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Pequenos aventureiros 9 a 10 anos Leitura 16 min.

O recado secreto e a ponte partida

Tomás encontra um bilhete misterioso e, com ajuda de amigos e de um curioso guardador de coisas perdidas, enfrenta túneis, desafios e engenhos para tentar entregá‑lo na biblioteca.

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Um menino de 10 anos, rosto rondo, cabelo castanho curto e boné vermelho meio torto, expressão corajosa e concentrada, segura um pequeno bilhete dobrado numa mão e um lançador improvisado (elástico com mola e lápis) na outra; caminha com cuidado sobre uma passarela de tábuas improvisada sobre um buraco perto de um lago. Uma menina de cerca de 10 anos, cabelo negro em trança, sorridente e determinada, segura a outra extremidade da passarela para estabilizá‑la; usa um colete amarelo e botas enlameadas, parada logo atrás dele, olhando para ele. Um carrinho de brinquedo vermelho com uma roda torta rola entre eles sobre uma pedra, fazendo "tic‑tic", servindo como mascote e guia. Local: um jardim de bairro ao crepúsculo, lago brilhante, juncos, pedras e uma velha ponte quebrada com tábuas faltando, relva molhada e luz suave laranja‑azul. Situação: os dois atravessam corajosamente a passarela improvisada sobre o buraco para entregar um bilhete precioso à biblioteca; atmosfera de aventura cotidiana, tensão suave e amizade, composição dinâmica com movimento para a direita. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Bilhete Dobrado

O Tomás tinha 9 anos e um segredo pequeno no bolso. Era um bilhete dobrado em quatro, tão apertado que parecia ter medo de respirar.

A mãe tinha-lhe dito:

— É para entregares à dona Emília, na Biblioteca do Bairro. E é importante, está bem?

O Tomás fez um gesto sério, daqueles que os adultos fazem quando fingem que sabem tudo. Mas por dentro sentia um friozinho divertido, como quando a porta do elevador fecha e a aventura começa.

Lá fora, a rua era a mesma de sempre. O passeio com as rachas, o café do senhor Aníbal, o cão a dormir ao sol como se fosse uma almofada com patas. E mesmo assim… hoje parecia diferente. Hoje era “missão”.

O Tomás olhou para o bilhete e sussurrou:

— Não te preocupes. Eu entrego-te.

Nesse momento, uma rajada de vento passou e tentou roubar-lhe o boné. O boné levantou voo como um pássaro trapalhão.

— Ei! — gritou ele, correndo.

O boné bateu numa perna de banco, rodopiou, e foi parar mesmo ao lado de uma tampa de esgoto.

O Tomás apanhou-o depressa, mas ficou a olhar para a tampa. Estava um pouco levantada, como se alguém a tivesse esquecido mal fechada. E lá de dentro vinha um som estranho. Um “plim… plim…” como gotinhas a tocar numa taça.

Ele engoliu em seco. A biblioteca era para a frente, mas a curiosidade era uma mão invisível a puxar-lhe a manga.

— Só um olhar rápido — disse para si mesmo. — Só para garantir que… que não há um jacaré. Sim, isto é para segurança pública.

Ele aproximou-se, afastou a tampa um bocadinho e espreitou.

Viu escuro. Viu pedras. E viu um brilho, muito pequeno, como uma estrela caída que não se lembrava do caminho de volta.

O Tomás respirou fundo. Coragem não era não ter medo. Era ir mesmo com o medo a fazer cócegas na barriga.

E lá foi ele.

Capítulo 2: O Túnel dos Barulhos

O Tomás desceu com cuidado. Primeiro um pé, depois o outro. A parede estava húmida e cheirava a terra molhada, como depois da chuva.

O som “plim… plim…” vinha de mais longe. E havia outros sons também. Um “tic-tic” apressado e um “fiuuu” que parecia um assobio envergonhado.

— Olá? — chamou, com voz que tentou parecer adulta.

O “tic-tic” parou. O “fiuuu” também.

Então, uma coisa muito pequena passou a correr perto dos seus ténis. O Tomás deu um salto.

