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História sobre a festa de ano novo 9 a 10 anos Leitura 8 min.

O bocal da gratidão

Tomás organiza uma festa de Ano Novo com um "bocal da gratidão" onde a família e vizinhos deixam bilhetes agradecendo pequenas e grandes coisas, enquanto ele cuida de cada detalhe do ritual com ternura e cuidado.

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Um menino de 10 anos, rosto rondo e sardas, cabelo castanho desgrenhado e olhos brilhantes, segura com as duas mãos um grande pote de vidro cheio de papéis coloridos e o ergue para o céu; ao fundo à esquerda a mãe (cerca de 35 anos) com os cabelos presos sorri ternamente com as mãos junto ao peito, à direita o pai (cerca de 38 anos) de barba curta e suéter azul abraça a irmã mais nova que pula sorrindo, e a avó idosa sentada numa cadeira de madeira levanta a mão emocionada; é meia-noite num jardim decorado com guirlandas de luzes amarelas e fitas coloridas, uma mesa com pratos e biscoitos, chão de cascalho e alguns almofadões, fogos de artifício coloridos explodem num céu estrelado e as luzes quentes se refletem no vidro do pote criando uma atmosfera festiva e terna. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O plano do bocal

Tomás tinha um caderno onde desenhava regras, listas e mapas de ideias. Aí cabiam desenhos de foguetes, esquemas para organizar o quarto e, naquele dezembro, um plano inteiro para a melhor festa de Ano Novo do mundo. Ele tinha nove anos, um cabelo rebelde que insistia em apontar para o lado direito e um sorriso que aparecia primeiro nos olhos. Era cuidadoso com os detalhes: cada canudo colorido devia combinar com uma taça, cada luzinha pendurada com uma fita.

— Mãe, vou precisar de um bocal de vidro grande — anunciou, apontando para uma página onde havia o desenho de um jarro com estrelas coladas.

— Bocal de vidro? Para quê, querido? — perguntou a mãe, enchendo uma tigela de uvas.

— É um bocal de gratidão! Antes da meia-noite, todo mundo escreve uma coisinha boa e coloca dentro. Assim o ano novo entra com lembranças felizes — explicou ele, sério como um pequeno cientista.

O pai riu e ofereceu a maior caneca, como teste. A avó trouxe um pote antigo que cheirava a biscoito. Tomás escolheu o que parecia um farol — alto, transparente, com tampa de metal que brilhava como promessa. Ele desenhou etiquetas: “Medos”, “Sonhos”, “Agradecimentos” — e depois riscou “Medos”, deixando só agradecimentos. Para Tomás, agradecimento não precisava ser complicado: podia ser um desenho, uma palavra, um segredinho dito em voz baixinha.

Capítulo 2 — O convite e a preparação

No dia 31, Tomás correu pela casa com convites feitos em papel colorido. Escreveu frases engraçadas, como “Traga seu melhor sorriso, seu pior trocadilho e uma palavra feliz”. Ele colocou os convites no correio, na porta dos vizinhos e até na caixa de correio de um gato preto que morava na esquina — o gato olhou, indiferente, e pediu uma ração por atenção.

A casa encheu-se de pequenos rituais. A avó fez bolinhas de massa para enfeitar a mesa; o pai pendurou luzinhas que piscavam em ritmos diferentes, e a mãe preparou uma playlist com músicas que dançavam entre velhas canções e novos ritmos. Tomás tinha uma lista de instruções para a família: uma para escolher canções, outra para a hora dos fogos (no quintal, com distância e cuidado), e uma terceira para o bocal. Ele explicou, com gestos elaborados, que cada bilhete deveria ser dobrado duas vezes — porque dobrar era como embrulhar o sentimento — e depositado com um beijo no vidro, por costume que ele inventara ali mesmo.

— E se eu esquecer? — perguntou a irmã mais nova, com cara de quem estava prestes a esquecer.

— Temos lembretes pelo caminho — disse Tomás, colocando post-its coloridos: “bocal!” na geladeira, no espelho do banheiro e até na barriga do urso de pelúcia. Ele era tão meticuloso que até os post-its tinham setas.

Capítulo 3 — Segredos no papel

Conforme a noite caía, vizinhos chegaram com potes de coisas doces e histórias prontas. Havia risadas soltas na cozinha e um cheiro de canela que fazia todos suspirar. Tomás ficou de guardião do bocal, com uma lanterna pequena pendurada no pescoço e uma faixa improvisada: “Guardião da Gratidão”.

