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Pequenos aventureiros 9 a 10 anos Leitura 15 min. (1)

A seta das aventuras seguras

Tomás e Joana encontram um seixo com uma seta que os guia para um caminho escondido; na aventura descobrem um reino esquecido, ajudam um gatinho e aprendem que explorar também é cuidar.

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Menino de 10 anos, rosto redondo com sardas, sorriso tímido, cabelo castanho curto, de t-shirt às riscas e calções, agachado a puxar um elástico sob pedras; Joana, 9 anos, cabelo castanho apanhado, expressão decidida, de vestido simples e ténis empoeirados, ajoelhada a empurrar uma pedra com um pau; um gatinho grisalho e branco preso entre pedras mia fraco no centro; ao fundo, um contentor verde numa esquina, caminho estreito com ervas altas, uma vedação partida e montes de pedras e ramos, folhas secas ao pôr do sol; cena principal: as crianças libertando o gatinho com gestos pacientes e olhar solidário, marcas de giz colorido e uma pedra pintada com uma seta vermelha visível no bolso do menino. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Seixo e a Ideia

O Tomás tinha 10 anos e um bolso cheio de coisas úteis. Um elástico. Um lápis curtinho. Uma tampa de garrafa. E um sorriso que aparecia sempre que via algo novo.

Naquela tarde, ele desceu até ao ribeiro ao fundo da rua. Não era longe. Era “logo ali”, como a mãe dizia. Mas para o Tomás, “logo ali” podia virar um mapa inteiro.

A água fazia barulhinhos de risos, como se estivesse a contar piadas às pedras. O Tomás agachou-se e começou a escolher seixos. Um era redondo demais. Outro parecia um ovo de dinossauro. Outro tinha uma mancha que parecia um nariz.

Então viu um seixo cinzento, liso, do tamanho da palma da mão. Perfeito.

“Vou desenhar uma seta aqui”, disse ele em voz alta, como se o ribeiro precisasse de confirmação.

Uma seta. Simples e importante. Uma seta que apontasse para… bem, para alguma coisa. Talvez para a árvore maior. Talvez para o caminho de volta. Talvez para uma aventura.

Ele virou o seixo entre os dedos.

“Mas preciso de uma boa ideia para a seta”, murmurou. “E de um lápis que escreva em pedra.”

O lápis curtinho do bolso olhou para ele com ar de “eu tento, mas não prometo”.

Nesse momento, uma rajada de vento fez as folhas dançarem e uma folha caiu mesmo em cima do seixo, como se o ribeiro tivesse deixado um bilhete.

Tomás riu-se.

“Está bem. Entendi. Hoje é dia de descoberta.”

Ele guardou o seixo no bolso, com cuidado, e decidiu que a primeira missão era encontrar um jeito de desenhar uma seta que não desaparecesse à primeira gota de água.

E, claro, descobrir para onde ela deveria apontar.

Capítulo 2: O Plano do Giz Impossível

De volta ao prédio, Tomás subiu as escadas aos saltinhos. No patamar do segundo andar estava a Joana, vizinha do lado, com uma caixa de giz colorido na mão. Ela tinha 9 anos e uma cara séria de quem estava a organizar um espetáculo.

“Oi, Tomás. Queres ajudar? Estou a desenhar um jogo no chão.”

Tomás apontou para a caixa.

“Giz! Isso escreve em pedra?”

Joana levantou uma sobrancelha.

“Escreve em tudo, menos na cabeça do meu irmão.”

Tomás riu.

“Preciso desenhar uma seta num seixo. Uma seta de aventura.”

“De aventura?” Joana endireitou-se logo, como se a palavra fosse um apito. “Mostra!”

Ele tirou o seixo do bolso. A luz do fim da tarde deixou-o com brilho de lua.

Joana pegou num giz azul e tentou riscar. A linha ficou fraquinha, quase um suspiro.

“Hmm. Isto vai sair com água”, disse ela, abanando a cabeça. “Precisamos de… inteligência.”

Tomás fez cara de cientista de filme.

“E coragem.”

