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Fantasia urbana 9 a 10 anos Leitura 23 min.

O clube do lúmen e a porta do norte

Tomás, um rapaz de dez anos com o dom chamado Lúmen, junta-se a um clube secreto na Estação Central para investigar o desaparecimento de objetos e aprender a usar a sua luz para revelar e orientar sombras e portas antigas.

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Um menino de 10 anos, Tomás, rosto redondo, cabelo castanho despenteado, olhos grandes e curiosos, expressão concentrada e doce, estende as mãos luminosas de onde saem fios dourados de luz que guiam uma forma sombria; uma adolescente Luma (≈15), cabelo azul-escuro em corte reto, sorriso confiante, corre ao lado pronta para fechar uma pequena gaiola de vidro decorada com motivos lunares; Nilo (≈14), magro, óculos redondos, olhar analítico, segura um caderno observando à distância; Maestra Íris (≈50), cabelos grisalhos trançados, casaco verde, postura calma e acolhedora, orienta o grupo; um gato preto pequeno e rechonchudo com um minichapéu-coco está sobre uma caixa de madeira; a Sombra-Fome é uma sombra densa, forma fluida e ligeiramente translúcida com pequenos objetos flutuantes no seu interior (chaves, sementes, cartas) que segue a trilha dourada; cenário: mercado secreto sob a estação com barracas de madeira e painéis solares reciclados, lanternas com luz quente, bandeiras coloridas, cartazes desgastados, chão de pedras e algumas plantas em vasos fosforescentes; situação: momento de tensão benevolente enquanto Tomás guia a sombra até a gaiola de vidro no centro de uma barraca movimentada, iluminação suave com contrastes nítidos, paleta em tons pastel com acentos dourados para a luz e cinza profundo para a sombra, composição centrada nas mãos luminosas de Tomás e na trajetória da sombra, atmosfera mágica, segura e esperançosa. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A Estação de Muitas Portas

Na cidade de VerdeLume, os telhados eram jardins e os autocarros deslizavam sem barulho, como peixes em rios de ar. As ruas cheiravam a chuva guardada em cisternas e a pão quente de algas, e os candeeiros públicos acendiam-se com vagar, como se bocejassem.

Tomás tinha dez anos e um coração grande demais para o peito. Era daqueles miúdos que seguram a porta do elevador para estranhos e que devolvem moedas caídas antes que o dono dê por falta. Vivia com a avó Lia num prédio coberto de trepadeiras, a duas paragens da Estação Central, o lugar mais famoso e mais estranho de VerdeLume.

A Estação não era só uma. Era muitas, empilhadas e entrelaçadas como páginas num livro. Tinha plataformas solares ao ar livre, túneis com paredes de musgo que limpavam o ar, e, o mais importante, tinha portas. Portas normais, de vidro e metal, por onde entravam pessoas com mochilas e pressa. E portas que pareciam iguais… até se olhar com atenção. Havia uma com puxador de âmbar que brilhava ao entardecer. Outra com moldura feita de madeira que cheirava a floresta, no meio de tantos cheiros urbanos.

Nessa tarde, Tomás levava um saco de sementes para a horta comunitária da escola, quando viu algo que não encaixava: um gato preto de chapéu minúsculo — sim, chapéu — sentado junto a uma bilheteira. O gato piscou-lhe um olho e bateu com a cauda no chão, como quem diz: “És tu.”

Tomás parou. O saco de sementes fez “chof” contra a perna.

O gato levantou-se e, com a dignidade de um rei num corpo de almofada, caminhou até uma porta lateral que Tomás nunca tinha notado. Acima dela, uma placa discreta dizia: CLUBE DOS INQUÉRITOS DE FENÓMENOS. As letras eram simples, mas a sombra delas parecia mexer-se, como se tivesse vontade própria.

Tomás engoliu em seco. O seu mundo era moderno, ecológico e cheio de coisas surpreendentes… mas aquilo era diferente. Aquilo chamava pelo lado dele que colecionava mistérios em vez de cromos.

Empurrou a porta.

