Capítulo 1: A Guerra do Último Biscoito
A Inês tinha 10 anos e uma certeza muito séria: o último biscoito de chocolate da caixa tinha dono. E, claro, o dono era ela.
Só que o Tomás, o irmão mais velho, tinha outra certeza muito séria: se um biscoito está sozinho, está a chamar por companhia. A dele.
Na cozinha, os dois ficaram a olhar para a caixa aberta como se fosse um tesouro pirata.
— Esse é meu — disse a Inês, cruzando os braços.
— Teu? Tem o teu nome escrito? — provocou o Tomás, já com a mão a fazer “plim!” no ar, quase a apanhar.
— Tem sim. Invisível. É tinta especial. Só os mais novos conseguem ver — respondeu a Inês, com um sorriso de quem tinha inventado uma lei do universo.
— Ah, então eu vou buscar uns óculos de bebé.
— Vai, vai. E aproveita e traz uma chupeta.
O Tomás fez um “hmpf!” exagerado, como se fosse um rei ofendido, e saiu. A Inês encostou a caixa ao peito, triunfante.
Mas, quando voltou a olhar… o biscoito já não estava.
— QUÊ?! — ela girou sobre si mesma. — Tomás!
Do corredor, veio uma voz inocente demais para ser verdadeira:
— Eu? Nem vi biscoitos! Só vi… ar!
A Inês franziu os olhos. Aquilo cheirava a mal-entendido… e a chocolate.
Capítulo 2: O Canto dos Abraços e o Mistério do “Monstro”
Na sala havia o “canto dos abraços”, um cantinho com almofadas gigantes, uma manta fofinha e um urso de peluche chamado Senhor Bigodes. Era o lugar onde a mãe dizia: “Cinco minutinhos de calma, por favor.” E, normalmente, funcionava… mais ou menos.
A Inês entrou a passo de detetive e encontrou o Tomás meio escondido atrás da manta.
— Apanha-te! Devolve o biscoito! — sussurrou ela, como se estivesse num filme de espionagem.
— Shhh! — o Tomás apontou para o canto dos abraços. — Não podes gritar… há um monstro.
— Um monstro? Aqui? — A Inês olhou para o Senhor Bigodes. — Ele mal sabe respirar.
— Não, não. Um monstro muito pior… o Monstro das Almofadas Assustadoras.
Nesse momento, uma almofada do canto fez um barulho estranho: “Pfff… pfffff… PRRR!”
A Inês congelou.
— Isso… isso foi uma almofada a… a bufar?
— Viste?! — sussurrou o Tomás, arregalando os olhos. — Eu avisei!
“PRRR!”
A manta mexeu-se sozinha. A Inês deu um passo atrás, depois outro, até bater no sofá.
— Está bem… talvez seja… o vento?
— Vento com gases? — o Tomás tapou a boca para não rir. Quase, quase conseguiu.
A Inês estreitou os olhos. Aquilo era esquisito demais. E ela, sendo a mais nova, tinha um talento especial: transformar coisas esquisitas em coisas… ainda mais esquisitas.
— Ok. Se há monstro, temos de fazer um plano — disse ela, já a entrar no papel de comandante. — Um plano calmo. Muito calmo.
— Um plano calmo? — o Tomás piscou.
— Sim. Porque se entrarmos em pânico, o monstro ganha. E eu não vou perder para uma almofada com barulhos.
A Inês sentou-se devagar no canto dos abraços, como se fosse uma domadora de leões, e falou com voz doce:
— Olá, monstro. Nós só queremos conversar.
“Pfff… pffff… PRRR!”
O Tomás mordeu o lábio. A Inês olhou para ele, desconfiada.
— Não estás a ajudar, Tomás.
— Eu nem… — ele apontou para a almofada. — Foi ela!
A Inês respirou fundo. Um. Dois. Três. A mãe dizia sempre que a calma era como um botão secreto. A Inês decidiu carregar nele.
— Vou resolver isto com… serenidade — anunciou, como se fosse uma apresentadora de televisão.
E nesse exato momento, a luz da sala falhou. Ficou tudo mais escuro.
— Ok… agora o monstro desligou a eletricidade — sussurrou o Tomás, dramatizando.
A Inês engoliu em seco. Depois, de repente, sorriu.
— Perfeito.
— Perfeito?! — o Tomás quase caiu sentado.
— Sim. É a hora da minha arma secreta.
Capítulo 3: A Lanterna Heroica e a Missão “Xiii-Cuidado”
A Inês correu até ao armário do corredor e voltou com a lanterna do pai. Era grande, pesada e fazia um clique muito satisfatório: “CLIC!”
Um feixe de luz atravessou a sala como se fosse um sabre de luz… mas sem fazer “vuuum” (a Inês fez na mesma, porque ficava melhor).
