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História de detetive 9 a 10 anos Leitura 17 min.

A estrela perdida da Feira da Primavera

A detetive Lídia investiga o desaparecimento do colar de Clara na Feira da Primavera, seguindo pistas e fazendo as perguntas certas para descobrir o que realmente aconteceu.

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Detetive Lídia, rosto concentrado e benevolente, cabelo castanho curto, trench coat bege, olhar doce e curioso, estende um pequeno saco transparente com um colar em forma de estrela para a menina Clara; Clara, cerca de 9 anos, rabo de cavalo castanho, expressão aliviada e maravilhada, veste um vestido de bolinhas em tons pastel e estende as mãos para receber o colar; Dona Helena, mãe, 35–45 anos, cabelo preso, rosto agradecido e com lágrimas de alegria, segura a mão de Clara e fica ligeiramente atrás à esquerda; homem do quiosque, idoso com bigode grisalho e camisa às riscas, atrás do balcão, sorrindo, com um caderno de achados aberto; cenário: pequeno quiosque de madeira pintado de azul-claro com janela gradeada, cortina branca, placa "Achados e Perdidos", cartazes coloridos da feira, pequena estante de tijolos ao lado, chão de pedra, fonte e barracas da feira desfocadas ao fundo; situação principal: devolução do colar em formato de estrela — intercâmbio terno e claro entre detetive e criança, ambiente de feira animado porém calmo, composição centrada, cores vivas, formas geométricas simples, sombras suaves e contornos nítidos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Brilho Que Sumiu

A Detetive Lídia Costa gostava de duas coisas: silêncio e perguntas bem feitas. No bairro de Santa Amélia, todos a conheciam como “a discreta”. Ela não entrava num lugar com barulho. Entrava com paciência.

Numa tarde de sábado, Lídia estava sentada no banco da praça, observando. Um grupo de crianças corria atrás de uma bola. Um cão cheirava os canteiros como se procurasse um segredo. O vendedor de castanhas assobiava desafinado. E, no centro de tudo, havia a Feira da Primavera, com barracas coloridas e fitas ao vento.

Foi aí que Dona Helena apareceu, quase tropeçando nos próprios passos. Tinha o rosto apertado, como quem segura um choro para não derramar.

— Detetive Lídia… por favor… — ela disse, puxando o casaco para perto do corpo, mesmo sem frio. — O colar da minha filha sumiu.

Lídia levantou-se devagar, como se o tempo fosse uma ferramenta.

— Respire, Dona Helena. Qual é a pergunta certa primeiro? — Lídia inclinou a cabeça. — Quando você viu o colar pela última vez?

— Hoje cedo, antes de sairmos. Era um colar com um pingente de estrela. Presente da minha mãe… para a minha filha, a Clara. Ela estava tão feliz.

— E onde a Clara esteve na feira? — Lídia continuou, sem pressa.

— Na barraca de doces, no palco do concurso de talentos… e… no carrossel. Eu me distraí por um instante, falando com a professora dela.

Lídia anotou num caderninho pequeno. Depois, olhou ao redor, como se a praça fosse um grande tabuleiro de jogo.

— Vou encontrar. Mas preciso que você me ajude. — Lídia falou com firmeza suave. — Quem mais sabia que ela usaria esse colar hoje?

Dona Helena piscou, surpresa com a pergunta.

— Só nós… e talvez a tia Marta, que nos viu saindo de casa. Ah, e a Clara mostrou para duas amigas na escola ontem.

Lídia assentiu. Justiça não era só descobrir quem fez. Era descobrir o que aconteceu de verdade.

— Vamos falar com a Clara — disse Lídia. — E depois vamos seguir o caminho dela, passo a passo. Sem pular nada.

A feira continuava alegre, mas Lídia sentiu a pontinha de suspense no ar, como uma corda esticada esperando um toque.

Capítulo 2: Três Lugares, Três Pistas

Clara estava sentada no meio-fio, com os olhos vermelhos e as mãos no colo. Tinha nove anos, talvez dez, e a cara de quem se culpa por coisas que não fez.

Lídia se agachou para ficar na mesma altura.

— Clara, eu não vou brigar com você. Só vou fazer perguntas. Certo?

Clara assentiu.

— Você lembra do momento em que sentiu que o colar não estava mais no seu pescoço?

— Foi… depois do carrossel. Eu fui comprar um algodão-doce e… — ela levou a mão ao pescoço vazio. — Eu toquei e não estava.

— Antes do carrossel, ele estava?

