Capítulo 1
O sol do fim de tarde esticava sombras compridas pela pradaria, como dedos enormes a tentar agarrar os cascos dos cavalos. A poeira subia em nuvens baixas e cheirava a terra quente e a suor de gado. No meio daquele mar de relva dourada, Tomás “T” Rangel cavalgava à frente da boiada, com o chapéu bem puxado e os olhos atentos como os de um falcão.
Ele era homem feito, ombros largos, barba curta e um jeito calmo que só aparecia em quem já tinha visto muita coisa dar errado… e aprendido a não se apavorar.
Atrás dele, os novilhos mugiam, impacientes. À esquerda, a linha escura das colinas parecia recortar o céu. À direita, um brilho prateado denunciava o Rio Coyote — um risco de água entre pedras e salgueiros.
— Lá está ele — disse Zeca, um vaqueiro mais novo que vinha ao lado, sorrindo como se rio fosse sempre boa notícia. — Água! E eu já estava a sonhar com café.
Tomás não sorriu. Apertou os lábios e observou a corrente. O brilho enganava.
— Água pode ser bênção ou armadilha — respondeu ele. — E hoje o céu tem cara de quem anda a pregar partidas.
Zeca seguiu o olhar de Tomás. No horizonte, nuvens pesadas juntavam-se devagar, escuras como carvão. Uma brisa mais fria passou, levantando arrepio na pele.
— Achas que vem tempestade?
Tomás levou a mão ao cantil, mas não bebeu. Só sentiu o peso familiar dele e o peso maior da responsabilidade.
— Acho que, se não atravessarmos antes de escurecer, vamos ter problemas. Mas não passo boiada num vau sem testar a profundidade.
Zeca deu uma risada nervosa.
— Testar? Como? Atiras uma pedra?
— Pedra não tem pernas, nem medo — disse Tomás. — Eu vou a pé. E vocês ficam atentos. Se eu levantar o braço, recuam com o gado.
— Mas, T… — Zeca começou, e parou quando viu o olhar firme do chefe de tropa.
Tomás desviou do caminho de terra para o cascalho junto ao rio. O som da água ficou mais alto, e também o cheiro: lama, folhas esmagadas, frescura. A corrente parecia cantar baixinho, como quem disfarça intenções.
Ele desmontou, passou as rédeas por um galho baixo e tirou as botas, prendendo-as na sela. A água fria nos pés seria desagradável, mas melhor do que botas cheias de lama e pânico.
— Se eu não voltar em cinco minutos… — começou Zeca.
— Volto — interrompeu Tomás, seco. — E se não voltar, não fazes heroísmo. Levas a boiada para o alto, longe das margens. Isso é dever.
Zeca engoliu em seco e assentiu.
Tomás entrou no rio.
A primeira sensação foi um choque gelado. A água subiu pelos tornozelos, pelos gémeos. O cascalho escorregava e espetava ao mesmo tempo. Ele avançou devagar, fincando o pé antes de transferir o peso, como quem conversa com o chão.
A corrente empurrava para o lado, teimosa. Tomás respirou fundo, sentindo o ar húmido, e olhou para o outro lado: árvores baixas, um caminho estreito, e além disso, mais pradaria. Se o vau fosse seguro, atravessariam ali. Se não fosse… teriam de procurar outro lugar, perdendo tempo e talvez ficando presos pela tempestade.
Ele avançou mais dois passos. A água chegou aos joelhos. Depois, de repente, uma depressão no fundo fez a água subir até meio da coxa.
Tomás parou.
“Calma”, pensou. “Testar é isto: perceber antes do desastre.”
Levantou o braço para sinalizar a Zeca que ainda estava tudo sob controlo. Então, com o outro braço estendido, tateou com um bastão que apanhara na margem. O bastão desceu e desceu… e encontrou fundo bem mais abaixo.
O rio, naquele ponto, tinha um buraco.
Uma corrente mais forte puxou-lhe as pernas. O cascalho cedeu sob o pé esquerdo. O coração deu um salto.
