Carregando...
História sobre a primavera 11 a 12 anos Leitura 17 min.

A amendoeira da escola e o segredo da primavera

Três amigas descobrem a chegada da primavera na escola através de um poema e de um projeto de plantar uma amendoeira, enquanto aprendem a observar e valorizar pequenas coisas.

Baixar esta história em PDF

Ideal para compartilhar ou imprimir esta história!

Baixar o e-book (.epub)

Leia esta história no seu leitor de e-books.

Três meninas cerca de 10 anos: no centro, cabelos castanhos médios e encaracolados, camiseta amarela e jeans, segura um caderno de desenho verde e observa a pequena amendoeira; à esquerda, cabelos loiros em rabo, jaqueta vermelha e mãos sujas de terra, ri olhando a colega; à direita, cabelos pretos lisos com boné azul, sem luvas, amassa a terra com as mãos enquanto segura o tronco. Pátio escolar ensolarado com piso de cimento claro e um círculo de terra escura delimitado por corda, muro baixo de tijolos vermelhos, banco de madeira à direita e prédios escolares ao fundo; luz suave de fim de manhã com sombras definidas. As meninas plantam uma jovem amendoeira: a torrão marrom e raízes finas visíveis, mãos sujas, uma pequena pá metálica ao lado e um regador brilhante a derramar; atmosfera de primavera com brotos verdes, uma abelha e pétalas rosas. Estilo 3D cartoon, cores saturadas, contornos cel-shading e texturas táteis (terra, madeira, folhas brilhantes). reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: Ar de Primavera

Na segunda-feira, o pátio da escola cheirava diferente. Não era só o detergente do chão nem o lanche da cantina. Era um cheiro morno, meio doce, como relva a acordar depois de meses encolhida.

A Inês, a Marta e a Joana atravessaram o portão quase ao mesmo tempo, com as mochilas a bater nas costas e os casacos já meio desapertados.

— Estás a sentir? — perguntou a Inês, a fungar o ar como se fosse uma especialista em perfumes. — Cheira a “já não preciso de luvas”.

A Joana riu-se.

— Cheira a recreio mais comprido, isso sim.

A Marta, que trazia sempre um caderno de folhas lisas para desenhar, parou junto a um canteiro. Havia ali umas pontinhas verdes a furar a terra.

— Olhem… parecem mini-lanças — disse ela, agachando-se. Tocou na terra com a ponta do dedo. Estava húmida e fria, mas não gelada. — O inverno ainda está aqui, mas já não manda tanto.

A Inês endireitou-se e olhou para as árvores do pátio. Ainda tinham ramos nus, mas as pontas pareciam mais vivas, como se estivessem a preparar uma surpresa.

— Hoje a professora Clara disse que íamos fazer uma coisa especial no recreio grande — contou a Joana, a saltitar. — Qualquer coisa sobre… plantar.

A palavra “plantar” ficou a fazer eco na cabeça da Marta, como um pincel a tocar num copo de vidro. Ela imaginou mãos com terra, folhas novas, um tronco a crescer devagar.

— Plantar é como desenhar, mas com tempo — disse a Marta, sem pensar muito.

A Inês piscou os olhos.

— Lá estás tu com as tuas frases de artista.

A Marta encolheu os ombros, a sorrir. Não se importava. O mundo, para ela, estava cheio de linhas invisíveis e cores escondidas, e a primavera parecia ser a estação em que tudo se deixava ver com mais facilidade.

Capítulo 2: Um Poema na Sala

Na sala, a luz entrava mais cedo e fazia quadrados claros em cima das mesas. A professora Clara colocou uma coluna pequena em cima da secretária.

— Hoje vamos começar com um poema — anunciou ela. — Um poema sobre as estações.

A Joana endireitou-se logo, como se alguém tivesse dito “pausa para respirar”.

— Gosto quando a professora põe música — sussurrou a Inês para a Marta. — Parece que a sala fica menos… sala.

A professora carregou num botão. A voz que saiu da coluna era calma, como se estivesse a falar ao ouvido. Não era uma canção com refrão; era um poema dito devagar, com pausas que pareciam folhas a cair e a levantar.

Falava do inverno como uma casa fechada, com janelas embaciadas. Falava da primavera como uma porta que se abre e deixa entrar cheiro a terra, asas de insetos e risos soltos.

A Marta sentiu um arrepio bom, daqueles que dão quando se reconhece uma coisa sem saber que se sabia. Pegou no lápis e, enquanto ouvia, começou a desenhar na margem do caderno: uma linha para um ramo, um ponto para um botão, uma espiral para o vento.

