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História de Agricultor e de Fazenda 9 a 10 anos Leitura 11 min.

A quinta das pequenas lições de paciência e cuidado

Tomás visita a quinta do agricultor Manuel e aprende, através de tarefas como plantar, recolher ovos e desentupir calhas, o valor da paciência, do cuidado com a água e do respeito pela natureza.

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Homem adulto agricultor, calmo e afetuoso, rosto enrugado, cabelos curtos grisalhos, camisa xadrez terracota, macacão jeans e luvas gastas, numa escada de madeira retirando um ninho de folhas molhadas da calha com sorriso tranquilo; garoto de ~9 anos (Tomás), curioso e maravilhado, cabelo castanho despenteado, bochechas levemente sujas, jaqueta verde, joelhos sujos, segurando a base da escada e rindo; vaca malhada marrom e branca à esquerda junto a uma poça reflectora e uma galinha ruiva ciscando à direita; quintal de fazenda ao fundo com casa de pedra clara e telhado de telhas vermelhas, calhas de zinco, poças brilhantes num caminho de cascalho, carrinho de madeira com folhas, ferramentas encostadas e uma fileira de verduras atrás de uma cerca baixa; cena principal: limpeza da calha após a chuva, água começando a correr limpa pelo tubo, poças escoando suavemente, luz de fim de manhã e cores quentes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

O Tomás chegou à quinta com a mochila às costas e os olhos muito abertos, como quem entrou num livro novo. A mãe tinha dito que era “só uma visita”, mas ele parecia achar que uma quinta era um lugar onde as coisas podiam correr mal a qualquer segundo: um boi a fugir, um galo a mandar nele, uma lama a engolir sapatos.

O agricultor chamava-se Manuel. Era um homem alto, de mãos grandes e calmas, com unhas que nunca ficavam totalmente limpas, por mais que lavasse. Tinha um sorriso tranquilo, daqueles que não apressam ninguém.

“Bem-vindo, Tomás. Aqui ninguém precisa ter pressa”, disse ele, como se tivesse adivinhado o medo escondido no casaco.

O ar cheirava a terra húmida e a palha quente. Ao longe, as galinhas picavam o chão como se estivessem a contar migalhas invisíveis. Manuel levou o Tomás pelo caminho de cascalho e explicou, com palavras simples, que ser agricultor era cuidar: cuidar do solo, dos animais, da água, e também das pessoas que iam comer o que a quinta produzia.

O Tomás engoliu em seco quando uma vaca mugiu. Manuel pousou a mão no ombro dele, firme e leve.

“Ouviste? Ela está a dizer ‘bom dia'. As vacas falam devagar, não gritam.”

O Tomás soltou uma risada pequena, que lhe aqueceu a barriga.

Capítulo 2

A primeira tarefa do dia foi na horta. O sol ainda não estava forte, e as folhas tinham gotas redondas que brilhavam como contas de vidro. Manuel mostrou ao Tomás como ver a terra com atenção: se estava demasiado seca, se estava fofa, se cheirava bem.

“A terra também conta histórias”, disse Manuel, ajoelhando-se. Com os dedos, abriu um pequeno sulco. “Vês? Se a terra está compacta, a raiz não consegue crescer. É como tentar correr com os atacadores atados um ao outro.”

O Tomás experimentou. A terra era fresca e macia, e ficou com os dedos castanhos. Manuel não se importou. “Mãos limpas são boas, mas mãos que trabalham também.”

Eles plantaram algumas sementes de feijão. Manuel explicou que não era magia: era paciência. Primeiro a semente dormia, depois acordava, e só depois aparecia um fio verde.

“E se eu vier cá amanhã, já está grande?” perguntou o Tomás, ansioso.

Manuel abanou a cabeça, sorrindo. “Amanhã talvez ainda esteja a preparar-se. A natureza gosta de fazer as coisas bem feitas, e isso leva tempo. Ser agricultor é aprender a esperar sem desistir.”

Mais à frente, regaram alfaces com um regador que fazia um som de chuva mansa. O Tomás gostou disso. Era como ajudar o céu.

Depois foram ao galinheiro recolher ovos. O Tomás aproximou-se devagar, mas uma galinha bateu as asas e ele deu um salto.

