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História de pequenos investigadores 7 a 8 anos Leitura 17 min.

O mistério dos bilhetes desaparecidos no Cinema da Rua das Amoras

Tomás e Bia transformam uma ida ao cinema num mistério quando os bilhetes desaparecem, e com calma, gentileza e pequenas pistas começam a investigar onde eles foram parar.

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Dois personagens: garoto de 9 anos Tomás, cabelo castanho despenteado, camiseta amarela com manchas, calça azul, ajoelhado à esquerda segurando dois bilhetes de cinema dobrados e olhando surpreso para um banco de madeira gasto com uma fenda entre assento e encosto; menina de 9 anos Bia, cabelo preto preso em rabo, jaqueta vermelha com bolinhas brancas, sentada em uma pequena cadeira de rodas colorida à direita e apontando para o banco com um sorriso calmo; local: corredor de cinema com azulejos azulados, luz suave e balcão de bilheteria ao fundo; situação: Tomás acabou de encontrar os dois bilhetes escondidos na fenda do banco, atmosfera de descoberta alegre. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Bilhete que Sumiu

O Tomás adorava listas. Tinha listas para tudo: “lanche”, “livros”, “coisas para lembrar”, e até “piadas para contar quando alguém estiver triste”.

Nesse sábado, a lista mais importante estava no bolso:

1) Encontrar a Bia às 15h.

2) Ir ao Cinema da Rua das Amoras.

3) Ver o filme “O Gato Astronauta”.

4) Comer pipocas. Muitas.

A Bia já esperava à porta do cinema. Estava sentada na sua cadeira de rodas e abanava a mão, com um sorriso grande.

“Chegaste! Tens a tua lista?” perguntou ela.

“Claro! E trouxe um lápis. Mistérios adoram lápis”, respondeu o Tomás.

O cinema era pequenino e acolhedor. Tinha um cartaz colorido, cheirava a pipocas e tinha uma senhora simpática na bilheteira, a Dona Lina, que usava óculos redondos.

“Dois bilhetes para ‘O Gato Astronauta', por favor”, disse o Tomás, com um ar importante.

A Dona Lina entregou os bilhetes. “Guardem bem. Hoje está cheio!”

O Tomás enfiou os bilhetes no bolso da frente, deu duas palmadinhas para confirmar e disse: “Missão bilhetes: segura.”

Eles foram comprar pipocas. A Bia escolheu um copo de sumo de laranja e o Tomás pediu pipocas doces e salgadas, porque, segundo ele, “a vida é melhor quando não tens de escolher”.

Quando voltaram para a entrada da sala, um rapaz alto, com colete do cinema, pediu: “Bilhetes, por favor.”

O Tomás meteu a mão no bolso… e sentiu… nada.

Ficou com a mão lá dentro, como se estivesse à procura de um peixe num aquário vazio.

“Não pode ser”, murmurou.

A Bia inclinou a cabeça. “Tomás… o teu bolso está a fazer cara de ‘não tenho bilhetes'.”

O Tomás engoliu em seco e começou a procurar nos outros bolsos. No bolso de trás: uma moeda. No bolso da mochila: o lápis. No bolso lateral: uma lista antiga chamada “coisas para fazer no verão (mesmo no inverno)”.

Mas bilhetes? Nada.

O rapaz do cinema sorriu com calma. “Sem pressa. Procurem bem. Eu espero.”

A Dona Lina viu de longe e veio a passo apressado, mas sem zangas. “Oh, querido… eram dois bilhetes. Tinha-os na mão há pouco.”

O Tomás sentiu o coração fazer “tum-tum”, mas a Bia pôs a mão no braço dele.

“Respira. Isto é um mistério simpático”, disse ela. “Mistérios simpáticos resolvem-se com calma.”

O Tomás endireitou-se. “Então… vamos investigar. Eu sou o Tomás, Detetive das Coisas Perdidas. E tu és a Bia, Detetive das Coisas Bem Pensadas.”

A Dona Lina levantou uma sobrancelha, divertida. “Eu posso ajudar. Mas não quero atrasar o filme.”

O Tomás abriu a mão e mostrou o lápis. “Vamos reconstruir o caminho. E… reconstruir um álibi.

“Um áli… o quê?” perguntou o rapaz do cinema.

“Um álibi é quando alguém mostra onde esteve, para percebermos o que aconteceu”, explicou a Bia, com voz clara. “Neste caso, vamos mostrar onde os bilhetes estiveram.”

O Tomás assentiu. “E nós também. Vamos por passos, como numa lista!”