No poema, as palavras sobre o verão pareciam sol em pele. As palavras sobre o outono pareciam folhas a fazer “crac” debaixo dos sapatos. E, quando voltou à primavera, a voz disse algo sobre “o verde a reaprender o seu lugar”.

A Joana, que normalmente mexia nos dedos sem parar, ficou quieta.

Quando terminou, a professora Clara não falou logo. Deixou o silêncio pousar, como um pássaro que não se assusta.

— Então? — perguntou por fim. — O que vos ficou?

A Inês levantou a mão, sem pedir desculpa por existir.

— Eu gostei da parte da porta a abrir. Porque é mesmo isso. Eu já não quero ficar em casa.

A Joana mordeu o lábio, a pensar.

— Eu gostei das asas dos insetos. Porque é pequeno, mas faz diferença. Tipo… a gente percebe que eles voltaram.

A professora assentiu e olhou para a Marta, que ainda desenhava.

— Marta?

A Marta levantou os olhos, um pouco corada.

— Eu… ouvi cores — disse ela, e depois apressou-se a explicar, com medo de soar estranha. — O poema fez-me imaginar amarelos e verdes. Como se a primavera fosse uma caixa de lápis que alguém abriu.

A professora sorriu.

— Bonito. E já que falamos em abrir… hoje vamos abrir um espaço novo no nosso pátio.

A Inês inclinou-se para a frente.

— É hoje que vamos plantar, não é?

— É — confirmou a professora. — Vamos plantar uma árvore. Uma árvore para a escola, para a sombra do futuro e para lembrarmos que as coisas boas crescem devagar.

A Marta olhou para o desenho no caderno e, por um segundo, teve a certeza de que aquele dia ia ficar guardado, como uma página que não se rasga.

Capítulo 3: Terra nas Mãos

No recreio grande, havia um círculo marcado com corda, perto do muro onde o sol batia mais tempo. Ao lado, um jovem jardineiro da câmara municipal esperava com uma pá, um balde e uma árvore pequena num vaso. Tinha folhas finas e brilhantes, e o tronco ainda era do tamanho de um pulso.

— Bom dia! — disse ele. — Esta é uma amendoeira. Na primavera, dá flores que parecem nuvens cor-de-rosa.

A Joana arregalou os olhos.

— Nuvens cor-de-rosa no pátio? Isso parece… sobremesa.

A Inês riu-se.

— Só se não for daquelas sobremesas que caem na cabeça.

A professora Clara explicou que iam plantar com calma, em equipa. A Marta aproximou-se do vaso, como se estivesse a conhecer alguém novo.

— Parece frágil — sussurrou ela.

— Parece é corajosa — corrigiu a Joana. — Está aqui, no meio do barulho todo.

O jardineiro mostrou como cavar: a pá entrava na terra com um som surdo, “tuf”, e quando levantava, vinha um pedaço escuro e cheirava a húmus, a coisa viva escondida.

A professora entregou luvas a quem quisesse, mas a Inês abanou a cabeça.

— Eu quero sentir a terra. Só vou lavar bem as mãos, prometo.

A Marta também preferiu sem luvas. A terra fria encostou-se às linhas da sua pele e ela pensou que aquilo era uma textura que nenhum lápis conseguia copiar.

— Atenção às raízes — avisou o jardineiro. — São como cabelos. Precisam de espaço, mas não gostam de ser puxadas.

A Joana, sempre rápida, ajudou a segurar o vaso enquanto a professora e o jardineiro libertavam a amendoeira. O cheirinho a raízes molhadas subiu no ar.

— Cheira a… cave de avó — comentou a Inês, fazendo careta e rindo ao mesmo tempo. — Mas num bom sentido.

— Cheira a começo — disse a Marta, e as outras duas olharam para ela, como se essa frase tivesse acabado de pousar também.

Colocaram a árvore no buraco. O tronco ficou direito, um pouco tímido, mas firme.

— Agora, a terra volta — disse a professora.

E foi aí que as três se sujaram a sério. A Joana atirou uma mão-cheia e acertou na Marta — sem querer, quase — e a Marta ficou com uma mancha na bochecha.

— Estás com cara de guerreira da floresta — gozou a Inês.

A Marta revirou os olhos.

— Pelo menos é um disfarce ecológico.

A Joana, ao tentar limpar a Marta, só espalhou mais.

— Pronto, agora és duas florestas — disse ela, com um sorriso enorme.

Quando a terra ficou bem apertada à volta, o jardineiro encheu um regador e passou-o à professora. A água caiu com um som suave, “ploc-ploc”, e a terra escureceu ainda mais.

A professora Clara chamou-as para mais perto.

