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História de cow-boy 11 a 12 anos Leitura 30 min.

Dever no oeste: a travessia do Rio Coyote e a boiada valente

Tomás lidera uma tropa na travessia do Rio Coyote, enfrentando tempestades, correntes traiçoeiras e ladrões com coragem e astúcia para proteger a boiada.

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Homem adulto, cow-boy Tomás, expressão concentrada e resoluta, barbas curtas, pele bronzeada, chapéu de feltro bege gasto, camisa xadrez vermelha e azul, colete de couro marrom, botas enlameadas; a cavalo, segura um laço e guia a cabeça de um rebanho através de um vau lamacento. Menino jovem, Zeca, ~18 anos, expressão preocupada mas corajosa, rosto risonho, chapéu menor, jaqueta azul simples; a cavalo à esquerda de Tomás, assopra um apito e controla a linha da tropa para evitar pânico. Homem de meia-idade, Dário, ~35 anos, expressão tensa porém voluntarioso, regata suja e calças remendadas; atrás da coluna de vacas, pronto para lançar um laço ou ajudar um novilho escorregadio. Dois cães de pastoreio, corpos compactos e pelo curto, um preto e branco e outro marrom, em posições alertas correndo entre os animais para canalizá-los. Local: um vau estreito e lamacento, água marrom com remoinhos, seixos escorregadios, margens herbosas molhadas, céu tempestuoso com nuvens cinza-escuro e chuva oblíqua, alguns salgueiros inclinados sobre a água. Situação: travessia dramática do rebanho na chuva, vacas hesitantes com água até as canelas, respingos visíveis, movimentos rápidos dos cow-boys para conter os animais, tensão palpável e heroica, composição dinâmica com diagonais fortes e paleta de tons terrosos realçada por gotas brilhantes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

O sol do fim de tarde esticava sombras compridas pela pradaria, como dedos enormes a tentar agarrar os cascos dos cavalos. A poeira subia em nuvens baixas e cheirava a terra quente e a suor de gado. No meio daquele mar de relva dourada, Tomás “T” Rangel cavalgava à frente da boiada, com o chapéu bem puxado e os olhos atentos como os de um falcão.

Ele era homem feito, ombros largos, barba curta e um jeito calmo que só aparecia em quem já tinha visto muita coisa dar errado… e aprendido a não se apavorar.

Atrás dele, os novilhos mugiam, impacientes. À esquerda, a linha escura das colinas parecia recortar o céu. À direita, um brilho prateado denunciava o Rio Coyote — um risco de água entre pedras e salgueiros.

— Lá está ele — disse Zeca, um vaqueiro mais novo que vinha ao lado, sorrindo como se rio fosse sempre boa notícia. — Água! E eu já estava a sonhar com café.

Tomás não sorriu. Apertou os lábios e observou a corrente. O brilho enganava.

— Água pode ser bênção ou armadilha — respondeu ele. — E hoje o céu tem cara de quem anda a pregar partidas.

Zeca seguiu o olhar de Tomás. No horizonte, nuvens pesadas juntavam-se devagar, escuras como carvão. Uma brisa mais fria passou, levantando arrepio na pele.

— Achas que vem tempestade?

Tomás levou a mão ao cantil, mas não bebeu. Só sentiu o peso familiar dele e o peso maior da responsabilidade.

— Acho que, se não atravessarmos antes de escurecer, vamos ter problemas. Mas não passo boiada num vau sem testar a profundidade.

Zeca deu uma risada nervosa.

— Testar? Como? Atiras uma pedra?

— Pedra não tem pernas, nem medo — disse Tomás. — Eu vou a pé. E vocês ficam atentos. Se eu levantar o braço, recuam com o gado.

— Mas, T… — Zeca começou, e parou quando viu o olhar firme do chefe de tropa.

Tomás desviou do caminho de terra para o cascalho junto ao rio. O som da água ficou mais alto, e também o cheiro: lama, folhas esmagadas, frescura. A corrente parecia cantar baixinho, como quem disfarça intenções.

