A Lara tinha quatro anos e um sorriso grande. Naquela manhã, ela acordou e disse bem alto: “Hoje é o Dia do Pai!”
O papá estava na cozinha a fazer café. Ele bocejou e riu. “Bom dia, minha estrela.”
A Lara correu até ele e abraçou a perna dele, porque a perna era mais fácil do que o pescoço. “Papá, eu quero fazer uma surpresa!”
O papá piscou um olho. “Uma surpresa? Ui. Isso faz cócegas no meu coração.”
A Lara gostou dessa frase. Cócegas no coração! Ela repetiu baixinho, como uma canção: “Có-ce-gas no co-ra-ção.”
Depois do pequeno-almoço, o papá foi regar as plantas na varanda. A Lara foi ao quarto dela procurar ideias. Abriu a caixa dos brinquedos. Fechou. Abriu a gaveta das meias. Fechou. Olhou para a estante.
E viu uma caixa velha, de cartão, com uma fita azul. Ela nunca tinha visto aquela caixa ali.
A Lara puxou a caixa com cuidado, como se fosse uma coisa muito especial. A fita fez “fff” quando deslizou.
Lá dentro, havia fotos antigas. E havia um objeto pequeno: um carrinho de metal, vermelho, com uma roda meio torta e um pouco de pó.
A Lara arregalou os olhos. “Uau… um carrinho!”
Ela levou o carrinho até à sala, bem devagar, para não o acordar… mas o carrinho não dormia. Mesmo assim, ela foi devagar.
A avó estava sentada no sofá a tricotar. A avó morava perto e tinha vindo passar o dia.
“Avó, olha!” sussurrou a Lara, como se estivesse a mostrar um tesouro.
A avó sorriu. “Oh! Esse carrinho… eu conheço.”
“De quem é?” perguntou Lara.
“Era do teu papá, quando ele era pequenino. Ele adorava esse carrinho. Fazia corridas na mesa: vrum-vrum, vrum-vrum.” A avó fez o som e riu.
A Lara pôs o carrinho na palma da mão. Era frio e pesado, como uma moeda grande. Ela olhou para a roda torta. “Está triste.”
“Não está triste,” disse a avó, com voz doce. “Está só velhinho. E os velhinhos gostam de carinho.”
A Lara pensou. O Dia do Pai precisava de carinho. Precisava de uma surpresa. E agora ela tinha uma ideia brilhante, como uma estrela de manhã.
“Eu vou cuidar dele!” disse Lara. “Para o papá!”
A avó inclinou-se. “Boa ideia. Vamos limpar e deixar bonito. Com calma.”
A Lara e a avó foram para a mesa da cozinha. A avó trouxe um pano macio, um cotonete e uma tigela com água morna e um pinguinho de sabão. A Lara trouxe o carrinho, com as duas mãos.
A Lara molhou a ponta do pano. Limpou devagar. O pó saiu em risquinhos cinzentos.
“Olha!” disse ela. “Está a ficar vermelho de novo!”
“Está sim,” respondeu a avó. “Vermelho, vermelho, como um tomate contente.”
A Lara riu. “Tomate contente!”
Com o cotonete, ela limpou as partes pequeninas. A roda torta ainda estava torta, mas agora brilhava. A avó apertou um bocadinho com cuidado, só um bocadinho.
A Lara soprou: “Fuuuuu.” E o carrinho pareceu respirar.
“Pronto,” disse a Lara. “Agora está feliz.”
A avó piscou. “Agora está limpinho. E isso já é um abraço.”
A Lara queria fazer mais. Porque o Dia do Pai era um dia grande, mas feito de coisas pequenas. Ela olhou para a avó. “Também quero fazer um tabuleiro para o papá.”
“Um tabuleiro?” a avó perguntou. “Que lindo. Um tabuleiro com coisas boas.”
A Lara colocou as mãos na cintura. “Tem de ser um tabuleiro equilibrado!”
A avó levantou as sobrancelhas, divertida. “Equilibrado? Quem te ensinou essa palavra?”
A Lara apontou para a barriga. “A minha barriga ensina. Ela diz quando quer fruta e quando quer pão.”
A avó riu baixinho. “Então vamos ouvir a barriga.”
Elas abriram o frigorífico. A Lara viu iogurte. Viu morangos. Viu queijo. Viu ovos. Na fruteira, havia uma banana e uma maçã.
“Vamos escolher,” disse a avó.
