Capítulo 1
O sol do Arizona parecia uma moeda em brasa presa no céu. A pradaria tremia de calor, e o vento arrastava poeira como se varresse um chão infinito. Tomás, com doze anos recém-feitos e um chapéu maior do que a sua cara, cavalgava devagar ao lado da caravana do rancho Coração de Barro.
Ele era o tipo de rapaz que não se apressava por dentro, mesmo quando tudo lá fora corria depressa. Olhava, pensava, respirava e só então agia. O que, num lugar onde a pressa era quase uma religião, parecia estranho — mas funcionava.
— Tomás! — gritou a voz rouca do capataz Silas, um homem com bigode que parecia ter sido desenhado com carvão. — Hoje é contigo. Missão importante.
Tomás aproximou o cavalo e ouviu o estalar das carroças, o mugido do gado e o tinido de esporas. Silas apontou para um embrulho comprido, amarrado com tiras de couro.
— Preciso que enroles o catre. O meu tá rasgado e o do doutor viaja na carroça da frente. — Ele coçou o queixo, sério. — Sem o catre bem enrolado, ele abre no caminho, entra poeira, molha se atravessarmos o riacho, e depois ninguém dorme. Entendeu?
Tomás franziu a testa. Enrolar um catre parecia simples… simples demais para ser chamado de “missão importante”. Mas Silas não era de exageros.
— Entendi — respondeu Tomás, calmo.
— E mais: hoje à noite acampamos perto do Desfiladeiro do Coiote. Se o catre não estiver pronto quando montarmos o acampamento, vai faltar tempo pra tudo. — Silas baixou o tom. — E lá… não gosto de ficar sem tempo.
Tomás pegou o embrulho. O couro estava quente ao toque, e o tecido cheirava a lona, suor e dias de estrada.
— Vou fazer direito — prometeu.
Silas soltou um “hum” satisfeito e se afastou. Tomás ficou com o catre nos braços e uma sensação esquisita no peito, como se aquela tarefa pequena fosse uma chave para uma porta grande.
Capítulo 2
Tomás decidiu enrolar o catre fora do caminho das patas e das rodas. Encontrou uma sombra magra ao lado de uma rocha e estendeu a lona no chão. A poeira grudou na palma das mãos, e ele soprou os dedos, como se apagasse uma vela.
O catre era uma armação de madeira e metal com tecido grosso preso por cordas. Tinha dobradiças que rangiam e um fecho de ferro que sempre “mordia” os dedos de quem vacilasse.
— Vamos com calma — murmurou Tomás para si mesmo.
Ele empurrou uma barra, alinhou outra, dobrou, puxou o tecido. O fecho escorregou e quase beliscou sua pele.
— Ai! — reclamou baixinho, sacudindo a mão.
— Tá a lutar com um bicho bravo? — perguntou alguém, com voz divertida.
Tomás levantou o olhar e viu Naya, uma garota da sua idade, com pele morena e tranças firmes, montada num pônei manchado. Ela viajava com a caravana desde a semana passada, com o tio, um vaqueiro que falava pouco e observava muito. Alguns homens do rancho cochichavam, como se ela fosse “de fora” demais. Tomás não gostava desses cochichos. Todo mundo era “de fora” em algum lugar.
— Só um catre — disse ele. — Mas parece que tem personalidade.
Naya desceu do pônei e agachou ao lado.
— Posso ver? — Ela não esperou resposta e analisou as dobradiças. — A tua dobra tá boa, mas o tecido precisa ficar esticado antes de enrolar. Senão cria barriga e depois não fecha.
— Barriga? — Tomás soltou uma risada. — Um catre gordo.
— Exato. E catre gordo não cabe no laço. — Ela pegou uma tira de couro e mostrou. — Olha: enrola daqui pra lá, e quando chegar na metade, dá meia-volta. Assim fica mais apertado.
Tomás seguiu, concentrado. Por alguns segundos, tudo pareceu perfeito: lona alinhada, madeira encaixada, tiras prontas.
Então, um assobio cortou o ar. O cavalo de uma das carroças se assustou com um estalo — talvez uma cobra, talvez nada — e deu um tranco. A carroça balançou, uma caixa caiu, e no chão rolou um frasco de vidro que se partiu, espalhando um cheiro forte de álcool e ervas.