Ele desmontou, passou as rédeas por um galho baixo e tirou as botas, prendendo-as na sela. A água fria nos pés seria desagradável, mas melhor do que botas cheias de lama e pânico.

— Se eu não voltar em cinco minutos… — começou Zeca.

— Volto — interrompeu Tomás, seco. — E se não voltar, não fazes heroísmo. Levas a boiada para o alto, longe das margens. Isso é dever.

Zeca engoliu em seco e assentiu.

Tomás entrou no rio.

A primeira sensação foi um choque gelado. A água subiu pelos tornozelos, pelos gémeos. O cascalho escorregava e espetava ao mesmo tempo. Ele avançou devagar, fincando o pé antes de transferir o peso, como quem conversa com o chão.

A corrente empurrava para o lado, teimosa. Tomás respirou fundo, sentindo o ar húmido, e olhou para o outro lado: árvores baixas, um caminho estreito, e além disso, mais pradaria. Se o vau fosse seguro, atravessariam ali. Se não fosse… teriam de procurar outro lugar, perdendo tempo e talvez ficando presos pela tempestade.

Ele avançou mais dois passos. A água chegou aos joelhos. Depois, de repente, uma depressão no fundo fez a água subir até meio da coxa.

Tomás parou.

“Calma”, pensou. “Testar é isto: perceber antes do desastre.”

Levantou o braço para sinalizar a Zeca que ainda estava tudo sob controlo. Então, com o outro braço estendido, tateou com um bastão que apanhara na margem. O bastão desceu e desceu… e encontrou fundo bem mais abaixo.

O rio, naquele ponto, tinha um buraco.

Uma corrente mais forte puxou-lhe as pernas. O cascalho cedeu sob o pé esquerdo. O coração deu um salto.

Tomás cravou o bastão, inclinando o corpo contra a força da água. Os músculos das coxas arderam. Ele sentiu a água a bater na cintura.

— T! — gritou Zeca, de longe. — Estás bem?

Tomás não respondeu. Não por bravata, mas porque precisava de ar para pensar.

Ele recuou um passo, com cuidado, e o buraco ficou atrás. A água desceu para a coxa de novo. Ali era mais seguro. Ele voltou a medir: uns metros ao lado, o fundo parecia mais firme.

Tomás virou o rosto para a margem e gritou:

— Não é aqui! Tem buraco! Vamos subir rio acima!

Zeca levantou as mãos, aliviado.

— Ouviu, pessoal! Subir rio acima!

A boiada mugiu, como se reclamasse de ter opinião. Tomás voltou com passos curtos, sentindo a corrente a tentar roubar-lhe o equilíbrio até ao último instante. Quando finalmente pisou terra, a lama parecia um tapete pegajoso a agarrar os pés.

Ele calçou as botas rapidamente, sem se preocupar com a água que ainda lhe escorria pelas calças. Montou e olhou o céu outra vez. As nuvens estavam mais próximas. A luz dourada já se tingia de cinzento.

— Vamos mexer — disse. — E mantenham o gado junto. Um trovão pode espalhá-los como pipocas no fogo.

Zeca soltou um assobio para os cães. Os animais correram, atentos, como setas. A tropa começou a deslocar-se ao longo do rio, procurando um lugar onde a água fosse sincera.

Tomás apertou as rédeas e pensou, com uma pontinha de humor amargo: “Ainda bem que a água não sabe mentir muito bem. Só tenta.”

Capítulo 2

Subiram rio acima por quase meia hora. O terreno alternava entre pedras que faziam o cavalo tropeçar e trechos de areia fofa que engoliam os cascos. O vento aumentou, trazendo um cheiro metálico, como se o céu estivesse a afiar facas.

A certa altura, o Rio Coyote alargou-se e ficou mais raso, espraiado por um leito de seixos claros. A corrente era menor, e o som da água parecia menos ameaçador.