Tomás cravou o bastão, inclinando o corpo contra a força da água. Os músculos das coxas arderam. Ele sentiu a água a bater na cintura.
— T! — gritou Zeca, de longe. — Estás bem?
Tomás não respondeu. Não por bravata, mas porque precisava de ar para pensar.
Ele recuou um passo, com cuidado, e o buraco ficou atrás. A água desceu para a coxa de novo. Ali era mais seguro. Ele voltou a medir: uns metros ao lado, o fundo parecia mais firme.
Tomás virou o rosto para a margem e gritou:
— Não é aqui! Tem buraco! Vamos subir rio acima!
Zeca levantou as mãos, aliviado.
— Ouviu, pessoal! Subir rio acima!
A boiada mugiu, como se reclamasse de ter opinião. Tomás voltou com passos curtos, sentindo a corrente a tentar roubar-lhe o equilíbrio até ao último instante. Quando finalmente pisou terra, a lama parecia um tapete pegajoso a agarrar os pés.
Ele calçou as botas rapidamente, sem se preocupar com a água que ainda lhe escorria pelas calças. Montou e olhou o céu outra vez. As nuvens estavam mais próximas. A luz dourada já se tingia de cinzento.
— Vamos mexer — disse. — E mantenham o gado junto. Um trovão pode espalhá-los como pipocas no fogo.
Zeca soltou um assobio para os cães. Os animais correram, atentos, como setas. A tropa começou a deslocar-se ao longo do rio, procurando um lugar onde a água fosse sincera.
Tomás apertou as rédeas e pensou, com uma pontinha de humor amargo: “Ainda bem que a água não sabe mentir muito bem. Só tenta.”
Capítulo 2
Subiram rio acima por quase meia hora. O terreno alternava entre pedras que faziam o cavalo tropeçar e trechos de areia fofa que engoliam os cascos. O vento aumentou, trazendo um cheiro metálico, como se o céu estivesse a afiar facas.
A certa altura, o Rio Coyote alargou-se e ficou mais raso, espraiado por um leito de seixos claros. A corrente era menor, e o som da água parecia menos ameaçador.
Tomás levantou a mão.
— Aqui.
Zeca aproximou-se, olhando de um lado para o outro.
— Parece bom. Mas tu é que és o homem do “testar primeiro”.
Tomás arqueou uma sobrancelha.
— E tu és o homem do “comentar depois”.
Zeca soltou uma risada, e a tensão diminuiu um pouco. Até os cães pareceram relaxar, abanando o rabo.
Tomás desmontou de novo, pegou no bastão e entrou na água. Desta vez, o fundo era firme. A água mal passava do joelho. Ele atravessou alguns metros, medindo, ouvindo, sentindo a pressão da corrente. Nada de buracos. Nada de puxões traiçoeiros.
No meio do vau, parou e escutou. O mundo parecia prender a respiração. Só o rio e o vento.
Então, ao longe, um estalo seco: um trovão abafado.
Tomás ergueu o braço e gritou:
— É este! Depressa! Em fila! Sem pressa demais, mas sem conversa!
A boiada começou a entrar na água, hesitante. As primeiras cabeças baixaram, bebendo, e isso quase virou confusão.
— Ei! — gritou Zeca, dando voltas com o cavalo. — Nada de piquenique! Anda!
Tomás voltou à margem e montou. Colocou-se na lateral, guiando os animais para que não se virassem contra a corrente.
A chuva começou como pingos espaçados, grossos, que faziam pequenos buracos na superfície do rio. Depois ganhou ritmo, tamborilando nos chapéus, nos dorsos dos cavalos, no couro das selas. O cheiro de terra molhada subiu rápido, forte.
O rio, que antes parecia tranquilo, começou a ganhar vida. A água subiu um pouco, e a corrente tornou-se mais insistente.
— Tomás! — chamou um dos homens, Dário, apontando. — Olha a cor da água!
Tomás viu: um tom mais escuro misturava-se, como café derramado. Sinal de enxurrada a vir das colinas.
