Hoje de manhã, o Tomás, que tinha 4 anos e um riso grande, encontrou um cartaz pendurado na porta da cozinha. O cartaz tinha um desenho de uma colher a dançar e dizia, em letras tortas: “DESAFIO IMPOSSÍVEL: levar a sopa até à mesa sem derramar NENHUMA gota!”
O Tomás abriu muito os olhos.
“Impossível?” perguntou ele, com voz de quem não acredita.
A mãe sorriu. “Dizem que é impossível. Mas é só um jogo.”
O Tomás bateu palmas. “Eu vou conseguir!”
Ele correu buscar o seu caderno pequenino, o Caderno das Tentativas. Era amarelo, com um autocolante de um pato. Pegou também num lápis gorducho.
Sentou-se no chão e escreveu, bem devagar, como conseguia: “TENTATIVA 1”.
No fogão estava uma tigela de sopa de cenoura. Laranja, cheirosa, a fazer “ploc-ploc”. A tigela estava muito cheia. Mesmo muito.
A mãe avisou: “Devagarinho, Tomás.”
O Tomás segurou a tigela com as duas mãos. A tigela tremia um pouco, como gelatina.
Ele deu um passo. A sopa fez “shhh” e subiu numa ondinha.
“Uh-oh,” disse o Tomás.
Ele deu outro passo. A sopa fez “shhh” outra vez.
Então… PLOF! Uma gotinha caiu no chão.
O Tomás olhou para a gota, depois para o caderno.
Ele escreveu: “TENTATIVA 1: PLOF.”
O pai apareceu e perguntou: “O que é esse ‘plof'?”
“Foi uma gota fujona,” explicou o Tomás. “Mas eu vou apanhar as gotas!”
A irmã mais velha, a Rita, riu. “As gotas não se apanham. Elas escorregam!”
O Tomás pôs as mãos na cintura. “Então vou enganar a sopa.”
“TENTATIVA 2,” escreveu ele.
Ele pegou numa colher grande e começou a levar a sopa às colheradas, uma por uma, como se fosse um comboio. “Chuuu-chuuu!”
A colher ia, a colher vinha. Só que a sopa era esperta. Pingava da colher no caminho. Ping… ping… ping.
O Tomás fez cara séria. “Sopa, tu estás a fazer cócegas ao chão!”
Ele escreveu no caderno: “TENTATIVA 2: ping ping.”
A avó, que estava a descascar uma banana, aproximou-se. “O que se passa, meu querido?”
“Eu tenho um desafio impossível,” disse o Tomás, apontando para o cartaz. “A sopa não quer ficar quieta.”
A avó piscou o olho. “Quando uma coisa não quer ficar quieta, fazemos uma brincadeira com ela.”
O Tomás ficou atento. “Uma brincadeira!”
Ele escreveu: “TENTATIVA 3.”
“Primeiro,” disse ele, “eu vou andar como um caracol.” Ele levantou a tigela e mexeu-se tão devagar que parecia que o tempo estava a bocejar.
O Tomás deu um passo… e outro… e outro.
A sopa quase nem se mexia. Quase.
Mas, mesmo no fim, quando viu a mesa, a sopa fez uma última ondinha, toda contente. A onda encostou na borda.
O Tomás prendeu a respiração.
E… plim. Uma gotinha saltou para o guardanapo, não para o chão.
O Tomás sorriu. “Guardanapo, tu apanhaste!”
Ele escreveu: “TENTATIVA 3: plim no guardanapo. Melhor!”
A Rita aproximou-se com uma ideia. “Podemos pôr um prato por baixo da tigela. Assim, se cair, cai no prato.”
O pai disse: “E eu posso segurar a cadeira para ninguém tropeçar.”
A mãe trouxe um guardanapo grande. “E eu faço uma ‘capa' à volta da tigela.”
A avó colocou a banana descascada num prato e disse, muito séria: “E eu posso ser a Juíza do Desafio Impossível.”
O Tomás riu tanto que quase se esqueceu da sopa. “Todos comigo!”
Ele escreveu em letras grandes: “TENTATIVA 4: EM EQUIPA.”
A mãe enrolou o guardanapo à volta da tigela, como um casaco fofinho. A Rita trouxe um prato bem largo e o Tomás pousou a tigela em cima dele, com cuidado.
O pai abriu os braços como se fosse uma cancela. “Passagem livre para a Sopa!”
A avó sentou-se perto da mesa e fez um som de trombeta com a boca: “Pruu-praa! Começa o desafio!”
O Tomás segurou no prato com as duas mãos. A Rita caminhou ao lado, a apontar o caminho. “Direita… agora esquerda… cuidado com o tapete!”
O tapete era um monstro muito calmo, mas com uma pontinha levantada.
“Tapete, fica quietinho,” pediu o Tomás.
O pai levantou a pontinha com o pé. “Aqui não há tropeções!”
A sopa tentou fazer uma ondinha. Mas o casaco de guardanapo segurou a borda. E o prato por baixo estava pronto, como uma rede.
O Tomás fez voz de treinador. “Sopa, hoje tu és um barco. E a mesa é o teu porto.”
A avó bateu palmas devagar. “Muito bem, capitão!”
Chegaram à mesa. O Tomás pousou o prato. A tigela ficou no meio, orgulhosa e quietinha.
Silêncio.
Ninguém via gotas no chão. Nem uma!
A avó levantou as mãos. “Eu declaro: Desafio Impossível… POSSÍVEL!”
O Tomás saltou, mas só um saltinho pequeno para não assustar a sopa. “Consegui!”
Ele abriu o caderno e escreveu, com letras tortas e felizes: “TENTATIVA 4: CONSEGUIMOS! Sem plof. Sem ping.”
A mãe beijou-lhe a testa. “Foi a tua ideia pedir ajuda. Boa, Tomás.”
A Rita disse: “E foi divertido!”
O pai encheu as tigelas de todos, agora com calma. “Agora o desafio é comer sem fazer bigode de sopa.”
O Tomás levou a colher à boca e ficou com um bigodinho laranja.
Ele apontou para o bigode e disse: “Este desafio eu gosto!”
Todos riram, e a cozinha ficou quentinha e alegre. A sopa, finalmente, parecia sorrir também. Depois do riso, veio o sossego bom de barriga cheia. O Tomás guardou o caderno ao lado e pensou: quando é em equipa, até o impossível vira brincadeira.