Tomás levantou a mão.

— Aqui.

Zeca aproximou-se, olhando de um lado para o outro.

— Parece bom. Mas tu é que és o homem do “testar primeiro”.

Tomás arqueou uma sobrancelha.

— E tu és o homem do “comentar depois”.

Zeca soltou uma risada, e a tensão diminuiu um pouco. Até os cães pareceram relaxar, abanando o rabo.

Tomás desmontou de novo, pegou no bastão e entrou na água. Desta vez, o fundo era firme. A água mal passava do joelho. Ele atravessou alguns metros, medindo, ouvindo, sentindo a pressão da corrente. Nada de buracos. Nada de puxões traiçoeiros.

No meio do vau, parou e escutou. O mundo parecia prender a respiração. Só o rio e o vento.

Então, ao longe, um estalo seco: um trovão abafado.

Tomás ergueu o braço e gritou:

— É este! Depressa! Em fila! Sem pressa demais, mas sem conversa!

A boiada começou a entrar na água, hesitante. As primeiras cabeças baixaram, bebendo, e isso quase virou confusão.

— Ei! — gritou Zeca, dando voltas com o cavalo. — Nada de piquenique! Anda!

Tomás voltou à margem e montou. Colocou-se na lateral, guiando os animais para que não se virassem contra a corrente.

A chuva começou como pingos espaçados, grossos, que faziam pequenos buracos na superfície do rio. Depois ganhou ritmo, tamborilando nos chapéus, nos dorsos dos cavalos, no couro das selas. O cheiro de terra molhada subiu rápido, forte.

O rio, que antes parecia tranquilo, começou a ganhar vida. A água subiu um pouco, e a corrente tornou-se mais insistente.

— Tomás! — chamou um dos homens, Dário, apontando. — Olha a cor da água!

Tomás viu: um tom mais escuro misturava-se, como café derramado. Sinal de enxurrada a vir das colinas.

— Mais depressa! — ordenou. — E mantenham-se juntos!

No meio do vau, um novilho escorregou. As patas traseiras patinaram nos seixos e a cabeça dele mergulhou. O animal mugiu, assustado, e tentou virar.

Isso foi o suficiente para provocar um efeito dominó. Dois outros animais empurraram, a fila apertou, e o medo espalhou-se como fogo em palha seca.

Zeca disparou para o meio, girando o laço.

— Volta! Volta, maluco! — gritava, tentando impedir o novilho de virar para montante.

Tomás sentiu o coração bater mais forte, mas a mente ficou clara. “Se virarem, arrastam os outros. Se arrastarem, a corrente leva.”

Ele avançou com o cavalo até perto do animal que escorregara. O cavalo de Tomás, Fumaça, bufou, sentindo a água e o caos, mas manteve-se firme.

— Fumaça, rapaz, confio em ti — murmurou Tomás, como se estivesse a falar com um amigo teimoso.

Tomás lançou o laço com um movimento rápido. A corda voou e apanhou o novilho pela base dos chifres. Ele deu um puxão controlado, sem brutalidade, só o suficiente para alinhar a cabeça do animal com a travessia.

— Zeca! Puxa pela esquerda! — gritou.

Zeca entendeu na hora, como se a ideia tivesse sido dele (e ele provavelmente contaria assim mais tarde). Ele posicionou-se e ajudou, usando o cavalo como âncora.

Os homens atrás começaram a assobiar e a gritar, não de raiva, mas para manter o ritmo e a direção. Os cães latiam, salpicando água.

O novilho recuperou o equilíbrio e avançou, tremendo, mas avançou. Com ele, a fila se desfez e voltou a fluir.

Tomás soltou o laço quando já estavam quase na margem oposta. A chuva agora caía forte. O som era um rugido constante.

— Últimos! — gritou ele, vendo que ainda havia alguns animais no meio.