O doutor, um homem magro de óculos redondos, gritou:
— Meu remédio! Cuidado com o fogo!
Os vaqueiros correram para afastar as brasas do fogareiro. No empurra-empurra, alguém esbarrou no catre de Tomás. A armação abriu de repente como uma boca de metal e madeira. O fecho mordeu o ar, as tiras se soltaram, e a lona se encheu de poeira como uma vela de barco.
Tomás fechou os olhos por um instante, engoliu o desânimo e abriu de novo.
— Tá bem — disse, mais para o coração do que para o mundo. — Acontece. Recomeça.
Naya o olhou de lado.
— Tu és calmo demais. Se fosse comigo eu já tinha praguejado até o chapéu cair.
— Eu posso praguejar por dentro — respondeu ele. — Mas por fora dá trabalho.
Ela riu. A risada dela tinha som de água batendo em pedra lisa.
— Então vamos fazer isso direito antes do desfiladeiro. E sem barriga.
Tomás assentiu e retomou a tarefa. O sol descia um pouco, mas a missão só parecia crescer.
Capítulo 3
No fim da tarde, o céu ficou laranja como ferro aquecido. A caravana se aproximou do Desfiladeiro do Coiote, um corte escuro na terra, com rochas altas e sombras frias. O vento que vinha dali era diferente: cheirava a pedra, a coisa antiga, e trazia um uivo distante que podia ser só vento… ou não.
Silas mandou parar.
— Acampamento aqui. Rápido e atento.
Enquanto alguns recolhiam lenha e outros organizavam a comida, Tomás foi até a carroça para guardar o catre. Só que, quando tentou levantar o embrulho, percebeu que uma das tiras de couro estava gasta, quase arrebentando. A poeira tinha entrado onde ele não queria. E o fecho… o fecho estava torto, como se tivesse levado uma pancada na confusão.
Ele sentiu um aperto. Se o catre se abrisse à noite, no frio do desfiladeiro, alguém ia dormir no chão duro. E Silas já tinha avisado: ali não era lugar de perder tempo.
Naya apareceu com um cantil.
— Tá com cara de quem engoliu um espinho.
Tomás mostrou a tira.
— Se eu amarrar assim, vai soltar. E o fecho tá torto.
— Dá pra endireitar. — Naya olhou em volta. — Precisamos de uma pedra lisa e um martelo… ou algo parecido.
Tomás procurou com os olhos. Martelo não havia por perto, mas viu a marreta pequena que o ferreiro do rancho guardava, pendurada na sela de um dos vaqueiros. O problema: o vaqueiro em questão era Hank, um rapaz mais velho, forte e implicante, daqueles que faziam graça com o que não entendiam. Hank era um dos que cochichavam sobre Naya.
Tomás engoliu seco. Ele podia tentar sozinho e arriscar estragar tudo, ou pedir a marreta e ouvir piada. Escolheu a segunda opção. Coragem também era isso: pedir o que precisava.
Ele caminhou até Hank, que afiava uma faca, sentado num tronco.
— Hank, posso pegar tua marreta um minuto? É pro catre do Silas.
Hank levantou uma sobrancelha e olhou Tomás de cima a baixo.
— Pro catre? Que romantismo. Vai casar com ele?
Tomás manteve a voz firme.
— É só pra endireitar o fecho. Se abrir no caminho, alguém dorme no chão.
Hank fez uma careta, como se o assunto “alguém dormir no chão” fosse uma coisa distante demais para importar. Depois olhou para Naya, que estava a poucos passos, quieta, esperando.
— E a tua amiga aí, vai ajudar? — Ele soltou um riso curto. — Cuidado, Tomás. Gente de fora traz azar.
Tomás sentiu o sangue subir, quente como o sol. Mas lembrou do desfiladeiro, do tempo curto, do catre. Pensou no que Silas esperava dele: constância, serenidade. E pensou no que ele mesmo esperava: respeito.
— Naya não traz azar. Ela trouxe solução — disse Tomás. — E eu só tô a pedir uma ferramenta, não opinião.
