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História de invenção maluca 9 a 10 anos Leitura 13 min.

O Sussurrador 3000 e o bolso de barulhos do mundo

Inês inventa o Sussurrador 3000 para silenciar o mundo, mas a máquina causa confusões sonoras e leva-a a descobrir que controlar tudo nem sempre é a melhor solução.

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A personagem principal é uma inventora, Inês, surpresa e um pouco envergonhada, cabelo castanho em rabo de cavalo desalinhado, jardineira manchada de tinta e óculos redondos caindo no nariz; ela segura um pequeno aparelho metálico redondo chamado Sussurrador 3000 que emite bolhas sonoras coloridas. Ao lado está Tomás, cerca de 10 anos, com expressão divertida, boca aberta, camiseta às riscas, apoiando uma mão numa estante e inclinando-se como quem escuta. Ao fundo, Dona Lurdes, bibliotecária de cerca de 60 anos, cabelo grisalho preso em coque, óculos finos e vestido florido, leva a mão à boca num gesto de “shhh” surpresa junto ao balcão. O cenário é uma biblioteca acolhedora e empoeirada com longas estantes de madeira cheias de livros coloridos, painel “Novidades”, lâmpadas amarelas de luz suave e tapete estampado. O Sussurrador 3000 liberta de repente sons acumulados representados por bolhas, ondas multicoloridas e onomatopeias que saltam sobre os livros, provocando expressões espantadas e risadinhas presas; a cena é cómica, movimentada e luminosa. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A ideia que não parava quieta

Na garagem cheirando a cola, tinta e bolo de caneca, a Inês apertou o elástico do cabelo e abriu o seu caderno de inventor malicioso. As páginas tinham manchas de café, desenhos de parafusos a sorrir e uma lista séria chamada “Coisas que me vão salvar a paciência”.

Ela escreveu, em letras grandes: “MODO SILENCIOSO PARA O MUNDO”.

“Preciso disto”, murmurou, olhando para a rua pela janela. Lá fora, o cão do vizinho ensaiava uma ópera, o carrinho do lixo fazia ‘CLONC-CLONC' e alguém treinava flauta como se estivesse a discutir com uma gaivota.

A Inês respirou fundo e apontou para um desenho: um botão redondo, uma caixinha e um pequeno altifalante.

“Vai chamar-se Sussurrador 3000”, anunciou para a sua chave de fendas, que não respondeu, porque ainda não tinha sido programada.

A mãe apareceu à porta com uma pilha de meias para dobrar.

“Inês, estás a inventar outra coisa?”

“Desta vez é para o bem da humanidade… e das minhas orelhas.”

“Só não transformes as meias em pombos outra vez.”

“Foi um acidente artístico.”

A Inês abriu uma gaveta com solenidade. Lá dentro havia molas, fios, um botão enorme que dizia “NÃO APERTAR” e um pequeno microfone.

“O plano é simples”, disse ela. “O Sussurrador 3000 ouve o barulho e… baixa o volume.”

“E como é que baixas o volume do mundo?” perguntou a mãe, com a sobrancelha levantada.

A Inês sorriu. “Com criatividade que descarrila alegremente.”

Capítulo 2: A montagem e o botão “NÃO APERTAR”

A Inês trabalhou como se estivesse a montar um sanduíche complicado: camada de fios, camada de fita isoladora, uma pitada de paciência. Cada vez que uma peça caía ao chão, ela dizia: “Foi só um teste de gravidade.”

O amigo dela, o Tomás, apareceu na janela da garagem com uma cara curiosa.

“Uau! O que é isso?”

“Um modo silencioso portátil.”

“Tipo… quando a professora pede silêncio?”

“Melhor. Um silêncio que obedece.”

O Tomás entrou e viu o botão “NÃO APERTAR”.

“Esse é o botão mais apetitoso do mundo.”

“Não é para—”

“—apertar, eu sei.” O Tomás pôs as mãos atrás das costas, como quem evita um bolo.

A Inês ligou o aparelho. Uma luz azul piscou. O Sussurrador 3000 soltou um “piiiiip” tímido, como um pintainho a aprender a assobiar.

“Pronto”, disse a Inês. “Agora é só calibrar. Vou testar com um som pequeno.”

Ela bateu duas colheres. “TIN-TIN.”

O aparelho fez “piiiiip” e, por um segundo, pareceu que o ar ficou macio, como algodão.

Tomás arregalou os olhos. “Acho que funcionou! Eu quase não ouvi o ‘TIN-TIN'!”

A Inês anotou no caderno: “Redução de barulho: SIM. Efeito colateral: ar com cara de travesseiro?”

A mãe gritou da cozinha: “Inês! O teu pai está a falar ao telefone e está a mexer a boca como um peixe!”

A Inês congelou. “O quê?”

Ela correu até à porta. O pai estava na sala, a dizer “sim, sim, claro” sem som nenhum, mas com gestos enormes, como se estivesse a dar um concerto de mãos.

O Tomás sussurrou: “Talvez o modo silencioso… esteja um bocadinho… demasiado silencioso.”

