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História de Agricultor e de Fazenda 9 a 10 anos Leitura 14 min.

O cheiro da terra molhada e a fuga do senhor Reco

Numa quinta molhada pela chuva, o agricultor Rui guia uma turma de crianças, ensinando-lhes sobre o respeito pela terra, pelos animais e o cuidado diário do campo, enquanto lidam com surpresas como a fuga do porco senhor Reco.

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Um agricultor sorridente e sereno, rosto rondo, barba curta sal e pimenta, botas de borracha enlameadas e jaqueta verde, ajoelhado segurando um punhado de terra úmida; uma professora de ~30 anos com cabelo apanhado e impermeável amarelo, ao fundo à esquerda, indicando a cena; um menino de 8 anos, cabelo castanho curto, óculos e boné azul, agachado cheirando a terra; uma menina de 9 anos de tranças e casaco vermelho, atrás dele desenhando num caderninho; o porco “Senhor Reco” rosado farejando um sapato junto a uma portinhola de madeira aberta; um gato cinzento de olhos verdes sentado num monte de palha no canto do celeiro; quinta após a chuva: caminho de terra castanho escuro brilhante, relva com gotas, sebe densa formando túnel, pequeno campo ao fundo, celeiro vermelho com portas abertas, fardos de palha amarelos e ferramentas na parede; visita escolar calma e respeitosa, o agricultor mostra a terra úmida enquanto animais e celeiro criam ambiente acolhedor e protegido, luz suave de céu cinzento pérola e reflexos húmidos no chão; paleta: verdes profundos, castanhos quentes, vermelhos suaves, amarelo mostarda e cinzento pérola; formas limpas, contornos nítidos, sombras mínimas, textura plana e luminosa. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: Cheiro de terra molhada

A chuva fina caía como um sussurro, sem pressa, desenhando pontinhos no capim e deixando o telhado do celeiro a cantar “tic-tic-tic”. O Rui, agricultor de mãos largas e sorriso fácil, parou um instante no meio do pátio da quinta e fechou os olhos.

Inspirou fundo.

“Ah… é isto,” disse ele, como se estivesse a provar uma sopa boa. “O cheiro da terra depois da chuva.”

A terra cheirava a vida acordada: a folhas húmidas, a barro quente por dentro, a promessa. Rui gostava desse cheiro desde pequeno. Dizia que era a quinta a dizer “bom dia”.

Do estábulo veio um “muu” impaciente.

“Já vou, Estrela! Já ouvi,” respondeu Rui, abrindo a porta. A vaca Estrela olhou-o como quem diz: se te lembras de respirar, também te podes lembrar do meu feno.

Rui riu-se. “Hoje vai ser um dia especial. A turma da escola vem visitar-nos.”

As galinhas, que nunca perdiam a oportunidade de se meterem em assuntos, correram aos pés dele.

“Cócó-có! Visita! Visita!” parecia dizer a mais atrevida, a Pintas.

Rui encheu os comedouros com cuidado, para não desperdiçar. Depois verificou se havia água limpa. “Respeito é isto,” explicou, mesmo que só os animais estivessem a ouvir. “Quem vive aqui merece conforto. E quem come do nosso trabalho também.”

Quando a carrinha da escola apareceu ao fundo, a chuva ainda caía, delicada. Rui passou a mão pela barba molhada e preparou-se, como quem se prepara para receber amigos.

Capítulo 2: A turma em fila indiana

As crianças saltaram da carrinha com casacos coloridos e olhos curiosos. A professora Lídia fez logo um aviso:

“Pés no chão, atenção aos animais e nada de correr sem olhar.”

Rui acenou. “Bem-vindos à minha quinta! Eu sou o Rui. Podem chamar-me Senhor Rui… ou só Rui, que eu não fico zangado.”

Um menino com óculos perguntou: “O senhor trabalha aqui sozinho?”

“Trabalho com ajuda,” respondeu Rui, apontando para o trator, para os cães e para um gato que fingia que não estava a ouvir. “E com a ajuda da natureza. Mas sim, há dias em que sou eu e o barro.”

Uma rapariga de tranças levantou a mão: “E a chuva? Atrapalha?”

Rui olhou para o céu cinzento com carinho. “A chuva fina é como uma manta. Molha sem bater. Ajuda as sementes, enche a terra de água, refresca os bichos. Para mim é amiga.”

A professora sorriu. “Vamos fazer o percurso pelo caminho das sebes, como combinámos.”

Rui guiou a turma até um carreiro estreito que seguia entre duas sebes altas e verdes, cheias de folhas brilhantes. As gotinhas pendiam como pequenas contas de vidro. A turma entrou em fila indiana, um atrás do outro, porque o caminho era mesmo apertado.

“Uau, parece um túnel!” disse alguém.

“É o túnel das sebes,” brincou Rui. “Aqui vivem joaninhas, aranhas trabalhadoras e às vezes um ouriço que anda com pressa.”

Um miúdo tentou tocar numa folha e sacudiu água na cara. “Ai! Fui atacado!”