“E uma coisa pegajosa”, completou Joana. “A minha avó tem verniz transparente para as unhas. Parece magia. Fica brilhante e dura.”

“Verniz numa pedra? Isso é permitido?” Tomás perguntou, meio a brincar.

“Na minha experiência, a aventura não pede licença”, disse Joana, com um sorriso.

Eles desceram até ao apartamento da avó da Joana. A avó, dona Emília, abriu a porta com uns óculos na ponta do nariz.

“Então? Que conspiração é esta?”

Joana explicou tudo num fôlego só: seixo, seta, aventura, giz, verniz, missão.

Dona Emília ouviu e depois apontou para um frasquinho.

“Verniz transparente, sim. Mas com uma condição: vão explorar em segurança. E nada de assustar pombos por desporto.”

Tomás ergueu a mão.

“Prometido. Pombos só se assustam sozinhos.”

A avó riu, e o som foi como um sino pequeno.

De volta ao patamar, Tomás desenhou a seta com giz vermelho, com traço forte e decidido. Joana segurou o seixo firme, como se fosse um tesouro.

Depois, com muito cuidado, passaram uma camada fina de verniz por cima. O giz ficou preso, brilhante, como uma seta encantada.

Tomás soprou para secar.

“Agora falta o mais difícil”, disse Joana. “Para onde aponta a seta?”

Tomás olhou pela janela do patamar. Lá em baixo, a rua parecia uma trilha. Ao fundo, o ribeiro chamava. E mais além, o terreno baldio com ervas altas parecia um pequeno reino.

Ele engoliu em seco, sentindo aquele frio bom da aventura.

“Amanhã de manhã”, disse ele. “A seta vai apontar para um lugar que ninguém nota.”

Capítulo 3: O Reino Atrás do Contentor Verde

Na manhã seguinte, o céu estava tão azul que parecia recém-lavado. Tomás encontrou-se com a Joana junto ao contentor verde da reciclagem, no canto da rua. Um lugar comum. Um lugar ignorado.

“É aqui que começa o reino?” Joana perguntou, a rir.

“Shhh”, disse Tomás, divertido. “Não assustes a realeza.

Atrás do contentor havia um caminho estreito, escondido por arbustos. Não era proibido. Só era… esquecido. O tipo de lugar que os adultos passam sem reparar, porque estão a pensar em compras e horários.

Tomás tirou o seixo do bolso. A seta vermelha brilhava.

Ele colocou o seixo no chão, numa pedrinha maior, como se fosse um pedestal.

A seta apontava para o caminho escondido.

“Pronto”, disse ele. “Agora é oficial.”

Eles avançaram. As ervas altas roçavam-lhes nas pernas, fazendo cócegas. Um gafanhoto saltou e quase acertou no sapato do Tomás.

“Ei!” Tomás reclamou. “Pede desculpa!”

O gafanhoto, claro, não pediu. Mas saltou como se estivesse a rir.

O caminho levou-os até uma cerca caída. Do outro lado havia um espaço com árvores jovens e um amontoado de pedras. Um lugar com cheiro a terra molhada e folhas quentes.

“Parece um sítio onde um dragão escondia a lancheira”, disse Joana.

“Ou onde um explorador perdeu o mapa”, respondeu Tomás.

Eles passaram pela cerca com cuidado. Tomás ia à frente, testando o chão com um pau. Joana seguia, atenta, com a caixa de giz na mochila “para emergências artísticas”, como ela dizia.

Então ouviram um som fraco: “Miau!”

Pararam.

“Foi… um gato?” Joana sussurrou.

“Ou um tigre miniatura”, brincou Tomás, mas o coração bateu mais rápido.

Seguiram o som até encontrarem um gatinho preso entre duas pedras. Era pequeno, com o pelo sujo e olhos grandes. Tentava sair, mas escorregava.

“Olá, majestade”, disse Tomás, baixinho. “Problemas no castelo?”

O gatinho miou de novo, mais alto.

Joana ajoelhou-se.

“Temos de ajudar. Mas cuidado. Se eu puxar, posso magoar.”

Tomás olhou em volta. Precisavam de inteligência. E calma.