— Estava. Eu mostrei para a Bia na barraca de doces. Ela falou que brilhava.

Lídia anotou: “Barraca de doces — Bia viu”.

— Agora, vamos fazer uma coisa simples — disse Lídia, olhando para Clara e para você, leitor, como se todo mundo estivesse na mesma equipe. — Vamos reconstruir. Primeiro: barraca de doces. Depois: palco. Depois: carrossel. Certo?

Clara concordou. Dona Helena ficou ao lado, apertando a alça da bolsa como se fosse uma corda salva-vidas.

Na barraca de doces, o senhor do avental listrado mexia num pote de balas.

— Senhor Arnaldo — Lídia leu o crachá. — A menina esteve aqui mais cedo. Você viu alguma coisa diferente?

— Vi ela e as amigas rindo, sim. — Ele apontou para o chão. — Varri depois. Não vi colar nenhum. Só uma fita azul caída.

Lídia olhou a fita. Pequena, bem dobrada, como se alguém tivesse deixado sem querer. Não parecia coisa de Clara.

— De quem é essa fita? — Lídia perguntou.

— Eu não sei. Pode ser de enfeite… aqui tem muita coisa.

Pista: fita azul, mas sem dono.

No palco, uma caixa de som soltava música baixa. A professora, Dona Célia, arrumava papéis.

— Dona Célia — Lídia disse — você conversou com a mãe da Clara. Viu o colar?

— Vi sim, rapidamente. Clara estava na primeira fila. — A professora franziu a testa. — Agora que você falou… eu lembro de ter visto ela mexendo no fecho, como se estivesse coçando.

Clara arregalou os olhos.

— Eu cocei! O fecho arranhava um pouco.

Lídia anotou: “Fecho incomodava — possível abrir sozinho”.

No carrossel, o rapaz que cuidava das fichas mastigava chiclete.

— Algum objeto perdido? — Lídia perguntou.

— Só um boné ontem. Hoje nada. Mas… — ele apontou para uma cestinha de “achados e perdidos” ao lado da cabine. — Pode olhar.

Dentro havia uma luva pequena, um botão e uma chave sem chaveiro. Nada de colar.

Lídia não pareceu desanimada. Ela apenas olhou o carrossel girando, como quem ouve uma história pelo som.

— Clara, quando você desceu, você correu? Pulou? Abraçou alguém?

Clara pensou.

— Eu corri para a mamãe, mas ela estava falando. Aí eu fui no algodão-doce.

— Sozinha? — Lídia perguntou.

— A Bia veio comigo… só até metade. Depois ela viu o irmão e foi embora.

Lídia ficou quieta por um segundo. Era a pausa que ela fazia quando uma pergunta nova nascia.

— Quem estava perto de você no algodão-doce? — ela perguntou, devagar, como se estivesse colocando uma peça no lugar certo.

Clara mordeu o lábio.

— Um moço alto, com casaco cinza. E… uma senhora com um carrinho de bebê.

Dona Helena arregalou os olhos.

— Casaco cinza? A tia Marta estava de casaco cinza hoje.

Lídia anotou sem olhar para elas.

Agora, leitor, pense com Lídia: se o colar estava antes do carrossel e sumiu depois, onde ele pode ter caído? No caminho? No carrossel? Perto do algodão-doce? E por que uma fita azul estaria na barraca de doces?

Capítulo 3: O Indício Fora do Lugar

Lídia voltou à barraca de doces. Ela não tinha pressa de parecer esperta. Preferia ser certa.

O senhor Arnaldo entregou a fita azul para ela.

— Achei estranho estar dobrada — Lídia comentou.

— Eu dobro as coisas quando acho que é lixo bom — ele respondeu, dando de ombros. — Vai que alguém quer.

Lídia cheirou a fita, como quem cheira um livro antigo. Tinha perfume de lavanda. Perfume de gente adulta.

Ela caminhou até a área onde vendiam artesanato. Havia uma barraca com laços, fitas e acessórios. A dona, uma moça de óculos redondos, arrumava presilhas com cuidado.

— Você usa lavanda? — Lídia perguntou direto.

— Uso! — a moça riu. — Minha avó diz que afasta mau humor.

Lídia mostrou a fita.

— Essa veio daqui?

A moça aproximou o rosto.

— É uma das minhas. Eu enfeito as sacolas com essas fitas. Mas… eu não lembro de ter perdido uma assim.

— Você vendeu para alguém hoje cedo? — Lídia perguntou, com a calma de quem abre uma gaveta por vez.