A Dona Lina apontou para um banco perto da bilheteira. “Sentem-se ali dois minutos. Digam-me tudo, bem certinho.”

O cinema continuava alegre, com crianças a rir e pipocas a estalar. Ninguém estava em perigo. Só havia um bilhete fujão… ou muito distraído.

Capítulo 2: Pistas no Cheiro a Pipocas

O Tomás fez uma lista nova no papel:

1) Bilheteira.

2) Pipocas.

3) Casa de banho?

4) Entrada da sala.

“Começamos pela bilheteira”, disse ele. “A Dona Lina deu-nos os bilhetes.”

“Isso eu confirmo”, disse a Dona Lina. “Eu vi-os. Brancos com a faixa azul. Duas unidades. E vocês sorriram.”

A Bia olhou para o chão, para o balcão, para o cesto do lixo ao lado. “Pista número um: o lixo.”

O Tomás espreitou, com cuidado. “Não vejo bilhetes.”

A Dona Lina abanou a cabeça. “Eu troco o saco do lixo só no fim do filme. Ninguém mexeu.”

“Então vamos ao ponto dois: pipocas!” anunciou o Tomás.

Eles foram ao balcão das pipocas. O senhor Manel, o pipoqueiro, tinha um bigode que parecia duas vírgulas.

“Boa tarde, detetives!” disse ele, como se já soubesse. “O que foi desta vez? Pipoca desaparecida?”

“Bilhetes desaparecidos”, disse a Bia.

O senhor Manel fez uma cara séria durante meio segundo… e depois sorriu. “Ah! Isso é menos pegajoso do que pipoca. Vamos ver… vocês estiveram aqui. O menino pediu metade doce, metade salgada. Uma escolha corajosa.”

“Sim!” disse o Tomás. “Eu estava com os bilhetes no bolso.”

A Bia perguntou: “Tiraste alguma coisa do bolso aqui?”

O Tomás pensou. “Tirei… a moeda… para pagar a gorjeta? Não. Eu nem dei gorjeta, só pensei nisso.”

O senhor Manel riu-se baixinho. “E bem que podia! Brincadeira, brincadeira.”

A Bia apontou para o balcão. “Puseste o pacote de pipocas em cima do balcão?”

“Pus”, respondeu o Tomás. “E o sumo também.”

“E o bolso… ficou aberto?” perguntou a Bia.

O Tomás tocou no bolso da frente. “Talvez. Eu estava a fazer malabarismos com as pipocas.”

O senhor Manel inclinou-se. “Eu vi uma coisa a cair? Hmm… vi cair um papelinho perto do tapete da entrada. Mas pensei que fosse um guardanapo.”

“Papelinho!” repetiu o Tomás, com os olhos brilhantes.

Eles foram até ao tapete grande, perto da porta do cinema. Era vermelho e tinha estrelinhas. O Tomás ajoelhou-se (com cuidado para não esmagar pipocas perdidas) e a Bia aproximou-se.

“Estás a ver alguma coisa?” perguntou ela.

O Tomás apalpou de leve. “Só… migalhas e uma roda pequenina de brinquedo.”

“Uma roda?” disse a Bia.

O Tomás levantou uma rodinha azul. “De um carrinho!”

A Bia sorriu. “Isso é uma pista, mas não é o bilhete.”

O rapaz do cinema aproximou-se. “Eu chamo-me Vasco”, disse. “Posso ajudar. Ainda faltam dez minutos para o filme começar.”

“Obrigada, Vasco!” disse a Bia. “Diz-nos: viste alguém apanhar um papel do chão?”

O Vasco pensou. “Vi uma menina pequena com um casaco amarelo. Ela apanhou qualquer coisa e foi para ali… perto das máquinas de bolinhas.”

“Máquinas de bolinhas!” repetiu o Tomás, como se fosse o nome de um planeta.

A Bia levantou o dedo. “Temos de ser gentis. Pode ter apanhado para ajudar.”

“Gentis e detetives”, concordou o Tomás.

Eles foram até às máquinas de bolinhas coloridas, onde crianças rodavam manivelas e recebiam bolas com surpresas.

Lá estava a menina do casaco amarelo, a olhar para uma bola transparente com um boneco lá dentro.

A Bia aproximou-se, com voz doce. “Olá! Desculpa incomodar. O meu amigo perdeu dois bilhetes. Viste um papel no chão?”

A menina apertou os lábios e depois tirou do bolso um papel amassado. “Eu… apanhei isto. Tinha medo que alguém pisasse.”