A Inês olhou para o botão “NÃO APERTAR”, que parecia a rir-se.

“Ok”, disse ela. “Vamos ao plano B: desligar já.”

Ela carregou no botão de desligar. A luz azul ficou verde, depois amarela, depois… fez uma careta invisível e ficou roxa.

Da rua, ouviu-se um “MIAAAU!” tão alto que parecia vir de uma trombeta.

O Tomás tapou os ouvidos. “Acho que o silêncio fugiu e deixou um gato a gritar no lugar!”

Capítulo 3: O silêncio com cócegas

A Inês levou o Sussurrador 3000 para a rua, porque às vezes os problemas gostam de espaço para correr.

“Vou ajustar isto aqui fora”, disse ela, com o caderno debaixo do braço. “O mundo é o meu laboratório.”

O Tomás caminhava ao lado, como assistente oficial de “não apertar botões”.

A Inês apontou o aparelho para o cão do vizinho, que estava no seu momento dramático.

“Teste número dois. Ativar modo silencioso… suave.”

Ela girou um botão pequenino. O Sussurrador 3000 fez “puf”.

O cão abriu a boca para ladrar… e saiu um som tão baixinho que parecia uma bolha a rebentar: “poc”.

O cão olhou em volta, confuso, e tentou outra vez: “poc… poc…”

O Tomás riu-se. “O cão virou pipoca!”

Mas então aconteceu o inesperado: não foi só o cão. A bicicleta do senhor Alberto passou e, em vez de “TRRIN-TRRIN”, fez “tlim… tlim…” como um sininho educado. O carrinho do lixo fez “clonc” e virou “cluc”, tímido e envergonhado.

E o pior: a própria voz da Inês começou a sair como sussurro automático, mesmo quando ela tentava falar normal.

“Is-to… es-tá… a… fun-cio-nar?” ela disse, com voz de formiga.

O Tomás aproximou-se para ouvir. “É engraçado, mas… é estranho. Parece que o silêncio tem cócegas e está a fazer tudo rir por dentro.”

Um grupo de crianças passou a correr e a gritar… mas as gargalhadas saíam como “hihihi” de boneco com pilhas fracas. Mesmo assim, elas continuavam a correr, porque correr não precisa de barulho para ser divertido.

A Inês anotou depressa: “Efeito colateral: volume baixa sozinho. As pessoas mexem a boca e o som fica em modo sussurro. O mundo está a falar com meias.”

“Com meias?” repetiu o Tomás.

A Inês apontou para uma senhora que dizia “Bom dia!” sem som, mas abanava a mão com entusiasmo. “Vês? É um bom dia… mudo.”

De repente, uma carrinha de entregas passou e buzinou. Só que a buzina não saiu… e o ar, como se estivesse a segurar a respiração, soltou tudo de uma vez: “HOOOOONK!” tão atrasado e forte que uma pomba deu um salto e ficou a olhar, ofendida.

A Inês engoliu em seco. “Ok. O silêncio não está a desligar. Está a… guardar barulhos e depois atirá-los.”

“Tipo um bolso cheio de buzinas,” disse o Tomás.

“Um bolso que eu inventei,” respondeu a Inês, sentindo as orelhas a ficar quentes.

Capítulo 4: A confusão mais educada da cidade

A Inês decidiu ir ao sítio mais perigoso para qualquer invenção: a biblioteca. Se o Sussurrador 3000 conseguisse comportar-se ali, conseguia em qualquer lugar.

Na entrada, a bibliotecária, Dona Lurdes, levantou o dedo e fez o olhar “shhh” oficial, aquele que vem com anos de treino.

A Inês, com voz de formiga, respondeu: “Eu… só… vou… tes-tar… um… apa-re-lho.”

Dona Lurdes assentiu, feliz por ser uma frase já sussurrada.

A Inês ligou o modo “super-suave”. A luz do aparelho ficou cor de chá.

No começo, foi perfeito. As páginas viravam sem som. As cadeiras deslizavam como patins invisíveis. Até o espirro do senhor do jornal saiu assim: “a… a… atchim?” com ponto de interrogação no fim, como se ele próprio não tivesse a certeza.

O Tomás abriu um livro e mexeu os lábios em silêncio. “Estou a ler em modo mudo. Sou um peixe intelectual.”

A Inês quase riu alto, mas só saiu um “hih”.

Então, atrás de uma estante, ouviu-se um “plim!” — um telemóvel a cair. O som foi sugado pelo ar, guardado no tal bolso invisível.

A Inês apertou os olhos. “Não, não, não… não guardes isso…”

Mas o bolso já estava cheio. E quando um menino deixou cair uma pilha de livros, o “PUM!” não saiu. Quando alguém fechou uma porta, o “BAM!” também não.

Dona Lurdes sorriu, encantada com tanto silêncio, e aproximou-se da Inês.

“Isto é maravilhoso. Finalmente, a biblioteca perfeita!”

A Inês tentou explicar, mas a voz saiu em miniatura: “Há… um… pro-ble-ma…”

Dona Lurdes inclinou-se. “Diga, querida.”