Lá dentro, o ar tinha cheiro a papel antigo e laranjas. Havia mapas da cidade presos nas paredes com alfinetes brilhantes. Um aquário sem peixe borbulhava com uma água que parecia refletir estrelas. E, numa mesa redonda, três pessoas e o gato aguardavam como se estivessem a meio de uma reunião.

Uma rapariga com cabelo azul-escuro, mais velha do que ele, levantou a mão num aceno. Um rapaz magro, de óculos redondos, mordiscava um lápis como se fosse um segredo. E uma senhora de casaco verde, com um sorriso calmo, observava Tomás como quem lê uma história sem pressa.

“Finalmente,” disse a senhora. “Tomás, não é? Eu sou a Maestra Íris. Bem-vindo ao Clube.”

Tomás abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas, como pombos numa varanda fechada.

O gato saltou para a mesa e pousou uma pata num envelope. O envelope, sozinho, deslizou até Tomás.

Tomás pegou nele. Era pesado, como se dentro houvesse um pedaço de noite. Ao abri-lo, sentiu um arrepio bom, daqueles que vêm antes de um espetáculo.

Lá dentro havia um bilhete simples: A tua missão é aprender a dominar o teu novo dom.

Tomás olhou para a Maestra Íris. “Eu… não sei qual é o meu dom.”

Ela sorriu, e esse sorriso parecia uma luz pequena numa rua escura. “Ainda bem. Significa que vai ser interessante.”

Capítulo 2: O Dom que Acorda na Palma

O Clube não parecia uma sala escondida numa estação movimentada. Parecia uma dobra do mundo, uma página secreta enfiada entre duas páginas comuns.

A rapariga de cabelo azul apresentou-se primeiro. “Sou a Luma. Faço as sombras contarem verdades. Às vezes contam demais, mas pronto.” Ela encolheu os ombros, divertida.

O rapaz dos óculos ergueu o lápis como se fosse uma varinha. “Eu sou o Nilo. Eu… encontro padrões. Até onde não existem.” Disse aquilo com tanta seriedade que Tomás quase riu, mas conteve-se.

O gato, claro, não se apresentou. Apenas espreguiçou-se e deixou cair um miado que soou muito parecido com uma gargalhada.

Maestra Íris empurrou para o centro da mesa uma tigela com água clara. “Tomás, põe as mãos aqui, como se fosses lavar um pensamento.”

Tomás aproximou as palmas da água. A superfície tremeu antes mesmo de ele tocar. Quando tocou, a água ficou morna e brilhou de dentro para fora, como se uma lâmpada invisível tivesse sido acesa no fundo.

Na pele de Tomás, linhas suaves de luz subiram pelos dedos. Não queimavam; faziam cócegas. E então aconteceu o impossível mais simples: a água ergueu-se em pequenos fios, como se estivesse a aprender a dançar.

Tomás puxou as mãos para trás, assustado. Os fios caíram, salpicando a mesa.

“Calma,” disse Maestra Íris, numa voz de algodão. “A tua magia não quer magoar-te. Só quer ser vista.”

Tomás respirou fundo. Lembrou-se da avó Lia a dizer que confiança é como andar de bicicleta: no início, o mundo abana, mas depois aprende o ritmo.

Voltou a colocar as mãos sobre a tigela.

Desta vez, a luz formou uma pequena esfera entre as palmas, um ponto dourado do tamanho de uma noz. Dentro dele, Tomás viu uma imagem rápida: um corredor da estação, uma porta com moldura de madeira, e uma sombra no chão… que parecia uma mão a tentar agarrar algo.

Tomás engoliu em seco. “Eu vi… um aviso.”

“Visões,” murmurou Nilo, com respeito. “Não é comum.”

Luma inclinou-se para a frente. “Se o teu dom mostra coisas, tens de aprender a escolher o que segues. Nem toda a sombra é monstro. Algumas só estão sem luz.”

Maestra Íris fez um gesto e a esfera dourada apagou-se, obediente, como uma vela soprada com cuidado. “O teu dom chama-se Lúmen. É luz que revela, luz que guia. Em VerdeLume, isso é mais valioso do que ouro.”