A água subiu mais um palmo. O Rio Coyote não gostava de esperar.

Quando o último novilho pisou a margem oposta, Tomás respirou como se só então lembrasse que precisava de ar.

— Muito bem — disse, mais para si mesmo do que para os outros.

Zeca aproximou-se, encharcado, sorrindo.

— Sabes que eu ia dizer “eu avisei”, mas desta vez foste tu que avisaste.

Tomás deu um meio sorriso.

— Guarda essa frase para quando realmente tiveres razão. Vai ser raro.

Eles conduziram a boiada para um trecho mais alto, entre rochas e algumas árvores. A chuva continuou, mas ali não havia risco de serem engolidos pela enchente.

Tomás olhou para trás e viu o vau que tinham usado já mais largo, mais escuro. Em minutos, teria sido impossível.

Sentiu uma mistura de alívio e respeito. No Oeste, a terra não perdoava distração.

— Dever cumprido — murmurou, e puxou o chapéu para frente contra a água.

Capítulo 3

Quando a tempestade começou a abrandar, o céu ficou com aquela cor estranha de chumbo lavado. A chuva virou garoa, e o vento trouxe um silêncio pesado. A boiada, cansada, agrupou-se, soltando bafos brancos.

Zeca acendeu uma fogueira pequena, protegida por pedras. A lenha estalou, libertando um cheiro bom de madeira queimada que parecia uma promessa de conforto.

— Só falta alguém dizer “lar, doce lar” — brincou Dário, esfregando as mãos.

— Lar é onde a cama não te dá coices — respondeu Tomás, olhando para Fumaça, que mastigava capim como se nada no mundo pudesse apressá-lo.

Enquanto os outros dividiam tarefas — contar o gado, verificar arreios, recolher água — Tomás caminhou até um pequeno declive e observou o vale. Lá em baixo, a água corria furiosa, agora barrenta e cheia de galhos.

Um assobio curto atrás dele.

— T — disse Zeca, aproximando-se com uma expressão menos brincalhona. — O Dário encontrou rastos.

Tomás virou-se.

— De quê?

Zeca apontou para um pedaço de chão mais macio, perto das árvores. Havia marcas de cascos — mas não de vaca. Eram de cavalo. E pisadas humanas. Muitas.

— Bandidos? — sussurrou Zeca, como se o vento pudesse ser espião.

Tomás agachou-se, tocou a marca com os dedos. A lama ainda estava fresca. Os rastos passavam perto demais do grupo, como quem circula e observa.

— Não sabemos — disse ele. — Mas sabemos que não são nossos.

— E se forem ladrões de gado?

Tomás levantou-se, o olhar endurecendo.

— Então é bom que descubram que escolheram o rebanho errado.

Ele caminhou até os homens reunidos na fogueira.

— Escutem — anunciou. — Vamos manter vigia dupla esta noite. Sem cochilar. A tempestade ajuda quem quer aproximar-se sem ser visto.

Dário soltou um suspiro.

— Eu já ia sonhar com bife…

— Sonha acordado — cortou Tomás. — Este gado não é só carne. É o salário de muita gente. É o trabalho do rancho. É compromisso. E compromisso não dorme.

Ninguém reclamou mais. Até porque, quando Tomás falava naquele tom, parecia que até as pedras obedeciam.

A noite caiu devagar. As nuvens abriram buracos, revelando estrelas tremeluzentes. A pradaria cheirava a humidade e a fumo. Os sons eram pequenos: um mugido distante, o bater de cascos, o estalar da fogueira.

Tomás fez a primeira ronda com Zeca. Caminhavam em círculo, atentos aos arbustos, às sombras que podiam ser apenas sombras… ou não.

— T, por que é que tu és assim? — perguntou Zeca, de repente, tentando soar leve.

Tomás não tirou os olhos do escuro.

— Assim como?

— Sempre a pensar no pior.