A Inês apontou para o ar, como se pudesse mostrar um saco invisível cheio de sons presos. “O… si-lên-cio… es-tá… a… acu-mu-lar… ba-ru-lhos.”

A bibliotecária franziu a testa. “Acumular?”

Nesse instante, alguém lá fora buzinou. O bolso invisível não aguentou mais. A biblioteca, tão quieta, soltou todos os sons guardados de uma vez: “PLIM! PUM! BAM! ATCHIM! TRRIN! CLONC! HOOOOONK!”

Parecia uma banda a cair pelas escadas.

Os leitores levantaram a cabeça, assustados, e depois… começaram a rir. Até a Dona Lurdes deu uma gargalhada curta, como se estivesse a desobedecer a si própria.

A Inês, vermelha como um tomate, desligou o aparelho com cuidado. “Desculpem. Acho que inventei uma biblioteca com eco atrasado.”

O Tomás sussurrou: “Pelo menos foi o barulho mais educado da história. Saiu tudo de uma vez e pronto.”

A Inês respirou fundo. “Eu queria ajudar… mas criei confusão.”

Dona Lurdes pousou a mão no ombro dela. “Confusão sem perigo, com riso, também é aprendizagem. E… obrigada por me lembrares que até eu posso rir alto às vezes.”

A Inês sorriu pequenino. “Então… não fui um desastre total.”

“Foste um desastre… simpático,” disse o Tomás.

Capítulo 5: Um novo botão e uma ponte para amanhã

De volta à garagem, a Inês abriu o caderno e escreveu: “Lição do dia: o mundo não é um televisor.”

Ela olhou para o Sussurrador 3000, agora quietinho em cima da bancada, como um brinquedo arrependido.

“Eu achei que ia ser a grande inventora do silêncio,” confessou ela ao Tomás. “Mas fiz um bolso de barulhos. E quase transformei a biblioteca num concerto.”

O Tomás encolheu os ombros. “Pelo menos ninguém se magoou. E eu aprendi que um ‘ATCHIM' pode vir com suspense.”

A Inês riu. Desta vez, riu com som normal, e foi bom.

“Sabes o que falta?” disse ela, pegando numa caneta. “Modéstia feliz. Aquele tipo de modéstia que diz: ‘Ok, eu errei… e está tudo bem.'”

Ela desenhou um novo botão no caderno: “MODO SILENCIOSO… SÓ PARA MIM”.

“O quê?” perguntou o Tomás.

“Um botão que não cala o mundo. Só me lembra de falar mais baixo, de ouvir melhor e de não tentar controlar tudo.”

Ela pegou num autocolante e colou no aparelho, por cima do antigo “NÃO APERTAR”. Agora dizia: “APERTAR COM JUÍZO”.

A mãe apareceu com um prato de bolachas. “Então, inventora, o que saiu do teu modo silencioso?”

A Inês mordeu uma bolacha e respondeu: “Saiu uma biblioteca a rir. E uma Inês um bocadinho mais humilde.”

A mãe piscou o olho. “Humilde e com bolachas. Combinação perfeita.”

Já era quase noite. A garagem estava morna, com o som distante da cidade — normal, vivo, imperfeito.

A Inês fechou o caderno e, antes de apagar a luz, escreveu a última frase do dia: “Amanhã: testar ‘Modo Pausa' — para respirar antes de apertar botões.”

Ela olhou para o Sussurrador 3000 e deu-lhe uma pequena palmadinha. “Descansa. Amanhã fazemos melhor. Sem bolsos de buzinas.”

O Tomás abriu a porta e disse: “E se amanhã inventares uma coisa que faz as meias dobrarem sozinhas?”

A Inês sorriu, já a imaginar molas dançantes e tecidos obedientes. “Amanhã é um ótimo dia para falhar um bocadinho… e acertar um bocadinho também.”

E, com essa ponte para o dia seguinte, a garagem ficou em silêncio — um silêncio simples, do tamanho certo.

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Solenidade
Atitude séria e cheia de respeito, como quando algo é feito com muito cuidado.
Calibrar
Ajustar uma máquina ou aparelho para funcionar bem e certinho.
Altifalante
Caixa que faz o som ficar mais alto, também chamada de alto-falante.
Fita isoladora
Fita que se usa para cobrir fios e evitar choques elétricos.
Microfone
Aparelho que pega a voz para ficar mais forte ou para gravar.
Malicioso
Que faz coisas com intenção travessa ou com espírito brincalhão.
Acu-mu-lar
Juntar coisas uma sobre a outra ou guardar muitas coisas no mesmo sítio.
Bibliotecária
Pessoa que trabalha na biblioteca e cuida dos livros e do silêncio.
Modéstia
Atitude de quem não se gaba, mesmo quando fez algo bom.
Autocolante
Figura ou etiqueta com cola atrás que se cola em superfícies.
Paciência
Capacidade de esperar calmo e sem ficar zangado.
Caderno de inventor malicioso
Caderno onde um inventor escreve ideias travessas e desenhos de invenções.

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