— Rato! — disse, mas não tinha a certeza.

A coisa voltou, mais devagar, e apareceu num pedaço de luz que entrava pela tampa.

Não era um rato. Era… um carrinho de brincar. Um carrinho vermelho, com uma roda torta, a andar sozinho como se tivesse pressa.

O Tomás arregalou os olhos.

— Isso não é nada normal.

O carrinho parou e, sem nenhum motivo que fizesse sentido, inclinou-se para a direita, como se estivesse a apontar para um túnel estreito.

— Queres que eu vá por ali? — perguntou o Tomás.

O carrinho fez “tic-tic” com a rodinha torta, como se dissesse “sim”.

O Tomás tinha duas opções: voltar, entregar o bilhete e esquecer aquela história… ou seguir o carrinho misterioso e descobrir por que é que o esgoto parecia uma sala de jogos secreta.

Ele tocou no bolso. O bilhete ainda estava lá. Missão principal: entregar. Missão secundária: não perder a cabeça.

— Está bem. Mas eu mando — avisou ele, tentando parecer corajoso. — E tu… tu andas devagar.

O carrinho andou, como se percebesse.

O túnel era baixo. O Tomás teve de se dobrar um pouco. A água fazia linhas brilhantes no chão, como se alguém tivesse desenhado um mapa com lápis de prata.

De repente, uma luz apareceu mais à frente. Não era uma lâmpada. Era um brilho azul, suave, como uma noite com estrelas.

E no meio da luz estava uma porta. Uma porta pequenina, do tamanho de uma mochila, com uma campainha feita de tampinhas.

O Tomás aproximou-se e leu um cartaz escrito à mão:

“ATENÇÃO: ENTRADA APENAS PARA QUEM TRAZ UM RECADO IMPORTANTE.

O coração dele deu um salto.

— Eu tenho um recado…

Ele carregou na campainha. As tampinhas fizeram “trin-trin-trin”, como risos.

A porta abriu-se sozinha.

Capítulo 3: A Oficina dos Achados

Do outro lado, não havia monstros. Havia… uma oficina.

Uma oficina escondida, cheia de objetos perdidos: um guarda-chuva com duas pegas, um relógio que andava para trás, uma luva sem par, e até um peluche com cara de quem precisava de um abraço urgente.

No centro, sobre uma mesa, estava um ser pequenino. Parecia uma mistura de pássaro e esquilo, com óculos redondos e um colete feito de papel de jornal.

Ele levantou a cabeça e disse:

— Finalmente! O Mensageiro!

O Tomás engasgou-se.

— Eu… eu sou só o Tomás.

“Só” nada — respondeu o ser, ajustando os óculos. — Eu sou o Nuno-Nó, Guardador de Coisas Perdidas e Endireitador de Problemas Pequenos que Viram Enormes. E tu trazes um bilhete, não trazes?

O Tomás tocou no bolso, desconfiado.

— Como é que sabes?

O Nuno-Nó apontou para uma parede onde havia um mapa do bairro desenhado com tampas de garrafa. Uma linha brilhante ligava a casa do Tomás à biblioteca.

— O bairro fala — disse ele. — As sarjetas cochicham. As bicicletas contam segredos. Hoje, o recado é urgente.

O Tomás tirou o bilhete, mas não o abriu. Tinha prometido.

— Eu só tenho de entregar à dona Emília.

O Nuno-Nó abanou a cabeça, preocupado.

— Sim. Mas há um problema. A ponte do jardim está fechada. Uma rampa partiu-se e ninguém consegue passar por lá. A biblioteca fica do outro lado. E a dona Emília está à espera. Sem recado, ela pode… — ele fez uma pausa dramática — …fechar o Clube dos Exploradores do Bairro.

— O quê?! — o Tomás quase gritou.

Ele adorava o Clube. Era lá que faziam caças ao tesouro com papel e lápis, e aprendiam a observar pegadas de gatos como se fossem sinais secretos.

O Nuno-Nó abriu uma gaveta e tirou três coisas: um elástico grande, um lápis curto e uma mola de roupa.