Por um segundo, o silêncio fez barulho. Hank apertou a faca e pareceu pronto para responder com grosseria. Mas então o tio de Naya passou atrás, como uma sombra firme. Não disse nada. Só olhou. Hank desviou o olhar, resmungou e arrancou a marreta da sela.
— Toma. E devolve inteira.
— Vou devolver inteira — garantiu Tomás.
Com a marreta e uma pedra plana, eles trabalharam no fecho. Tomás segurava, Naya orientava, e os golpes pequenos iam endireitando o metal com paciência, como quem conserta uma história amassada.
— Agora a tira — disse Naya. — Essa vai arrebentar.
Tomás abriu a bolsa e viu que tinha corda de sisal, mas não tanta. Lembrou da caixa caída mais cedo: um rolo de couro tinha se soltado e desaparecido na poeira. Se achassem, resolveriam.
— Eu vi um rolo de couro cair na confusão. Pode estar perto do caminho — disse ele.
— No escuro? — Naya apontou para o desfiladeiro, onde as sombras já esticavam dedos. — Se for lá…
Um uivo distante respondeu, como se a própria terra comentasse.
Tomás respirou fundo, não para terminar a história, mas para começar a parte difícil.
— Vamos rápido e juntos — decidiu. — E com os olhos abertos.
Capítulo 4
A luz sumia depressa, e o mundo virava formas e sons. Tomás e Naya caminharam para trás, seguindo as marcas das rodas. A poeira brilhava como farinha sob o último brilho do céu.
— Se eu disser que não tenho medo, tô a mentir — confessou Naya, baixinho.
— Eu tenho medo também — respondeu Tomás. — Só não deixo ele escolher por mim.
Eles ouviram um estalo à direita. Tomás parou, levantou a mão. O coração dele batia, mas a mente funcionava como um laço bem feito: firme, claro.
— Pode ser coyote — sussurrou Naya.
— Ou só um galho — disse Tomás, tentando não transformar o vento em monstro.
Outro estalo. Mais perto.
Tomás pegou uma pedra do chão. Naya pegou outra. Era meio ridículo enfrentar o Oeste com pedras, mas ridículo era melhor do que ficar parado.
— Olha ali — apontou Tomás.
Perto de um arbusto seco, algo escuro estava enroscado. Eles se aproximaram com cuidado. Era o rolo de couro, sim, mas meio enterrado. Tomás puxou devagar. O couro saiu com um som de raspão.
Nesse instante, duas sombras surgiram do lado do desfiladeiro — homens a cavalo, com lenços no rosto. Não eram da caravana. Os cavalos deles vinham leve, acostumados a andar sem avisar.
— Ora, ora… — disse um deles, a voz abafada pelo lenço. — Crianças a passear no escuro.
Tomás sentiu o medo saltar, como um sapo. Mas ficou de pé, sem se encolher.
— A gente só tá pegando um rolo de couro que caiu — disse ele.
— Couro é couro — respondeu o outro. — E tudo que cai no caminho… pode ter dono novo.
Naya apertou o rolo contra si, como se fosse um tesouro. Tomás avaliou: correr com o rolo seria difícil. Lutar era impossível. Gritar? O vento podia engolir o som.
Então ele teve uma ideia. Não era heroica de cinema. Era simples, esperta.
Tomás apontou para trás, para a direção do acampamento, onde algumas fogueiras já acendiam.
— Se vocês querem coisa da caravana, tem uma caixa de metal cheia de remédio do doutor ali. Vale mais do que couro. E tá guardada… por um homem que não dorme.
Ele disse a última parte alto, para que o vento levasse. E, ao mesmo tempo, assobiou curto, do jeito que Silas ensinara para chamar atenção em emergência.
— Fiu! Fiu!
Os homens se entreolharam. Um deles puxou as rédeas, desconfiado.
— Tá a tentar enganar a gente?
— Tô a tentar salvar meu couro — respondeu Tomás, sem sorrir. — E vocês não querem confusão com gente armada. Eu também não.
Do acampamento, uma voz respondeu distante:
— Quem tá aí?
