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História de detetive 11 a 12 anos Leitura 26 min.

O mistério do caderno do mar

Quando o Caderno do Mar desaparece da Papelaria Miramar, o curioso Duarte segue pistas — barbante vermelho, testemunhas e um homem apressado — até um encontro marcado no cais, numa corrida contra o tempo para descobrir a verdade.

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Um detetive de meia-idade, rosto suave e concentrado, olhos castanhos vivos e sobretudo castanho claro ligeiramente amarrotado, com expressão calma e determinada, segura delicadamente um pequeno caderno azul fechado; Dona Lurdes, cerca de 60 anos, cabelo grisalho preso em coque e vestido de flores pastel, aparece aliviada e emocionada, as mãos no peito, perto de uma sorveteira; Caio, menino de ~12 anos, cabelo castanho curto e boné virado para trás, roupa simples e tímida, olha o caderno com admiração segurando um caderninho verde recém-recebido; Rogério, homem na casa dos 30, casaco cinza e olhar nervoso, segura uma pastinha preta aberta com um pedaço de barbante vermelho, recostado num poste metálico; cenário num cais ensolarado à beira-mar com tábuas de madeira envelhecidas, redes de pesca, caixas, gaivotas e barcos coloridos ao longe; cena de confronto calmo em meio à multidão, o detetive estendendo o caderno a Dona Lurdes, Rogério constrangido junto ao poste e Caio emocionado em primeiro plano, luz quente do meio-dia com contrastes e texturas marcantes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A vitrine vazia

Eu tinha acabado de passar o pano na lente dos meus óculos quando a porta da Papelaria Miramar tilintou. O som era fino, nervoso, como campainha de bicicleta.

Dona Lurdes, a dona da loja, veio até mim com as mãos a tremer, mas o olhar firme de quem já enfrentou muita coisa.

— Senhor Duarte… roubaram o caderno.

“O” caderno? — perguntei, sem apressar a voz. Eu aprendi cedo que pressa é inimiga da atenção.

Ela apontou para a vitrine do fundo, onde costumava estar uma peça antiga: um caderno de capa azul-escura, com fecho dourado e uma pequena âncora gravada.

— O Caderno do Mar. Era do meu avô, que foi marinheiro. Não vale só pelo dinheiro… vale pelas histórias.

A vitrine estava aberta, sem sinais óbvios de arrombamento. A fechadura intacta. O espaço vazio parecia uma palavra arrancada de um livro.

Eu respirei devagar e olhei ao redor como quem lê uma cena. Havia cheiros misturados: papel novo, cola, café e um leve perfume cítrico. No balcão, duas canetas tinham rolado e pararam lado a lado, como se alguém as tivesse empurrado com pressa. No chão, perto do tapete, um pedacinho de barbante vermelho.

— Quem entrou hoje cedo? — perguntei.

— Só três pessoas. O Caio, que entrega jornais; a professora Helena, que veio buscar cartolina; e o senhor Artur, o relojoeiro, que trouxe um pacote para eu guardar aqui atrás.

— E a vitrine? — apontei para a chave pendurada num gancho.

Dona Lurdes apertou os lábios.

— Eu… eu deixei a chave no gancho, como sempre. Nunca aconteceu nada.

Às vezes, “como sempre” é a porta mais fácil para um mistério entrar.

— Vou precisar que me conte o que cada um fez, sem adivinhar nada. Só o que viu. — Sorri, para aliviar. — E se alguém parece culpado… deixe isso para mim.

Ela soltou um ar que parecia preso há horas.

— Está bem. Mas, senhor Duarte, devolva-me o caderno. Nem que seja só para eu o cheirar outra vez. Cheira a mar, acredita?

Eu acreditava. E, mais importante, eu sabia que, para encontrar um objeto, é preciso encontrar primeiro o caminho que ele fez.

Capítulo 2 — Três visitas e um barbante

Dona Lurdes sentou-se numa cadeira atrás do balcão, como se o corpo precisasse de apoio para a memória funcionar.

— O Caio entrou às oito e vinte. Deixou os jornais, pediu uma garrafa de água e ficou a olhar a vitrine, como sempre faz. Ele gosta dessas coisas antigas. Depois saiu a correr, atrasado para a escola.

— Ele tocou na vitrine? — perguntei.

— Não vi. Eu estava a arrumar cadernos.

Anotei. Não “ele não tocou”. Anotei “não vi”.

