era o Zé do Tambor, o baterista da parada.
Ele viu a Bia e parou no meio do passo. O tambor deu um último PUM… e ficou quieto, como se também estivesse curioso.
“O que estás a fazer, pequenina artista?” perguntou ele, com voz alegre.
“Bilhetes dourados,” respondeu a Bia. “Bilhetes felizes.”
O Zé do Tambor abriu os olhos, impressionado como se tivesse visto um coelho a tirar um mágico da cartola.
“Bilhetes… dourados?” Ele inclinou-se. “Posso ver?”
A Bia mostrou um com estrelas.
O Zé do Tambor fez um mini-saluto com as baquetas. “Isto é mais brilhante do que o meu tambor quando leva sol!”
E, sem aviso, o tambor fez PUM PUM PUM!, como se estivesse a aplaudir.
Parte 2: O atelier de posters e logos
O Zé do Tambor levou a Bia pelos bastidores. Atrás da lona, era como entrar num mundo secreto: cordas penduradas, caixas com rodas, espelhos com lâmpadas redondas e um macaco de peluche sentado numa cadeira, como se estivesse à espera da sua vez.
A Bia viu uma porta com um cartaz escrito à mão: “ATELIER: POSTERS E LOGOS — ENTRAR COM IDEIAS!”
“É aqui!” disse o Zé do Tambor. “A senhora do atelier adora coisas novas.”
Lá dentro, havia pincéis em frascos, folhas grandes, carimbos, tintas coloridas e um rolo de fita cola que parecia um caracol amarelo.
Uma mulher de avental azul levantou a cabeça. Tinha o cabelo preso com um lápis e uma mancha verde no nariz. Parecia que tinha dado um beijinho numa rã pintada.
“Olá!” disse ela. “Eu sou a Lili dos Cartazes. Quem é esta pequena faísca?”
“Sou a Bia,” disse a Bia, a endireitar-se, orgulhosa. “Eu invento bilhetes dourados.”
A Lili piscou os olhos. “Inventas? Isso é uma palavra bonita. Mostra-me.”
A Bia mostrou os bilhetes. A Lili soltou um “Ohhh!” tão comprido que quase virou um pincel.
“Bia, isto é ouro… sem ser pesado! O circo precisa disto.” Depois apontou para uma parede cheia de cartazes. “Mas olha… temos um problema.”
A Bia aproximou-se. Havia um cartaz enorme com um leão a sorrir… mas o leão estava ao contrário, de cabeça para baixo. Ao lado, outro cartaz dizia “CIRCO DO SORRISO BRILHATE” — faltava um N, coitadinho.
E ainda outro tinha um palhaço com o nariz no lugar do olho.
A Bia tapou a boca para não se rir alto. Foi impossível. Saiu um risinho rápido, como uma bolinha a saltar.
“Ai,” disse a Lili, a coçar a cabeça. “A tinta escorregou, as letras fugiram, e o meu carimbo… acho que espirrou.”
O Zé do Tambor fez um toque de bateria bem baixinho: pum… pápum… pum. Era como uma música de “vamos resolver”.
A Bia olhou para os cartazes e depois para os seus bilhetes. E teve uma ideia tão grande que quase não cabia na cabeça.
“Podemos fazer um logo novo!” disse ela. “E um poster novo! E usar o brilho dos bilhetes!”
A Lili bateu palmas. “Um atelier com uma menina de cinco anos? Isto é a melhor surpresa do dia!”
A Bia subiu para um banquinho. A Lili deu-lhe um lápis grosso e papel gigante.
“Como queres que seja o logo?” perguntou a Lili.
A Bia pensou no circo: as luzes, as gargalhadas, o cheiro doce, os passos rápidos dos artistas.
Desenhou um sol com um sorriso, mas o sol tinha um chapéu de circo. Depois desenhou uma estrela a fazer malabarismo com três bolinhas. E, no meio, fez a palavra “CIRCO” com letras redondas e saltitonas, como se estivessem a dançar.
A Lili ajudou a contornar com tinta preta para ficar bem visível. O Zé do Tambor, muito sério, segurou o frasco da tinta como se fosse um tesouro.
“Cuidado,” avisou ele. “Esta tinta faz cócegas nas mãos.”
E fez mesmo! A Bia pintou e sentiu um comichãozinha engraçada. Riu-se. A Lili riu-se. Até o rolo de fita cola parecia sorrir.
Quando chegou a hora do dourado, a Bia tirou do bolso um lápis brilhante (ninguém sabia como ele tinha ido parar ao bolso… talvez o bolso das ideias tivesse poderes).
Ela fez um contorno dourado no logo. Brilhou de verdade.
“Ai que lindo!” disse a Lili. “Agora precisamos de um poster para a entrada.”
A Bia desenhou um elefante com uma sombrinha, um palhaço com cabelo de arco-íris e uma corda bamba que parecia um fio de massa esparguete. No topo escreveu: “HOJE: RISOS, MAGIA E SURPRESAS!”
