Parte 1: O Cão que Queria um “Uau!”
Numa aldeia de animais onde as árvores pareciam guarda-chuvas verdes e as nuvens pareciam algodão-doce, vivia um cão chamado Pingo. O Pingo era candido, daqueles que abanam a cauda para uma folha que cai… mas também era esperto, porque sabia sempre onde estava a melhor poça para chapinhar.
Nessa manhã, o Pingo acordou com uma ideia a saltar dentro da cabeça, como uma pulga bem-disposta.
“Vou montar uma cor… cora… uma coisa de cantar em grupo!” pensou ele, ao cheirar a própria pata, como quem confirma um plano importante.
Ele tinha ouvido, na feira, um coro de sapos a fazer “croac-croac” em harmonia. Ficou com o coração a bater como um tambor. Só que o Pingo queria algo mais… mais brilhante, mais barulhento, mais “Uau!”.
Saiu a correr pela rua de pedrinhas, com um lenço azul preso ao pescoço, e começou a recrutar.
Primeiro encontrou a Coelha Lili, a saltar à corda com uma minhoca a fazer de corda (a minhoca estava contente, porque assim via o mundo a girar).
“Lili! Queres cantar numa chorale… numa corale… numa chorale!” disse o Pingo, todo orgulhoso da palavra, mesmo que ela saísse aos soluços.
A Lili piscou os olhos. “Eu canto bem… quando mastigo cenouras. Isso conta?”
“Conta tudo! Até as mastigações!” respondeu o Pingo, abanando a cauda tão forte que levantou poeira.
Depois encontrou o Galo Rufino, em cima de um balde, a praticar o seu “cocorocó” com eco.
“Rufino, preciso de uma voz que acorde as pedras!”
O galo inchou o peito. “As pedras e os caracóis. Às vezes, acordo caracóis que nem estavam a dormir.”
“Perfeito!” disse o Pingo.
Mais à frente, o Gato Zé estava a tentar apanhar uma borboleta… mas com tanta elegância que parecia estar a dançar.
“Zé, queres entrar na minha chorale?”
O gato fez “miau” com um ar artístico. “Eu canto baixinho, para não assustar o meu próprio talento.”
“Baixinho também dá para ouvir!” garantiu o Pingo.
E assim, em poucos minutos, o Pingo juntou um grupinho: a Coelha Lili, o Galo Rufino, o Gato Zé, uma Tartaruga chamada Tina (que apareceu sem ninguém perceber, como uma surpresa lenta) e até um Peixe chamado Bolha, dentro de um aquário com rodas, empurrado por um Caranguejo muito sério.
“Como é que o peixe vai cantar?” perguntou a Lili.
O Bolha fez bolhinhas. “Eu canto em bolhês.”
O Pingo bateu com a pata no chão. “Ótimo! Vai ser um coro… completo!”
Eles ensaiaram no parque, debaixo de um carvalho com cara de velho sábio. O Pingo era o maestro. Tinha uma varinha feita de graveto e uma folha colada na ponta.
“Um, dois, três… e… Auuu!” ele deu o tom.
O Rufino entrou com um “CO-CO-RO-CÓÓÓ!”, a Lili mastigou uma cenoura ao ritmo, o Zé fez “miiiiau” como se estivesse a escorregar num tapete, a Tina cantou devagar (tão devagar que parecia que a nota vinha a pé), e o Bolha soltou uma fila de bolhinhas que faziam “plop-plop-plop” em sequência.
Aquilo soou… estranho. Mas era um estranho divertido, tipo sopa de banana com cheiro a hortelã.
O Pingo sorriu. “Está lindo! Só precisamos de… hum… um lugar para cantar para toda a aldeia!”
Foi então que viu um cartaz preso num poste: “HOJE: TRIBUNAL DO BOSQUE — Julgamentos Rápidos e Chá de Camomila.”
O Pingo arregalou os olhos. “Tribunal! Lá tem plateia! E cadeiras! E eco!”
O grupo ficou quieto.
“Tribunal é para problemas,” cochichou a Tina, bem devagar, como se a palavra “problemas” fosse pesada.
“E nós temos um pequeno problema,” disse o Pingo, com um sorriso maroto. “Ainda não temos concerto!”
Parte 2: O Juiz Mais Fofo do Bosque
O Tribunal do Bosque era uma cabana grande, com janelas redondas e um sino na porta que tocava “trim!” como se fosse um passarinho.