— Mais depressa! — ordenou. — E mantenham-se juntos!
No meio do vau, um novilho escorregou. As patas traseiras patinaram nos seixos e a cabeça dele mergulhou. O animal mugiu, assustado, e tentou virar.
Isso foi o suficiente para provocar um efeito dominó. Dois outros animais empurraram, a fila apertou, e o medo espalhou-se como fogo em palha seca.
Zeca disparou para o meio, girando o laço.
— Volta! Volta, maluco! — gritava, tentando impedir o novilho de virar para montante.
Tomás sentiu o coração bater mais forte, mas a mente ficou clara. “Se virarem, arrastam os outros. Se arrastarem, a corrente leva.”
Ele avançou com o cavalo até perto do animal que escorregara. O cavalo de Tomás, Fumaça, bufou, sentindo a água e o caos, mas manteve-se firme.
— Fumaça, rapaz, confio em ti — murmurou Tomás, como se estivesse a falar com um amigo teimoso.
Tomás lançou o laço com um movimento rápido. A corda voou e apanhou o novilho pela base dos chifres. Ele deu um puxão controlado, sem brutalidade, só o suficiente para alinhar a cabeça do animal com a travessia.
— Zeca! Puxa pela esquerda! — gritou.
Zeca entendeu na hora, como se a ideia tivesse sido dele (e ele provavelmente contaria assim mais tarde). Ele posicionou-se e ajudou, usando o cavalo como âncora.
Os homens atrás começaram a assobiar e a gritar, não de raiva, mas para manter o ritmo e a direção. Os cães latiam, salpicando água.
O novilho recuperou o equilíbrio e avançou, tremendo, mas avançou. Com ele, a fila se desfez e voltou a fluir.
Tomás soltou o laço quando já estavam quase na margem oposta. A chuva agora caía forte. O som era um rugido constante.
— Últimos! — gritou ele, vendo que ainda havia alguns animais no meio.
A água subiu mais um palmo. O Rio Coyote não gostava de esperar.
Quando o último novilho pisou a margem oposta, Tomás respirou como se só então lembrasse que precisava de ar.
— Muito bem — disse, mais para si mesmo do que para os outros.
Zeca aproximou-se, encharcado, sorrindo.
— Sabes que eu ia dizer “eu avisei”, mas desta vez foste tu que avisaste.
Tomás deu um meio sorriso.
— Guarda essa frase para quando realmente tiveres razão. Vai ser raro.
Eles conduziram a boiada para um trecho mais alto, entre rochas e algumas árvores. A chuva continuou, mas ali não havia risco de serem engolidos pela enchente.
Tomás olhou para trás e viu o vau que tinham usado já mais largo, mais escuro. Em minutos, teria sido impossível.
Sentiu uma mistura de alívio e respeito. No Oeste, a terra não perdoava distração.
— Dever cumprido — murmurou, e puxou o chapéu para frente contra a água.
Capítulo 3
Quando a tempestade começou a abrandar, o céu ficou com aquela cor estranha de chumbo lavado. A chuva virou garoa, e o vento trouxe um silêncio pesado. A boiada, cansada, agrupou-se, soltando bafos brancos.
Zeca acendeu uma fogueira pequena, protegida por pedras. A lenha estalou, libertando um cheiro bom de madeira queimada que parecia uma promessa de conforto.
— Só falta alguém dizer “lar, doce lar” — brincou Dário, esfregando as mãos.
— Lar é onde a cama não te dá coices — respondeu Tomás, olhando para Fumaça, que mastigava capim como se nada no mundo pudesse apressá-lo.
Enquanto os outros dividiam tarefas — contar o gado, verificar arreios, recolher água — Tomás caminhou até um pequeno declive e observou o vale. Lá em baixo, a água corria furiosa, agora barrenta e cheia de galhos.
Um assobio curto atrás dele.
— T — disse Zeca, aproximando-se com uma expressão menos brincalhona. — O Dário encontrou rastos.