Ele tirou o elástico do bolso.

“Se conseguirmos afastar um pouco as pedras… e fazer uma espécie de alça… posso deslizar o elástico por baixo e puxar devagar.”

Joana pegou no pau e tentou fazer alavanca numa pedra menor. Ela fez força, a língua de fora, concentrada. A pedra mexeu um bocadinho.

“Agora!” disse ela.

Tomás passou o elástico com cuidado, como se estivesse a passar uma fita de presente por baixo de um pacote frágil. O gatinho estremeceu, mas não fugiu. Parecia entender.

“Vai ficar tudo bem”, disse Tomás. “Prometo.”

Ele puxou devagar. Joana manteve a pedra afastada. O gatinho escorregou, primeiro uma pata, depois outra, e finalmente saiu, tropeçando para a frente.

Livre.

O gatinho abanou-se, lançou-lhes um olhar importante e… esfregou-se na perna da Joana.

“Ele escolheu-te”, disse Tomás, admirado.

Joana sorriu, com o rosto todo luz.

“Ou escolheu a nossa equipa.”

O gatinho miou como quem concorda.

Mas então, ao longe, ouviram uma voz: “Miminho! Onde estás?”

Joana arregalou os olhos.

“Eu acho que este tigre miniatura tem dono.”

Capítulo 4: A Tempestade de Folhas e o Mapa Improvisado

A voz aproximava-se. Era de uma senhora, com tom preocupado. Tomás e Joana olharam um para o outro.

“Temos de levar o gatinho até ela”, disse Tomás. “Mas sem nos perdermos. Este lugar parece maior por dentro.”

Como se o terreno baldio tivesse decidido virar floresta só para testar exploradores.

O vento levantou-se de repente, rodopiando folhas secas como se fossem um bando de passarinhos de papel. Algumas folhas bateram-lhes na cara. Uma entrou na mochila da Joana.

“Ok, vento!” Joana resmungou. “Também queres participar?”

Tomás segurou o boné.

“Resiliência”, disse ele, fazendo a palavra soar como uma senha secreta.

O gatinho, agora mais corajoso, avançou alguns passos e depois olhou para trás, como quem diz: sigam-me.

“Ele sabe o caminho!” Joana disse, com esperança.

Eles seguiram o gatinho por entre as árvores jovens. Mas o vento continuava, e as folhas no chão pareciam todas iguais. Tomás sentiu um aperto no estômago.

“E se voltarmos para o lado errado?” ele perguntou.

Joana tirou a caixa de giz da mochila.

“Vamos fazer um mapa ao vivo.

“Como assim?”

Ela desenhou uma pequena marca numa pedra: uma bolinha azul. Depois, mais à frente, uma risca verde num tronco caído.

“Marcamos o caminho. Assim, se precisarmos, voltamos por estas marcas.”

Tomás sorriu.

“Tu és tipo… uma cartógrafa de giz.”

“E tu és o guardião do elástico mágico”, respondeu ela.

O gatinho miava de vez em quando, como um sininho a guiar. A voz da senhora ficava mais próxima.

“Miminho!”

“Estamos aqui!” Tomás gritou, com a mão em concha.

O vento, como se não gostasse de gritos, soprou mais forte. Um ramo mexeu e deixou cair um chuvisco de folhas mesmo em cima do Tomás.

“Obrigadinho, árvore!” ele disse, sacudindo-se. “Muito gentil!”

Joana riu, e isso ajudou a acalmar o medo.

Finalmente, chegaram a um canto onde a cerca era mais baixa. Do outro lado estava uma senhora de cabelo preso e olhos aflitos.

Quando viu o gatinho, levou as mãos à boca.

“Ah! Miminho!”

O gatinho correu, atravessou a abertura e saltou para os braços dela, como se fosse um rei a voltar ao trono.

A senhora suspirou, aliviada.

“Obrigada, crianças. Eu estava desesperada. Ele fugiu quando eu abri a janela.”

Tomás e Joana trocaram um olhar de missão cumprida.

“Ele ficou preso entre pedras”, explicou Joana. “Mas já está bem.”