“Foi a sebe que te deu um banho de boas-vindas,” disse Rui, e todos riram.

Enquanto caminhavam, Rui apontou para o chão escuro. “Vejam isto. A terra está fofa. A chuva entrou devagar. Quando a terra está assim, a água não foge; fica guardada para as plantas.”

A professora pediu silêncio por um momento. Rui abaixou-se, pegou num punhado de terra húmida e aproximou-o do nariz.

“Cheirem. Com cuidado, sem comer,” avisou.

As crianças cheiraram, uma a uma.

“Cheira a… jardim!” disse um.

“Cheira a chuva!” disse outro.

“Cheira a casa,” murmurou a rapariga das tranças, e Rui assentiu.

“É o cheiro da vida a trabalhar,” explicou. “A terra tem bichinhos tão pequeninos que nem vemos. Eles ajudam a transformar folhas velhas em alimento para as plantas. Por isso não se pisa a terra à toa, não se suja a água, não se maltrata o chão. Ele é o nosso parceiro.”

Ao fim do caminho, o carreiro abriu-se para um campo largo. E foi aí que aconteceu o imprevisto.

Capítulo 3: A fuga do senhor Reco

Do outro lado do campo, ouviu-se um “óinc!” muito animado, seguido de um barulho de madeira a bater.

Rui arregalou os olhos. “Ai, não…”

Um porco cor-de-rosa, redondo e contente, apareceu a correr como se tivesse rodas nos cascos. Atrás dele, uma portinhola do cercado abanava, aberta.

“O senhor Reco!” gritou Rui. “Não hoje!”

O porco atravessou o campo e veio direto ao grupo, farejando mochilas como quem procura tesouros.

Uma criança deu um passo atrás. “Ele morde?”

Rui colocou-se entre o porco e a turma, com calma. “Não morde, mas empurra. E adora lanches.”

O senhor Reco encostou o focinho molhado na bota de Rui e fez um “óinc” ofendido, como se dissesse: eu só queria dizer olá.

Rui agachou-se. “Reco, meu amigo, a tua casa fica ali.”

A professora Lídia sussurrou: “O que fazemos?”

“Na quinta, a regra é: sem gritos e sem correria,” disse Rui, em voz baixa. “Os animais assustam-se, e depois é pior. Vamos trabalhar como uma equipa.”

Ele pediu a duas crianças que abrissem os braços, como “paredes”, mantendo distância. A outras duas, pediu que ficassem quietas e mostrassem as mãos vazias.

“E ninguém oferece comida, entendido?” Rui piscou o olho. “O senhor Reco é simpático, mas fica convencido.”

O porco tentou dar a volta, mas as “paredes” humanas, com cuidado e respeito, guiaram-no devagar para o lado do cercado. Rui apanhou um balde e bateu levemente na borda, fazendo um som conhecido.

“Reco! Vem cá, campeão. Aqui tens… nada!” disse, rindo. “Mas tens a tua palha seca e a tua água limpa.”

O senhor Reco hesitou, farejou o ar e, como a chuva tinha deixado tudo a cheirar tão bem, decidiu que o cercado não era má ideia. Entrou a passo lento, fingindo que era ele quem mandava.

Rui fechou a portinhola e prendeu o fecho. Depois passou a mão no dorso do porco, sem apertar.

“Obrigado por esperares,” disse ele, como se falasse com uma pessoa.

Um menino comentou, espantado: “O senhor fala com os animais de verdade.”

Rui levantou-se, limpando as mãos nas calças. “Falo porque eles estão vivos. Eles sentem medo, fome, sede. E também sentem quando alguém os trata bem. Respeitar o vivo é o primeiro trabalho aqui.”

A turma ficou mais quieta, como se tivesse aprendido uma coisa importante sem ninguém precisar de dar uma bronca.

Capítulo 4: O trabalho que não se vê

A chuva afinou ainda mais, quase só neblina. Rui conduziu o grupo até um abrigo onde havia ferramentas, sacos de sementes e caixas de madeira.

“Agora, uma pergunta,” disse ele. “O que acham que um agricultor faz o dia todo?”

“Planta!” respondeu logo alguém.

“Dá comida aos animais!” disse outro.

“Conduz trator!” gritou um terceiro, com brilho nos olhos.

Rui riu-se. “Sim. E também… observa.”

Ele levou-os até uma horta. As folhas de alface estavam lavadas pela chuva. As cenouras escondiam-se debaixo da terra. Rui pegou num regador pequeno só para mostrar, porque naquele dia a água vinha do céu.

“Vejam: aqui eu não posso puxar uma planta e dizer ‘anda, cresce mais depressa',” explicou. “Eu preparo a terra, escolho a semente, tiro ervas daninhas, protejo de pragas, rego quando é preciso. Depois espero e acompanho.”

Uma criança apontou para um monte castanho ao lado. “Isso é… cocó?”

Rui abriu um sorriso. “Excelente pergunta. Isso é estrume bem curtido. É como um lanche para a terra, mas tem de ser usado com cuidado. Se puser demais, estraga. Se puser na altura errada, pode ir parar à água do ribeiro. Ser agricultor é pensar no que fazemos e no que pode acontecer depois.”

