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História sobre a primavera 11 a 12 anos Leitura 12 min.

O mapa da primavera de Tomás

Tomás e os colegas vão ao parque observar a primavera e, entre flores, abelhas e um pequeno imprevisto, descobrem a importância da cooperação e de reparar nos detalhes da natureza.

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Três crianças de cerca de 12 anos — Tomás, agachado a desenhar uma grande flor branca num caderno; Inês, à esquerda, cheira uma flor violeta; Rafa, à direita, com lupa sobre o pólen e o caderno sobre uma pedra — num parque primaveril com caminhos floridos, relvado, lago com um pato, bancos e árvores; atmosfera luminosa e calorosa, cores pastéis e texturas de pólen e pétalas. reportar um problema com esta imagem

1) As primeiras manchas de cor

O Tomás tinha 12 anos e um olhar que reparava em coisas pequenas, como quem coleciona instantes no bolso. Naquela manhã, o ar estava diferente: menos frio, mais leve, com um cheiro a terra molhada que vinha do jardim do prédio.

Ao sair, viu-as logo junto ao portão: duas flores amarelas, baixas, teimosas, a nascer no meio da relva ainda meio castanha do inverno.

— Olha! — chamou ele, inclinando-se como se estivesse a falar baixinho com elas. — Vocês chegaram cedo.

A mãe apareceu atrás, a apertar o cachecol.

— Já estás a conversar com as plantas?

— Não estou a conversar… estou a dar as boas-vindas.

Ela riu, um riso pequeno, quente.

— Então dá-lhes um “bom dia” por mim também.

Tomás seguiu para a escola com a mochila a bater de leve nas costas. O céu estava limpo e, ao longe, ouviam-se pássaros como notas soltas. Ele ainda não sabia, mas aquele dia ia ter mais primavera do que cabia numa manhã.

2) O caminho da escola, bordado de flores

A rua até à escola parecia a mesma de sempre: o café da esquina com o cheiro a pão quente, as passadeiras pintadas, o senhor do quiosque a endireitar jornais. Mas havia um detalhe novo: nas bermas do passeio, alguém tinha plantado flores pequenas — roxas, brancas e cor-de-rosa — que faziam o caminho parecer uma fita bordada.

A Inês, colega de turma, apanhou o Tomás a olhar fixamente para um canteiro.

— Estás a contar pétalas?

— Estou a tentar descobrir como é que elas conseguem ser tão… tão alegres — disse ele, sério, como se isso fosse uma matéria da escola.

O Rafa chegou a correr, com o casaco aberto e as bochechas vermelhas.

— Vocês viram? A árvore do portão da escola tem pontinhos verdes! Pontinhos, tipo… mini folhas!

Inês inclinou-se e cheirou uma flor branca.

— Cheira a sabonete.

— Cheira a domingo — corrigiu o Tomás, e os dois riram, porque ninguém sabia bem como é que um domingo cheirava, mas parecia fazer sentido.

Na entrada da escola, a professora Helena esperava com um caderno na mão.

— Bom dia, exploradores. Hoje vamos ao parque. Mas atenção: vamos como equipa. Ninguém fica para trás.

Tomás sentiu um entusiasmo quieto, como quando se abre um livro novo e as páginas ainda cheiram a papel.

3) Preparar a saída: a turma como um só

Na sala, a professora escreveu no quadro: “Observação da primavera — Parque Municipal”. Depois desenhou três pontos: ver, ouvir, cheirar.

— Cada grupo vai ter uma missão — explicou ela. — Um grupo observa plantas. Outro observa animais. Outro toma notas sobre sons e cheiros. No fim, juntamos tudo e fazemos um mapa de primavera.

O Tomás ficou no grupo das plantas com a Inês e o Rafa. A professora entregou-lhes uma pequena lupa e um bloco de notas.

— E lembrem-se: cooperação não é só dividir tarefas. É ajudar quando alguém se atrasa, ouvir ideias e partilhar descobertas.