Tomás sentiu um orgulho tímido, como quando se acerta numa pergunta difícil sem querer. Mas, por trás desse orgulho, havia medo. E o medo tinha a forma de uma estação enorme, com muitas portas e coisas por trás delas.

“E a minha missão?” perguntou ele.

Maestra Íris apontou para um mapa da cidade. Havia uma marca vermelha perto da Estação Central. “Andam a acontecer desaparecimentos pequenos. Não de pessoas. De coisas essenciais: chaves, baterias, cartas, sementes… objetos que fazem a cidade funcionar. Como se alguém estivesse a roubar pedacinhos de futuro.”

Tomás olhou para o saco de sementes que ainda trazia. Apertou-o contra o peito.

“Vamos investigar,” disse Luma, já de pé, com um brilho nos olhos.

O gato saltou para o chão e caminhou até à porta. Quando olhou para trás, o chapéu minúsculo parecia ainda mais sério.

Tomás seguiu-os. O coração batia rápido, mas agora tinha um propósito para bater.

Capítulo 3: O Mercado das Coisas Perdidas

A noite em VerdeLume era um tecido de luzes suaves. Drones-jardineiros zumbiam ao longe, regando telhados. O rio refletia anúncios holográficos de chá de menta e bicicletas partilhadas. E, por baixo da beleza, havia uma camada de mistério que só alguns reparavam — como poeira de estrelas escondida nas sarjetas.

O Clube guiou Tomás por uma passagem lateral da estação. Não era perigosa, mas parecia antiga, como se tivesse sido construída quando a cidade ainda não sabia que ia tornar-se verde e brilhante.

Nilo caminhava contando passos, murmurando números. Luma seguia com as mãos nos bolsos, a assobiar baixinho, como se o medo fosse um cão que ela sabia acalmar. Maestra Íris vinha atrás, tranquila, com o gato a saltitar ao lado.

Chegaram a uma porta estreita com moldura de madeira. Cheirava a pinho. Tomás reconheceu-a da visão.

“Esta porta só aparece a quem precisa,” disse Maestra Íris. “O que há do outro lado é… um acordo antigo.”

Tomás hesitou. “E se eu não conseguir… controlar o Lúmen?”

Maestra Íris pousou a mão no ombro dele. Era leve e firme. “Confiança não é não ter medo. É caminhar apesar dele.”

Tomás assentiu, e empurrou a porta.

Do outro lado não havia um túnel. Havia um mercado.

Um mercado escondido dentro da cidade, como um bolso secreto num casaco. Barracas feitas de placas solares antigas, lanternas penduradas com vaga-lumes artificiais, e vendedores que pareciam quase humanos. Quase. Um tinha olhos de vidro que mostravam pequenas tempestades. Outro tinha mãos de madeira polida. Havia também pessoas normais, mas com expressões de quem sabia ouvir o impossível sem se engasgar.

E, em cima de uma fonte, um cartaz dizia: MERCADO DAS COISAS PERDIDAS — devolvemos o que o mundo esqueceu.

Tomás sentiu a magia ali como um cheiro: doce, metálico, e um pouco como chuva.

De repente, um senhor baixinho passou a correr com um saco cheio de… tampas de garrafas. Atrás dele vinha uma sombra esquisita, achatada, escorregadia, como tinta derramada que decidiu ter vida. A sombra arrastava-se pelo chão, tentando agarrar o saco sem tocar no homem.

Tomás congelou.

“É uma Sombra-Fome,” sussurrou Luma. “Come o que as pessoas deixam cair. Mas agora está a ficar… gulosa.”

“E se comer sementes?” perguntou Tomás, lembrando-se do seu saco.

Nilo ajustou os óculos. “Se tirar pequenas peças de muitos sítios, muda padrões. Uma cidade depende de detalhes.”

A Sombra-Fome virou-se, como se tivesse ouvido o nome. Não tinha olhos, mas parecia olhar.

Tomás sentiu o Lúmen mexer-se dentro dele, como um candeeiro que quer acender. A palma da mão formigou. Um reflexo dourado apareceu na ponta dos dedos.

Ele deu um passo à frente. O mundo fez silêncio por um segundo, como se a cidade prendesse a respiração.