A professora Lídia perguntou: “E quando aparece um problema, como a portinhola do porco?”

“Ah,” disse Rui, coçando a cabeça. “Acontece. Um prego solta, o vento muda, a chuva vem fora de hora, um animal fica doente. A quinta ensina paciência e responsabilidade.”

Ele mostrou um bebedouro e explicou como limpava para não crescerem algas. Mostrou a cama de palha, que trocava para os animais não ficarem em sujidade. Falou do veterinário, das vacinas, de não gritar com os bichos e de abrir espaço para eles se mexerem.

“E o senhor fica cansado?” perguntou a rapariga das tranças.

Rui olhou para as mãos, com pequenas marcas de trabalho. “Fico. Há dias em que as costas reclamam e as botas parecem de pedra. Mas depois eu vejo uma planta a nascer, um animal a recuperar, uma caixa de legumes pronta para levar às pessoas… e eu sinto que vale a pena.”

A chuva parou por instantes. O ar ficou ainda mais perfumado, como se a terra tivesse acabado de tomar banho e agora sorrisse. Rui respirou fundo outra vez.

“Este cheiro,” disse ele, “é o meu relógio. Diz-me que a terra bebeu. E que amanhã vou encontrar tudo um pouco diferente.”

Capítulo 5: Festa improvisada no celeiro

Quando a visita estava quase a acabar, um trovão bem ao longe fez a professora olhar para o céu.

“Talvez devêssemos voltar,” disse ela.

Rui concordou. “Mas antes… venham ao celeiro. Tenho uma ideia.”

Dentro do celeiro, o chão era de madeira e havia fardos de palha empilhados como bancos. Rui abriu uma caixa e tirou maçãs pequenas, algumas tortas, outras com manchas.

“Estas não vão para venda,” explicou. “Mas são perfeitas para comer. Aqui nada se desperdiça se ainda está bom.”

A turma sentou-se. Rui lavou as maçãs numa bacia e distribuiu guardanapos. O gato apareceu de repente, como se tivesse sido convidado oficialmente, e sentou-se com ar importante.

Um menino riu-se. “Ele quer maçã também?”

“Ele quer atenção,” disse Rui. “É o trabalho mais difícil dele.”

A professora Lídia tirou da mochila um pacote de bolachas e levantou as sobrancelhas, pedindo permissão.

Rui fez uma vénia exagerada. “A quinta aceita bolachas com gratidão!”

Alguém começou a bater palmas num ritmo lento. Outro acompanhou, e logo o celeiro virou uma pequena festa improvisada. As crianças inventaram uma canção sobre o senhor Reco, que “fugiu para ver o mundo e voltou porque a palha era melhor”.

Rui, com as bochechas vermelhas, riu como há muito não ria.

No meio da alegria, ele levantou a mão, pedindo um silêncio suave. “Posso dizer uma última coisa?”

“Pode!” responderam em coro.

Rui olhou para todos, depois para a porta entreaberta, onde se via o campo molhado e tranquilo. “O que comemos vem de algum lugar. Às vezes esse lugar é uma quinta como esta. E aqui, nada cresce sozinho: nem a alface, nem o milho, nem o respeito. A gente aprende a cuidar—da terra, dos animais, da água e uns dos outros.”

A rapariga das tranças mordeu a maçã e disse, com a boca meio cheia: “Eu vou lembrar do cheiro da terra.”

Rui sorriu, satisfeito. “Então já valeu a visita.”

Quando a turma se despediu e voltou pelo caminho, o céu abriu um pouco, deixando um clarão dourado tocar as sebes. Rui ficou a ver a carrinha desaparecer e, antes de voltar ao trabalho, inspirou mais uma vez.

Cheiro de terra depois da chuva.

“Até amanhã,” disse ele à quinta, e a quinta, em silêncio, pareceu responder com o som calmo das folhas a pingar.

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Celeiro
Edifício da quinta onde se guardam comida, maquinaria e onde os animais às vezes descansam.
Capim
Planta rasteira que cresce nos campos e serve de comida para muitos animais.
Húmidas
Com estado de molhado leve, com gotinhas de água na superfície.
Comedouros
Recipientes onde se põe a comida dos animais para eles comerem.
Sebes
Cercas feitas de arbustos ou plantas que formam um limite no caminho.
Carreiro
Caminho estreito na quinta por onde se passa a pé ou com animais.
Estrume bem curtido
Feito de restos de animais e plantas, tratado para ser bom adubo.
Algas
Plantas que crescem na água e podem sujar bebedouros ou ribeiros.
Fardos de palha
Montes ou blocos de palha empilhados, usados para camas dos animais.
Palha
Caule seco de plantas usado para cama dos animais ou cobertura no chão.
Pragas
Insetos ou doenças que atacam plantas e as podem estragar.
Veterinário
Pessoa formada que cuida da saúde dos animais quando estão doentes.

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