Parte 1: Luzinhas na Sala
Na tarde do último dia do ano, a sala da casa da Bia cheirava a pipocas e laranjas. Havia fitas brilhantes nas cadeiras, balões dourados no chão e um relógio grande na parede, a fazer “tic-tac” com seriedade, como se também estivesse a preparar-se para a festa.
A Bia, que tinha quase seis anos e dois totós muito teimosos, carregava um microfone de brinquedo com uma fita cor-de-rosa.
— Hoje vai haver uma coisa nova! — anunciou ela, com os olhos a brilhar. — Um karaoké dos votos!
O Tomás, quase seis também, aproximou-se com um prato de uvas. O cabelo dele estava despenteado como um ouriço feliz.
— Karaoke… dos votos? — perguntou. — É tipo cantar e pedir coisas?
— Não é pedir coisas — explicou a Bia, pondo as mãos na cintura. — É cantar uma frase bonita para o ano novo. Um voto. Uma coisa boa que desejamos para nós e para os outros.
A Leonor, de vestido azul com estrelas, deu um saltinho.
— Eu quero cantar “quero mais abraços”! — disse logo, como se já estivesse em palco.
O Ravi, que tinha uma gargalhada que fazia cócegas no ar, levantou o microfone de brinquedo e testou:
— Um, dois, três… alô, alô… — e depois falou em segredo para o microfone, como se fosse um amigo. — Por favor, ajuda-me a não desafinar.
Todos riram.
A mãe da Bia apareceu à porta com um saco de confettis e uma tigela de passas.
— Lembrem-se — disse ela — à meia-noite fazemos doze passas e doze desejos. Mas o “karaoké dos votos” é uma ideia muito bonita. Vai aquecer o coração da casa.
A Bia empurrou a mesinha do lado e montou “o palco”: um tapete com um lençol por trás, cheio de luzinhas pequeninas que pareciam pirilampos a descansar.
— Cada pessoa canta só uma frase — explicou. — Uma frase curtinha, para toda a gente entender. E depois… — ela fez uma pausa, dramática — …guardamos as frases num lugar especial.
— Num baú do tesouro? — perguntou o Tomás.
— Numa caixa de sapatos! — respondeu a Bia, orgulhosa, mostrando uma caixa com autocolantes de arco-íris. — É o nosso baú.
A Leonor bateu palmas.
— Eu posso decorar a caixa! Vou desenhar um relógio com confettis!
O Ravi espreitou pela janela. Lá fora, já começavam a aparecer luzes nas varandas dos vizinhos, como se o bairro inteiro tivesse colocado colares brilhantes.
— Parece que o céu está a ensaiar — disse ele.
A Bia sorriu.
— Então vamos ensaiar também. Primeiro, precisamos de uma música.
O Tomás trouxe um pequeno altifalante e carregou num botão. Começou uma música alegre, com som de sinos. A Bia apontou para o lençol como se fosse cortina de teatro.
— E agora… o karaoké dos votos vai começar!
Parte 2: As Frases Cantadas
A Bia foi a primeira. Subiu ao tapete, segurou o microfone e respirou fundo. As luzinhas atrás dela piscavam devagar, como se dissessem “estamos contigo”.
— O meu voto… — disse ela, e depois cantou numa melodia simples, quase como uma canção de embalar: — “Que haja risos na nossa casa, todos os dias!”
A frase ficou a dançar no ar. O Tomás aplaudiu com força.
— Boa! — disse ele. — Riso é como sopa quente.
A Bia fez uma vénia.
— Agora tu, Tomás!
O Tomás subiu. A música tocava baixinho. Ele segurou o microfone com as duas mãos, como se fosse um gelado que não podia cair.
— Eu… eu quero cantar… — e cantou, num tom que começou pequenino e depois cresceu: — “Que eu seja corajoso quando tiver medo!”
A Leonor abriu muito os olhos.
— Isso é lindo! — disse ela. — Coragem não é não ter medo. É ir com medo e tudo!
O Tomás ficou corado e sorriu, como se a frase tivesse mesmo posto uma capa invisível nele.
O Ravi saltou antes de ser chamado.
— Agora eu! Agora eu!
Ele cantou com energia, fazendo ritmo com os pés:
— “Que ninguém fique sozinho; eu vou chamar para brincar!”
Ao ouvir aquilo, a Bia sentiu uma coisa macia no peito, como um cobertor.
— Isso é muito gentil, Ravi — disse ela. — E é mesmo importante.
A Leonor foi a última. Subiu com passos de bailarina e levantou o queixo.
— O meu voto é brilhante — avisou ela. — Preparados?
E cantou, com voz doce:
— “Que a gente se abrace mais, mesmo quando estiver zangado!”
A sala ficou quieta por um segundo, como se até o relógio tivesse escutado melhor.