— Ferramentas de coragem — anunciou. — Não fazem o medo desaparecer. Mas ajudam a pensar.

O Tomás olhou para elas.

— Um elástico, um lápis e uma mola? Isso é coragem?

— É engenho — corrigiu o Nuno-Nó. — E engenho é coragem com ideias.

O carrinho vermelho apareceu e fez “tic-tic”, animado.

— Eu preciso entregar o bilhete — disse o Tomás. — Como é que eu passo se a ponte está partida?

O Nuno-Nó sorriu, como quem tem uma resposta guardada num bolso secreto.

— Não passas pela ponte. Passas pelo quotidiano. Só que… por dentro.

Ele apontou para um tubo grande que subia em direção ao jardim.

— Esse tubo sai perto do lago. Mas há um trecho estreito. Vais ter de ser rápido, calmo e… um bocadinho esperto.

O Tomás respirou fundo.

— Eu consigo.

— E não estás sozinho — acrescentou o Nuno-Nó. — Leva isto.

Ele prendeu a mola no elástico e deu o lápis ao Tomás.

— Um lançador de recados. Se precisares de mandar algo a alguém, faz “clac” e vai.

O Tomás sorriu. Aquilo já parecia uma verdadeira missão.

— Vamos, carrinho — disse ele. — Guia-me.

E lá seguiram.

Capítulo 4: O Lago que Guarda Segredos

O tubo era apertado e cheirava a folhas velhas. O Tomás rastejou devagar, ouvindo o próprio coração como um tamborinho.

A certa altura, o tubo ficou tão estreito que ele teve de tirar o boné e empurrá-lo à frente.

— Desculpa, boné. Hoje és explorador também.

O carrinho vermelho ia primeiro, fazendo “tic-tic” como um relógio nervoso.

De repente, o tubo tremeu. Um barulho de água a correr ficou mais forte.

— Ai — sussurrou o Tomás. — Por favor, que isto não seja uma onda gigante.

Uma corrente de água entrou, mas não era uma onda. Era só uma enxurradinha rápida, como alguém a despejar um balde ao longe.

O carrinho quase foi levado. O Tomás esticou o braço e agarrou-o a tempo, prendendo-o com a mola no elástico.

— Viste? — disse, com um sorriso tremido. — Engenho.

A água passou. O tubo voltou a ficar silencioso. O Tomás respirou de novo e continuou.

A saída era uma grelha escondida entre pedras perto do lago do jardim. Ele empurrou e saiu, piscando os olhos com a luz do dia.

O lago brilhava. Patos passeavam como se fossem donos do lugar. E, do outro lado, a ponte do jardim estava mesmo partida. Uma tábua faltava, deixando um buraco que parecia uma boca aberta.

Perto da ponte, a Inês, uma rapariga da turma dele, estava de braços cruzados, a olhar para o buraco como quem queria discutir com a madeira.

— Tomás? — ela disse, espantada. — De onde é que tu apareceste?

O Tomás sacudiu as calças, tentando parecer normal.

— Vim… pelo atalho.

— Isso não é um atalho. Isso é um “de-onde-é-que-tu-vens” — respondeu ela, desconfiada.

O Tomás pensou rápido. Não podia perder tempo com explicações enormes.

— Preciso entregar um recado à dona Emília — disse ele. — E a ponte está partida.

A Inês arregalou os olhos.

— O recado do Clube?

O Tomás assentiu.

A Inês já não parecia desconfiada. Parecia pronta.

— Então vamos.

— Mas como?

Ela apontou para uma zona onde havia tábuas soltas ao lado de um canteiro e um rolo de fita adesiva esquecida por alguém da manutenção.

— Construímos uma mini-passarela. — Ela sorriu. — O quotidiano deixa pistas, se olhares bem.

O Tomás adorou aquela frase. Parecia coisa de explorador.

Trabalharam depressa. A Inês segurava as tábuas. O Tomás usava o elástico para as manter unidas enquanto ela enrolava a fita.

O carrinho vermelho ajudou empurrando uma pedrinha para firmar a base, como se também fosse um engenheiro.

Quando acabaram, havia uma passarela simples, mas firme o suficiente para atravessar um de cada vez.