— A professora Helena veio às nove. Comprou cartolina, fita cola e… uma daquelas caixas de clipes. — Dona Lurdes franziu a testa. — Falou muito da exposição da escola, sobre navegações.

— Ela chegou sozinha?

— Sim.

— E o senhor Artur?

— Dez e dez. Ele veio com um pacote embrulhado em papel pardo. Disse: “Guarde-me isto um bocadinho, tenho as mãos cheias na oficina. Eu pus o pacote na prateleira de trás. Ele ficou aqui uns minutos, a falar do tempo, e saiu.

Eu fui até à vitrine vazia. Passei o dedo na borda do vidro. Não havia poeira recente, mas havia uma marca esbranquiçada, pequena, como gordura de dedo, perto do canto inferior. A fechadura não tinha arranhões. Quem abriu a vitrine tinha chave… ou sabia um truque simples.

Peguei no pedacinho de barbante vermelho do chão. Era fino, de embrulho, e tinha um nó apertado.

— Isto estava aqui antes?

— Não. Eu varri ontem à noite.

Olhei para o balcão. Uma tesoura estava fora do lugar, com a lâmina ainda brilhante. A caixa de clipes estava aberta, e alguns clipes prateados tinham caído como peixinhos.

— Posso ver o pacote que o senhor Artur deixou? — pedi.

Dona Lurdes trouxe-o. Era um embrulho retangular, pesado o suficiente para fazer a prateleira ranger quando ela o tirou. O papel pardo estava bem dobrado, preso com… barbante vermelho.

Eu parei, sem dramatizar, mas por dentro uma luz acendeu.

— Dona Lurdes, o barbante deste pacote parece do mesmo tipo daquele no chão.

Ela arregalou os olhos.

— Está a dizer que o senhor Artur…

— Estou a dizer que um barbante gosta de contar histórias. E eu gosto de ouvir.

Cortei o nó com cuidado e abri o embrulho só o suficiente para ver o conteúdo: uma caixa de madeira com um fecho simples. Dentro, relógios antigos e ferramentas pequenas, brilhando como insetos metálicos.

— Não é isto que procuramos — murmurei. — Mas é uma pista.

Fechei tudo de novo, do jeito que estava, e deixei o pacote como encontrei. Num caso assim, a ordem das coisas é como um mapa: se alguém mexe, o mapa perde ruas.

— Vamos fazer uma ronda — disse eu. — A escola, a oficina do relojoeiro e… onde o Caio costuma estar quando não está a correr.

Dona Lurdes tentou sorrir, mas a preocupação não largava.

— Ele é um bom rapaz, o Caio.

— Ser bom não impede ninguém de cometer um erro — respondi. — E ser adulto não impede ninguém de fazer uma tolice.

Saímos. O ar da rua tinha cheiro de pão quente e gasolina. O tipo de mistura que a cidade faz sem pedir licença.

Capítulo 3 — O visitante apressado

Antes de irmos longe, eu quis observar a rua em frente à papelaria. Às vezes, o crime acontece do lado de fora, e não dentro. Encostei-me ao poste de luz, quieto, olhando como quem espera um autocarro, mas na verdade eu esperava um detalhe.

Foi aí que ele apareceu: um visitante apressado. Um homem de casaco cinzento, cabelo penteado com pressa e uma pasta preta debaixo do braço. Ele vinha quase a atropelar o próprio pé.

— Com licença! — disse, passando por mim e por Dona Lurdes. — Preciso… preciso daquela rua ali, a da oficina do Artur!

A pergunta saiu como disparo. Antes de eu responder, ele já olhava para trás, como se alguém o seguisse.

Apontei.

— Segunda à direita.

— Obrigado! — ele disse, e arrancou, as solas batendo na calçada.

Quando ele virou a esquina, ouvi uma coisa. Não foi um grito, nem um segredo confessado. Foi uma frase solta, dita ao telemóvel, com voz baixa e apressada:

— Já tratei do caderno. Está seguro. Encontro-te no cais, ao meio-dia.

Eu não corri atrás. Corri mentalmente. Cais. Meio-dia. Caderno. “Tratei do caderno” não era frase de quem comprou um caderno qualquer para a escola.

Dona Lurdes olhou para mim, sem entender o silêncio.

— Senhor Duarte?

— Acabámos de ganhar um relógio — disse eu. — Temos até ao meio-dia.

Ela engoliu em seco.

— Cais? Mas… porquê o cais?

— Porque o caderno chama-se do Mar. E porque algumas pessoas acham que nomes são convites.