— Vuuuum! — ela apontou a lanterna para o canto dos abraços. — Lanterna Heroica, ativar!
— Isso existe? — perguntou o Tomás, já a esquecer o biscoito.
— Agora existe. E tem uma missão: revelar monstros e… irmãos mentirosos.
— Ei!
A Inês avançou com passos cuidadosos, iluminando cada almofada. O Senhor Bigodes parecia muito sério, como se fosse um guarda.
— Senhor Bigodes, está de serviço? — perguntou ela.
O Tomás sussurrou:
— Ele disse que sim.
— Ele não fala.
— Está a falar por telepatia.
A Inês revirou os olhos, mas manteve a calma. Calma era importante. Além disso, a luz da lanterna deixava tudo mais engraçado, com sombras gigantes na parede. A Inês fez uma cara assustadora e projetou-a na parede.
— BUU! — sussurrou ela.
O Tomás deu um saltinho.
— Ai!
— Vês? A lanterna é poderosa.
Chegaram mais perto da almofada que fazia barulhos. A Inês apontou a luz bem de cima. Devagar, levantou a ponta da manta, como se estivesse a abrir uma caixa misteriosa.
Dentro… estava um pequeno ventilador de bolso, daqueles que se carregam por USB, escondido entre duas almofadas. Estava ligado e a vibrar, a fazer “pfff” e “prrr” quando batia no tecido.
— Ahá! — Inês ergueu a lanterna como um troféu. — O monstro é… um ventilador.
O Tomás tentou fazer cara de inocente, mas a sua boca tremia, quase a explodir em riso.
— Eu… eu não sei como isso foi parar aí.
A Inês cruzou os braços, mas com um sorriso.
— Tomás.
— Está bem, está bem! — ele confessou, rindo. — Eu pus aí para te assustar um bocadinho. Só um bocadinho pequenino!
— E o biscoito?
O Tomás ficou vermelho.
— Eu… comi.
A Inês inspirou fundo. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Ela podia gritar, fazer drama, declarar guerra… mas lembrou-se do canto dos abraços. E lembrou-se do botão secreto da calma.
Ela apontou a lanterna para a própria cara, fazendo uma sombra assustadora no teto.
— Então, Tomás… temos duas opções.
— Quais? — ele perguntou, meio preocupado e meio divertido.
— Opção A: Eu fico zangada e tu ficas com medo do meu silêncio eterno.
— Ui.
— Opção B: Transformamos este mal-entendido num sketch familiar. Com direito a julgamento, efeitos especiais e… castigo cómico.
O Tomás arregalou os olhos.
— Castigo cómico é melhor do que castigo a sério?
— Muito melhor. Mas vais sofrer… de cócegas de vergonha.
O Tomás riu.
— Ok. Aceito. Mas tu és a juíza.
— Sou a juíza, a polícia, a lanterna heroica e o Senhor Bigodes.
— O Senhor Bigodes é imparcial?
— Ele é um urso. Logo, é muito sério.
E os dois sentaram-se no canto dos abraços, com a manta por cima, como se fosse uma tenda de tribunal.
Capítulo 4: O Tribunal das Almofadas e o Plano Calminho
A Inês bateu numa almofada como se fosse um martelo.
— TUM! — ela fez. — Está aberta a sessão do Tribunal das Almofadas! Acusado Tomás, és culpado de roubo do último biscoito e de criar um monstro de ventilação.
O Tomás levantou a mão.
— Objeção! Eu não roubei. Eu… adotei o biscoito.
— Objeção rejeitada — disse a Inês, muito séria. — O biscoito não queria ser adotado. Ele queria ser comido por mim.
O Tomás suspirou como se fosse um ator num teatro.
— Eu confesso. Mas peço clemência. Eu sou um homem fraco perante chocolate.
A Inês encostou a lanterna ao queixo, como um detetive.
— Hmmm. O tribunal aceita a confissão… mas exige reparação.
— Quanto custa a reparação? — perguntou o Tomás.
— Custa… uma coisa difícil para irmãos: calma e gentileza.
— Isso é caro.
— Eu sei. — A Inês sorriu. — Por isso vamos treinar.
Ela puxou a manta e fez um “canto dos abraços” ainda mais apertadinho. Os dois ficaram ali, ombro com ombro, com o Senhor Bigodes entre eles como um árbitro.
— Regra número um — disse a Inês. — Quando uma coisa irritante acontece, respiramos antes de falar.
O Tomás fez uma respiração exagerada: “HUUUUU… HAAAAA…”
— Não é para assustar os móveis — ela avisou.
— Desculpa. Os meus pulmões são dramáticos.
A Inês riu e continuou:
— Regra número dois: se houver mal-entendido, fazemos perguntas em vez de acusar.