— Mesmo quando zangado? — repetiu o Tomás, a pensar.
— Sim — disse a Leonor. — Às vezes a zanga quer um abraço para se ir embora.
— Eu gosto disso — disse a Bia. — É um voto de paz.
A mãe da Bia apareceu outra vez, com sumo de ananás e copos coloridos.
— Já cantaram? — perguntou. — Que bonito! E agora, como vão guardar os votos?
A Bia abriu a caixa de sapatos.
— Vamos escrever cada frase num papel e pôr aqui dentro.
O Ravi franziu a testa.
— Mas nós ainda não escrevemos bem… eu faço letras que parecem minhocas.
O Tomás encolheu os ombros.
— As minhas parecem carrinhos a bater.
A Leonor levantou o dedo.
— Podemos desenhar! Um desenho também fala.
A Bia pensou rápido.
— Vamos fazer os dois! Eu escrevo com ajuda da minha mãe, e cada um desenha uma coisa ao lado.
Ficaram todos de barriga no chão, com canetas e lápis de cor. A Bia ditava:
— “Que haja risos…”
A mãe escreveu devagar, para eles verem.
O Tomás desenhou uma cara a rir com dentes gigantes. A Leonor desenhou dois braços a dar um abraço. O Ravi desenhou quatro crianças de mãos dadas e, por cima, um sol com óculos.
— Este sol parece fixe — disse o Tomás.
— É o sol de janeiro — explicou o Ravi. — Ele usa óculos porque o ano novo brilha.
Quando terminaram, colocaram os papéis na caixa e fecharam com cuidado, como se lá dentro estivesse um pássaro a dormir.
— Agora falta uma coisa — disse a Bia, olhando para as luzinhas. — Falta a surpresa da meia-noite.
— Surpresa? — perguntou a Leonor.
A Bia sorriu, misteriosa.
— Ainda não. É segredo. Mas tem a ver com os votos.
O relógio fez “tic-tac” mais alto, ou talvez eles é que estavam a ouvir mais. Lá fora, já se ouviam risos e pratos a bater de casas vizinhas.
— O ano está quase a mudar de roupa — sussurrou o Ravi.
— E nós vamos dizer boa noite ao ano velho e bom dia ao ano novo — disse a Bia.
Eles foram para a cozinha comer mais pipocas. Depois brincaram de adivinhar cheiros: canela, chocolate, limão. A cada minuto, a sala parecia mais dourada, como se o tempo se enchesse de festa.
E então, quase sem perceber, chegou a hora em que todos começaram a contar.
— Dez! — gritou o Tomás.
— Nove! — cantou a Leonor.
— Oito! — riu o Ravi.
— Sete! Seis! Cinco! — a Bia batia palmas para não se perder.
O relógio esperou, sério, e depois, quando a casa inteira segurou a respiração…
— Três! Dois! Um!
“FELIZ ANO NOVO!”
Parte 3: O Brilho e o Pequeno Susto
Houve barulho de palmas, confettis a voar e abraços a acontecer em todas as direções. A mãe da Bia distribuiu as passas.
— Uma passa, um desejo — lembrou ela.
A Bia mastigou uma passa e desejou, em silêncio, que todos os votos cantados ficassem fortes como uma árvore.
De repente, ouviu-se um “plim!” pequenino. Não era fogo de artifício. Era mais como uma campainha de fada. As luzinhas atrás do lençol piscaram mais rápido.
— Ouviram? — perguntou o Ravi, com os olhos redondos.
— Eu ouvi! — disse a Leonor. — Foi o ano novo a tocar à porta?
O Tomás apontou para o “palco”. A caixa de sapatos estava lá, mas a tampa tinha aberto um bocadinho, sozinha, como se uma mão invisível tivesse espreitado.
— A caixa mexeu! — sussurrou ele.
A Bia engoliu em seco. Ela gostava de maravilhas, mas também gostava de saber onde estavam os pés.
— Talvez foi o vento… — disse, embora as janelas estivessem fechadas.
Eles aproximaram-se devagar. A música ainda tocava baixinho ao fundo, e lá fora ouvia-se “pum-pum” de fogos ao longe.
O Ravi esticou o dedo, mas não tocou.
— Será que os votos querem sair para brincar?
A Leonor riu, mas riu baixinho.
— Votos não têm pernas.
— Mas têm asas — disse a Bia, lembrando-se de como as frases tinham dançado no ar.
A tampa abriu mais um pouco. Um papel escorregou para fora e caiu no tapete. Não era nenhum dos papéis que eles tinham feito. Este era diferente: mais duro, dobrado com cuidado, e tinha um brilho leve, como se tivesse pó de estrelas.
— Isso não é nosso — murmurou o Tomás.
A Bia apanhou o papel. Sentiu-o quente, como uma chávena de chá.