Tomás virou-se.
— De quê?
Zeca apontou para um pedaço de chão mais macio, perto das árvores. Havia marcas de cascos — mas não de vaca. Eram de cavalo. E pisadas humanas. Muitas.
— Bandidos? — sussurrou Zeca, como se o vento pudesse ser espião.
Tomás agachou-se, tocou a marca com os dedos. A lama ainda estava fresca. Os rastos passavam perto demais do grupo, como quem circula e observa.
— Não sabemos — disse ele. — Mas sabemos que não são nossos.
— E se forem ladrões de gado?
Tomás levantou-se, o olhar endurecendo.
— Então é bom que descubram que escolheram o rebanho errado.
Ele caminhou até os homens reunidos na fogueira.
— Escutem — anunciou. — Vamos manter vigia dupla esta noite. Sem cochilar. A tempestade ajuda quem quer aproximar-se sem ser visto.
Dário soltou um suspiro.
— Eu já ia sonhar com bife…
— Sonha acordado — cortou Tomás. — Este gado não é só carne. É o salário de muita gente. É o trabalho do rancho. É compromisso. E compromisso não dorme.
Ninguém reclamou mais. Até porque, quando Tomás falava naquele tom, parecia que até as pedras obedeciam.
A noite caiu devagar. As nuvens abriram buracos, revelando estrelas tremeluzentes. A pradaria cheirava a humidade e a fumo. Os sons eram pequenos: um mugido distante, o bater de cascos, o estalar da fogueira.
Tomás fez a primeira ronda com Zeca. Caminhavam em círculo, atentos aos arbustos, às sombras que podiam ser apenas sombras… ou não.
— T, por que é que tu és assim? — perguntou Zeca, de repente, tentando soar leve.
Tomás não tirou os olhos do escuro.
— Assim como?
— Sempre a pensar no pior.
Tomás parou, ouviu o vento e respondeu:
— Eu penso no provável. O pior só aparece quando a gente finge que não pode acontecer.
Zeca chutou uma pedrinha.
— Eu finjo porque me dá medo.
Tomás olhou para ele, e a voz amoleceu um pouco.
— Coragem não é não ter medo. É fazer o que tem de ser feito com medo mesmo.
Zeca abriu a boca para responder, mas um som cortou o ar: um assobio longo, vindo de longe.
Tomás ergueu a mão, pedindo silêncio. O assobio repetiu-se, agora mais perto. Não era de coiote. Era humano.
Ele puxou Zeca para trás de uma rocha baixa. A fogueira ainda ardia no centro do acampamento, e os homens dormiam ou fingiam dormir. Os cães, deitados, levantaram as orelhas.
Dois vultos aproximaram-se pela lateral, agachados. Um terceiro esperava mais atrás, segurando as rédeas de cavalos.
Tomás sentiu o sangue aquecer. Não era só o gado; era a confiança do rancho, era o dever que carregava.
Ele tocou o ombro de Zeca e sussurrou:
— Quando eu assobiar curto, tu corres e acordas os outros. Não grites antes da hora.
Zeca engoliu seco e assentiu.
Os vultos avançaram mais um pouco. Um deles tinha algo na mão, talvez um alicate para cortar cordas. O outro olhava para o acampamento como quem escolhe a melhor peça numa loja.
Tomás respirou fundo, medindo distância, como medira a profundidade do rio. A mesma lógica: dar um passo errado, e a corrente leva.
Ele levantou-se de repente, aparecendo na sombra como um poste que ganhou vida.
— Boa noite — disse, alto o suficiente para assustar, mas não para perder o controlo. — Procuram alguma coisa?
Os vultos congelaram. Um deles tentou correr, mas Tomás já tinha a mão no revólver — não apontado para matar, apontado para avisar.
— Mais um passo e acordam a pradaria inteira — disse ele. — E a pradaria, hoje, não está de bom humor.
O homem mais próximo cuspiu para o lado.
— Não queremos problemas, cowboy.