— Tipo “Comeste o biscoito?” — perguntou ele.
— Sim.
— Então… comeste o biscoito? — perguntou o Tomás, com cara de santo.
— Eu não! — disse a Inês. — Mas eu vou aceitar… um pagamento.
— Em quê?
— Em sketch.
Ela apontou a lanterna para o ventilador.
— O monstro vai voltar, mas desta vez vai ser nosso amigo. Um monstro que só ataca… com cócegas de vento.
O Tomás começou a rir antes mesmo de perceber.
— Um monstro de cócegas?
— Sim. E nós somos os caçadores de calma. Quando alguém se zanga, o monstro aparece e faz “pfff!” na cara até a pessoa rir.
O Tomás ligou o ventilador e apontou, muito devagar, para a bochecha da Inês.
— Pfff…
A Inês tentou manter-se séria… tentou mesmo. Mas o vento frio fez-lhe cócegas e ela começou a rir.
— Para! Para! — ela disse, rindo. — O tribunal está a perder a compostura!
O Tomás apontou o ventilador para o próprio nariz.
— Pfff! — Ele fez uma careta estranha e espirrou. — Atchim!
A Inês caiu para trás nas almofadas.
— Vês? O monstro é justo. Ataca toda a gente.
Os dois riram tanto que a mãe apareceu à porta da sala, desconfiada.
— O que se passa aqui?
A Inês, ainda a rir, endireitou-se e falou com dignidade.
— Nada de grave, mãe. Estamos a resolver um conflito com… calma e tecnologia.
O Tomás acrescentou:
— E com um urso juiz.
A mãe olhou para o Senhor Bigodes, para a lanterna, para o ventilador escondido… e depois suspirou, mas com um sorriso.
— Desde que não desmontem a sala… continuem com a vossa calma.
Quando a mãe saiu, a Inês olhou para o Tomás.
— Reparação final — anunciou ela. — Vais-me dar… o teu iogurte de morango do lanche de amanhã.
— Ai, isso é cruel.
— É justiça.
O Tomás fingiu que chorava.
— Adeus, iogurte… nós mal nos conhecemos…
E os dois voltaram a rir, agora mais calmos, como se a manta fosse mesmo um botão de paz.
Capítulo 5: A Piada Final do “Biscoito Invisível”
Mais tarde, a luz da sala voltou. A Inês desligou a lanterna heroica com um “CLIC!” importante, como se estivesse a terminar uma missão.
O Tomás levantou-se e fez uma vénia ao Senhor Bigodes.
— Obrigado, meritíssimo urso.
A Inês puxou a caixa de biscoitos vazia e abanou-a. Só saíram migalhas: “cric-cric”.
— Sabes — disse ela —, eu ainda estou triste pelo último biscoito.
O Tomás colocou a mão no coração.
— Eu posso fazer uma coisa para compensar.
— Uma coisa… calma? — perguntou a Inês.
— Calma e deliciosa.
Ele foi à cozinha e voltou com um prato.
Em cima, havia… um biscoito.
A Inês arregalou os olhos.
— Mas… como?
O Tomás piscou.
— Eu tinha escondido um de reserva.
A Inês pegou no biscoito com cuidado, como se fosse um diamante.
— Então tu mentiste duas vezes!
— Não, não. Eu… fiz suspense.
A Inês aproximou o biscoito da boca. Nesse momento, o Tomás apontou a lanterna para ele, bem forte, como se fosse um holofote.
— Atenção! — disse ele. — Biscoito invisível em modo de camuflagem!
A luz era tão forte que o biscoito ficou cheio de brilho… e, por um segundo, pareceu mesmo meio invisível por causa do reflexo.
A Inês parou, confusa.
— Onde está o biscoito?!
O Tomás arregalou os olhos, fingindo pânico.
— SUMIU! O monstro das almofadas comeu!
A Inês olhou para a própria mão… e viu o biscoito lá, inteiro. Ela entendeu na hora e começou a rir.
— Tomás, isso foi a pior magia do mundo!
— Foi magia de irmão mais velho. É diferente. — Ele aproximou-se e sussurrou: — Funciona melhor se a vítima estiver com fome.
A Inês deu uma trinca. “CROC!”
— Mmm… magia deliciosa — disse ela, com a boca cheia.
O Tomás sorriu.
— Vês? No fim, ninguém precisa gritar. A gente respira… e faz piadas.
A Inês levantou a lanterna como se fosse um microfone.
— Declaro encerrado o Tribunal das Almofadas! E anuncio que amanhã… o iogurte de morango vai ser meu.
O Tomás suspirou, teatral.
— Que injustiça… tão calma.
E, do canto dos abraços, o ventilador soltou um último “pfff”, como se estivesse a aplaudir.