O Tomás sentiu alívio… mas quando ela abriu a mão, era um guardanapo com um desenho de um gato.

“Obrigada na mesma”, disse o Tomás, sem fingir que era bilhete. “Foi muito gentil.”

A menina sorriu, orgulhosa. “Eu gosto de ajudar.”

O Vasco coçou a cabeça. “Então não foi ela.”

O Tomás olhou para a lista. “Falta o ponto três: casa de banho?”

A Bia riu-se. “Tomás, foste à casa de banho?”

O Tomás corou. “Fui! Só por um minuto. E lavei as mãos, prometo.”

“Então vamos reconstruir o teu álibi do bilhete”, disse a Bia. “Onde estavas e quando?”

O Tomás respirou fundo e começou, como se contasse uma história dentro da história:

“Eu recebi os bilhetes. Meti no bolso da frente. Fomos às pipocas. Pus as coisas no balcão. Depois… fui à casa de banho, com as pipocas na mão. Acho que foi aí que… hmm.”

A Dona Lina, que vinha a ouvir, perguntou: “Entraste na casa de banho com as pipocas?”

O Tomás fez cara de quem sabia que isso era estranho. “Sim… porque eu não queria largar.”

A Bia deu uma gargalhada pequena. “Detetive Tomás, isso é muito engraçado. Mas talvez seja a pista. Vamos à casa de banho ver.”

Capítulo 3: O Álibi do Corredor Azul

O corredor para a casa de banho tinha azulejos azuis e um cheiro a sabonete. Não era assustador. Era só… muito azul.

A Bia olhou em volta. “Procura com olhos de detetive: devagar e com atenção.”

O Tomás olhou para o chão, para os cantos, para cima do caixote do lixo (que estava vazio), e para a bancada do lavatório.

“Vejo… espuma de sabão… e um autocolante a dizer ‘Lava as mãos!'”, disse ele.

O Vasco apontou para um banco pequeno no corredor. “Às vezes as pessoas sentam-se aqui para ajustar os sapatos.”

O Tomás arregalou os olhos. “Eu sentei-me aqui!”

A Bia inclinou-se. “Porquê?”

“Porque uma pipoca caiu para dentro do meu casaco e fez cócegas”, confessou o Tomás. “Tive de a tirar. E quando mexi no casaco… mexi no bolso.”

A Bia bateu palmas baixinho. “Boa! Isso é parte do álibi. Agora falta: o que aconteceu aos bilhetes quando te sentaste aqui?”

O Tomás aproximou-se do banco. Havia uma fenda entre a almofada e a madeira. Ele meteu o dedo com cuidado.

“Ahá!” disse ele, com uma voz de detetive que tentava ser grave, mas saiu fina.

Ele puxou… um papel dobrado. Depois outro.

“São eles?” perguntou a Dona Lina.

O Tomás abriu. Faixa azul. Letras pequenas. “Dois bilhetes para ‘O Gato Astronauta'!”

A Bia sorriu tanto que parecia que o corredor ficou menos azul. “Mistério resolvido.”

O Vasco soltou um suspiro divertido. “Os bilhetes estavam a esconder-se no banco. Bilhetes tímidos.”

O Tomás segurou os bilhetes como se fossem um tesouro. “Desculpem! Eu fui distraído.”

A Dona Lina abanou a mão. “Acontece a todos. E gostei de ver a forma como vocês resolveram. Sem gritos, sem culpas. Só perguntas e calma.”

A Bia disse: “E com gentileza. A menina do casaco amarelo só queria ajudar.”

O Tomás fez uma nova lista rápida:

1) Guardar bilhetes numa carteira com fecho.

2) Não levar pipocas para a casa de banho.

3) Agradecer a todos.

Ele virou-se para o Vasco. “Obrigado por ajudares.”

“De nada”, disse o Vasco. “E já agora… achei esta roda de carrinho no tapete. É tua?”

O Tomás olhou para a rodinha azul. “Não é. Mas podemos entregar ao balcão. Alguém vai sentir falta.”

“Excelente ideia”, disse a Bia. “Detetives também devolvem coisas.”

Eles levaram a rodinha ao senhor Manel, o pipoqueiro. Ele colocou-a numa caixinha com a etiqueta “Achados e sorridos”.

“Sorridos?” perguntou o Tomás.

O senhor Manel piscou o olho. “Achados e perdidos é normal. Mas aqui no cinema, quando alguém encontra uma coisa e devolve, ganha um sorriso. Então é ‘achados e sorridos'.”

