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História de carnaval 9 a 10 anos Leitura 16 min.

O ruban bravo e o tambor perdido no Carnaval

Miguel, um menino organizado, sai pelo Carnaval em busca de um ruban “BRAVO”. No caminho, encontra amigos e descobre que generosidade e pequenas bagunças também fazem parte da festa.

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Miguel, menino de 10 anos, sorridente e tímido, rosto redondo, cabelos castanhos curtos e óculos finos, com pochete e um pequeno caderno de desenho, segura e entrega delicadamente um laço azul-turquesa escrito “BRAVO” a Caio, cerca de 8–10 anos, vestido com fantasia de arara colorida (penas vermelhas e amarelas) e olhos emocionados, que recebe o laço sobre o peito enquanto segura um pequeno tambor; ao fundo Dona Zuzu, vendedora de cinquenta anos com cabelo grisalho preso e vestido estampado, sorri e aplaude perto de uma vitrine de loja de fantasias; à esquerda, um vendedor de rua com um carrinho rosa de algodão-doce enfeitado oferece doces; em primeiro plano, um cachorrinho com capa de super-herói late alegremente com penas presas ao pelo; cena numa pequena praça urbana ao anoitecer, paralelepípedos brilhantes, guirlandas de papel entre postes, confetes no chão e uma faixa pintada “CARNAVAL DE LA GÉNÉROSITÉ”; momento principal: Miguel prende o laço “BRAVO” no peito de Caio após sua apresentação, entre aplausos, luzes quentes e atmosfera festiva, suave e acolhedora. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Menino do Apito e da Régua

Miguel tinha dez anos e uma certeza enorme: no Carnaval, até a alegria precisava de organização. Ele não era chato… só era rigoroso, como a professora de matemática quando via um “mais” torto.

Na rua do bairro, em Salvador, o ar cheirava a confete, protetor solar e pipoca. Os prédios pareciam sorrir com serpentinas penduradas nas janelas. Um grupo de crianças passava correndo, vestidas de piratas, estrelas e um dinossauro que claramente tinha comido feijoada demais, porque o rabo não parava de bater nas pessoas.

Miguel caminhava com uma pochete atravessada no peito e uma prancheta na mão. Na prancheta, havia uma lista escrita com capricho:

1) Encontrar música boa.

2) Ver fantasias incríveis.

3) Fazer uma coisa generosa.

4) Entregar um ruban “bravo”.

Sim, ruban. Miguel tinha visto numa revista antiga da mãe uma foto de “riban” de parabéns e decidiu que aquilo era a melhor ideia do mundo: um laço de fita com a palavra “BRAVO” para dar a alguém que merecesse. Só que ele não tinha um. E, se Miguel queria uma coisa, ele queria com começo, meio, fim e letra bonita.

Na esquina, o bloco começou a passar. Tambores faziam o chão tremer como gelatina animada. Um trompete soltou uma nota tão brilhante que parecia risada de passarinho. Miguel endireitou a postura, como quem vai dar um discurso.

— Hoje eu vou achar quem merece o “BRAVO” — ele anunciou para si mesmo.

No mesmo instante, uma pluma azul caiu bem no topo da prancheta e ficou ali, como se tivesse escolhido Miguel.

— Está bem… pluma. Você também pode participar — ele murmurou, tentando não sorrir.

E foi assim, com uma pluma acompanhante e um plano sério, que Miguel entrou no Carnaval.

Capítulo 2: A Loja da Dona Zuzu e a Fita Teimosa

Miguel decidiu começar pelo mais importante: conseguir o ruban “bravo”. Ele ouviu dizer que Dona Zuzu, dona de uma lojinha de fantasias, tinha de tudo: máscaras, capas, coroas e até uma meia com lantejoulas que, dizem, dava vontade de dançar sozinha.

A loja ficava num beco enfeitado com bandeirinhas. Lá dentro, era como entrar num arco-íris que tomou banho de glitter. Havia chapéus de palhaço risonho, asas de borboleta, óculos gigantes em formato de abacaxi e uma fantasia de jacaré com sorriso educado.

Dona Zuzu apareceu atrás de uma cortina de fitas.

— Ô, meu filho! Quer virar o quê hoje? Rei? Astronauta? Pipoca gourmet?

— Eu… eu quero um ruban. Um laço de fita escrito “BRAVO”. Para entregar a alguém.

Dona Zuzu apertou os olhos, divertida.

— Um menino sério no Carnaval? Isso é raro! Quase uma fantasia.