Lá dentro, havia bancos de madeira e um cheiro a chá. No centro, uma mesa alta. E atrás da mesa, sentado numa cadeira maior do que ele, estava o Juiz Texugo. Usava uma toga que parecia uma manta e uns óculos tão redondos que davam vontade de mergulhar neles.
O Juiz Texugo bocejou de um jeito simpático. “Próximo caso! Quem fez barulho no lago? Quem roubou uma bolota? Quem espirrou em cima de uma nuvem?”
O Pingo entrou com o coro atrás, em fila torta. O Rufino tropeçou no próprio orgulho. O aquário com rodas fez “clac-clac”. A Tina chegou depois, com cara de quem já estava lá há um tempo.
O Pingo levantou a pata. “Excelentíssimo Juiz… nós viemos… hum… pedir licença para cantar.”
O Juiz Texugo inclinou a cabeça. “Cantar? Aqui? Normalmente, eu ouço ‘Ai!' e ‘Não fui eu!' e ‘Foi o vento!'… mas cantar é novidade.”
O Pingo, candido e esperto, decidiu fazer uma cara de anjo. Era uma cara difícil num cão, mas ele tentou.
“É que… nós podemos estar a cometer um… crime musical,” disse ele, dramatizando.
O Rufino engasgou. “C-crime?”
O Zé ajeitou as orelhas. “Eu sabia. O meu ‘miau' tem cara de suspeito.”
O Juiz Texugo abriu um sorriso enorme. “Crime musical? Ora, ora! Eu sou muito indulgente. Uma vez absolvi um esquilo que roubou… a sua própria sombra. Ele disse que a sombra estava a segui-lo!”
O Pingo piscou para o grupo. “Viram? Indulgente.”
O Juiz Texugo bateu com um carimbo na mesa, mas o carimbo era um pãozinho, por isso fez “pof” e deixou migalhas.
“Regra número um do meu tribunal,” disse ele. “Se for engraçado, eu perdoo. Regra número dois: se tiver ritmo, eu perdoo duas vezes.”
O Pingo quase deu uma cambalhota de alegria. “Então podemos ensaiar aqui?”
“Podem… mas com ordem!” disse o Juiz, apontando para um quadro na parede. No quadro estava escrito: “SILÊNCIO”, mas alguém tinha desenhado um bigode na letra S.
O Pingo virou-se para o coro. “Vamos mostrar ao Juiz como é o nosso som!”
Eles começaram: o Rufino fez “CO-CO-RO-CÓ!” tão alto que uma aranha caiu da teia e aplaudiu no ar. A Lili mastigou mais rápido. O Zé tentou fazer um “miau” em três notas e acabou a soar como uma chaleira. A Tina soltou uma nota tão lenta que parecia um balão a desinflar. E o Bolha fez bolhas tão entusiasmadas que o aquário tremia.
O resultado foi… um caos com purpurina.
O Juiz Texugo levou as patas à cabeça, mas estava a rir.
“Eu devia dizer ‘ordem na sala'… mas isto está demasiado bom!” disse ele, abanando a barriga de riso. “Ainda assim, há um problema: a minha campainha está com ciúmes. Ela quer participar.”
A campainha da porta, como se tivesse ouvido, tocou sozinha: “TRIM!”
O Pingo apontou. “Perfeito! Mais um instrumento!”
E foi aí que o mini-rebondissement aconteceu: o Juiz levantou-se e disse, com voz oficial e muito alegre:
“Declaro este tribunal… oficialmente… um palco!”
Os bancos pareceram mais felizes. Até o bigode desenhado no “SILÊNCIO” parecia sorrir.
Mas então, do lado de fora, ouviu-se um barulho de passos apressados e um “Socorro!” fininho.
Parte 3: A Confusão do Canto e a Ideia Brilhante
Entrou a Pomba Pompom, ofegante, com penas todas ao contrário.
“Juiz Texugo! Houve um… um… desastre!” disse ela.
O Pingo arregalou os olhos. “Desastre? Tipo… desafinado?”
“Pior!” gritou a pomba. “O sino da torre da aldeia ficou preso! Tocou ‘DONG' e não parou. Agora está a fazer ‘DOOOOONG' com voz de boi triste!”