Tomás parou, ouviu o vento e respondeu:

— Eu penso no provável. O pior só aparece quando a gente finge que não pode acontecer.

Zeca chutou uma pedrinha.

— Eu finjo porque me dá medo.

Tomás olhou para ele, e a voz amoleceu um pouco.

— Coragem não é não ter medo. É fazer o que tem de ser feito com medo mesmo.

Zeca abriu a boca para responder, mas um som cortou o ar: um assobio longo, vindo de longe.

Tomás ergueu a mão, pedindo silêncio. O assobio repetiu-se, agora mais perto. Não era de coiote. Era humano.

Ele puxou Zeca para trás de uma rocha baixa. A fogueira ainda ardia no centro do acampamento, e os homens dormiam ou fingiam dormir. Os cães, deitados, levantaram as orelhas.

Dois vultos aproximaram-se pela lateral, agachados. Um terceiro esperava mais atrás, segurando as rédeas de cavalos.

Tomás sentiu o sangue aquecer. Não era só o gado; era a confiança do rancho, era o dever que carregava.

Ele tocou o ombro de Zeca e sussurrou:

— Quando eu assobiar curto, tu corres e acordas os outros. Não grites antes da hora.

Zeca engoliu seco e assentiu.

Os vultos avançaram mais um pouco. Um deles tinha algo na mão, talvez um alicate para cortar cordas. O outro olhava para o acampamento como quem escolhe a melhor peça numa loja.

Tomás respirou fundo, medindo distância, como medira a profundidade do rio. A mesma lógica: dar um passo errado, e a corrente leva.

Ele levantou-se de repente, aparecendo na sombra como um poste que ganhou vida.

— Boa noite — disse, alto o suficiente para assustar, mas não para perder o controlo. — Procuram alguma coisa?

Os vultos congelaram. Um deles tentou correr, mas Tomás já tinha a mão no revólver — não apontado para matar, apontado para avisar.

— Mais um passo e acordam a pradaria inteira — disse ele. — E a pradaria, hoje, não está de bom humor.

O homem mais próximo cuspiu para o lado.

— Não queremos problemas, cowboy.

— Então escolheram o lugar errado para passeio — respondeu Tomás. — Este gado tem dono. E eu tenho dever.

O outro vulto deu um assobio agudo. Lá atrás, os cavalos começaram a recuar.

Tomás fez o assobio curto combinado.

Zeca disparou como um coelho assustado, mas rápido, correndo para a fogueira.

— Acordem! — gritou ele. — Temos visitas!

Os homens levantaram-se num salto, alguns com espingardas, outros com lanternas. Os cães começaram a ladrar, ferozes.

Os ladrões perceberam que perderam o elemento surpresa. Um deles tentou puxar o revólver, mas Tomás foi mais rápido: atirou para o ar. O estampido ecoou nas colinas e fez a boiada estremecer.

— Para trás! — rugiu Tomás.

O barulho e as lanternas foram demais. Os vultos viraram-se e correram para os cavalos. Em segundos, estavam a galope, desaparecendo na escuridão como sombras engolidas pela noite.

Dário aproximou-se, ofegante.

— Devíamos persegui-los?

Tomás guardou o revólver com calma forçada.

— Não. Na noite, o terreno é traiçoeiro. E eles querem que a gente se perca. Nosso dever é proteger o gado, não alimentar orgulho.

Zeca chegou ao lado de Tomás, tremendo um pouco.

— Eu… eu corri como tu disseste.

Tomás bateu de leve no ombro dele.

— E fizeste bem. Isso também é coragem.

A tensão demorou a baixar, mas a vigia dupla virou tripla. O acampamento ficou desperto, unido por um medo que, de alguma forma, também era força.

E o Rio Coyote continuou a correr lá em baixo, como se nada tivesse acontecido — como se o Oeste inteiro não ligasse para as preocupações dos homens.

Mas Tomás ligava. E por isso continuou alerta.