Um por um, os convidados se aproximaram do bocal. A tia colocou um bilhete agradecendo por ter aprendido a ligar para quem mora longe. O carteiro, com mãos calejadas, desenhou um pequeno caminhão e escreveu “pôr cartas no caminho”. A vizinha, que sempre trazia flores tropicais, deixou um papel em que havia só a palavra “respeito” rodeada de corações. A irmã desenhou um sorvete, porque agradecia por todos os sabores que experimentara no ano. Cada bilhete fazia o bocal ficar menos vazio e mais brilhante, como se fosse um pequeno planeta cheio de memórias.

Tomás leu alguns bilhetes em voz baixa, guardando silêncio para os que preferiam o segredo. Ele, que era detalhista, percebeu algo simples e bonito: alguns agradecimentos eram grandes como estações, outros pequenos como pedras de rio, e todos tinham o mesmo brilho. Ele riu quando encontrou um bilhete que dizia “obrigado por me ensinar a andar de bicicleta (sem esbarrar no muro)”, com um desenho do muro um pouco torto. Ao colocar seus próprios bilhetes, Tomás escreveu coisas que às vezes lembrava em voz alta: “obrigado por cada manhã de vôo no balanço, obrigado pela paciência de quem me aguarda nas provas, obrigado por ter um lar onde a panela canta.” Ele dobrou o papel duas vezes, beijou e depositou no bocal, satisfeito.

Capítulo 4 — Meia-noite e um obrigado ao céu

Quando os últimos minutos se aproximaram, a família saiu para o quintal, embrulhada em cachecóis e luzes. Havia um silêncio de coceira de comemoração, como se a respiração de todos esperasse o sinal. Tomás segurou o bocal perto do peito; o vidro, aquecido pela mão de tantas pessoas, parecia bater um coração próprio.

— Vamos contar juntos — sussurrou a mãe.

Dez, nove, oito… os vizinhos contaram com vozes trêmulas de alegria. No instante exato em que as doze badalavam, fogos coloridos riscaram o céu como pinceladas de geléia. Havia risos, abraços e um som de palmas que pareciam aplausos para o mundo. Tomás, emocionado, ergueu o bocal para o alto e disse, com uma voz firme e menina de vento:

— Obrigado, mundo. Obrigado, família. Obrigado ao céu.

As palavras saíram simples, e o céu respondeu com um estrondo de estrelas e luzes que piscavam como se também tivessem lido os bilhetes. A irmã pulou nos braços do pai; a avó molhou os olhos; a mãe virou a cabeça para contar as estrelas. E, por um instante, tudo pareceu enrolado num laço dourado de respeito e ternura.

Depois do barulho, conforme a noite acalmava, Tomás abriu o bocal. Não para ler os bilhetes de novo — alguns segredos devem ficar só entre o coração e o vidro —, mas para sentir o perfume das palavras dentro. Uma brisa atravessou o quintal, leve, como se o céu tivesse sussurrado: “sou testemunha”.

Antes de voltar para dentro, Tomás olhou para cima, fez um gesto pequeno com a mão e murmurou outra vez, agora só para ele:

— Obrigado ao céu.

E guardou o bocal no armário da sala, prometendo que no próximo fim de ano haveria outro ritual, talvez com desenhos de nuvens desta vez. A cada novo ano, pensou ele, as palavras dentro do vidro cresciam como raízes em solo bom — e, quando o mundo apertasse, bastaria abrir o bocal para lembrar que o respeito, o cuidado e a gratidão sempre cabiam em pedacinhos de papel dobrados duas vezes.

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Bocal
Recipiente de vidro com boca larga, usado para guardar papéis ou objetos.
Gratidão
Sentimento de agradecer por algo bom que aconteceu ou por alguém.
Jarro
Recipiente de vidro ou cerâmica, parecido com um pote grande.
Tampa de metal
Peça de metal que fecha a boca de um recipiente para proteger o conteúdo.
Etiquetas
Pequenos papéis ou adesivos usados para escrever nomes ou classificações.
Dobrado duas vezes
Papel que foi dobrado em duas partes, ficando menor e mais fechado.
Cachecóis
Lenços quentes que se usam no pescoço para proteger do frio.
Guardião da Gratidão
Pessoa que cuida do bocal e protege as mensagens de agradecimento.
Meticuloso
Pessoa que presta muita atenção aos detalhes e faz tudo com cuidado.
Testemunha
Alguém ou algo que vê ou prova que um fato aconteceu.

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