Miguel corou, mas manteve a firmeza.

— É para uma boa causa.

— Boa causa é comigo. — Ela puxou uma caixa enorme. — Tenho fitas de tudo quanto é cor. Só falta a palavra.

Ela entregou a ele uma fita dourada, outra verde, outra vermelha. Miguel escolheu uma azul-turquesa, porque parecia música.

— Agora, precisamos escrever “BRAVO”. — Dona Zuzu pegou um pincel. — Mas tem um probleminha: no Carnaval, as coisas às vezes… dançam.

Como se tivesse ouvido, a fita azul-turquesa escorregou do balcão e saiu “andando” pelo chão, enrolando-se nas pernas de um manequim vestido de sereia.

— Ei! Volta aqui! — Miguel correu, mas a fita fez um nó perfeito no pé dele, como se estivesse brincando.

Dona Zuzu gargalhou.

— Está vendo? Fita teimosa. Mas você tem cara de quem sabe fazer nó direito.

Miguel respirou fundo. Com cuidado, desfez o nó sem puxar demais, como ensinava seu pai quando abria embalagens difíceis.

— Pronto. Agora você vai colaborar.

A fita pareceu obedecer por um segundo… até se enrolar no pincel. O pincel, por sua vez, espirrou tinta num cartaz que dizia “PROMOÇÃO: CAPAS DE SUPER-HERÓI”.

A palavra virou “PROMOÇÃO: CAPAS DE SUPER-BRAVO”.

Dona Zuzu bateu palmas.

— Tá aí! Já temos um super-bravo! — Ela piscou. — Vamos fazer o seu do jeito certo.

Depois de algumas tentativas e risadas (e uma gotinha de tinta no nariz do Miguel), o laço ficou pronto: azul-turquesa, com “BRAVO” em letras brancas e uma estrelinha ao lado.

Miguel segurou o ruban com cuidado, como quem carrega um troféu.

— Obrigado, Dona Zuzu.

— De nada. Mas ó: “BRAVO” não é só pra quem ganha. É pra quem ajuda também.

Miguel anotou mentalmente. O Carnaval estava ensinando coisas sem pedir permissão.

Capítulo 3: O Tambor Perdido e a Generosidade que Faz Barulho

Miguel saiu da loja e quase trombou com um menino vestido de arara. A fantasia tinha penas vermelhas e amarelas, e as asas balançavam com qualquer vento.

— Desculpa! — disse Miguel, imediatamente.

O menino-arara nem respondeu. Estava com os olhos arregalados e as mãos na cabeça.

— Meu tambor… meu tambor sumiu! — ele disse, quase chorando. — Eu ia tocar no bloco das crianças!

Miguel olhou em volta. O som do Carnaval vinha de todos os lados: surdos, caixas, chocalhos, gente cantando desafinado e feliz. Um tambor perdido ali era como perder uma estrela no céu: difícil de achar, mas não impossível.

— Como ele é? — Miguel perguntou, já abrindo a prancheta, como se fosse um detetive.

— Pequeno, com uma fita laranja no lado. Eu deixei perto do carrinho de algodão-doce e… sumiu!

Miguel sentiu a fita azul do ruban “bravo” dentro da pochete, como uma lembrança: “fazer uma coisa generosa”.

— Vamos procurar. Qual seu nome?

— Caio.

— Eu sou Miguel. E eu sou… rigorosamente bom em procurar coisas.

Caio fungou e deu uma risadinha.

Eles correram entre foliões. Um homem vestido de bolo gigante ofereceu uma fatia imaginária. Uma senhora de glitter no cabelo dançava com uma sombrinha colorida, como se tivesse um pedacinho de chuva só dela. Um cachorro com capa de super-herói latia no ritmo do samba. Miguel tentou manter o foco, mas o cachorro quase recebeu um “BRAVO” de tanto que parecia importante.

Perto do carrinho de algodão-doce, havia um problema maior: um monte de fitas e serpentinas tinham se enroscado na roda. O carrinho não andava, e o vendedor, suando, tentava puxar sem rasgar nada.

— Se eu puxar forte, arrebenta tudo — reclamou o vendedor. — E aí, adeus algodão-doce… e adeus meu dia.

Miguel analisou a bagunça como se fosse um quebra-cabeça. Caio, ansioso, olhava para todos os lados.

— Seu tambor pode estar por aqui — disse Miguel. — Mas primeiro, precisamos liberar essa roda. Se o carrinho não sair, todo mundo fica preso nesse canto.