— Vendi para… ah… para a Dona Marta! Ela comprou um laço azul para colocar numa caixa de presente.

O nome caiu no ar como uma pedrinha na água.

Dona Helena, que estava atrás, deu um passo à frente.

— Marta… minha irmã…? — a voz dela ficou fina.

Lídia levantou a mão, pedindo paciência.

— Ainda não significa nada — disse ela. — Um indício fora do lugar pode apontar para o lugar errado.

A moça dos óculos acrescentou:

— Dona Marta estava com pressa e deixou a sacola aqui por um instante. Eu chamei, ela voltou e pegou. Talvez a fita tenha caído depois.

Lídia guardou a fita no envelope.

— Dona Helena, a justiça começa quando a gente não acusa sem certeza — Lídia disse, olhando firme. — Vamos falar com a Marta, mas do jeito certo.

— Ela é… ela é boa — Dona Helena sussurrou. — Só é… muito prática.

— Pessoas práticas também se confundem — Lídia respondeu. — Ou tentam ajudar sem explicar.

No caminho até a casa de Dona Marta, Lídia percebeu outra coisa: um cartaz do “Achados e Perdidos” preso num poste, perto da fonte, com letras grandes: “OBJETOS PERDIDOS: PROCUREM NO QUIOSQUE AO LADO DA BIBLIOTECA”.

Mas o carrossel tinha sua própria cestinha. Dois lugares de achados e perdidos. Isso dava confusão. E confusão é onde mistérios gostam de morar.

Lídia parou e apontou para o cartaz.

— Vocês viram isso hoje?

Clara balançou a cabeça.

— Eu pensei que era só no carrossel.

Lídia anotou: “Dois achados e perdidos — possível desvio”.

Agora, leitor, escolha com ela: se alguém acha um colar perto do carrossel, onde colocaria? Na cestinha do carrossel? Ou no quiosque da biblioteca, como diz o cartaz? E se alguém não viu o cartaz, pode ter colocado no lugar “errado” sem querer.

Capítulo 4: A Pergunta Certa para a Tia Marta

Dona Marta morava numa rua tranquila, com vasos de plantas alinhados como soldados verdes. Ela abriu a porta com um laço azul na mão, como se o mundo inteiro fosse uma lista de tarefas.

— Helena? Clara? — ela olhou para Lídia. — E você é…

— Lídia Costa — disse a detetive. — Posso fazer algumas perguntas?

Dona Marta cruzou os braços.

— Se for sobre o colar, eu já ouvi. Helena me mandou mensagem.

Dona Helena parecia pronta para explodir em desculpas e suspeitas ao mesmo tempo, mas Lídia falou antes, com voz baixa e firme:

— Dona Marta, eu não vim acusar. Eu vim entender. — Ela inclinou a cabeça. — A pergunta certa é simples: você encontrou alguma coisa hoje na feira?

Dona Marta piscou. A rigidez do rosto dela diminuiu.

— Encontrei… sim. — Ela suspirou. — Encontrei um colar no chão, perto da fonte. Uma estrelinha.

Clara deu um pulo.

— Era o meu!

Dona Helena levou a mão à boca.

— Marta! Por que você não falou?

— Porque… eu não sabia que era da Clara. — Dona Marta levantou o colar pela corrente. A estrela brilhou na luz da janela. — Eu vi uma menina correndo e achei que podia ser dela, mas ela sumiu no meio do povo. Eu ia entregar no achados e perdidos.

Lídia manteve o olhar atento.

— E entregou? — perguntou.

— Eu tentei. Fui até o carrossel e deixei na cestinha.

Lídia respirou fundo, como quem encaixa a última peça. Mas algo ainda não fechava.

— Você tem certeza de que deixou na cestinha do carrossel? — Lídia perguntou.

— Tenho. — Dona Marta franziu a testa. — Bom… quase. Eu vi uma plaquinha de “achados e perdidos” e deixei onde disseram.

Lídia não sorriu. Só confirmou:

— A plaquinha do poste manda ir ao quiosque da biblioteca. A cestinha do carrossel é outra coisa. — Ela olhou para Dona Marta. — Você deixou onde?

Dona Marta corou, irritada consigo mesma.

— No quiosque. Eu… eu segui o cartaz. Depois vi a cestinha do carrossel e pensei: “Pronto, devia ser aqui”. Mas eu já tinha ido embora.

Dona Helena soltou o ar como se tivesse carregado um balão pesado no peito.

— Então… o colar está no quiosque?