A Lara falou como uma pequena chefe. “Um bocado de fruta. Um bocado de pão. Um bocado de proteína.” Ela disse “pro-te-í-na” bem devagar, para não cair no chão.
A avó ajudou a cortar a banana em rodelas. A Lara colocou as rodelas num prato pequeno. Depois lavaram morangos. A Lara cheirou um. “Cheira a verão!”
“Cheira,” disse a avó. “E o verão faz sorrir.”
A avó fez uma sandes pequena com pão e queijo. A Lara pôs ao lado, bem direitinho.
Depois a avó cozeu um ovo. A Lara ficou a ver a água a fazer bolhinhas. “A água está a dançar.”
“Está,” disse a avó. “Dança para cozinhar o ovo.”
Quando o ovo ficou pronto, a avó descascou e cortou ao meio. A Lara colocou no tabuleiro, como se fosse uma lua branca.
Também puseram um copo de leite. E um guardanapo com um desenho. A Lara desenhou um coração grande e, dentro, fez um carrinho pequenino com duas rodas redondas.
“Agora falta o presente secreto,” disse a Lara, e apontou para o carrinho de metal.
Ela pegou numa caixa pequena. Forrou com papel colorido. A avó ajudou a fazer um laço de fita azul, igual ao da caixa antiga.
A Lara falou com o carrinho, bem baixinho: “Tu vais fazer o papá lembrar. Vais dizer ‘eu gosto de ti' sem palavras.”
A avó deu um beijinho na testa da Lara. “Que bonito.”
O papá entrou na cozinha, cheirando a plantas molhadas. “Que cheiro bom! O que se passa aqui?”
A Lara fez cara de mistério. “Nadaaaaa.”
O papá riu. “Nada com cheiro a morango? Hum…”
A avó levou o papá para a sala. “Vai sentar-te um bocadinho. A Lara está em missão.”
A Lara empurrou o tabuleiro com cuidado. O tabuleiro parecia um barquinho. Ela caminhou devagar, devagar, com a língua de fora, concentrada.
“Papá,” disse ela, orgulhosa. “Feliz Dia do Pai!”
O papá abriu a boca num sorriso enorme. “Oh, Lara…”
Ela colocou o tabuleiro na mesinha. “É equilibrado. Tem fruta, tem pão, tem ovo, tem leite. E tem amor.”
O papá levou a mão ao peito. “Ai. Mais cócegas no coração.”
A Lara bateu palminhas. “Cócegas no coração! Eu sabia!”
“E isso aí?” perguntou o papá, apontando para a caixa com o laço azul.
A Lara empurrou a caixa para ele. “Abre.”
O papá abriu devagar. Quando viu o carrinho vermelho, os olhos dele ficaram brilhantes, como se tivessem uma gotinha de chuva feliz.
“Meu carrinho…” ele murmurou. “Eu tinha esquecido.”
A Lara subiu para o colo dele. “Eu encontrei. Estava com pó. Eu lavei. E a roda… ainda é um bocadinho torta, mas eu acho que é uma roda sorridente.”
O papá riu e fez “vrum-vrum” com a boca, igual à avó. Depois apertou a Lara num abraço quente e calmo.
“Obrigada, minha filha,” disse ele. “Este carrinho tem história. Ele andou comigo quando eu era pequeno. Agora ele fica aqui, pertinho, para eu lembrar… de mim e de nós.”
A Lara encostou a cabeça no peito do papá. O peito dele fazia tum-tum. Era um som bom, como tambor de festa.
O papá pegou num morango. “Vamos partilhar?”
“Vamos!” disse a Lara. E depois, para ter graça, ela disse ao morango: “Não fujas, morango!” O papá riu tanto que quase derrubou o guardanapo.
A avó sentou-se ao lado. Os três comeram devagar, sem pressa. A luz entrava pela janela, amarela e mansa.
Depois, o papá colocou o carrinho vermelho numa prateleira baixa, onde a Lara também podia ver. “Aqui ele fica. Para eu olhar todos os dias.”
A Lara ficou a olhar para o carrinho. Ele brilhava um pouquinho, como se tivesse acordado.
O papá beijou a testa dela. “O melhor presente és tu.”
A Lara suspirou, feliz e quentinha. “E o melhor papá és tu.”
E o Dia do Pai continuou assim: com risos pequenos, comida gostosa, memórias antigas a brilhar, e um carrinho vermelho a dizer, em silêncio, “eu amo-te”, “eu amo-te”, “eu amo-te”.