“Ela só está a dizer que está ocupada”, disse Manuel. “Aqui também há horários. As galinhas trabalham cedo!”

O Tomás riu, e com cuidado colocou os ovos num cesto, como se fossem pequenas luas quentes.

Capítulo 3

Quando começaram a andar para o celeiro, o Tomás reparou em algo estranho: no caminho, havia poças grandes, como espelhos partidos, mesmo sem ter chovido muito.

Manuel franziu o sobrolho. “Isso não é bom. As poças ali costumam aparecer quando a água não consegue escorrer.”

Foram até à casa principal, onde a chuva da noite anterior tinha deixado marcas no chão. Manuel mostrou a calha do telhado e a descida de água. Perto dela, a água devia correr para longe, mas estava a transbordar e a formar as tais poças.

“O que aconteceu?” perguntou Tomás.

“Uma gota não faz estrago, mas muitas gotas, no lugar errado, podem estragar a terra, fazer lama demais, e até molhar as paredes.” Manuel pegou numa escada e numa luva grossa. “Aposto que a calha entupiu com folhas e pedaços de raminhos. Às vezes o vento faz uma limpeza… e deixa tudo onde não deve.”

O Tomás ficou preocupado. “E se a casa alagar?”

Manuel olhou para ele com calma, como quem segura um pensamento assustador antes que ele cresça. “Por isso é que cuidamos das coisas a tempo. Problemas pequenos resolvem-se com mãos e paciência.”

Ele subiu a escada com cuidado. O Tomás segurou na base, como se fosse um ajudante oficial. Manuel puxou um montinho de folhas molhadas que parecia um ninho de monstros verdes.

“Ufa! Encontrámos o culpado”, disse Manuel, fazendo uma careta engraçada. “A calha estava a comer salada.”

O Tomás soltou uma gargalhada, e o medo escorreu dele como água.

Manuel limpou mais um pouco. A água, finalmente, fez um som satisfeito e começou a correr pelo cano, indo embora direitinha. As poças no chão não desapareceram logo, mas deixaram de crescer.

“Vês?” disse Manuel. “Na quinta, às vezes a aventura é… desentupir uma calha.”

O Tomás olhou para as poças. “Então ser agricultor também é cuidar da água?”

“É cuidar de tudo o que ajuda a vida a funcionar. A água no sítio certo é amiga. No sítio errado, pode dar trabalho.”

Capítulo 4

Ao meio-dia, o cheiro da comida espalhou-se pela casa como um abraço. A sala de jantar tinha uma mesa grande, de madeira, com marcas antigas de copos e de facas. Parecia uma mesa que tinha ouvido muitas histórias.

Manuel colocou o pão caseiro no centro, ainda morno. Havia sopa de legumes da horta, queijo, e uma travessa com ovos mexidos. O Tomás sentou-se e olhou para a mesa como quem está num banquete de reis, só que mais verdadeiro.

“Foi tudo daqui?” perguntou ele.

“Quase tudo”, respondeu Manuel. “Os legumes, os ovos, algumas ervas para temperar. O sal vem de longe, e há coisas que não se fazem aqui. Na agricultura, também é importante saber pedir e trocar. Ninguém vive sozinho.”

Comer ali era diferente. A sopa sabia a cenoura e a tempo. Manuel falava pouco, mas quando falava era como se colocasse as palavras no lugar certo, sem pressa.

Tomás contou que às vezes ficava nervoso com tarefas difíceis na escola, porque queria fazer tudo rápido e perfeito. Manuel partiu um pedaço de pão e mostrou a migalha na mão.

“Olha para isto. O pão precisa de esperar: a massa descansa, cresce, vai ao forno no momento certo. Se eu abrisse o forno antes do tempo, ele ficava baixo e triste. Com as pessoas é parecido. Crescer por dentro leva tempo.”

O Tomás mastigou devagar, pensando. “Então eu não sou lento. Eu só estou… a crescer?”

“Isso mesmo. E crescer dá trabalho. Mas dá orgulho também.”

Depois da refeição, Manuel levou um caderno antigo e mostrou ao Tomás umas notas: quando semeou, quando regou, quando viu pragas, quando colheu.

“Um agricultor observa. A terra dá sinais. E nós respondemos com cuidado. Nem sempre acertamos, mas tentamos de novo.”