O Zé do Tambor fez um rufar: TRRRRRRUM! E depois PÁ! como se estivesse a carimbar com som.
Mas então… ploc.
Uma gota de tinta vermelha caiu mesmo em cima do nariz do palhaço desenhado. Ficou enorme, como um tomate.
A Bia arregalou os olhos. A Lili ficou parada. O Zé do Tambor prendeu a respiração.
E depois… a Bia começou a rir.
“Agora ele está ainda mais palhaço!” disse ela.
A Lili suspirou, aliviada, e também se riu. “Tens razão. Às vezes o erro é uma piada que aparece sozinha.”
Eles transformaram a gota numa ideia: desenharam mais gotinhas e fizeram parecer confettis a cair. O poster ficou ainda mais festivo.
Parte 3: A parada, os bilhetes e um riso no fim
Quando o sol começou a baixar, o circo acendeu as luzes. Pareciam pirilampos em festa.
O novo poster foi colado na entrada, bem alto. As pessoas paravam, apontavam e diziam: “Olha que giro!” Uma criança perguntou se o elefante realmente tinha sombrinha. A outra perguntou se o sol usava chapéu mesmo à noite. A Bia queria dizer: “No circo, tudo pode.”
A Lili preparou uma mesa pequena com uma placa: “BILHETES DOURADOS DA BIA — ENTRADA ESPECIAL!”
A Bia ficou atrás da mesa. Sentia-se importante, como uma rainha das estrelas. Ela entregava bilhetes dourados e dizia com voz doce: “Bem-vindo!”
O Zé do Tambor liderou a parada para chamar o público. Marchava à frente, PUM PUM PÁ!, e atrás vinham artistas a acenar: uma bailarina com saia azul, um malabarista com três maças e um palhaço a equilibrar uma vassoura na testa.
O palhaço aproximou-se da mesa e fez uma vénia exagerada. O seu chapéu caiu. De dentro do chapéu saiu… uma meia! Uma meia às riscas!
A Bia riu. O palhaço pegou na meia e disse: “Desculpa, estava à procura do meu coelho. Encontrei o meu pé.”
A Bia entregou-lhe um bilhete dourado com um bigode desenhado.
“Este bilhete é para ti,” disse ela. “Para entrares com alegria.”
O palhaço olhou para o bilhete como se fosse um espelho mágico. “Uau. Com isto, eu até fico mais engraçado.” E pôs o bilhete no bolso, com cuidado, como quem guarda uma bolacha.
Lá dentro, o espetáculo começou. A Bia viu o mágico tirar lenços coloridos que pareciam peixinhos a nadar no ar. Viu um cão pequenino saltar por um arco e depois… espirrar confettis (pelo menos, parecia). Viu malabarismo, luzes e gargalhadas.
A certa altura, o apresentador anunciou: “E agora, uma surpresa brilhante!”
As luzes baixaram. Uma música suave tocou. O Zé do Tambor fez um rufar bem fininho, como chuva a cair: trrrr… trrrr…
A Lili apareceu com um cartaz novo com o logo criado pela Bia. E, atrás, entrou a Bia, um pouco envergonhada, a segurar uma caixa com bilhetes dourados.
O apresentador disse: “Esta artista pequenina trouxe criatividade para o nosso circo! Graças a ela, temos bilhetes felizes e cartazes sorridentes!”
A Bia sentiu a cara quente. Mas era um quente bom, como um abraço.
As pessoas bateram palmas. O Zé do Tambor fez PUM PUM PÁ!, mas desta vez foi um aplauso em som.
A Bia levantou um bilhete bem alto. A luz apanhou o dourado e fez um brilho que dançou na lona como uma estrelinha.
Depois do espetáculo, nos bastidores, a Lili deu à Bia um pequeno crachá feito de papel: “AJUDANTE OFICIAL DE IDEIAS.”
A Bia colocou-o na camisola, cheia de orgulho.
“Sabes o que fizeste hoje?” perguntou a Lili.
“Aham… desenhei,” disse a Bia.
“Fizeste mais,” disse o Zé do Tambor, a guardar as baquetas. “Transformaste um ‘ops' num ‘uau'.”
A Bia olhou para o seu bolso especial e deu uma palmadinha leve, como quem agradece.
Quando já iam sair, a Bia viu o cartaz antigo com o leão ao contrário. Estava encostado a uma caixa.
Ela aproximou-se e, com um lápis, desenhou um balão de fala ao leão. No balão escreveu: “Às vezes, ver o mundo de cabeça para baixo dá boas ideias!”
A mãe chamou: “Bia, está na hora!”
A Bia acenou aos artistas. O Zé do Tambor fez um último pum… bem baixinho, como um segredo feliz.
A Bia saiu do circo e olhou para trás. As luzes brilhavam, a lona parecia sorrir, e no seu bolso havia mais uma ideia a mexer-se.
Ela soltou um riso discreto, pequenino e contente, como uma estrelinha a piscar só para ela.