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História de detetive 9 a 10 anos Leitura 14 min.

O mistério do caderno das lendas na biblioteca municipal

Um detetive investiga o desaparecimento do antigo Caderno das Lendas da biblioteca, seguindo pistas deixadas por pegadas, um pedaço de papel manchado e o desenho de um menino. Ao reunir suspeitos e ouvir testemunhas, ele desmonta segredos que ligam as pessoas ao mistério.

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Um detetive de cinquenta anos, rosto fino e bigode curto, olhar concentrado, ajoelhado num velho cais de tábuas molhadas, segura delicadamente um caderno antigo encadernado em couro, enrolado num pano perfumado a limão, que tirou de uma pequena caixa metálica sob a terceira tábua; atrás dele, uma bibliotecária de cerca de 60 anos, cabelo grisalho preso, de rosto aliviado e mãos no peito, perto de chaves brilhantes; um professor de ~40 anos, cabelo grisalho, camisa amarrotada e olhar contrito, aponta para uma tábua do cais com postura envergonhada; um menino de 9 anos, cabelo desgrenhado, sentado numa caixa de madeira, segura um caderninho de desenho onde mostra um pequeno esboço do ladrão, orgulhoso e curioso; o cais com pregos enferrujados, água escura refletindo brilhos prateados, algas e folhas flutuantes, atmosfera de fim de tarde chuvoso com gotas brilhantes, expressões de alívio e remorso entre o grupo. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Sumiço na Biblioteca

O detetive Tomás Lacerda gostava de duas coisas: café sem açúcar e listas bem feitas. Nessa manhã, atravessou a praça em direção à Biblioteca Municipal, onde a chuva deixava o chão com cheiro de pedra lavada.

Dona Celina, a bibliotecária, esperava-o à porta, apertando um molho de chaves como se fossem contas de um rosário.

“Senhor Tomás… desapareceu o Caderno das Lendas,” disse ela, quase num sussurro.

“Um livro?” Tomás abriu o seu bloco de notas.

“Não é um livro qualquer. É um caderno antigo, com histórias da cidade, desenhos… e anotações de crianças de décadas. Estava na vitrina, trancada. Ela engoliu em seco. “Hoje cedo, a vitrina estava fechada, mas… vazia.”

Tomás aproximou-se da vitrina. O vidro brilhava, limpo demais. A fechadura não tinha arranhões.

“Sem sinais de arrombamento,” murmurou ele. “Então alguém tinha chave. Ou sabia fazer parecer que tinha.”

Na mesa ao lado, havia um pano de limpeza ainda húmido e um cheiro leve a limão. Tomás olhou para o chão: uma pegada pequena de lama, quase apagada.

“Dona Celina, quem esteve aqui ontem ao fim do dia?”

Ela apontou, contando nos dedos. “O senhor Raul, o segurança. A Marta, que ajuda na arrumação. E um professor, o senhor Gil, que trouxe uma turma para ver a vitrina.”

Tomás anotou, com letras muito direitas. Depois, colocou a caneta no ar, como quem faz uma pausa para o leitor pensar.

Se fosses tu a ajudar, que perguntas farias primeiro? Quem tinha acesso? Quem sabia do caderno? E por que alguém o levaria sem quebrar nada?

Tomás olhou para Dona Celina. “Quero falar com todos. Hoje.”

Capítulo 2 — Reunir os Suspeitos

À tarde, Tomás reuniu os três na sala de leitura. As estantes altas faziam um corredor de sombras; lá fora, a chuva batia nos vidros como dedos impacientes.

Raul, o segurança, tinha bigode e um casaco demasiado grande. Marta, de luvas amarelas, não conseguia parar de torcer o pano. O professor Gil segurava uma pasta cheia de folhas, com ar de quem já tinha corrigido muitos testes na vida.

Tomás falou baixo, sem pressa.

“Ontem, a vitrina foi vista cheia. Hoje, vazia e trancada. Quero fatos, não suposições. Raul, a que horas fechou a biblioteca?”