Capítulo 4

O amanhecer veio limpo, com um céu azul frio e uma luz que fazia a relva brilhar como lâminas verdes. O ar cheirava a terra lavada e a cinza de fogueira. Os homens pareciam mais velhos do que na noite anterior, mas também mais determinados.

Tomás reuniu a tropa.

— Vamos sair cedo. Aqueles homens podem voltar com mais gente. E hoje o rio vai estar mais cheio. Não quero surpresas.

— Depois do que aconteceu, eu nem quero ver água — resmungou Dário.

Zeca apontou para o cantil.

— Água a gente bebe. Rio a gente respeita.

Tomás olhou para ele, surpreso com a frase, e assentiu.

— Exatamente.

Conduziram a boiada por um caminho mais alto, evitando áreas baixas onde a lama ainda segurava a pegada. Ao longe, uma linha de fumo subia: uma pequena cidade, talvez com um posto de correio e um saloon que prometia problemas.

No meio da manhã, chegaram a um desfiladeiro estreito. As paredes de pedra subiam dos dois lados, avermelhadas, marcadas por riscos e buracos como se fossem cicatrizes antigas. O caminho ali apertava, obrigando o gado a passar em fila.

Tomás franziu o cenho. Lugar perfeito para emboscada.

— Zeca, vai à frente com os cães. Dário, fica atrás, sem deixar nenhum novilho escapar. E todo mundo de olho nas rochas.

— Sempre tão desconfiado — murmurou alguém.

Tomás ouviu e respondeu sem virar o rosto:

— Desconfiança não é feiura. Feio é perder o que não é teu por preguiça de pensar.

Entraram no desfiladeiro. O som dos cascos virou eco. Cada pedra solta parecia um tiro. Tomás sentia o cheiro do calor preso nas rochas, misturado com poeira velha.

No meio do trecho mais estreito, um estalo. Uma pedra rolou lá de cima e bateu no chão com força.

Tomás travou o cavalo.

— Alto!

Outra pedra caiu. Depois outra. Não era acidente.

— Cobertura! — gritou ele.

Os homens puxaram os cavalos para perto das paredes, tentando sair da linha do caminho. A boiada começou a agitar-se, apertando-se, mugindo.

Lá em cima, surgiram silhuetas. Três, quatro homens, armados, com lenços no rosto.

— Larguem as armas e deixem o gado! — gritou um deles, a voz distorcida.

Tomás sentiu uma raiva fria. Eles não desistiam.

Ele olhou para os lados. O desfiladeiro tinha uma curva logo adiante, e uma pequena passagem lateral, quase escondida por arbustos secos.

“Não dá para brigar de frente”, pensou. “Não com o gado preso.”

Tomás falou baixo, mas firme, para os homens mais próximos:

— Não atirem. Se atirarmos, o gado entra em pânico e vira desastre. Vamos usar cabeça.

Zeca aproximou-se, olhos arregalados.

— E o que fazemos?

Tomás apontou discretamente.

— Aquela passagem lateral. Se a gente conseguir levar a frente do gado por ali, o resto segue. Eles estão lá em cima, não conseguem descer rápido. Precisamos de tempo.

— Tempo a gente compra como? — perguntou Dário.

Tomás tirou do alforje uma pequena lata de graxa e um pano velho.

— Com teatro.

Ele entregou a lata a Dário.

— Tu e mais dois vão fingir que vão negociar. Levantam as mãos, falam alto, enrolam. Enquanto isso, eu e Zeca levamos os cães e puxamos a dianteira para a passagem. Sem correr, só guiando.

Dário engoliu em seco.

— Fingir negociar com gente armada não parece divertido.

— Ninguém disse que dever é divertido — respondeu Tomás. — Mas é necessário.

Dário assentiu, respirou fundo e avançou alguns passos, mãos levantadas.

— Calma aí! — gritou ele para cima. — A gente pode conversar!

Os bandidos riram.

— Conversa é: vocês saem, a boiada fica!