— Então escolheram o lugar errado para passeio — respondeu Tomás. — Este gado tem dono. E eu tenho dever.
O outro vulto deu um assobio agudo. Lá atrás, os cavalos começaram a recuar.
Tomás fez o assobio curto combinado.
Zeca disparou como um coelho assustado, mas rápido, correndo para a fogueira.
— Acordem! — gritou ele. — Temos visitas!
Os homens levantaram-se num salto, alguns com espingardas, outros com lanternas. Os cães começaram a ladrar, ferozes.
Os ladrões perceberam que perderam o elemento surpresa. Um deles tentou puxar o revólver, mas Tomás foi mais rápido: atirou para o ar. O estampido ecoou nas colinas e fez a boiada estremecer.
— Para trás! — rugiu Tomás.
O barulho e as lanternas foram demais. Os vultos viraram-se e correram para os cavalos. Em segundos, estavam a galope, desaparecendo na escuridão como sombras engolidas pela noite.
Dário aproximou-se, ofegante.
— Devíamos persegui-los?
Tomás guardou o revólver com calma forçada.
— Não. Na noite, o terreno é traiçoeiro. E eles querem que a gente se perca. Nosso dever é proteger o gado, não alimentar orgulho.
Zeca chegou ao lado de Tomás, tremendo um pouco.
— Eu… eu corri como tu disseste.
Tomás bateu de leve no ombro dele.
— E fizeste bem. Isso também é coragem.
A tensão demorou a baixar, mas a vigia dupla virou tripla. O acampamento ficou desperto, unido por um medo que, de alguma forma, também era força.
E o Rio Coyote continuou a correr lá em baixo, como se nada tivesse acontecido — como se o Oeste inteiro não ligasse para as preocupações dos homens.
Mas Tomás ligava. E por isso continuou alerta.
Capítulo 4
O amanhecer veio limpo, com um céu azul frio e uma luz que fazia a relva brilhar como lâminas verdes. O ar cheirava a terra lavada e a cinza de fogueira. Os homens pareciam mais velhos do que na noite anterior, mas também mais determinados.
Tomás reuniu a tropa.
— Vamos sair cedo. Aqueles homens podem voltar com mais gente. E hoje o rio vai estar mais cheio. Não quero surpresas.
— Depois do que aconteceu, eu nem quero ver água — resmungou Dário.
Zeca apontou para o cantil.
— Água a gente bebe. Rio a gente respeita.
Tomás olhou para ele, surpreso com a frase, e assentiu.
— Exatamente.
Conduziram a boiada por um caminho mais alto, evitando áreas baixas onde a lama ainda segurava a pegada. Ao longe, uma linha de fumo subia: uma pequena cidade, talvez com um posto de correio e um saloon que prometia problemas.
No meio da manhã, chegaram a um desfiladeiro estreito. As paredes de pedra subiam dos dois lados, avermelhadas, marcadas por riscos e buracos como se fossem cicatrizes antigas. O caminho ali apertava, obrigando o gado a passar em fila.
Tomás franziu o cenho. Lugar perfeito para emboscada.
— Zeca, vai à frente com os cães. Dário, fica atrás, sem deixar nenhum novilho escapar. E todo mundo de olho nas rochas.
— Sempre tão desconfiado — murmurou alguém.
Tomás ouviu e respondeu sem virar o rosto:
— Desconfiança não é feiura. Feio é perder o que não é teu por preguiça de pensar.
Entraram no desfiladeiro. O som dos cascos virou eco. Cada pedra solta parecia um tiro. Tomás sentia o cheiro do calor preso nas rochas, misturado com poeira velha.
No meio do trecho mais estreito, um estalo. Uma pedra rolou lá de cima e bateu no chão com força.
Tomás travou o cavalo.
— Alto!
Outra pedra caiu. Depois outra. Não era acidente.
— Cobertura! — gritou ele.
Os homens puxaram os cavalos para perto das paredes, tentando sair da linha do caminho. A boiada começou a agitar-se, apertando-se, mugindo.