Rafa levantou a mão.

— Professora, se eu descobrir uma flor muito rara, posso ficar com ela?

— Podes ficar com a descoberta — respondeu ela, com paciência. — A flor fica onde está. A natureza não é uma loja; é uma casa.

Rafa fez uma careta engraçada.

— Então tiro uma fotografia com os olhos.

Tomás anotou a frase no bloco, a sorrir. Às vezes, a turma dizia coisas que pareciam poesia sem querer.

4) O parque e os sentidos acordados

O parque municipal estava a poucos quarteirões. A turma caminhou em fila, mas não parecia uma fila triste; parecia um rio de vozes baixas, com risos a aparecer aqui e ali. O sol aquecia sem exagero, como uma manta leve.

Assim que entraram, Tomás sentiu o cheiro das flores misturado com o da relva recém-cortada. Havia árvores com ramos ainda finos, mas já com rebentos verdes, e canteiros cheios de cores como lápis espalhados.

— Uau — disse ele, e foi a palavra mais simples e mais certa.

Inês agachou-se junto a uma flor roxa.

— Olha, tem linhas mais escuras nas pétalas. Parece que alguém desenhou com caneta.

Rafa aproximou a lupa do centro da flor e ficou quieto, concentrado.

— Parece um… mini estádio — disse, baixinho. — Com um monte de pó amarelo.

— Esse pó chama-se pólen — lembrou Tomás, orgulhoso de saber. — E serve para as plantas fazerem mais plantas.

A professora Helena aproximou-se.

— Muito bem. E quem é que ajuda a transportar o pólen?

Rafa apontou para uma abelha que passou como um helicóptero pequenino.

— As abelhas! Mas essa está com pressa.

— Não é pressa — disse a Inês. — É trabalho.

Tomás observou a abelha pousar numa flor e sair de lá com as patas carregadas. De repente, a primavera deixou de ser só bonita; era também um conjunto de tarefas invisíveis a acontecer sem barulho.

Mais à frente, havia um lago pequeno. Um pato deslizou na água, deixando um risco brilhante.

— Parece que está a desenhar — comentou Tomás.

A professora sorriu.

— A natureza desenha o tempo todo. Nós é que nem sempre paramos para ver.

Eles anotaram cores, cheiros e texturas: “folha macia”, “casca áspera”, “cheiro a limão numa flor amarela”. Tomás passou os dedos numa folha nova e sentiu-a fresca, como se tivesse acabado de ser lavada.

Um vento suave trouxe um som de sinos. Não eram sinos de igreja: eram as folhas a bater umas nas outras.

— Isto conta como música? — perguntou Rafa.

— Conta como som de primavera — respondeu Tomás. — E isso já é muita coisa.

5) O pequeno imprevisto e a força do grupo

Quando já iam a caminho da zona dos canteiros maiores, o Rafa parou de repente e franziu a testa.

— O meu bloco… — Ele abriu a mochila, remexeu, ficou pálido. — Não está aqui. Acho que caiu.

Inês olhou para o chão, como se o bloco pudesse aparecer por magia.

— Talvez tenha ficado no banco do lago.

Rafa mordeu o lábio, envergonhado.

— Eu queria escrever as coisas… agora vou parecer que não fiz nada.

Tomás sentiu um aperto no peito, não de medo, mas de vontade de resolver.

— Não vais parecer nada. Nós somos um grupo, lembram-se? Vamos fazer assim: voltamos juntos ao lago e procuramos. E, se não aparecer, partilhamos o nosso bloco contigo.

Inês acenou logo.

— Sim. E eu empresto a minha caneta. Tenho duas.

Rafa olhou para eles, meio surpreendido.

— A sério?

— A sério — disse Tomás. — E também podemos dividir as notas: tu descreves com palavras e eu desenho as formas. Não precisa de ser perfeito.