— Cada uma pode dizer uma palavra para esta árvore. Uma palavra bonita, simples.

A Inês nem hesitou:

— Sombra.

A Joana disse:

— Flores.

A Marta demorou um bocadinho, a olhar para as folhas novas.

Paciência — escolheu ela, e ficou contente por ter escolhido uma palavra que parecia um abraço.

Capítulo 4: Detalhes que Brilham

Nos dias seguintes, o pátio virou um lugar de descobertas. Não era que antes fosse feio; era que agora elas reparavam. O sol fazia riscos dourados no chão. As sombras mexiam-se como ponteiros de um relógio gigante.

No intervalo, a Marta abriu o caderno e tentou desenhar a amendoeira. O tronco era simples, mas as folhas… as folhas não paravam quietas.

— Está a mexer-se de propósito para me chatear — resmungou ela.

A Inês sentou-se ao lado e espreitou o desenho.

— Não é para te chatear. É para te dar trabalho, que é diferente.

A Joana apareceu com um pacote de bolachas e uma notícia.

— Vi uma abelha! Juro! Bem perto da árvore.

— Uma abelha? — repetiu a Inês, como se fosse um anúncio importante. — Isso significa que a primavera assinou o contrato.

Riram-se. A Marta olhou para o céu, que estava limpo, e ouviu um pássaro a cantar no telhado do ginásio. Era um som curto, repetido, como se estivesse a testar a própria voz.

— Sabem uma coisa? — disse a Marta. — O poema da sala… eu continuo a ouvi-lo. Tipo, quando olho para a terra, parece que ela está a dizer palavras.

A Joana mastigou uma bolacha e falou com a boca quase vazia, mas com convicção.

— Então escreve tu um poema. Ou desenha um.

A Inês apontou para o caderno.

— Ela já está a fazer as duas coisas. Desenhos com segredo.

A Marta sorriu, e de repente teve uma ideia. Tirou um lápis verde e outro cor-de-rosa.

— Quando a amendoeira florescer, eu quero estar aqui para desenhar as “nuvens” — disse ela.

— Vamos estar — garantiu a Joana. — E vamos comparar: se parece mais nuvem ou mais algodão-doce.

A Inês levantou uma sobrancelha.

— Eu voto em algodão-doce, mas sem pegar nas formigas.

Passaram o intervalo a observar coisas pequenas: uma formiga a carregar uma migalha maior do que ela; uma folha nova a brilhar como verniz; o barulho da bola a bater no muro e o eco a responder.

Nada parecia urgente. Era como se o tempo tivesse abrandado só para que elas pudessem ver melhor.

Capítulo 5: Uma Corrida com Cheiro a Erva

Numa sexta-feira, o vento trouxe calor suficiente para que ninguém reclamasse de frio. A professora de Educação Física levou a turma para o campo ao lado do pátio, onde a relva estava mais alta e ainda um pouco húmida.

— Hoje vamos correr, mas também vamos observar — disse ela. — Corrida de atenção. Quem chega ao fim e me diz três coisas que viu, ouviu ou cheirou, ganha pontos.

A Inês abriu um sorriso competitivo.

— Preparadas? Vou ganhar com o meu nariz.

A Joana estalou os dedos.

— Eu ganho com as minhas pernas.

A Marta, a apertar os atacadores, disse:

— Eu ganho com os meus olhos.

Começaram a correr. O ar entrava pelo nariz fresco e saía quente. O som dos ténis na terra era um “tum-tum” rápido. A Marta sentiu o coração a bater como um tambor feliz.

A Joana passou à frente e gritou:

— Última a chegar tem de dizer um elogio à amendoeira!

— Isso nem é castigo! — respondeu a Inês, ofegante, e acelerou.

A Marta corria a um ritmo constante, sem pressa, mas sem parar. Enquanto corria, reparou numa coisa: a luz fazia as gotas de orvalho na relva parecerem pedrinhas de vidro.

Quando chegaram ao fim, a professora esperava com um apito na mão e uma cara divertida.

— Então, Inês? Três coisas.

A Inês pôs as mãos nos joelhos, a recuperar o ar.

— Cheirei… relva molhada. Ouvi… pássaros e o apito na minha cabeça. E vi… uma nuvem com formato de sapato.

A professora riu-se.

— Criativo. Joana?

— Vi o brilho na relva. Ouvi as minhas colegas a bufar. E cheirei… o sol. — A Joana fez uma pausa e encolheu os ombros. — Eu sei que o sol não tem cheiro, mas parecia.

A professora assentiu, como se aquilo fizesse todo o sentido.

— Às vezes, o corpo inventa palavras para explicar sensações. E tu, Marta?