Lá em cima, surgiram silhuetas. Três, quatro homens, armados, com lenços no rosto.
— Larguem as armas e deixem o gado! — gritou um deles, a voz distorcida.
Tomás sentiu uma raiva fria. Eles não desistiam.
Ele olhou para os lados. O desfiladeiro tinha uma curva logo adiante, e uma pequena passagem lateral, quase escondida por arbustos secos.
“Não dá para brigar de frente”, pensou. “Não com o gado preso.”
Tomás falou baixo, mas firme, para os homens mais próximos:
— Não atirem. Se atirarmos, o gado entra em pânico e vira desastre. Vamos usar cabeça.
Zeca aproximou-se, olhos arregalados.
— E o que fazemos?
Tomás apontou discretamente.
— Aquela passagem lateral. Se a gente conseguir levar a frente do gado por ali, o resto segue. Eles estão lá em cima, não conseguem descer rápido. Precisamos de tempo.
— Tempo a gente compra como? — perguntou Dário.
Tomás tirou do alforje uma pequena lata de graxa e um pano velho.
— Com teatro.
Ele entregou a lata a Dário.
— Tu e mais dois vão fingir que vão negociar. Levantam as mãos, falam alto, enrolam. Enquanto isso, eu e Zeca levamos os cães e puxamos a dianteira para a passagem. Sem correr, só guiando.
Dário engoliu em seco.
— Fingir negociar com gente armada não parece divertido.
— Ninguém disse que dever é divertido — respondeu Tomás. — Mas é necessário.
Dário assentiu, respirou fundo e avançou alguns passos, mãos levantadas.
— Calma aí! — gritou ele para cima. — A gente pode conversar!
Os bandidos riram.
— Conversa é: vocês saem, a boiada fica!
Enquanto isso, Tomás fez sinal para Zeca e para os cães. Aproximaram-se da frente da fila, onde alguns novilhos mais teimosos estavam parados.
— Vá, meus senhores de chifres — murmurou Tomás. — Vamos por aqui, que o caminho principal está com má educação hoje.
Zeca, tentando não rir, sussurrou:
— Se eles entendessem português, ficavam ofendidos.
Tomás puxou levemente o cavalo e apontou o corpo para a passagem lateral. Os cães entenderam a intenção e começaram a rodear, empurrando a frente do gado para o desvio. Os primeiros animais hesitaram, mas o espaço parecia seguro, e o instinto de seguir o grupo venceu.
Lá em cima, os bandidos começaram a perceber movimento diferente.
— Ei! Eles estão a desviar! — gritou um.
Um tiro estalou, batendo na pedra e soltando lascas. O eco foi como um trovão preso. A boiada se assustou, mas Tomás levantou a voz, firme, sem gritar demais:
— Calma! Sigam! Sigam!
Ele assobiou um comando rápido para os cães, que latiam e corriam, mantendo o rebanho junto. Zeca, com o laço pronto, ajudou a impedir que um novilho voltasse para o caminho principal.
Dário continuava a falar alto, ganhando segundos preciosos.
— Vocês não querem esse gado todo! Dá trabalho! Come, bebe, faz sujeira…
— Cala a boca! — berraram lá de cima, irritados.
Tomás e Zeca já tinham metade da boiada na passagem lateral. O desvio subia um pouco e saía do desfiladeiro para um terreno aberto, com arbustos e pedras menores.
— Agora! — gritou Tomás para Dário.
Dário e os outros dois recuaram de repente, montaram e dispararam para o desvio, correndo junto ao gado.
Os bandidos atiraram mais duas vezes, mas agora o ângulo era ruim. E descer para perseguir levaria tempo.
Quando o último novilho passou, Tomás virou-se, encarando o alto do desfiladeiro.
— O Oeste é grande — gritou ele. — Arranjem trabalho honesto!
Um dos bandidos respondeu com um palavrão que não merecia repetição. Tomás apenas virou as costas.
A tropa seguiu, acelerando o passo. O coração de Tomás ainda batia forte, mas a mente já planeava o resto do caminho.