— Vamos abrir juntos — disse ela.
Sentaram-se no tapete, como um círculo de amigos. A mãe da Bia espreitou, curiosa, mas não interrompeu. Ficou só a sorrir, com ar de quem também acredita em coisas doces.
A Bia abriu o papel com cuidado. Lá dentro havia uma pequena mensagem, escrita com letras muito bonitas, e um desenho de um relógio a sorrir.
A Leonor leu devagar, juntando as sílabas:
— “Os… vossos… votos… são… luz… para… o… ano… novo.”
O Ravi bateu palmas, encantado.
— É uma carta do ano novo!
O Tomás inclinou a cabeça.
— Mas quem escreveu?
A Bia olhou para as luzinhas, que agora piscavam calmamente, como se estivessem a respirar.
— Talvez… foi a casa — disse ela. — Ou o tempo. Ou… a amizade.
A mãe da Bia aproximou-se e baixou-se ao lado deles.
— Às vezes, quando a gente faz coisas com carinho, o mundo responde — disse ela, num tom macio. — Pode ser só uma coincidência bonita. Ou pode ser um bocadinho de magia. O importante é como nos faz sentir.
A Leonor abraçou a Bia.
— Faz-me sentir quentinha.
— A mim também — disse o Ravi, abraçando o Tomás.
O Tomás, que às vezes demorava um pouco a aceitar abraços, desta vez não fugiu. E até apertou um bocadinho.
— Acho que o meu voto já começou — disse ele. — Estou a ser corajoso.
A Bia riu.
— E o meu também. Já há risos.
Mas ainda havia um problema pequeno: o papel brilhante estava solto. Não tinha lugar. E a Bia lembrou-se do que queria fazer desde o início. A surpresa.
Ela levantou-se num salto.
— Já sei onde ele vai ficar!
Correu até ao quarto e voltou com uma folha de cartolina dobrada, canetas e um autocolante grande em forma de estrela.
— Eu preparei uma coisa para o fim — confessou ela, feliz. — Uma carta de votos. Uma carta de parabéns para o ano novo. Todos juntos.
O Ravi abriu a boca.
— Uma carta de verdade?
— Sim! — disse a Bia. — E vamos pôr lá dentro esta mensagem também. E depois… vamos deixar a carta num lugar especial, como se fosse um abraço em papel.
A Leonor pegou numa caneta azul.
— Eu vou desenhar o abraço.
O Tomás pegou na caneta verde.
— Eu desenho uma capa de coragem.
O Ravi escolheu a amarela.
— Eu desenho um sol com óculos outra vez!
A mãe da Bia trouxe fita-cola brilhante e ajudou a dobrar a cartolina como um cartão.
Escreveram, com letras grandes e simples:
“Feliz Ano Novo!
Que haja risos.
Que sejamos corajosos.
Que ninguém fique sozinho.
Que a gente se abrace mais.”
Colaram ao lado a mensagem brilhante: “Os vossos votos são luz para o ano novo.”
Quando terminaram, o cartão parecia um pequeno jardim: havia risos desenhados, braços, um sol de óculos, corações, estrelas e até um relógio com boca sorridente.
A Bia segurou o cartão com as duas mãos.
— Agora vem a parte final.
Eles foram até à sala. A mãe apagou a luz principal e deixou só as luzinhas. A janela mostrava o céu com faíscas distantes, como flores de fogo.
A Bia colocou o cartão de votos em cima de uma prateleira, bem ao lado do relógio grande.
— Aqui — disse ela. — Para a gente ver todo o mês de janeiro. E lembrar.
O relógio continuou o seu “tic-tac”, mas parecia menos sério. Parecia contente por ter um cartão ao lado.
A Leonor suspirou.
— Parece que a sala ficou mais bonita.
— Ficou mais nossa — disse o Ravi.
O Tomás olhou para o cartão e depois para os amigos.
— Se alguém ficar triste, a gente pode cantar de novo, não pode?
— Pode — respondeu a Bia. — O karaoké dos votos não acaba. Só começa.
Eles juntaram as mãos no meio, uma em cima da outra.
— Um voto extra! — disse a Leonor.
— Qual? — perguntou o Tomás.
A Leonor pensou e falou simples, como uma canção pequenina:
— “Que a gente continue amigo.”
— Eu canto isso! — disse o Ravi, e cantou mesmo, numa nota alegre.
A Bia e o Tomás acompanharam, cada um do seu jeito, desafinados e felizes. A mãe da Bia aplaudiu baixinho, como se não quisesse assustar a magia.
Depois, com o cartão já pousado e o ano novo a respirar na casa, eles sentaram-se no sofá com uma manta. Lá fora, os fogos foram ficando mais calmos. Cá dentro, os votos continuaram a brilhar, sem barulho, como luzinhas que sabem o caminho.