A pergunta veio como uma bala de som. Os homens mascarados hesitaram. Eles não queriam ser vistos, e menos ainda cercados.
— Isso não acabou, garoto — rosnou um deles.
— Tomem cuidado com o desfiladeiro — disse Tomás, com uma calma que ele mesmo achou estranha. — Ele engole barulho… e gente.
Os dois viraram os cavalos e desapareceram nas sombras, tão rápido quanto apareceram.
Naya soltou o ar, tremendo.
— Tu… tu inventaste a caixa do remédio?
— A caixa existe — disse Tomás. — Só não sei se vale mais que couro.
Ela deu uma risada nervosa.
— Inteligente. E um pouco malandro.
— O Oeste pede criatividade — respondeu ele. — E agora vamos voltar antes que o desfiladeiro mude de ideia.
Capítulo 5
Quando chegaram ao acampamento, Silas já vinha na direção deles, a mão perto do coldre. Atrás dele, o doutor segurava uma lamparina, e Hank estava com cara de quem tinha engolido a própria língua.
— Onde vocês se meteram? — perguntou Silas, com aquela voz que era bronca e alívio ao mesmo tempo.
Tomás mostrou o rolo de couro.
— Caiu mais cedo. Precisávamos pra prender o catre. E… vimos dois homens a cavalo perto do desfiladeiro.
A expressão de Silas endureceu como pedra.
— Bandidos?
— Talvez só ladrões de oportunidade — respondeu Tomás. — Mas estavam armados e cobertos.
Silas virou-se e deu ordens rápidas. Dois vaqueiros pegaram rifles e foram vigiar a entrada do desfiladeiro. O tio de Naya se colocou ao lado, silencioso, mas pronto.
Hank pigarreou, sem olhar para Naya.
— Eu… eu vi vocês saírem. Podia ter ido junto.
— Podia — disse Tomás, sem acusar, só constatando.
Hank mexeu no chapéu, desconfortável.
— É que… eu falei besteira antes. Negócio de azar. — Ele coçou o pescoço. — Não foi… justo.
Naya cruzou os braços.
— Não foi mesmo — respondeu ela, firme. — Mas tu podes aprender.
O doutor, que até então só observava, ajustou os óculos.
— No meu livro, aprender é o melhor remédio. E não precisa nem de frasco.
Hank soltou um “hm” e, surpreendentemente, fez um pequeno aceno.
— Desculpa — disse ele, direto, como quem arranca um espinho.
Naya demorou um segundo e então respondeu:
— Eu aceito. Só não repete.
Silas pareceu satisfeito com aquela paz improvável no meio da poeira.
— Muito bem. Agora, Tomás, o catre.
Tomás e Naya foram para perto da carroça. Com o couro novo, eles prenderam o catre com nós firmes. Tomás enrolou o tecido sem “barriga”, como Naya ensinara. O fecho, agora endireitado, encaixou com um “clac” perfeito, um som pequeno que parecia dizer: pronto.
Tomás segurou o embrulho e sentiu um orgulho quieto. Não era orgulho de vencer alguém. Era de não desistir quando o mundo sacudiu a carroça.
Silas pegou o catre, testou as tiras, e finalmente sorriu — um sorriso raro.
— Bom trabalho. Constante como pedra de rio.
Tomás olhou para Naya.
— Sem ela, eu ia dormir abraçado com um catre gordo e aberto.
Naya riu.
— E eu ia rir a noite toda.
Mais tarde, ao redor do fogo, a carne assou, o café ferveu, e as histórias começaram a circular. O desfiladeiro ficou ali, escuro, mas vigiado. Tomás percebeu que tolerância não era só “deixar o outro em paz”. Era dar espaço, ouvir, reconhecer quando a gente erra e, principalmente, proteger alguém de ser empurrado para fora do círculo.
Quando o vento soprou mais frio, Tomás puxou o casaco e olhou para o céu cheio de estrelas, tão numerosas que parecia que alguém tinha derramado sal brilhante sobre a noite.
E, por um instante, apesar do perigo, ele sentiu o Oeste como uma promessa: duro, sim, mas capaz de formar laços fortes como couro bem amarrado.
Ele fechou os olhos e fez uma respiração profunda.