Tomás levantou as mãos e pensou, com toda a força: Mostra.

Uma luz suave saiu dele, não como um foco agressivo, mas como o brilho de um ecrã no escuro, acolhedor e firme. A Sombra-Fome tremeu. E, pela primeira vez, a sombra ganhou contorno: dentro dela havia pequenos objetos a flutuar — chaves, parafusos, uma carta dobrada, sementes…

“Tomás, consegues guiá-la!” disse Maestra Íris, a voz calma no meio da tensão.

Tomás não sabia como se guia uma sombra. Então fez o que sabia: foi magnânimo. Em vez de atacar, ofereceu caminho.

Ele moveu as mãos lentamente, como quem conduz um pássaro ferido para um ninho. A luz formou uma trilha no chão, uma faixa dourada que parecia dizer: por aqui é mais seguro.

A sombra hesitou… e seguiu.

Luma correu até uma barraca onde havia uma gaiola de vidro com símbolos gravados. “Aqui! Isto prende sombras sem as magoar!”

Tomás conduziu a Sombra-Fome até perto da gaiola. No último segundo, a sombra tentou fugir para debaixo de um banco.

Tomás sentiu o medo morder-lhe os calcanhares. E quase perdeu o controlo. A luz piscou.

Então lembrou-se da avó Lia e da bicicleta. Lembrou-se de respirar. Lembrou-se de que confiança é um músculo.

“Eu consigo,” murmurou para si mesmo. Não era um grito. Era uma promessa.

A luz estabilizou, mais forte, mas ainda macia. A sombra, como alguém cansado de correr, deixou-se guiar. Luma fechou a gaiola de vidro com um clique.

Dentro, a Sombra-Fome encolheu-se, menos ameaçadora, mais triste. Como se nunca tivesse sido má; só estivesse vazia.

O mercado voltou a fazer barulho. Pessoas voltaram a falar. Alguém aplaudiu, e alguém vendeu uma torrada de cogumelos luminosos.

Tomás baixou as mãos, tremendo. Nilo olhou para ele como se tivesse visto um truque incrível.

“Isso foi… elegante,” disse Luma, com um sorriso grande.

Maestra Íris acenou, satisfeita. “O Lúmen não serve para destruir. Serve para revelar e orientar. Foi isso que fizeste.”

Tomás olhou para a gaiola. “E agora?”

Maestra Íris pegou na gaiola com cuidado. “Agora descobrimos por que a Sombra-Fome ficou gulosa. Sombras não mudam assim sozinhas.”

E o gato de chapéu, como se concordasse, soltou um “mrrr” que soou muito como: “Ainda agora começou.”

Capítulo 4: A Porta que Queria Ser Aberta

De volta à Estação, o barulho dos comboios era como um coração gigante: tum-tum, tum-tum, levando pessoas para casa, para aventuras, para segundas-feiras. A estação parecia normal outra vez, mas Tomás já não conseguia vê-la como antes. Cada porta podia esconder um segredo. Cada sombra podia ter uma história.

No Clube, colocaram a gaiola no centro da mesa. A sombra lá dentro ondulava, inquieta.

Nilo espalhou sobre a mesa os objetos recuperados: chaves com porta-chaves de animais, uma carta cheirando a lavanda, parafusos de uma turbina, e um punhado de sementes iguais às do saco de Tomás.

“Estas sementes são da horta escolar,” disse Tomás, reconhecendo o selo. “Alguém perdeu isto… ou alguém roubou.”

Maestra Íris abriu a carta com luvas finas. Era curta: “A porta do Norte está a ficar com fome. Precisa de oferendas. Não deixem o Lúmen acender.”

Tomás sentiu um frio na barriga. “Porta do Norte?”

Luma apontou para o mapa. “Há uma porta antiga no lado norte da estação, fechada há anos. Dizem que dá para… um atalho. Ou para um problema.”

Maestra Íris inclinou-se para a gaiola. “Sombra-Fome, quem te mandou?”