Começámos a andar. Eu mantive o passo firme, sem parecer que estávamos a caçar alguém. No meu bolso, o barbante vermelho parecia pesado, como se quisesse puxar a conversa.

No caminho para a escola, encontrei a professora Helena à porta, com cartazes e alunos a carregar maquetes de caravelas. Ela tinha fita cola nos dedos e um sorriso cansado.

— Professora Helena? Sou o Duarte. Preciso de fazer uma pergunta rápida.

Ela levantou as sobrancelhas.

— Se é sobre a exposição, eu juro que não mandei ninguém roubar nada… — brincou, mas o riso morreu quando viu o rosto de Dona Lurdes.

— O Caderno do Mar desapareceu — disse Dona Lurdes.

A professora ficou séria.

— Meu Deus. Eu… eu vi esse caderno ontem. Lindo. Mas hoje eu só comprei cartolina e clipes.

— Por que clipes? — perguntei.

— Para prender os cartões informativos. — Ela abriu a bolsa e mostrou a caixinha de clipes. — Esta aqui. Ainda fechada.

Observei: era da mesma marca da papelaria. Nada surpreendente. Surpreendente seria se estivesse aberta com clipes a faltar. Não estava.

— Viu alguém diferente perto da papelaria? — perguntei.

— Um homem de casaco cinzento passou por aqui mais cedo. Perguntou pelo relojoeiro. — Ela apontou na direção certa. — Parecia atrasado e… nervoso.

O mesmo visitante apressado. O caso ganhava pernas.

— Obrigado, professora. — Eu baixei a voz. — E, por favor, se souber de alguma coisa, mesmo que pareça pequena, diga-me. Pequenas coisas costumam ser as mais honestas.

Ela assentiu, com um olhar preocupado, mas gentil.

— Espero que encontre o caderno. Histórias de família não deviam andar perdidas.

Empatia. Uma palavra bonita, mas principalmente um gesto: entender o peso das coisas que não se vendem.

Seguimos para a oficina do senhor Artur.

Capítulo 4 — O relógio não mente

A oficina do relojoeiro cheirava a metal e óleo, com um fundo de lavanda que tentava ser elegante. Na parede, dezenas de relógios faziam tic-tac em coro, como se julgassem quem entrava.

O senhor Artur era magro, com óculos na ponta do nariz e dedos que pareciam pinças.

— Dona Lurdes! — ele disse. — Se veio reclamar do pacote, eu buscava ainda hoje…

— Não é isso — interrompi, educado. — Sou Duarte. O Caderno do Mar sumiu.

O senhor Artur ficou imóvel um segundo, como ponteiro preso.

— Sumiu? Mas… eu nem cheguei perto da vitrine.

— O senhor deixou um pacote na papelaria com barbante vermelho — eu disse. — E encontramos um barbante vermelho no chão, perto da vitrine.

Ele abriu as mãos, ofendido e assustado ao mesmo tempo.

— Barbante é barbante, homem! Metade da cidade usa.

— Metade da cidade, sim — concordei. — Mas a outra metade usa fita adesiva. E eu gosto de contar metades.

Enquanto ele falava, eu observei a bancada. Havia um monte de elásticos, uma pequena chave de fendas, e… um molho de chaves pendurado numa argola. Uma delas tinha um pingente de âncora.

Eu não mostrei surpresa. Só perguntei:

— Bonito pingente. Gosta do mar?

Artur olhou para a chave, e depois para nós. A cor subiu-lhe ao rosto.

— Essa… essa chave não é minha. Um cliente deixou aqui ontem.

— Quem? — perguntei, calmo.

Ele hesitou. A hesitação é uma porta entreaberta.

— Um rapaz. Entregador de jornal, acho. Caio.

Dona Lurdes levou a mão à boca.

— O Caio?

— Ele veio buscar um relógio barato que o pai dele encomendou — explicou Artur, apressado. — Esqueceu a chave em cima da bancada. Eu ia devolver quando o visse.

Eu aproximei-me do molho, sem tocar.

— Posso?

Artur assentiu, tenso. Peguei na chave com cuidado. Não era a da vitrine, mas era parecida: pequena, antiga, com dentes finos. E o pingente de âncora… era demasiado perfeito para ser coincidência.

— Senhor Artur, alguém entrou hoje aqui a perguntar por si? Um homem de casaco cinzento, com uma pasta?

Artur engoliu em seco.