“Às seis em ponto. Fiz ronda. Tudo normal.” Raul endireitou-se. “A chave da vitrina fica com a Dona Celina.”

“Mas eu também tenho uma,” disse Marta depressa, e corou. “Para limpar. Só uso quando ela manda.”

Dona Celina arregalou os olhos. “Eu… esqueci-me de dizer.”

Tomás anotou: duas chaves conhecidas.

“Professor Gil, a sua turma viu o caderno?”

“Viu. As crianças ficaram encantadas. Um deles até perguntou se podia desenhar igual.” Ele ajeitou os óculos. “Mas eu estava sempre ali.”

Tomás aproximou-se da vitrina, medindo a distância até às mesas. No chão, perto de uma cadeira, encontrou algo: um fio de papel rasgado, com uma mancha azul.

Ele levantou-o com cuidado. “Isto estava aqui ontem?”

Marta mordeu o lábio. “Eu vi um pedaço de papel no chão… pensei que fosse lixo.”

Raul pigarreou. “Eu não vi nada.”

Tomás guardou o pedaço num envelope. Depois, encarou os três.

“Se alguém queria levar o caderno sem barulho, teria de agir rápido. E saber onde a chave estava. Ou ter uma cópia.” Fez outra pausa, para o leitor entrar no jogo. “Qual de vocês teria tempo sozinho com a vitrina?”

Raul franziu a testa. “Eu faço rondas sozinho.”

Marta baixou os olhos. “Eu limpo sozinha.”

O professor Gil levantou a mão, como na sala de aula. “Eu… fiquei uns minutos depois, a falar com Dona Celina. Mas não estava sozinho.”

Tomás fechou o bloco. “Ainda falta uma peça. Vou procurar quem viu algo que vocês não viram.”

Capítulo 3 — A Testemunha Escondida

Na manhã seguinte, Tomás caminhou pelos arredores da biblioteca. Um detetive metódico não confia apenas em salas fechadas; ele procura o que fica fora do quadro.

Atrás do edifício, havia um pátio estreito com contentores de reciclagem. Um gato cinzento observava tudo como se fosse dono do lugar. E, junto à parede, um rapazinho sentava-se num caixote, com um caderno escolar no colo, desenhando.

Tomás aproximou-se devagar, para não assustar.

“Bom dia. Gosto do teu desenho,” disse ele.

O rapaz ergueu os olhos. Tinha o nariz sujo de grafite. “É a biblioteca. Mas falta alguma coisa… a vitrina.”

“Como te chamas?”

“Ícaro. Eu fico aqui à espera da minha irmã. Ela trabalha lá dentro.” Ele apontou com o lápis. “A Marta.”

Tomás sentiu o encaixe de uma peça.

“Ícaro, ontem ao fim do dia, viste alguém sair com alguma coisa diferente? Um pacote, um caderno… algo escondido?”

Ícaro coçou a cabeça. “Eu vi o senhor Raul. Normal. Vi a minha irmã. Normal. E vi um homem com uma pasta… mas isso também é normal, né?”

“E mais alguém?”

Ícaro hesitou. “Vi… uma pessoa com capuz. Parou ali na porta de trás. A porta fez ‘clique'. Eu ouvi. Depois, essa pessoa saiu rápido, com algo embrulhado num pano. Um pano cheiroso… tipo limão.”

Tomás voltou a sentir o cheiro do pano húmido que encontrara. O detalhe era pequeno, mas tinha peso.

“Ícaro, consegues desenhar a pessoa?” perguntou ele.

O rapaz abriu um sorriso, orgulhoso. “Consigo.”

Tomás esperou em silêncio. Não era silêncio de pressa; era silêncio de rigor, para deixar a memória trabalhar. Ícaro desenhou um capuz, um pano dobrado, e… um detalhe inesperado: no pulso da pessoa, uma pulseira com contas grandes, uma a mais comprida que as outras, parecendo uma gota.

“Já viste essa pulseira antes?” perguntou Tomás.

Ícaro pensou. “Acho que sim… na sala de leitura. Alguém mexia no telemóvel e a pulseira fazia ‘tac tac' na mesa.”

