Capítulo 1: Uma carta com cheiro a fogos
A Leonor tinha 9 anos e um talento especial para três coisas: fazer tranças muito apertadas, rir com os olhos e pregar partidas que nunca magoavam ninguém — só deixavam toda a gente a dizer “Ai, esta miúda!”
Na manhã de 31 de dezembro, a casa cheirava a canela e a laranja. A mãe mexia um tacho e dizia que o jantar de Ano Novo tinha de ficar “com cara de festa”. O pai tentava pendurar uma grinalda na janela e discutia com a fita-cola.
“Pai, a fita-cola está ao contrário”, avisou a Leonor.
“Fita-cola ao contrário? Isso existe?”
A Leonor encolheu os ombros, com um sorriso de quem sabe mais do que devia. E foi aí que a campainha tocou.
Era o carteiro, com um envelope azul, cheio de selos. A Leonor agarrou-o como se fosse um bilhete para um planeta novo.
“É da Maya!” disse, sem precisar de ler o nome.
A Maya era a amiga dela que vivia no estrangeiro, numa cidade onde, segundo as mensagens, neva tão alto que os bancos ficam com gorros brancos. Tinham-se conhecido num verão, quando a Maya veio visitar os avós. Desde então, trocavam cartas e fotografias, como duas exploradoras a comparar mapas.
A Leonor abriu o envelope com cuidado — mais ou menos. Dentro vinha uma carta e uma fotografia: a Maya com um casaco enorme, a fazer uma careta ao lado de um boneco de neve.
A Leonor leu em voz alta, porque as palavras pareciam querer saltar:
“Leonor! Aqui, no Ano Novo, fazemos uma contagem decrescente muito barulhenta e, à meia-noite, beijamos quem estiver perto (às vezes é a avó, o que é estranho e engraçado). Também escrevemos desejos num papel e guardamos num frasco. E há uma tradição: comer 12 uvas à meia-noite, uma por cada mês, para ter sorte. Já tentaste? Mando-te ideias e quero as tuas! Feliz quase-Ano Novo!”
A Leonor ficou de olhos redondos. “Doze uvas? Isso é uma corrida!”
A mãe riu-se. “Aqui também se come uvas, às vezes passas. Mas doze à pressa… é um desafio.”
A Leonor sentiu uma vontade enorme de responder já. Pegou no caderno e escreveu:
“Querida Maya: Aqui também fazemos contagem decrescente e damos abraços, e há pessoas que sobem para cima de uma cadeira para ‘entrar no ano com o pé direito'. Eu já tentei… mas uma vez entrei com o pé esquerdo sem querer e o ano não caiu ao chão, por isso acho que funciona na mesma. Também usamos roupa interior azul para dar sorte (não perguntes porquê, ninguém sabe explicar sem rir). Vou propor uma festa misturada: as tuas ideias e as minhas, tudo junto. E vou preparar uma surpresa. Prometo que não explode (muito).”
Assinou com um desenho de uma uva a fazer ginástica.
Quando acabou, sentiu aquela coisa boa no peito: curiosidade. Como seria o Ano Novo da Maya, com neve e frascos de desejos? E como seria o dela se juntasse tudo, como uma receita?
“Vou fazer a melhor passagem de ano do mundo”, declarou.
O pai, ainda a lutar com a fita-cola, perguntou: “Com ou sem o pé direito?”
“Com os dois, para não haver discussões”, respondeu ela.
Capítulo 2: O plano das duas meias-noites
À tarde, a Leonor espalhou papéis pela mesa da sala. Escreveu no topo: “Festa Misturada — Projeto Secreto”.
A mãe espreitou. “Projeto? Isto parece coisa de cientista.”
“Sou cientista do Ano Novo”, disse a Leonor, muito séria. “Vou misturar tradições e criar uma coisa nova. Tipo… um bolo de três camadas, mas sem forno.”
A primeira camada era “Rituais”. Ela fez uma lista:
1) Contagem decrescente barulhenta.
2) 12 uvas à meia-noite.
3) Subir para uma cadeira e entrar com o pé direito.
4) Frasco de desejos da Maya.
5) Roupa interior azul (opcional, porque a Leonor achava isto divertido demais para ser obrigatório).
6) Uma surpresa.
A surpresa era o problema… e a parte mais gostosa do plano.
A Leonor tinha uma máquina fotográfica instantânea que o tio lhe dera. Saíam fotos pequeninas, quentinhas, como torradas de imagem. E ela tinha fita adesiva colorida, molas de madeira e um rolo de papel kraft.
“Vou fazer um muro de fotos”, sussurrou, como se estivesse a contar um segredo às paredes. “No fim, fica tudo lá, como se o Ano Novo tivesse uma memória.”
Mas queria mais. Queria um toque de maravilhoso. Não um dragão, porque a mãe ia perguntar como é que se alimenta um dragão na sala. Um toque pequeno, possível, mas com brilho.
Lembrou-se então de uma coisa: no Natal, tinham guardado um punhado de confetes dourados que sobraram. Confetes são como estrelas cortadas em miniatura.