A sombra fez um movimento que parecia um encolher de ombros. Depois, na superfície escura, surgiram imagens tremidas: uma porta alta, com dobradiças enferrujadas; e, por baixo da porta, um fio de vento escuro a soprar, como se respirasse.

Tomás sentiu o Lúmen reagir, como um cão que reconhece um cheiro perigoso. A palma voltou a formigar.

“Então vamos lá,” disse ele, antes que o medo o fizesse desistir. As palavras saíram firmes, e ele próprio se surpreendeu.

Foram em grupo, atravessando corredores iluminados por painéis bioluminescentes. A estação de muitas portas parecia mais vasta à noite. Os anúncios silenciosos flutuavam, mostrando destinos de nomes bonitos: Jardim do Sul, Bairro do Vento, Lago Suspenso.

Chegaram ao lado norte. Ali, as paredes eram mais antigas, com azulejos rachados. A porta estava mesmo lá: enorme, de metal escuro, com símbolos quase apagados. Não tinha bilheteira, nem sinalização, nem ninguém por perto. Só um silêncio pesado, como um cobertor molhado.

No chão, havia pequenos montes de coisas perdidas: moedas, elásticos, tampas, sementes. Como se alguém tivesse tentado alimentar a porta.

Tomás aproximou-se. Sentiu uma corrente de ar sair pela fresta. Não era vento normal. Era um sopro que cheirava a lugares fechados e a saudade.

“Não toques,” avisou Nilo.

Mas a porta… parecia chamá-lo. Como se soubesse o nome dele.

Tomás ergueu as mãos, e o Lúmen acendeu-se num brilho controlado. A luz não bateu na porta como uma lanterna. Entrou nos símbolos, desenhando-os outra vez, letra por letra. E, com a luz, as coisas fizeram sentido.

A porta não era malvada. Estava… faminta. Não de objetos, mas de atenção. Era uma passagem mágica antiga, esquecida quando a cidade mudou e ficou ecológica e moderna. O mundo seguiu em frente. A porta ficou para trás, no escuro, a tentar manter-se aberta com o que podia apanhar.

A fresta aumentou. Um lamento baixinho escapou.

Tomás sentiu o impulso de recuar. A confiança vacilou. A luz tremeluziu.

Maestra Íris ajoelhou-se ao lado dele. “Tomás, olha para ela como olhas para alguém sozinho no recreio. Com firmeza. E com gentileza.”

Tomás respirou. “Eu… posso ajudar?”

A porta estalou, como se respondesse.

Tomás compreendeu, de repente, o que o Lúmen queria: não era abrir a porta à força. Era mostrar-lhe um caminho para existir sem roubar.

Ele fechou os olhos e imaginou a estação cheia de luz, com portas usadas e cuidadas. Imaginou uma placa, simples e clara, para que a porta não precisasse de mendigar. Imaginou um guardião para orientar quem passasse.

Quando abriu os olhos, a luz na sua mão tinha a cor do amanhecer. Ele pousou a palma no metal frio.

“Eu vejo-te,” disse, baixinho. “Mas não vais tirar coisas às pessoas. Vais ter o teu lugar.”

A porta tremeu. O vento escuro enfraqueceu.

Luma levantou o telemóvel e, com um gesto rápido, tirou uma fotografia — mas a imagem, em vez de ficar no ecrã, flutuou no ar como um autocolante de luz. Ela colou-a na parede ao lado da porta, e a foto virou-se uma pequena placa brilhante.

Nilo fez contas em voz baixa. “Se ligarmos isto ao fluxo de energia da estação, com um limitador… pode manter-se ativa sem sugar objetos.”

Maestra Íris tirou do bolso um selo antigo, de cera verde, e pressionou-o no centro da porta. O selo brilhou, como uma promessa assinada.

A porta soltou um suspiro — desta vez, não de fome, mas de alívio. A fresta fechou-se, tranquila. Os objetos no chão pararam de tremer, como se o perigo tivesse ido embora.

Tomás afastou a mão. A sua luz apagou-se devagar.

“Fizemos?” perguntou ele, com a voz pequena.

Maestra Íris levantou-se e endireitou o casaco. “Fizeste. Nós ajudámos.”