Tomás anotou, com uma seta bem marcada: PULSEIRA “GOTA” = pista.

Agora, leitor, pensa: quem, entre os suspeitos, poderia usar uma pulseira assim? E quem teria acesso à porta de trás?

Tomás agradeceu ao rapaz. “Ajudaste muito. Vou precisar do teu desenho mais tarde.”

E foi então que o mistério, ainda apertado, começou a ganhar forma.

Capítulo 4 — O Desenho que Muda Tudo

Tomás voltou à biblioteca e pediu a Dona Celina para abrir a sala de arquivo. Marta estava a arrumar livros, Raul fazia ronda, e o professor Gil chegara para devolver uma pasta de trabalhos.

“Quero ver a porta de trás,” disse Tomás a Raul.

“A porta de trás fica sempre trancada,” respondeu o segurança. “Só eu tenho a chave.”

“Só você?” Tomás não levantou a voz. Apenas levantou uma sobrancelha.

Raul tossiu. “Quer dizer… eu e a Dona Celina. Mas ela quase não usa.”

Tomás foi até à porta. Observou a fechadura. Havia uma marca minúscula de metal, como se uma chave tivesse escorregado.

“Alguém abriu com pressa,” disse ele. “Ou com uma chave que não encaixa perfeito.”

De volta à sala de leitura, Tomás chamou todos. O ar parecia mais frio, como se as estantes estivessem a ouvir.

“Vou mostrar-vos uma coisa,” disse ele, e colocou no centro da mesa o pedaço de papel com mancha azul que encontrara. Ao lado, colocou o desenho do Ícaro.

Marta arregalou os olhos ao ver o desenho. O professor Gil inclinou-se, interessado. Raul ficou rígido.

Tomás apontou para o pulso desenhado. “Esta pulseira é importante.”

O professor Gil sorriu, quase aliviado. “Ah, isso… deve ser de alguma criança. Muitas usam.”

“Talvez,” respondeu Tomás. “Mas Ícaro viu um adulto. E ouviu a porta de trás.”

Marta engoliu em seco. “Ícaro estava lá fora…?”

Tomás virou o pedaço de papel azul. A mancha não era tinta qualquer. Era uma linha grossa, como marcador.

“Professor Gil,” disse Tomás, “ontem trouxe trabalhos com marcações azuis?”

O professor hesitou. “Sim. Uso um marcador azul para corrigir. Por quê?”

Tomás abriu a pasta do professor, com permissão e olhos atentos. Dentro, havia um marcador azul com a tampa um pouco rachada.

“E esta pulseira?” Tomás perguntou, olhando para o pulso do professor.

Gil puxou a manga. No pulso, uma pulseira de contas. Entre elas, uma conta em forma de gota, maior.

Marta soltou um “ai” baixinho.

Raul deu um passo à frente. “Então foi ele!”

Tomás ergueu a mão. “Ainda não concluí. Num caso, a pressa é inimiga da verdade.”

Ele respirou fundo e continuou, metódico:

“Temos três fatos: um pano com cheiro a limão usado para embrulhar algo; uma porta de trás que abriu com pressa; e um pedaço de papel manchado de azul, do tipo que o professor usa. Falta o motivo.”

O professor Gil apertou a pasta. “Eu posso explicar…”

Mas Tomás não deixou a explicação correr solta. “Explique do princípio. E lembre-se: vou verificar.”

Capítulo 5 — O Pontão Silencioso

“Eu não queria roubar,” disse o professor Gil, com a voz mais baixa do que a chuva. “Eu… queria proteger.”

Tomás manteve o olhar firme. “De quê?”

Gil olhou para Dona Celina. “O Caderno das Lendas tem um desenho… um mapa antigo. Um mapa que leva a um lugar perto do pontão do rio. Eu sou professor de História local. Planeava uma atividade com os alunos. Mas ouvi dois homens na praça a dizer que o caderno valia dinheiro. Que iam ‘arranjar maneira' de o levar.”