— Entrou. Há pouco. Disse que tinha urgência. Queria… — ele baixou a voz — queria comprar “um objeto antigo com âncora”. Eu disse que não vendia essas coisas. Ele ficou zangado e saiu.

O relógio da parede bateu uma hora com um som seco. Eu olhei o meu: dez e quarenta e cinco.

— Temos quinze minutos para encontrar o Caio antes que alguém o use como peça deste mecanismo — disse eu.

Dona Lurdes franziu a testa.

— Usar o Caio?

— Pessoas apressadas gostam de empurrar a culpa para quem está a correr de verdade — respondi.

Saímos. Agora, eu já tinha três peças claras para o leitor juntar comigo:

1) A vitrine sem arrombamento (chave ou truque).

2) Barbante vermelho (ligação com embrulhos).

3) Um homem apressado a falar do caderno e do cais ao meio-dia.

Faltava saber: quem tinha o caderno neste momento?

Capítulo 5 — Junte as pistas

Encontrámos Caio perto do campo de futebol da escola, a chutar uma bola contra um muro, como se quisesse expulsar a ansiedade do corpo. Quando nos viu, parou, desconfiado.

— Dona Lurdes? Eu paguei a água… — ele disse, rápido, já se defendendo.

— Ninguém te acusou de nada — eu disse, mantendo a voz baixa. — Preciso só que me respondas com sinceridade. Consegues fazer isso?

Ele mordeu o lábio e assentiu.

— Tu tens uma chave com um pingente de âncora? — perguntei.

O olhar dele fugiu. Depois voltou.

— Eu… achei no chão, perto da papelaria, ontem. Achei bonita. Ia devolver, mas… — Ele encolheu os ombros. — Queria mostrar ao meu pai. Ele gosta do mar.

Dona Lurdes soltou um suspiro que misturava alívio e tristeza.

— Caio, essa âncora é do meu avô. Era do caderno. Ele estava preso a uma fitinha dentro do caderno.

Caio empalideceu.

— Eu juro que não roubei o caderno! Eu só… peguei na chave.

— Não é chave — eu corrigi, com suavidade. — É um chaveiro. Uma lembrança. Mas alguém pode ter visto contigo e entendido outra coisa.

Eu me agachei, ficando à altura dele.

— Caio, pensa comigo. Hoje de manhã, na papelaria, viste alguém mexer na vitrine?

Ele fechou os olhos, puxando a memória pelo colarinho.

— Eu vi um homem… de casaco cinzento. Ele entrou e perguntou pela Dona Lurdes. Ela estava lá atrás. Ele disse que queria “ver a vitrine mais de perto”, tipo colecionador. Eu bebi água e… ouvi um clique.

— Um clique? — repeti.

— Como quando a gente fecha uma mala. Depois ele saiu rápido. Eu achei estranho, mas… eu tinha prova de matemática.

Um clique. Não necessariamente a fechadura. Talvez um fecho dourado. O fecho do caderno.

Agora, leitor, era hora de ajudar: se o homem de casaco cinzento falou ao telefone que “já tratou do caderno” e marcou encontro no cais ao meio-dia, então para onde ele iria em seguida? Para um lugar onde pudesse sair depressa e misturar-se com gente: o cais, claro. E o que ele precisava antes? Garantir que ninguém o seguisse ou, pelo menos, arranjar um modo de passar o caderno a outra pessoa.

Perguntei a Caio:

— Esse homem tinha alguma coisa na mão quando saiu?

— Uma pasta preta. E… — Caio franziu a testa — tinha barbante vermelho a sair um bocadinho do bolso do casaco, como uma linha.

Barbante vermelho. A linha que costurava as cenas.

— Duarte, o que fazemos? — perguntou Dona Lurdes, a voz já sem tremor, mas cheia de medo pelo rapaz.

— Vamos ao cais — respondi. — E Caio… obrigado por dizeres a verdade. Não é fácil quando a gente acha que vão apontar o dedo.

Caio olhou para Dona Lurdes, com os olhos brilhando.

— Desculpe por ter pegado no chaveiro. Eu devia ter devolvido logo.

Dona Lurdes respirou fundo e pousou a mão no ombro dele.

— Eu fiquei zangada, sim. Mas agora eu só quero o caderno de volta. E quero que tu fiques bem. O resto… a gente conversa depois, com calma.

Empatia também é isso: separar o erro da pessoa.

Partimos. O relógio corria para o meio-dia.