Tomás sentiu o peito quente. Não era vaidade. Era a sensação de caber em si mesmo.

Capítulo 5: Um Clube, Uma Cidade, Um Rapaz

Na manhã seguinte, a Estação Central estava cheia de pessoas e de vida. Uma equipa de manutenção passava, sorridente, sem saber que, durante a noite, uma porta antiga tinha sido salva de virar perigo. Acima da Porta do Norte, agora havia uma placa discreta que mudava levemente de cor conforme a luz do dia: PASSAGEM ASSISTIDA — PERGUNTA AO CLUBE.

A porta não roubava mais. Em vez disso, quando alguém deixava cair uma chave, a chave parecia rolar sozinha para um canto visível. Quando uma carta voava, um sopro gentil devolvia-a à mão do dono. Pequenas gentilezas, como se a porta estivesse a aprender a retribuir.

No Clube, Tomás recebeu uma pequena insígnia: um círculo com um ponto de luz no centro. O gato de chapéu empurrou-a com a pata até ele, como quem entrega um diploma importante.

Luma sorriu. “Agora és oficialmente um de nós. Não te preocupes, não há testes de matemática. Só de coragem.”

Nilo pigarreou, tentando parecer sério, mas os olhos brilhavam. “E de observação. Mas… sim. Parabéns.”

Tomás prendeu a insígnia na camisola. Sentiu-se diferente, mas não estranho. Como se tivesse encontrado uma parte de si que sempre esteve ali, à espera.

Maestra Íris levou-o até à janela da sala secreta. Dali via-se a cidade inteira: telhados verdes, bicicletas, rios limpos, pessoas apressadas e felizes, e, entre tudo isso, pequenas faíscas de magia escondidas como vaga-lumes no capim.

“O Lúmen vai crescer,” disse ela. “Haverá dias em que a luz vai tremer. E dias em que vais querer apagar tudo e fingir que és só um rapaz normal.”

Tomás pensou nisso. Depois imaginou o momento em que guiara a sombra sem a ferir. Imaginou a porta a suspirar de alívio.

“Eu ainda sou um rapaz normal,” disse ele. “Só que… com uma luz.”

Maestra Íris assentiu. “Exatamente.”

Tomás saiu da estação mais tarde com o saco de sementes — o seu, e um punhado extra, recuperado. Passou por uma senhora que procurava algo na mala. Uma chave caiu e ia deslizar para uma grelha. Antes que desaparecesse, um fio de vento gentil empurrou a chave para junto do sapato dela.

Tomás apanhou-a e entregou. “Acho que isto é seu.”

“Obrigada, querido,” disse ela, e seguiu caminho.

Tomás sorriu. No bolso, a palma formigou de leve, como um cumprimento do Lúmen. A cidade parecia cantar, baixinho, com os seus painéis solares e os seus jardins no alto, e com as suas portas — tantas portas — agora um pouco menos sozinhas.

Ele caminhou para a escola com passos firmes. Havia mistérios à espera, claro. Mas também havia confiança, acesa como uma lanterna que não se apaga com o vento.

E, numa porta discreta da estação, um gato de chapéu minúsculo espreguiçou-se, satisfeito, como se o mundo estivesse exatamente onde devia estar.

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Cisternas
Recipientes grandes onde se guarda água para usar depois.
Bocejassem
Forma do verbo bocejar que mostra que algo faz bocejar lentamente.
Trepadeiras
Plantas que sobem paredes e cobrem superfícies como um tapete verde.
Entrelaçadas
Coisas que se cruzam e ficam presas umas às outras.
Musgo
Planta pequena e macia que cresce em lugares úmidos e sombrios.
Bilheteira
Lugar onde se compram bilhetes para viajar ou entrar em eventos.
Dignidade
Qualidade de alguém que age com respeito e calma.
Lúmen
Palavra que fala de luz; aqui é um dom que mostra coisas com luz.
Esfera
Objeto redondo, como uma bola ou um globo pequeno.
Visões
Imagens ou cenas que aparecem na mente, como sonhos acordados.
Mercado
Lugar com muitas bancas onde se vendem e trocam coisas.
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