O Tomás passou os dedos pelas páginas e sentiu que ali havia uma espécie de mapa, não de tesouros, mas de dias.

Capítulo 5

À tarde, voltaram ao exterior. O sol estava mais alto, e o vento trouxe o cheiro das flores do campo. Manuel e Tomás foram ver as poças que tinham ficado. A água ainda brilhava um pouco, mas o chão já estava a beber aos poucos.

Manuel pegou numa pá pequena e abriu um canalzinho ao lado do caminho, para ajudar a água a seguir para a valeta certa. Fez isso sem pressa, como quem desenha uma linha.

“Se a água fica parada onde não deve, pode estragar as raízes e fazer mosquitos. Por isso ajudamos a natureza a fazer o caminho dela”, explicou.

Tomás quis tentar. A pá parecia pesada no início, mas Manuel mostrou como pôr o pé e empurrar com o corpo, não só com os braços. Tomás suou e ficou com terra no joelho, mas quando viu a água a deslizar devagar pelo pequeno canal, sentiu uma alegria silenciosa.

Perto da horta, viram uma joaninha numa folha. Tomás inclinou-se, cuidadoso.

“Ela ajuda a comer bichinhos que fazem mal às plantas, não é?” perguntou, lembrando-se de algo que tinha ouvido.

“Sim”, disse Manuel. “Nem todo inseto é inimigo. Há amigos pequenos a trabalhar connosco. Por isso, antes de usar qualquer coisa forte, eu observo, penso, e tento soluções que respeitem a vida.”

O Tomás olhou para a joaninha como se ela fosse uma colega de equipa. “Então a quinta é como… uma cidade?”

“Uma cidade de plantas, animais, água, vento e gente. E todos precisam de equilíbrio.”

Quando chegou a hora de ir embora, Tomás ficou parado junto ao portão. A mãe já o chamava, mas ele queria dizer uma coisa que lhe apertava o peito de tão importante.

“Senhor Manuel… hoje eu aprendi que paciência não é ficar parado. É cuidar enquanto espera.”

Manuel assentiu, com os olhos macios. “E eu aprendi que um bom ajudante faz perguntas.”

Tomás respirou fundo. “Eu prometo que vou respeitar mais a natureza. Vou gastar menos água, não vou deitar lixo no chão, e vou ter mais cuidado com os bichos e com as plantas. E… vou tentar não querer tudo pronto já.”

Manuel sorriu, como se aquela promessa fosse uma semente bem colocada. “Boa. A natureza agradece quando a gente a trata como amiga. E as amizades, como as colheitas, crescem com tempo.”

No caminho de volta, Tomás olhou pela janela do carro. As poças ficaram para trás, a calha já livre, a quinta inteira a respirar no seu ritmo. E dentro dele, uma coisa nova também respirava: a vontade de cuidar, devagar e com firmeza, do mundo onde vive.

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Quinta
Lugar onde se trabalha a terra e se criam animais, como uma pequena fazenda.
Agricultor
Pessoa que cuida da terra, planta, rega e colhe alimentos.
Húmida
Que tem água ou está um pouco molhada, como a terra depois da chuva.
Calha
Peça no telhado que recolhe a água da chuva e a leva para baixo.
Celeiro
Edifício na quinta onde se guardam feno, ferramentas e produtos.
Galinheiro
Lugar fechado onde as galinhas vivem e põem ovos.
Regador
Recipiente com um bico usado para levar água às plantas.
Pragas
Insetos ou doenças que fazem mal às plantas e às colheitas.
Valeta
Pequeno canal no chão que ajuda a água a correr para longe.
Joaninha
Inseto pequeno e colorido que come outros insetos nocivos.
Raízes
Parte da planta que fica na terra e absorve água e alimento.
Entupiu
Quando algo fica bloqueado e não deixa a água passar.
Transbordar
Quando a água sobe e sai do lugar onde devia ficar.
Alagar
Quando a água entra num lugar e o enche, fazendo inundação.
Palha
Folhas secas de planta usadas para cobrir ou proteger o chão.
Colheu
Ação de tirar da planta os frutos ou legumes prontos para usar.
Semente
Pequena parte da planta que se põe na terra para crescer outra.

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