Enquanto isso, Tomás fez sinal para Zeca e para os cães. Aproximaram-se da frente da fila, onde alguns novilhos mais teimosos estavam parados.

— Vá, meus senhores de chifres — murmurou Tomás. — Vamos por aqui, que o caminho principal está com má educação hoje.

Zeca, tentando não rir, sussurrou:

— Se eles entendessem português, ficavam ofendidos.

Tomás puxou levemente o cavalo e apontou o corpo para a passagem lateral. Os cães entenderam a intenção e começaram a rodear, empurrando a frente do gado para o desvio. Os primeiros animais hesitaram, mas o espaço parecia seguro, e o instinto de seguir o grupo venceu.

Lá em cima, os bandidos começaram a perceber movimento diferente.

— Ei! Eles estão a desviar! — gritou um.

Um tiro estalou, batendo na pedra e soltando lascas. O eco foi como um trovão preso. A boiada se assustou, mas Tomás levantou a voz, firme, sem gritar demais:

— Calma! Sigam! Sigam!

Ele assobiou um comando rápido para os cães, que latiam e corriam, mantendo o rebanho junto. Zeca, com o laço pronto, ajudou a impedir que um novilho voltasse para o caminho principal.

Dário continuava a falar alto, ganhando segundos preciosos.

— Vocês não querem esse gado todo! Dá trabalho! Come, bebe, faz sujeira…

— Cala a boca! — berraram lá de cima, irritados.

Tomás e Zeca já tinham metade da boiada na passagem lateral. O desvio subia um pouco e saía do desfiladeiro para um terreno aberto, com arbustos e pedras menores.

— Agora! — gritou Tomás para Dário.

Dário e os outros dois recuaram de repente, montaram e dispararam para o desvio, correndo junto ao gado.

Os bandidos atiraram mais duas vezes, mas agora o ângulo era ruim. E descer para perseguir levaria tempo.

Quando o último novilho passou, Tomás virou-se, encarando o alto do desfiladeiro.

— O Oeste é grande — gritou ele. — Arranjem trabalho honesto!

Um dos bandidos respondeu com um palavrão que não merecia repetição. Tomás apenas virou as costas.

A tropa seguiu, acelerando o passo. O coração de Tomás ainda batia forte, mas a mente já planeava o resto do caminho.

Zeca aproximou-se, sorrindo apesar do cansaço.

— Teatro, hein? Nunca pensei que eu ia escapar de bandido com conversa fiada.

Tomás soltou um riso curto.

— No Oeste, às vezes a inteligência é mais rápida que o cavalo.

E continuaram, com a boiada inteira, com a honra intacta e com o dever pesado… mas firme, como sela bem ajustada.

Capítulo 5

Ao fim do dia, avistaram o rancho destino: cercas longas, um celeiro alto e uma casa simples com varanda. O cheiro de feno e de animais domésticos misturava-se ao aroma de pão assando, trazido pelo vento como uma recompensa invisível.

Um homem mais velho, o capataz do rancho, veio ao encontro, acompanhado por uma mulher de avental e olhar atento.

— Tomás Rangel! — chamou o capataz, abrindo os braços. — Pensei que a enchente tinha engolido vocês.

Tomás desmontou, sentindo as pernas pesadas como troncos.

— Tentou — respondeu ele. — Mas eu não gosto de dar esse tipo de satisfação ao rio.

O capataz riu, mas logo ficou sério ao notar os rostos cansados.

— Problemas?

— Chuva, rio traiçoeiro e visitas noturnas — disse Tomás, simples. — Mas o gado chegou completo.

O homem mais velho assentiu, com respeito.

— Isso é serviço bem feito. Isso é dever.

Os peões do rancho abriram as porteiras e começaram a conduzir a boiada para o curral. O som de madeira rangendo, de cascos batendo, de mugidos ecoando, preenchia o ar como música de trabalho.

Zeca esticou os braços, gemendo.