Capítulo 6 — O encontro no cais

O cais estava cheio de vida: gaivotas, turistas com máquinas fotográficas, pescadores a desenredar redes, e o cheiro forte de sal e gasóleo. Um lugar perfeito para desaparecer.

Eu pedi a Dona Lurdes que ficasse a uma distância segura, perto de uma banca de gelados, e que observasse sem se aproximar. Eu avancei sozinho, misturando-me na multidão como mais um homem com pressa de nada.

Procurei o casaco cinzento. Encontrei-o perto de um poste, olhando o relógio a cada poucos segundos. A pasta preta estava encostada à perna. Ele falava com alguém ao telefone, irritado:

— Eu disse meio-dia. Meio-dia é meio-dia.

Quando desligou, vi que ele segurava algo pequeno na outra mão: um rolo de barbante vermelho. Como se fosse a sua assinatura.

Aproximei-me como quem pede informação.

— Desculpe… sabe onde fica o armazém número três?

Ele mal me olhou.

— Não sei.

— Engraçado — eu disse, sem levantar a voz. — Porque parece que o senhor sabe exatamente onde fica o que não devia ter saído da Papelaria Miramar.

Ele endureceu.

— Quem é você?

— Um homem que presta atenção. — Eu apontei com o queixo para a pasta. — O caderno está aí?

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Não faço ideia do que fala.

— Vamos fazer um jogo simples — propus. — Eu descrevo o que ouvi e o senhor me diz se é mentira. “Já tratei do caderno. Está seguro. Encontro-te no cais, ao meio-dia.” Foi o senhor, certo?

Os olhos dele piscaram rápido. Um tic. Ele percebeu que eu não estava a adivinhar.

— Você não tem prova — ele rosnou.

— Tenho lógica — respondi. — E tenho uma dona de papelaria com uma vitrine aberta sem arrombamento. E tenho um rapaz que viu o senhor ouvir um clique e sair com pressa. O senhor não roubou por força. Roubou por oportunidade.

Ele apertou a pasta, como se fosse um colete salva-vidas.

— Eu só queria… era uma encomenda. Um colecionador paga bem por coisas antigas. Eu não ia… — ele travou, e isso foi a confissão a meio caminho.

Eu olhei ao redor. Havia um segurança do porto mais à frente, conversando com um pescador. Eu podia chamar, mas preferi tentar primeiro uma saída que não esmagasse ninguém.

— O caderno pertence a uma família — eu disse, firme. — Não é só “coisa antiga”. É memória. E memórias não se substituem com dinheiro.

Ele hesitou. Então, uma voz chamou do lado:

— Está aí, Rogério? Estou atrasado!

Um homem mais velho aproximou-se, com um boné e mãos manchadas de tinta, como quem trabalha com barcos. O “colecionador”, talvez.

Rogério estendeu a pasta, rápido, mas eu dei um passo e bloqueei.

— Se é compra, é compra de coisa roubada — eu disse ao homem do boné. — E isso dá sempre mau negócio.

O homem do boné levantou as mãos.

— Roubada? Eu pensei que era… — Ele olhou para Rogério, decepcionado. — Tu disseste que era tua.

Rogério tentou recuar, mas esbarrou num poste. A multidão não era mais amiga dele.

Eu mantive a calma. A calma é um tipo de força.

— Abra a pasta e devolva o que não é seu. Agora.

Rogério olhou para o segurança ao longe, para mim, para o homem do boné. O orgulho dele fazia barulho, mas a situação fazia mais.

Ele abriu a pasta. Lá dentro, embrulhado em papel pardo e barbante vermelho, estava o caderno de capa azul-escura. O fecho dourado brilhou ao sol como uma moeda antiga.

Eu peguei no embrulho e segurei com cuidado, como se fosse uma concha.

O segurança do porto aproximou-se, atraído pela tensão. Eu expliquei em poucas frases. Rogério, percebendo que a história ia piorar se resistisse, não correu. Às vezes, o crime desaba quando a atenção certa aponta para ele.

Voltei para Dona Lurdes com o caderno nos braços.

Ela não o abriu logo. Primeiro, encostou-o ao peito, e os olhos dela ficaram húmidos.

— Cheira a mar — sussurrou, como se confirmasse que o mundo ainda fazia sentido.

Capítulo 7 — Um bom recuerdo

Na papelaria, já com a tarde a amolecer a luz, Dona Lurdes fez chá para mim e para Caio. O rapaz parecia menor do que antes, não por medo, mas por humildade. Eu deixei que o silêncio fizesse parte da conversa.