“Já sei!” disse.
Foi até ao quarto, pegou numa caixa de sapatos e escreveu na tampa: “Caixa de Risinhos — abrir à meia-noite”.
Dentro, colocou:
— confetes dourados,
— papéis dobrados com piadas pequenas (“Porque é que a uva atravessou a estrada? Para chegar ao outro mês!”),
— e uma nota: “Se isto cair na cabeça de alguém, é sorte extra.”
A Leonor riu sozinha. A melhor parte de uma partida é quando ela é mais carinhosa do que trapalhona.
Depois, ligou o computador e enviou uma mensagem para a Maya, que respondeu mais tarde (por causa do fuso horário). A resposta veio com letras saltitantes:
“AMEI a ideia! Aqui também fazemos ‘toasts' com sumo e fazemos barulho com panelas (os vizinhos reclamam). Quero ver o teu muro de fotos! Faz um por mim!”
A Leonor apontou “panelas” na lista.
O pai apareceu com uma escada pequena. “Leonor, emprestas-me a tua fita colorida? A fita-cola desistiu de mim.”
Ela deu-lhe a fita e disse: “Pai, hoje ninguém desiste. Hoje é dia de entrar no ano com… coragem.”
O pai piscou o olho. “Isso parece uma tradição boa.”
A Leonor sorriu. Estava a construir uma festa como quem constrói uma ponte: de uma casa para outra, de um país para outro, de um ano para o seguinte.
Capítulo 3: Uvas velozes e desejos no frasco
Quando a noite chegou, as luzes da rua pareciam mais brilhantes, como se também estivessem a vestir roupa de festa. Na sala, a mesa tinha pratos, guardanapos com desenhos de estrelas e uma taça enorme cheia de uvas lavadas e brilhantes.
A Leonor olhou para as uvas e falou com elas, muito baixinho: “Vocês não me vão vencer.”
A mãe trouxe um frasco de vidro vazio, muito limpo, com uma fita azul à volta. “O frasco dos desejos. Como a Maya faz.”
A Leonor bateu palmas. “Perfeito!”
Cada pessoa escreveu um desejo num papel. A mãe escreveu devagar, com letra caprichada. O pai mordeu a ponta da caneta, como se o desejo precisasse de ser cozinhado primeiro. A Leonor escreveu o dela com pressa, mas depois voltou atrás e fez um coração no canto.
“Posso ler?” perguntou ela.
“Os desejos são secretos”, disse a mãe. “Para eles poderem crescer sem vergonha.”
“Ok, ok. Sem vergonha.” A Leonor dobrou o papel até ficar do tamanho de uma ervilha e atirou-o para dentro do frasco. Caiu com um som pequenino: ploc. Parecia um peixinho a mergulhar.
A certa altura, o pai lembrou-se: “E a cadeira? Quem vai subir?”
“Eu!” disse a Leonor, já a arrastar uma cadeira para perto da janela.
“Com cuidado”, avisou a mãe.
A Leonor subiu, com as mãos na cintura, como uma capitã a preparar-se para conquistar o Ano Novo.
“Leonor, não te esqueças: pé direito”, disse o pai, divertido.
“Eu sei, eu sei.” Ela levantou o pé direito no ar e ficou ali, congelada, como uma estátua engraçada.
“Parece um flamingo”, comentou o pai.
“Flamingos têm sorte?” perguntou a Leonor.
“Se não tiverem, inventamos agora”, disse a mãe.
A televisão mostrava um relógio enorme. Ainda faltavam alguns minutos. O pai foi buscar duas panelas e duas colheres de pau.
“Aprendi com a Maya: barulho!” anunciou.
A mãe fez cara de quem não sabia se queria rir ou mandar calar. Acabou por rir.
“Mas só um bocadinho”, disse ela. “Os vizinhos também têm desejos.”
A Leonor correu ao quarto, pegou na “Caixa de Risinhos” e escondeu-a atrás do sofá. O coração dela batia como um tambor pequenino.
E então, começou a contagem.
“Dez! Nove! Oito!” gritaram os três, e a Leonor quase tropeçou na própria emoção.
“Sete! Seis! Cinco!”
O pai já tinha as panelas prontas, como um músico de orquestra maluca.
“Quatro! Três! Dois! Um!”
À meia-noite, a sala encheu-se de barulho: panelas, risos, palmas. A Leonor saltou da cadeira, pisou o chão com o pé direito com tanta força que parecia que estava a carimbar o Ano Novo.
“Feliz Ano Novo!” gritaram.
Abraçaram-se. A mãe cheirava a canela. O pai cheirava a sabonete e a panelas. A Leonor cheirava a shampoo de morango e a aventura.
“Agora as uvas!” lembrou a Leonor, apontando para a taça como se fosse um tesouro.
Pegaram cada um em doze uvas. A Leonor contou as dela: “Uma, duas… doze. Ok. Preparadas para a corrida?”
“Preparadas”, disse a mãe, já a rir antes de começar.