Zeca aproximou-se, sorrindo apesar do cansaço.
— Teatro, hein? Nunca pensei que eu ia escapar de bandido com conversa fiada.
Tomás soltou um riso curto.
— No Oeste, às vezes a inteligência é mais rápida que o cavalo.
E continuaram, com a boiada inteira, com a honra intacta e com o dever pesado… mas firme, como sela bem ajustada.
Capítulo 5
Ao fim do dia, avistaram o rancho destino: cercas longas, um celeiro alto e uma casa simples com varanda. O cheiro de feno e de animais domésticos misturava-se ao aroma de pão assando, trazido pelo vento como uma recompensa invisível.
Um homem mais velho, o capataz do rancho, veio ao encontro, acompanhado por uma mulher de avental e olhar atento.
— Tomás Rangel! — chamou o capataz, abrindo os braços. — Pensei que a enchente tinha engolido vocês.
Tomás desmontou, sentindo as pernas pesadas como troncos.
— Tentou — respondeu ele. — Mas eu não gosto de dar esse tipo de satisfação ao rio.
O capataz riu, mas logo ficou sério ao notar os rostos cansados.
— Problemas?
— Chuva, rio traiçoeiro e visitas noturnas — disse Tomás, simples. — Mas o gado chegou completo.
O homem mais velho assentiu, com respeito.
— Isso é serviço bem feito. Isso é dever.
Os peões do rancho abriram as porteiras e começaram a conduzir a boiada para o curral. O som de madeira rangendo, de cascos batendo, de mugidos ecoando, preenchia o ar como música de trabalho.
Zeca esticou os braços, gemendo.
— Se eu nunca mais vir um chifre na vida, eu viro poeta.
Dário apontou para a padaria improvisada perto da casa.
— Poeta com barriga cheia, espero.
A mulher do avental aproximou-se, com um cesto coberto por um pano.
— Vocês devem estar famintos. Fiz biscoitos.
Tomás olhou para o cesto como quem vê um tesouro mais valioso que ouro. O cansaço tem uma forma engraçada de transformar coisas simples em milagres.
— Senhora, isso parece uma benção — disse ele.
Ela levantou o pano. Dentro, biscoitos dourados, redondos, com cheiro de manteiga e um toque de mel.
Os homens aproximaram-se imediatamente, como se o aroma puxasse cordas invisíveis.
— Um de cada vez — avisou a mulher, com firmeza divertida. — Não vou alimentar um bando de lobos.
Zeca pegou um, mordeu e fechou os olhos.
— Eu… eu vi a luz — murmurou, dramático.
Tomás esperou. Observou os homens, conferiu se o gado estava bem fechado, falou com o capataz sobre os bandidos e sobre o vau perigoso do Rio Coyote. Só depois de garantir que tudo estava em ordem, estendeu a mão.
A mulher colocou-lhe um biscoito maior, ainda morno.
Tomás segurou-o por um instante, sentindo o calor atravessar os dedos, como se aquele pequeno pedaço de pão carregasse o fim de uma travessia inteira.
Zeca, com a boca cheia, apontou para ele.
— Tu vais comer ou vais escrever uma carta de amor para o biscoito?
Tomás deu um sorriso cansado, verdadeiro.
— Vou comer. Mas primeiro… — ele olhou para o curral, para os homens, para o céu agora limpo — primeiro eu agradeço por termos feito o que era certo.
Ele deu a primeira dentada. O biscoito estalou suavemente e desfez-se macio, com gosto de manteiga e de casa. Tomás mastigou devagar, deixando o sabor assentar, como o silêncio depois de um tiro.
O capataz bateu no ombro dele.
— Bom trabalho, Tomás.
Tomás assentiu, levantando o biscoito como se fosse um brinde simples.
— Dever cumprido — disse.
E ficou ali, na varanda, com o último biscoito a aquecer-lhe as mãos e a certeza de que, no Oeste, coragem e inteligência não eram histórias para contar — eram ferramentas para sobreviver.