— Se eu nunca mais vir um chifre na vida, eu viro poeta.

Dário apontou para a padaria improvisada perto da casa.

— Poeta com barriga cheia, espero.

A mulher do avental aproximou-se, com um cesto coberto por um pano.

— Vocês devem estar famintos. Fiz biscoitos.

Tomás olhou para o cesto como quem vê um tesouro mais valioso que ouro. O cansaço tem uma forma engraçada de transformar coisas simples em milagres.

— Senhora, isso parece uma benção — disse ele.

Ela levantou o pano. Dentro, biscoitos dourados, redondos, com cheiro de manteiga e um toque de mel.

Os homens aproximaram-se imediatamente, como se o aroma puxasse cordas invisíveis.

— Um de cada vez — avisou a mulher, com firmeza divertida. — Não vou alimentar um bando de lobos.

Zeca pegou um, mordeu e fechou os olhos.

— Eu… eu vi a luz — murmurou, dramático.

Tomás esperou. Observou os homens, conferiu se o gado estava bem fechado, falou com o capataz sobre os bandidos e sobre o vau perigoso do Rio Coyote. Só depois de garantir que tudo estava em ordem, estendeu a mão.

A mulher colocou-lhe um biscoito maior, ainda morno.

Tomás segurou-o por um instante, sentindo o calor atravessar os dedos, como se aquele pequeno pedaço de pão carregasse o fim de uma travessia inteira.

Zeca, com a boca cheia, apontou para ele.

— Tu vais comer ou vais escrever uma carta de amor para o biscoito?

Tomás deu um sorriso cansado, verdadeiro.

— Vou comer. Mas primeiro… — ele olhou para o curral, para os homens, para o céu agora limpo — primeiro eu agradeço por termos feito o que era certo.

Ele deu a primeira dentada. O biscoito estalou suavemente e desfez-se macio, com gosto de manteiga e de casa. Tomás mastigou devagar, deixando o sabor assentar, como o silêncio depois de um tiro.

O capataz bateu no ombro dele.

— Bom trabalho, Tomás.

Tomás assentiu, levantando o biscoito como se fosse um brinde simples.

— Dever cumprido — disse.

E ficou ali, na varanda, com o último biscoito a aquecer-lhe as mãos e a certeza de que, no Oeste, coragem e inteligência não eram histórias para contar — eram ferramentas para sobreviver.

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Pradaria
Grande extensão de terra coberta por relva, onde animais pastam.
Vaqueiro
Pessoa que cuida e conduz o gado a cavalo.
Boiada
Conjunto de vacas ou bois que se movem juntos.
Cantil
Recipiente pequeno onde se guarda água para beber.
Vau
Lugar raso num rio onde é possível atravessar a pé ou a cavalo.
Corrente
Movimento da água no rio que empurra para um lado.
Cascalho
Pedras pequenas e soltas que ficam no fundo do rio.
Novilho
Bezerro jovem, carneiro jovem ou vitela; animal bovino jovem.
Salgueiros
Tipos de árvores que crescem perto de água, com ramos finos.
Enxurrada
Grande quantidade de água que desce rápido de uma encosta.
Emboscada
Quando alguém se esconde para atacar de surpresa.
Desfiladeiro
Passagem estreita entre paredes altas de rocha.
Curral
Lugar cercado onde se guarda e organiza o gado.
Capataz
Pessoa que dirige o trabalho de outros no rancho.
Alforje
Saco preso à sela do cavalo para guardar coisas.
Rédeas
Tiras de couro ou corda que servem para guiar o cavalo.
Sela
Peça de couro colocada nas costas do cavalo para montar.
Laço
Corda usada para apanhar ou segurar um animal.
Revólver
Arma de fogo curta que guarda várias balas no tambor.
Barrenta
Que tem muita lama; água com lama e sujeira misturada.

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A ler em seguida em Histórias de cowboys para 11 a 12 anos

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