A Marta endireitou-se devagar.

— Vi as gotas como vidro. Ouvi o vento a passar pelas árvores. E cheirei… terra quente. Um cheiro que diz “estou pronta”.

A professora sorriu, satisfeita.

— É isso mesmo. A primavera não é só uma data no calendário. É um conjunto de sinais.

Depois da aula, voltaram ao pátio e passaram pela amendoeira. A árvore estava quieta, mas as folhas mexiam-se com uma vontade discreta, como quem treina para crescer.

A Joana inclinou-se, séria por um segundo.

— Olá. Hoje corremos por ti também — disse ela, como se a árvore entendesse.

A Inês acrescentou:

— E para a tua sombra futura.

A Marta tocou no tronco de leve, com respeito.

— E para a tua paciência — murmurou.

Capítulo 6: Um Fim de Dia Macio

Em casa, a Marta tomou banho e viu a água levar embora o pó da corrida. Ainda assim, parecia que o corpo guardava a sensação do vento: leve, invisível, mas real.

Ao jantar, contou aos pais sobre a amendoeira, o poema e a corrida de atenção. O pai perguntou como era o poema. A Marta não se lembrava palavra por palavra, então descreveu a ideia: a porta a abrir, o verde a voltar, as coisas pequenas a fazerem diferença.

Depois, já no quarto, abriu a janela. A noite estava morna e cheirava a rua limpa e a plantas. Ouviu ao longe um cão a ladrar, e mais perto o som de uma mota a passar, e pensou que até os barulhos normais pareciam menos pesados na primavera.

Pegou no caderno e desenhou mais uma vez a amendoeira, mas desta vez acrescentou três coisas: uma abelha pequenina, uma sombra grande e uma palavra escondida no tronco, escrita com letras miúdas: “Paciência”.

A mãe apareceu à porta.

— Hora de dormir, artista.

A Marta bocejou, com um cansaço bom, daquele que vem depois de correr muito e rir mais ainda.

— Mãe… achas que a árvore vai lembrar-se de nós?

A mãe entrou, apagou a luz grande e deixou só a luz do corredor, que fazia uma faixa dourada no chão.

— Talvez não como nós lembramos — disse ela, a ajeitar a manta. — Mas vai crescer no lugar onde a plantaram. Isso já é uma forma de memória.

A Marta deitou-se. A cama parecia um ninho, macio e seguro. As pernas estavam pesadas, mas confortáveis. Ela fechou os olhos e, por um momento, ouviu na cabeça a voz do poema: inverno como casa fechada, primavera como porta aberta.

Lá fora, o mundo continuava a mudar devagar, folha por folha. E a Marta adormeceu com um sorriso pequeno, como um botão prestes a abrir.

Sem publicidade 3 € por mês

Deseja uma leitura sem interrupções? Apoie Oh My Tales, remova todos os anúncios e aproveite outras vantagens incluídas a partir de 3€ por mês.

Veja os planos e tarifas
Compartilhar

reportar um problema com esta história

O que você achou desta história?

Dê sua opinião atribuindo uma nota a esta história com base no que você e/ou seu filho acharam. Obrigado antecipadamente!

Obrigado! Sua nota foi levada em conta!

O quiz: você entendeu bem a história?

Pátio
Espaço aberto da escola onde os alunos brincam e se reúnem.
Húmida
Que tem um pouco de água; não está seca.
Húmus
Terra preta e rica que ajuda as plantas a crescer.
Amendoeira
Árvore que dá amêndoas e flores cor-de-rosa na primavera.
Tronco
Parte principal da árvore, entre as raízes e os ramos.
Raízes
Partes da planta que ficam na terra e a prendem e alimentam.
Regador
Recipiente com bico usado para levar água às plantas.
Paciência
Capacidade de esperar com calma sem se irritar.
Ferramenta com lâmina para cavar ou mover terra.

Crie uma história mágica e única para o seu filho!

Crie em poucos minutos uma aventura personalizada onde seu filho se torna o herói. Com nossa ferramenta exclusiva, é fácil, gratuito e divertido!

Criar uma história

Baixe esta história:

Baixar esta história em PDF Baixar o e-book (.epub)

A ler em seguida em Histórias sobre a primavera para 11 a 12 anos

Receba novas histórias todos os domingos à noite!

Receba 7 histórias emocionantes e cativantes, adaptadas à idade e aos gostos do seu filho, todo domingo às 17h*. É grátis e garantido sem spam!
*E-mail enviado às 16h00, hora de Lisboa.
Nós também não gostamos de spam. Assim, nós só lhe enviaremos histórias. Você poderá se descadastrar quando desejar.