— Eu devia ter sido mais cuidadosa com a vitrine — disse Dona Lurdes, passando o dedo pela capa do caderno, sem abrir. — E contigo, Caio… eu devia ter perguntado antes de imaginar coisas.

Caio mexeu na chávena.

— Eu devia ter devolvido o chaveiro. Eu só queria… levar uma coisa bonita para casa, para o meu pai. Ele trabalha tanto.

Dona Lurdes respirou fundo e abriu o caderno devagar. As páginas tinham escrita miúda e desenhos de ondas, portos, e um mapa feito à mão. Ela virou até uma foto antiga, um homem jovem num barco, sorrindo com o vento a empurrar-lhe o cabelo.

— Este era o meu avô — ela disse, com voz mais leve. — Ele escrevia quando sentia saudades de casa.

Caio inclinou-se, curioso, e eu vi no rosto dele o tipo de atenção que a escola raramente consegue pedir.

— Ele desenhava bem.

— Queres ouvir uma história dele? — perguntou Dona Lurdes, surpreendendo-se com a própria generosidade.

Caio assentiu, tímido.

Ela leu um trecho curto: sobre uma noite em que o mar parecia um lençol escuro e, mesmo assim, uma estrela teimosa guiou o barco para casa. Não era uma história de monstros. Era uma história de perseverança.

Quando terminou, Caio sorriu, pequeno, verdadeiro.

— Dá vontade de guardar isso para sempre.

— Dá — concordei. — E é por isso que a gente protege o que importa.

Dona Lurdes fechou o caderno e olhou para mim.

— Senhor Duarte… como soube que era no cais?

— Eu ouvi uma frase — respondi. — E depois juntei as pistas como se juntam peças de um puzzle. O truque é não forçar a peça errada.

Ela riu de leve.

— E o barbante vermelho?

— O barbante foi só a linha que costurou as cenas. — Eu levantei o pedacinho que eu tinha guardado. — Mas quem costurou mesmo foi a pressa do ladrão.

Caio levantou a mão, como na aula.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— O senhor ficou com raiva do Rogério?

Eu pensei um segundo.

— Fiquei atento. Raiva às vezes atrapalha a ver. E eu prefiro ver.

Dona Lurdes levantou-se, foi até uma prateleira e pegou num pequeno caderno novo, simples, de capa verde.

— Caio, isto é para o teu pai. Para ele escrever o que quiser. Não é para substituir o meu, mas… para começar um.

Caio abriu a boca, sem saber se aceitava.

— Mas eu…

— Aceita — eu disse. — E escreve também. A melhor forma de pedir desculpa é melhorar o que a gente faz daqui para frente.

Ele pegou no caderno como se fosse frágil.

— Obrigado. Eu prometo que vou cuidar.

Quando saí da papelaria, a rua já cheirava a jantar nas casas. O caso estava fechado, mas o que ficou aberto foi melhor: uma conversa, uma leitura partilhada, um perdão com limites e com ternura.

E, enquanto eu caminhava, guardei um bom recuerdo: o som da voz de Dona Lurdes lendo o mar em voz alta, e o olhar de Caio descobrindo que uma história pode ser uma âncora — não para prender, mas para lembrar onde é casa.

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Tilintou
Som agudo e breve que uma porta ou sino faz ao bater.
Vitrine
Janela de loja onde se mostram objetos para vender.
Fecho dourado
Fechamento metálico com cor de ouro que prende algo.
âncora
Peça de metal usada para prender um barco no fundo do mar.
Arrombamento
Ato de forçar uma porta ou fechadura para entrar.
Barbante vermelho
Corda fina de cor vermelha usada para amarrar pacotes.
Prateleira
Tábua onde se põem objetos numa loja ou numa casa.
Embrulho
Objeto ou presente coberto por papel para proteger ou esconder.
Pardo
Cor castanha clara, entre marrom e bege.
Fechadura
Peça da porta onde se põe a chave para trancar ou destrancar.
Marinheiro
Pessoa que trabalha num barco ou navio no mar.
Oficina
Lugar onde se consertam coisas, como relógios ou carros.
Maquetes
Modelos pequenos e detalhados de construções ou barcos.
Caravelas
Navios antigos usados por marinheiros para navegar.
Pingente
Pequeno enfeite que se prende numa chave ou colar.
Tic-tac
Som repetido que um relógio faz ao marcar o tempo.

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