— Primeiro tu — disse a Inês.

O Tomás engoliu em seco e deu o primeiro passo. A tábua rangeu. O lago, lá em baixo, fez “glup” como se desse uma gargalhada.

— Não olhes para baixo — murmurou ele.

— Eu estou a olhar para ti — disse a Inês. — Assim não cais.

Ele atravessou. Depois a Inês atravessou também, com passos pequenos e seguros.

Do outro lado, os dois levantaram os braços, vitoriosos, como se tivessem escalado uma montanha invisível.

— Falta pouco — disse o Tomás, tocando no bolso. — O bilhete ainda está aqui.

E correram em direção à biblioteca.

Capítulo 5: O Recado e o Distintivo

A Biblioteca do Bairro tinha um cheiro bom a papel e histórias. A dona Emília estava atrás do balcão, com o cabelo preso e um olhar preocupado, como se estivesse a tentar resolver um mistério só com as sobrancelhas.

Quando viu o Tomás e a Inês, endireitou-se.

— Conseguiram! Pensei que a ponte…

— Estava partida — disse o Tomás, ofegante. — Mas nós… fizemos outra maneira.

Ele entregou o bilhete, com cuidado, como se fosse uma coisa viva.

A dona Emília abriu-o e leu. Os olhos dela foram ficando mais suaves, como quando a luz da tarde entra pela janela.

Depois sorriu. Um sorriso grande, daqueles que fazem o coração respirar melhor.

— Obrigada, Tomás. Obrigada, Inês.

O Tomás inclinou-se um bocadinho.

— O que é que dizia?

A dona Emília levantou o bilhete.

— Era da tua mãe. Ela encontrou a caixa antiga do Clube dos Exploradores. A caixa com os mapas, as lupas e… os distintivos de equipa. Eu estava a pensar fechar o Clube por falta de material. Mas afinal… o bairro ainda guarda tesouros.

A Inês deu um salto pequeno.

— Então o Clube continua?

— Continua — disse a dona Emília. — E mais: vai recomeçar com uma nova regra. Missões do dia a dia. Ajudar, reparar, observar. Transformar o comum em aventura, com segurança e cabeça no lugar.

O Tomás sentiu um calor feliz no peito. Ele pensou no túnel, no carrinho, no Nuno-Nó, na ponte improvisada. Tudo aquilo tinha sido real… e ao mesmo tempo parecia um sonho que ensina coisas.

A dona Emília abriu uma gaveta e tirou dois pequenos distintivos redondos. Tinham o desenho de uma bússola e, no meio, uma estrela.

Ela colocou um no peito do Tomás e outro no da Inês.

— Distintivo de Equipa: “Olhos Abertos e Coração Corajoso”.

O Tomás olhou para a Inês e riu.

— Isto quer dizer que somos uma equipa oficial?

— Quer dizer — respondeu a Inês — que da próxima vez que o teu boné fugir, eu vou atrás contigo.

Eles riram os dois.

À porta da biblioteca, o Tomás teve a sensação de ouvir um “tic-tic” distante, como uma rodinha torta a bater no chão. E, por um segundo, jurou ver um brilho azul a piscar no passeio.

Ele tocou no distintivo e pensou: amanhã é só mais um dia.

Mas agora ele sabia um segredo importante.

Qualquer dia pode ser uma grande aventura, se houver coragem, engenho, amigos… e um recado para entregar.

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Engoliu em seco
Fez uma pausa por nervosismo ou medo, sentiu a garganta apertada.
Ténis
Sapato confortável, usado para correr ou brincar.
Mola de roupa
Prendedor pequeno, geralmente de madeira ou plástico, para fechar roupas no varal.
Engenho
Capacidade de inventar soluções com coisas simples.
Quotidiano
O dia a dia, as coisas comuns que acontecem todos os dias.
Tampinhas
Pequenas tampas, como as de garrafas, usadas aqui como campainha.
Passarela
Caminho estreito e elevado para as pessoas atravessarem.
Oficina
Lugar onde se consertam ou se fazem objetos e trabalhos manuais.
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