Eles falaram com a professora Helena, que concordou.

— Boa decisão. Cooperar é isso: transformar um problema num trabalho em conjunto.

O trio voltou pelo caminho, devagar, a reparar outra vez nas flores do parque. E foi aí que Tomás percebeu uma coisa curiosa: quando se anda mais devagar, aparecem mais detalhes.

Encontraram o bloco do Rafa perto do lago, encostado a uma pedra, como se estivesse a descansar. Rafa apanhou-o com cuidado e suspirou, aliviado.

— Obrigado… — disse ele, com a voz mais baixa. — Eu achei que ia estragar a saída.

— Estragar? — Inês levantou uma sobrancelha. — Isto só ficou mais… aventura.

Rafa riu, e o riso dele pareceu mais leve do que antes.

De volta aos canteiros, eles trabalharam melhor do que no início: Tomás desenhou uma flor branca com cinco pétalas e um centro amarelo; Inês escreveu: “cheiro doce, quase a mel”; Rafa descreveu o voo da abelha “como um ponto preto num papel azul”.

No fim, a professora juntou todos.

— Cada grupo vai partilhar uma descoberta.

Tomás levantou a mão e disse, com calma:

— Aprendemos que a primavera não é só cor. É trabalho de equipa: abelhas, vento, plantas… e nós também, quando ajudamos alguém.

A professora assentiu, satisfeita.

— Excelente. É uma ideia para levar para casa.

6) Regresso com luz nos olhos

Quando a saída terminou, a turma voltou para a escola. O caminho parecia ainda mais florido, talvez porque agora Tomás sabia nomes e histórias para aquelas cores. Passou outra vez pelos canteiros do passeio e notou uma flor que não tinha visto de manhã, ou talvez ele é que não tivesse reparado.

Ao fim da tarde, já fora da escola, a mãe esperava-o à porta. Tinha o cabelo solto e um sorriso cansado, mas bom.

— Então, explorador? Como foi o parque?

Tomás começou a falar e não conseguia parar: contou do cheiro da relva, do pato a “desenhar” o lago, da lupa que transformava pólen num “mini estádio”, e do bloco perdido do Rafa.

— E sabes o melhor? — disse ele, a andar ao lado dela. — Não foi só ver flores. Foi perceber que, quando alguém falha, o grupo não aponta o dedo. Estica a mão.

A mãe olhou para ele com atenção, como se o estivesse a ver crescer ali mesmo, entre uma passadeira e uma árvore com rebentos.

— Isso é uma aprendizagem grande — disse ela. — E é muito bonita.

Já perto de casa, o ar cheirava a jantar a ser preparado nalgum apartamento e a um resto de flores no jardim. Tomás viu as duas flores amarelas junto ao portão, ainda firmes, como pequenas lanternas.

Ele apertou a mão da mãe, e a mão dela apertou de volta, quente e segura. Caminharam assim, devagar, como se o caminho fosse uma continuação do parque.

E, no meio do silêncio confortável do fim do dia, Tomás pensou que a primavera era exatamente isto: o mundo a mudar sem pressa, e as pessoas a caminharem juntas para reparar.

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Instantes
Pequenos momentos do dia que são fáceis de esquecer.
Cachecol
Peça de tecido que se enrola no pescoço para aquecer.
Bermas
A parte ao lado da estrada ou passeio onde há relva ou flores.
Canteiros
Espaços do jardim onde se plantam flores e outras plantas.
Pólen
Pózinho das flores que ajuda a criar novas plantas.
Rebentos
Partes novas das plantas que começam a crescer, como bebés folhas.
Imprevisto
Algo que acontece sem aviso e que atrapalha os planos.
Cooperação
Trabalhar junto com outras pessoas para conseguir algo.
Exploradores
Pessoas que procuram e observam coisas novas com curiosidade.
Observação
Ato de olhar, ouvir ou notar detalhes com atenção.

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