— Se ninguém mexeu — Lídia respondeu. — E agora vem a parte da perseverança: vamos lá conferir.

Clara segurou a mão da mãe.

— Tia Marta… desculpa por eu ter pensado…

Dona Marta ajoelhou, ajeitando o laço azul na mão.

— Eu também devia ter avisado logo. Às vezes eu acho que resolver sozinha é mais rápido. Mas não é mais justo.

Lídia assentiu. Justiça também era isso: dizer a verdade no tempo certo.

Capítulo 5: O Quiosque e a Estrela Encontrada

O quiosque ao lado da biblioteca parecia pequeno demais para guardar tantos problemas. Tinha uma janela com grade e uma campainha que fazia “trim”. Atrás do balcão, um senhor de bigode lia jornal.

— Boa tarde — disse Lídia. — Achados e perdidos.

O senhor baixou o jornal.

— Temos de tudo. Menos um dinossauro de verdade, que as crianças vivem pedindo.

Clara quase riu, mesmo com o coração apertado.

Lídia falou com precisão:

— Um colar com pingente de estrela. Encontrado perto da fonte, hoje. Deve ter sido entregue por uma mulher de casaco cinza.

O senhor coçou o bigode.

— Casaco cinza… sim. Ela trouxe uma estrelinha e assinou aqui no caderno. — Ele abriu uma gaveta e tirou um saquinho transparente.

Lá dentro, o colar brilhava, intacto.

Dona Helena deixou escapar um “ai!” que era metade riso, metade choro. Clara esticou as mãos, mas Lídia segurou o saquinho por um segundo.

— Antes de devolver, mais uma pergunta — disse a detetive, olhando para Clara. — O fecho estava ruim, lembra?

Clara assentiu.

— Arranhava e eu mexia.

Lídia entregou o saquinho para Dona Helena.

— Então o mistério tem solução sem vilões. O fecho pode ter aberto quando você correu. O colar caiu perto da fonte, onde o chão é irregular. A tia Marta achou e fez o certo: entregou. Só colocou no lugar que o cartaz manda, e vocês procuraram no lugar que parecia mais óbvio. Um indício mal colocado — a fita azul na barraca — fez a gente olhar para a tia Marta com desconfiança. Mas a pergunta certa limpou a confusão.

Dona Helena abraçou Clara com cuidado, como se o colar fosse frágil e o momento também.

— Lídia… obrigada. — Ela olhou para a irmã. — Marta, desculpa por eu…

— Eu entendo — Dona Marta interrompeu. — Eu teria desconfiado de mim mesma, se visse uma fita minha caída num lugar estranho.

Lídia fechou o caderno.

— O importante é o que vocês fazem depois da dúvida — disse ela. — Vocês vieram buscar a verdade.

O senhor do quiosque apontou para o cartaz na parede.

— Sabe, a gente devia tirar aquela cestinha do carrossel. Confunde todo mundo.

— Ou deixar bem claro que existem dois lugares — disse Lídia. — Justiça também é organizar o mundo para não culpar inocentes por engano.

Clara colocou o colar no pescoço. A estrelinha descansou no peito dela, brilhando como se não tivesse passado por nenhum susto.

— Posso fazer uma pergunta, Detetive Lídia? — Clara disse.

— Pode.

— Como você sabe qual é a pergunta certa?

Lídia guardou o lápis.

— Eu não sei de primeira. Eu observo, escuto e penso no que falta. A pergunta certa é a que abre a porta sem empurrar ninguém.

Clara sorriu, e até Dona Marta relaxou os ombros.

De volta à praça, a feira parecia mais colorida. Não porque tinha mudado, mas porque agora tudo fazia sentido. E, no meio da música e das risadas, a detetive discreta continuou como sempre: paciente, atenta, pronta para a próxima pergunta.

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Detetive
Pessoa que investiga mistérios e faz perguntas para descobrir a verdade.
Discreta
Alguém que age com calma, sem fazer barulho ou chamar atenção.
Paciência
Capacidade de esperar sem se irritar, com calma e cuidado.
Indício
Uma pista ou sinal que ajuda a entender o que aconteceu.
Achados e Perdidos
Lugar onde se guardam objetos que alguém encontrou ou perdeu.
Fecho
Pequena parte que fecha um colar, botão ou bolsa.
Cestinha
Uma pequena cesta ou caixa onde se guardam objetos achados.
Perseverança
Continuar tentando mesmo quando é difícil, sem desistir.
Enfeito
Ato de decorar algo, pôr enfeites para ficar mais bonito.
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