A Bia riu. “Eu gosto disso.”

O Vasco olhou para o relógio. “O filme vai começar. Agora, por favor… bilhetes!”

O Tomás entregou-os com cuidado, segurando com duas mãos, como se fossem asas de borboleta.

“Podem entrar”, disse o Vasco.

Capítulo 4: Pipocas, Pistas e um Sorriso de Alívio

A sala estava meia escura e cheia de murmúrios felizes. O Tomás e a Bia encontraram dois lugares no meio. A Bia estacionou ao lado do assento, e o Tomás sentou-se com as pipocas no colo, desta vez bem longe de qualquer bolso traiçoeiro.

Antes do filme começar, a Bia cochichou: “Gostei do teu álibi reconstruído.”

O Tomás cochichou de volta: “Eu também. Aprendi que um bom detetive não corre. Ele… pensa.”

“E pergunta com educação”, acrescentou a Bia.

“E não acusa”, disse o Tomás. “Eu quase pensei ‘alguém roubou!'… mas afinal foi só o banco a guardar.”

A Bia fez um ar sério, mas brincalhão. “O banco é suspeito. Muito fofinho para ser inocente.”

O Tomás tapou a boca para não rir alto. “Shhh… o filme!”

Na tela apareceu o Gato Astronauta, com um capacete enorme e uma cauda a boiar no espaço. As crianças riram quando ele tentou comer pipocas dentro do capacete e as pipocas voaram como planetinhas.

A meio, o Tomás passou um punhado de pipocas para a Bia. “Doces ou salgadas?”

“Uma de cada”, disse ela. “Como a vida.”

No fim do filme, as luzes acenderam devagar. O Tomás espreguiçou-se, feliz. A Bia tinha os olhos brilhantes.

Ao saírem, encontraram a menina do casaco amarelo com um carrinho na mão. Ela estava com cara triste.

“Perdi uma rodinha”, disse ela à mãe.

O Tomás deu um passo à frente, animado. “Rodinha azul?”

A menina abriu a boca. “Sim!”

O Tomás correu ao balcão do senhor Manel (desta vez sem misturar corrida com bolsos) e trouxe a rodinha.

“É tua!” disse ele.

A menina pegou nela como se fosse uma joia. “Obrigada! Eu pensei que nunca mais ia ver.”

A Bia sorriu. “Vês? A tua gentileza voltou para ti.”

A Dona Lina aproximou-se. “E vocês devolveram algo também. Estou orgulhosa.”

O Tomás coçou a cabeça. “Hoje aprendemos duas coisas: bilhetes não gostam de bancos… e a bondade ajuda a encontrar o que falta.”

A Bia assentiu. “E quando um mistério aparece, a melhor lanterna é a calma.”

A Dona Lina entregou-lhes dois autocolantes do cinema: um gato com óculos de detetive. “Para os nossos investigadores.”

O Tomás colou o autocolante na sua lista nova e disse: “Caso encerrado.”

A Bia olhou para ele e para o cartaz do cinema, e os dois deram uma gargalhada pequena.

Ao saírem para a rua, o ar estava fresquinho e cheirava a noite tranquila. O Tomás guardou os autocolantes com cuidado. A Bia ajeitou a mochila.

“Sabes o melhor?” perguntou o Tomás.

“O quê?” disse a Bia.

“Que deu tudo certo. E que ninguém ficou zangado. Só… mais esperto.”

A Bia fez um sorriso de alívio, daqueles que aquecem por dentro. “E amanhã, se aparecer outro mistério, já temos método.”

O Tomás levantou o lápis como se fosse uma varinha mágica. “E temos lápis!”

Eles foram para casa com passos leves, pipocas na memória, e a certeza de que, com perguntas gentis e olhos atentos, até um cinema de bairro pode virar uma grande aventura.

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Bilheteira
Lugar onde se compram bilhetes para o cinema ou evento.
Detetive
Pessoa que procura pistas para resolver um mistério.
álibi
Prova de onde alguém esteve, para mostrar que não fez algo.
Almofada
Pequeno travesseiro usado para sentar ou encostar.
Autocolante
Figurinha com cola que se cola em papel ou roupa.
Corredor
Passagem estreita dentro de um prédio ou casa.
Azulejos
Peças lisas e brilhantes que cobrem paredes e chão.
Migalhas
Pedaços pequenos de pão ou comida que caem.
Pipoqueiro
Pessoa que faz e vende pipocas no cinema.
Achados e sorridos
Nome do lugar onde põem coisas encontradas para devolver.

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