Ao longe, ouviu-se mesmo: “DOOOOONG… DOOOOONG…”
O Juiz Texugo coçou o queixo. “Isso é barulho sem processo. E o meu tribunal gosta de processos… mas também gosta de chá.”
O Pingo deu um passo à frente, com a cauda a fazer planos no ar. “Juiz, se o sino não para… então nós podemos cantar por cima! Fazer do ‘DOOOOONG' parte da música!”
A Lili abriu a boca. “Cantar por cima de um sino gigante?”
O Rufino esticou o pescoço. “Eu consigo cantar por cima de qualquer coisa. Até por cima de uma montanha. Talvez.”
O Zé miou, nervoso. “E se o sino engolir a nossa melodia?”
O Pingo riu. “Melodias não se engolem. Só se mastigam… como cenouras.” Ele olhou para a Lili, que mastigava por hábito.
A Tina, lenta mas certeira, disse: “Se o sino é lento… eu posso combinar com ele.”
O Bolha fez uma série de bolhas corajosas: “plop-plop-PLÓP!”
O Juiz Texugo bateu com o pão-carimbo outra vez. “Aprovado! Vão para a praça! E… eu vou também. Um juiz não perde um espetáculo. Principalmente se for improvisado!”
Todos correram para a praça. Bem… todos menos a Tina, que foi andando. E o aquário com rodas, que foi “clac-clac”.
A torre ficava no centro, com o sino a vibrar como se tivesse cócegas eternas. Um Castor estava lá em cima, a tentar empurrar uma corda com uma cara desesperada. Uma Coruja dava instruções, mas era de dia, então ela parecia meio confusa.
O “DOOOOONG” continuava.
O Pingo subiu num banco, como maestro de emergência. “Pessoal! Vamos fazer um número improvisado! O sino vai ser o nosso ‘baixo'. O Rufino faz o ‘alto', a Lili faz ‘crunch-crunch', o Zé faz ‘miau-melodioso', a Tina faz ‘nota-longa', e o Bolha faz ‘plop'!”
A praça encheu-se de animais curiosos: patos, ouriços, cabras, até um Polvo em balde (ninguém perguntou porquê). Todos olhavam para o Pingo, que respirou fundo e levantou o graveto com a folha.
“Um… dois… três… e… DONG!”
O sino tocou, como se obedecesse.
O coro entrou. E, de repente, o caos com purpurina virou… uma música engraçada. O “DOOOOONG” parecia o passo pesado de um gigante simpático. O “cocorocó” do Rufino fazia cócegas no ar. A Lili mastigava no ritmo certo, como se as cenouras fossem castanholas. O Zé fez um “miau” tão suave que parecia manteiga a deslizar. A Tina segurou uma nota longa que abraçou o sino. E o Bolha soltou bolhas em sequência, como se estivessem a rir.
As pessoas-animais começaram a bater palmas. Alguns dançavam. Um Pato tentou fazer sapateado e acabou a rodopiar como um pião molhado.
Lá no alto, o Castor parou de lutar com a corda e ficou a ouvir. E, sem querer, relaxou as patas. A corda deslizou. O sino deu um último “DONG!” bem redondo… e calou-se.
Silêncio.
Depois, um segundo de suspense.
E então a praça explodiu em aplausos, gargalhadas e assobios felizes.
O Pingo, com os olhos brilhantes, fez uma vénia tão funda que quase cheirou o chão. O Juiz Texugo aplaudia com tanta força que o pão-carimbo caiu e um esquilo tentou comê-lo.
O Juiz subiu ao banco ao lado do Pingo. “Declaro, com toda a minha indulgência, que este ‘crime musical' é… um presente para a aldeia!”
O Pingo abanou a cauda. “Então… estamos absolvidos?”
“Absolvidíssimos!” disse o Juiz. “E condenados… a cantar outra vez amanhã!”
O coro riu. Até a Tina riu, só que demorou um bocadinho a chegar ao riso, como tudo nela.
Naquele fim de tarde, enquanto o sol pintava o céu de laranja e rosa, o Pingo olhou para os seus amigos e para a praça cheia.
Não foi um concerto perfeito. Foi melhor: foi inesperado, barulhento, divertido… e bem deles.
E, sem ninguém combinar, todos começaram a repetir baixinho, como uma brincadeira:
“DONG… miau… crunch… plop… cocorocó…”
O Pingo sorriu, como quem guarda uma piada no bolso, pronta para a próxima vez.