Miguel ajoelhou. Com paciência, foi soltando as serpentinas uma a uma, como quem desembaraça um fio de fone de ouvido que já nasceu enfeitiçado. Caio ajudou segurando as pontas e fazendo caretas engraçadas quando uma fita grudava na sua fantasia de arara.

— Olha, eu tô virando macarrão colorido! — ele disse, e Miguel quase perdeu a seriedade.

Quando a roda enfim ficou livre, o carrinho deu um “toc-toc” e andou. O vendedor levantou os braços.

— Vocês são heróis do açúcar! Toma, um algodão-doce pra cada!

Miguel quase recusou (ele tinha “horário interno” para doces), mas Caio já estava com uma nuvem rosa na mão.

— Obrigado! — Caio falou, com a boca cheia de felicidade.

E então Miguel viu: pendurado no gancho do carrinho, escondido atrás de uma bolsa, estava o tambor pequeno, com a fita laranja.

— Achei! — Miguel anunciou, com uma alegria que pulou a fila da prudência.

Caio pegou o tambor como se fosse um tesouro. Os olhos dele brilharam.

— Você salvou meu Carnaval!

Miguel sentiu um calor bom no peito, como se um tambor tivesse começado a tocar dentro dele também.

— Eu só… fiz o certo.

— O certo é bravíssimo! — Caio respondeu, e abraçou Miguel com as asas de arara abertas, deixando penas por todo lado.

Miguel espirrou uma pena e riu. Riu de verdade.

Capítulo 4: O “BRAVO” que Saiu Passeando

O bloco das crianças começou de novo, mais forte. Caio entrou na fila dos percussionistas. O tambor dele fazia “tum-tum” como coração de festa. Miguel caminhava ao lado, procurando o momento perfeito de entregar o ruban “bravo”.

— Eu vou te dar uma coisa — Miguel falou para Caio, colocando a mão na pochete.

Mas, no exato momento, uma rajada de vento carnavalizado soprou, como se tivesse aprendido a dançar. A pochete abriu um pouquinho (traidora!) e o ruban azul-turquesa escapou, deslizando pelo chão feito uma cobrinha elegante.

— Não! Volta! — Miguel correu.

O ruban passou por pés dançantes, desviou de um confete, deu uma voltinha em torno de uma perna de palhaço e quase foi parar na boca do cachorro-super-herói, que achou que era brinquedo.

— Larga! Isso é um prêmio! — Miguel falou para o cachorro, tentando soar sério.

O cachorro soltou a fita e ainda abanou o rabo, como se dissesse “de nada”.

Miguel pegou o ruban, mas o laço tinha se soltado um pouco, e a palavra “BRAVO” ficou torta, como se tivesse dançado também.

Ele ficou parado, chateado. Ele queria perfeição. Queria entregar o ruban impecável, alinhado, digno de prancheta.

Foi quando Caio parou de tocar e se aproximou.

— Perdeu alguma coisa?

Miguel mostrou o ruban.

— Era para ser bonito. Agora está… bagunçado.

Caio pegou o laço com cuidado e olhou como se fosse uma coisa preciosa.

— Miguel, olha ao redor. — Ele apontou para as pessoas. — Tá todo mundo bagunçado. E tá lindo.

Miguel olhou. A maquiagem de um menino-lobo tinha borrado e virou uma expressão de “lobo simpático”. Uma menina de princesa estava com o sapato diferente em cada pé e parecia ainda mais poderosa. Uma senhora com glitter no cabelo tinha confete grudado na testa formando uma coroa.

— No Carnaval, a bagunça é parte da mágica — Caio continuou. — E seu “BRAVO” torto… parece que sorriu.

Miguel olhou melhor. A estrelinha ao lado da palavra tinha um pinguinho de tinta extra, como uma covinha.

Ele soltou o ar e, pela primeira vez naquele dia, deixou a rigidez escorregar um pouco, como uma serpentina que decide voar.

— Tá bem — ele disse. — Então vai ser um “BRAVO” dançante.

Ele ajeitou o laço o melhor que pôde, mas não tentou apagar a história que o ruban tinha vivido.

E naquele instante, Miguel soube: o “BRAVO” não precisava ser perfeito. Precisava ser verdadeiro.

Capítulo 5: A Banderole Repliée

Já era quase noite, e o céu tinha virado um caldo de roxo e laranja. As luzes da rua piscavam, e parecia que as estrelas tinham aprendido samba.