A senhora baixou-se ao nível deles.

“Vocês foram muito corajosos. E muito cuidadosos. Isso é raro e bonito.”

Tomás sentiu o peito encher-se, como se tivesse apanhado um sol pequeno.

A senhora sorriu e apontou para o bolso do Tomás, onde o seixo fazia um volume.

“O que é isso?”

Tomás tirou o seixo com a seta brilhante.

“É… uma seta para aventuras seguras”, disse ele, meio envergonhado.

A senhora riu.

“Então façam-me um favor: apontem essa seta para casa quando a aventura acabar.”

Joana fez uma continência.

“Sim, senhora!”

Capítulo 5: A Seta que Aponta para a Alegria

No caminho de volta, o vento acalmou, como se tivesse ficado satisfeito com o final. As marcas de giz da Joana apareciam aqui e ali, como migalhas coloridas.

Quando chegaram ao contentor verde, Tomás viu o seixo onde o tinha deixado. A seta ainda brilhava, firme, como uma ideia que não desiste.

Ele pegou nele e ficou a olhar.

“Sabes”, disse ele, “eu achei que a aventura ia ser encontrar um lugar secreto. Mas foi… ajudar.”

Joana assentiu, fazendo festinhas imaginárias no gatinho que já não estava.

“A gente encontrou um reino, sim. E também encontrou uma missão.”

Tomás pensou um pouco. Depois virou o seixo.

“Vou desenhar outra seta.”

Joana abriu a boca, surpresa.

“Outra?”

“Uma pequena, aqui ao lado. Para lembrar que a aventura pode apontar para duas coisas: descobrir e cuidar.”

Ele pegou no giz vermelho. A mão tremia só um pouco, de emoção. Desenhou uma seta menor, ao lado da primeira, apontando na direção de casa.

Depois passou uma camada fininha de verniz, que a avó da Joana tinha deixado “para emergências heroicas”.

A seta dupla ficou ali: uma para o caminho escondido, outra para o caminho de volta. Como duas pernas de uma mesma corrida.

Joana olhou para o seixo e sorriu.

“Parece que está a dizer: ‘Vai, mas volta'. E volta feliz.”

Tomás guardou o seixo no bolso, quente do sol.

“E amanhã”, disse ele, “podemos explorar outra coisa normal. Tipo… a lavandaria do prédio.”

Joana fez uma careta divertida.

“Ui. As máquinas de lavar são monstros famintos.”

Tomás riu alto.

“A gente leva giz. E elástico. E coragem.”

Eles caminharam devagar, sentindo o chão conhecido como se fosse novo. Quando chegaram ao portão do prédio, Tomás parou.

“Obrigado, Joana. Sem ti, eu teria só uma pedra. Contigo, eu tive uma aventura.”

Joana ficou corada, mas tentou disfarçar com um encolher de ombros.

“Sem ti, eu teria só giz. Contigo, eu tive uma história.”

Tomás abriu os braços.

“Abraço de equipa?”

Joana entrou no abraço com força, e os dois ficaram ali um segundo, apertados, a rir baixinho, como quem guarda alegria no bolso para a noite inteira.

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Ribeiro
Pequeno curso de água, como um rio muito estreito e ruidoso.
Seixo
Pedra pequena e lisa, encontrada junto de rios ou caminhos.
Verniz transparente
Produto brilhante que se passa por cima para proteger e fixar desenhos.
Patamar
Parte plana de escadas onde se pode parar ou conversar.
Rajada
Sopro de vento forte e repentino que mexe folhas e objetos.
Alavanca
Objeto ou movimento usado para levantar ou mover algo pesado com menos força.
Cartógrafa
Pessoa que desenha mapas e marca caminhos e lugares.
Resiliência
Capacidade de aguentar dificuldades e seguir em frente com coragem.
Pedestal
Base ou apoio onde se põe um objeto para que fique destacado.
Mapa ao vivo
Desenho feito no momento para marcar o caminho enquanto se anda.
Realeza
Conjunto de reis, rainhas ou a ideia de um reino, como pessoas importantes do castelo.

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