Raul cruzou os braços. “E por isso decidiu levar você primeiro?”

Gil assentiu. “Achei que, se o tirasse da vitrina por uma noite e o escondesse, podia devolvê-lo depois, em segurança. Só que… eu fui estúpido. Fiz tudo às escondidas, usei o pano de limpeza com cheiro a limão… e deixei cair um papel com tinta.”

Tomás inclinou-se. “E a porta de trás?”

“Raul estava a falar ao telemóvel à frente. Eu pedi para ir à casa de banho. Vi a chave pendurada no quadro, atrás do balcão. Peguei, abri a porta de trás e saí rápido. Ia devolvê-la na mesma hora, mas fiquei nervoso e… pus a chave no sítio errado. Depois, Marta encontrou e devolveu ao quadro, sem notar.”

Marta corou. “Eu achei que alguém tinha deixado cair…”

Tomás ficou em silêncio por um segundo. Não era um silêncio vazio. Era aquele em que a lógica faz a última volta e encaixa.

“Então o caderno está onde?” perguntou ele.

Gil suspirou. “No pontão antigo. Dentro de uma caixa metálica que eu uso para guardar giz e cordas nas visitas de estudo. Debaixo da terceira tábua solta.”

Tomás fechou o bloco de notas. “Vamos todos. Agora.”

Foram em grupo: Tomás à frente, Dona Celina com as chaves, Raul atento, Marta com Ícaro pela mão, e o professor Gil com o rosto de quem sabe que errou e quer corrigir. O caminho até o rio estava molhado e brilhante, como uma fita escura.

O pontão era comprido e de madeira velha. As tábuas rangiam baixinho. O rio corria lento, levando folhas como pequenos barcos.

“Terceira tábua,” murmurou Gil.

Tomás ajoelhou-se, metódico, e levantou a tábua com cuidado. Ali estava a caixa metálica. Dentro, embrulhado num pano de limão, repousava o Caderno das Lendas, intacto.

Dona Celina levou as mãos ao peito. “Graças…”

Tomás olhou para o professor. “A intenção de proteger não apaga o erro de esconder e mentir. Mas a sua história encaixa com as pistas. E o caderno está aqui. Isso conta.”

Raul pigarreou. “E os tais homens da praça?”

Tomás fitou a água escura. “Vou informar a polícia local e pedir mais vigilância. E, na biblioteca, a chave não fica pendurada à vista. Rigor também é prevenção.”

Ícaro puxou a manga de Tomás. “Eu ajudei, né?”

“Sim,” disse Tomás. “Observaste, lembraste, desenhaste. Foi uma boa investigação.”

O grupo ficou por um momento no pontão, em silêncio. O rio não perguntou nada. Só passou, paciente. E naquele silêncio, Tomás sentiu a satisfação discreta de um caso resolvido com lógica, cuidado e verdade.

Depois, voltaram juntos, com o caderno seguro, e a biblioteca pareceu, enfim, respirar de novo.

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Bibliotecária
Pessoa que cuida da biblioteca e organiza livros e documentos.
Vitrine
Caixa de vidro onde se mostram coisas importantes ou valiosas.
Rosário
Colar de contas usado para rezar ou como objeto religioso.
Ronda
Caminhada feita para vigiar e verificar se tudo está seguro.
Arquivo
Lugar onde se guardam papéis e documentos importantes organizados.
Contentores
Grandes recipientes onde se põe lixo ou materiais para reciclar.
Mancha
Sinal sujo em papel, roupa ou superfície, de cor diferente.
Pressa
Estado de fazer algo rápido porque falta tempo ou é urgente.
Metódico
Pessoa que faz tarefas com ordem, calma e passo a passo.
Pontão
Estrutura de madeira ou pedra junto ao rio onde se pisa.
Embrulhado
Algo coberto com pano ou papel para proteger ou esconder.
Trancada
Quando uma porta ou caixa está fechada com chave.
Pegada
Marca deixada no chão pelo pé de alguém ou de um animal.
Fechadura
Peça da porta onde se põe a chave para trancar.

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