O bloco parou numa praça. No centro, havia uma pequena apresentação: crianças fantasiadas subiam num palco baixinho para cantar e tocar. Caio foi chamado com seu tambor. Ele respirou fundo, apertou a fita laranja como se fosse amuleto, e começou a tocar.

O ritmo dele era contagiante, como gargalhada em sala de aula. Outras crianças entraram no compasso. O público bateu palmas, alguns dançaram, e até Miguel sentiu os pés querendo brincar.

Quando Caio terminou, a praça explodiu em aplausos. Caio desceu do palco com o rosto brilhando de suor e alegria.

Miguel caminhou até ele, com o ruban na mão. A fita azul-turquesa parecia ainda mais viva sob as luzes.

— Caio — disse Miguel, tentando não gaguejar —, você foi… bravo. Você não desistiu quando perdeu o tambor. E ainda me ensinou que a bagunça pode ser bonita.

Caio arregalou os olhos.

— Eu?

Miguel assentiu e colocou o ruban no peito da fantasia de arara, prendendo com cuidado para não amassar as penas.

— BRAVO — Miguel leu em voz alta, e a palavra soou como um tambor feliz.

Caio abriu um sorriso tão grande que quase virou máscara.

— Obrigado! — ele disse. — Mas… Miguel, eu acho que esse “BRAVO” também é seu.

Miguel ia responder, mas, naquele momento, uma coisa enorme começou a ser desenrolada por voluntários na praça: uma banderole comprida, colorida, cheia de letras e desenhos, como uma faixa de agradecimento. Tinha pintado: “CARNAVAL DA GENEROSIDADE — CADA AJUDA É UM BRILHO”.

Só que o vento, sempre ele, resolveu brincar. A banderole começou a escapar das mãos dos voluntários e a se enrolar nela mesma.

Miguel não pensou duas vezes. Ele correu e segurou uma ponta. Caio correu e segurou outra. Outras crianças vieram ajudar. Em vez de puxar com força, Miguel lembrou das serpentinas do carrinho: paciência, cuidado, mãos leves.

— Devagar! Um passo de cada vez! — Miguel orientou.

— Como se a banderole fosse um jacaré dormindo! — Caio brincou.

— Jacaré dormindo não gosta de puxão! — alguém respondeu, rindo.

Juntos, eles dobraram a banderole com calma, fazendo um retângulo certinho… quase certinho, porque uma pontinha ficou para fora, como língua de criança fazendo careta. Miguel olhou a pontinha e ia ajeitar, mas parou. Aquela pontinha parecia dizer: “Ei, eu dancei também”.

Ele deixou assim.

Os voluntários agradeceram, emocionados. E uma senhora com glitter no cabelo entregou a Miguel e Caio um punhado de confetes extras.

— Pra vocês espalharem mais alegria por aí — ela disse.

Miguel guardou alguns confetes na pochete, ao lado da prancheta. Depois olhou para a banderole repliée, dobrada e quietinha no banco da praça, como se estivesse descansando da festa.

— Missão cumprida — ele falou, baixinho.

Caio deu um toque no tambor: tum.

— E amanhã tem mais?

Miguel pensou na lista. Pensou no ruban tortinho que virou tesouro. Pensou no carrinho livre, no tambor encontrado, na banderole dobrada com cuidado.

Ele sorriu.

— Amanhã eu faço outra lista… — disse Miguel. — Mas ela vai ter espaço pra surpresas.

E, enquanto a música voltava a encher a praça, Miguel finalmente dançou. Só um pouquinho no começo. Depois mais. Porque até um menino rigoroso pode aprender que a alegria, quando é generosa, fica perfeitamente fora do lugar.

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Pochete
Bolsa pequena que se usa na cintura para guardar coisas importantes.
Prancheta
Placa rígida onde se prende papel para escrever ou desenhar em pé.
Ruban
Laço de fita usado como prêmio ou decoração, com palavra escrita.
Riban
Variante escrita encontrada na história para falar de um laço de fita.
Serpentina
Tira colorida de papel que se joga nas festas para enfeitar o ar.
Lantejoulas
Pequenas peças brilhantes costuradas na roupa para enfeitar.
Manequim
Modelo de corpo usado em loja para mostrar roupas e fantasias.
Cartaz
Folha grande com mensagem ou desenho colocada para anunciar algo.
Banderole
Faixa comprida de tecido ou papel usada para escrever mensagens públicas.
Banderole Repliée
Título em francês que mostra uma faixa dobrada, como na história.

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