A Leonor meteu a primeira uva na boca. Era doce e fria. A segunda escorregou. A terceira quase foi sem mastigar. A quarta… ficou presa num pensamento.
“Espera!” engasgou-se ela, mas de um jeito dramático, não perigoso. “É difícil ter sorte e mastigar ao mesmo tempo!”
O pai tentou ajudar: “Pensa em meses pequenos!”
“Fevereiro é pequeno!” disse a Leonor, e conseguiu.
A mãe, com a sua calma, foi comendo devagar e mesmo assim parecia estar a ganhar.
Quando chegaram à uva doze, a Leonor levantou as mãos como se tivesse vencido uma maratona.
“Sobrevivi!” declarou. “Tenho sorte até 2030!”
“Isso não é assim que funciona”, disse a mãe.
“É assim que eu decidi que funciona”, respondeu a Leonor.
E todos riram, com aquela alegria leve de quem começou o ano com gargalhadas.
Capítulo 4: A caixa de risinhos e um bocadinho de magia
Depois das uvas, a Leonor fez sinal para os pais se aproximarem. Os olhos dela brilhavam como luzes de Natal que se recusam a apagar.
“Agora… a surpresa”, anunciou.
Tirou a “Caixa de Risinhos” de trás do sofá e colocou-a no centro da mesa como se fosse um bolo invisível.
“O que é isso?” perguntou o pai.
“Uma tradição nova”, disse ela. “Da nossa casa. Abre, mãe.”
A mãe levantou a tampa devagar. Por um segundo, pareceu que o ar ficou mais silencioso, como quando alguém abre um livro muito bom.
Lá dentro estavam os confetes dourados, as piadas dobradas e uma pequena lanterna que a Leonor tinha escondido, apontada para o fundo da caixa. A luz batia nos confetes e fazia-os brilhar, como se houvesse um punhado de estrelas acordadas ali dentro.
“Uau…” disse a mãe.
“Eu sabia!” disse a Leonor. “Parece magia, mas é só… engenho.”
O pai pegou num confete e soprou. Ele voou devagar, rodopiando, e caiu no cabelo da mãe.
“Pronto”, disse o pai. “Agora a mãe está oficialmente com sorte extra.”
A mãe fingiu que ficou muito importante. “Claro. Eu sou a Rainha do Confete.”
A Leonor abriu as piadas. Cada um tirou um papel ao acaso.
O pai leu: “Se a minha panela falar, eu prometo ouvir. (Mas só até ao almoço.)”
A mãe leu: “Este ano vou dançar quando estiver a dobrar roupa. Assim parece menos trabalho.”
A Leonor leu a dela e fez uma voz solene: “Desejo que a curiosidade nunca me acabe.”
A mãe olhou para ela, com um carinho que parecia um cobertor. “Esse é um desejo bonito.”
A Leonor encolheu os ombros, mas por dentro sentiu-se grande. Curiosidade era isso: vontade de saber como é o mundo, e também vontade de o inventar um bocadinho.
De repente, a Leonor lembrou-se da Maya. “Ela ainda não está à meia-noite, por causa do horário!”
O pai olhou o relógio. “Ainda faltam umas horas lá.”
A Leonor teve uma ideia. Pegou no telemóvel da mãe (com permissão) e gravou um vídeo curtinho: os três com confetes no cabelo, a mesa com uvas e o frasco de desejos ao fundo.
“Olá, Maya! Aqui já é Ano Novo! Fizemos as uvas, o frasco, barulho com panelas e… uma caixa de risinhos com estrelas! Mostro-te tudo no muro de fotos!”
O pai entrou no vídeo e bateu de leve nas panelas: “Feliz Ano Novo antecipado!”
A mãe abanou a fita azul do frasco: “Que os teus desejos encontrem o caminho.”
A Leonor enviou o vídeo e ficou a olhar para o ecrã como se pudesse ver a neve da Maya através dele.
Lá fora, ouviam-se fogos ao longe. No escuro da janela, as luzes abriam flores rápidas no céu, como se o ano estivesse a pintar sem parar.
“Parece que o céu está a celebrar connosco”, sussurrou a Leonor.
“E está”, disse a mãe. “À maneira dele.”
A Leonor pensou que a passagem de ano era isso: um momento em que o comum e o maravilhoso se encostam um ao outro, como duas pessoas num sofá, a partilhar uma manta.
Capítulo 5: O muro de fotos que segurou o tempo
No dia seguinte, o sol entrou pela sala com preguiça, mas a casa ainda estava cheia de restos de festa: uma fita aqui, um confete ali, o frasco de desejos a brilhar em cima da estante.
A Leonor levantou-se cedo — o que, para ela, era um milagre do próprio Ano Novo. Tinha um plano final.
Espalhou o papel kraft na parede do corredor, aquele corredor que toda a gente atravessava mil vezes por dia sem reparar. Prendeu-o com fita colorida e escreveu, no canto, com letra grande: “Lembranças” (sem título pomposo, porque ela achava que as lembranças já eram importantes sozinhas).
Depois pegou na máquina fotográfica instantânea.
“Venham cá!” chamou.
O pai apareceu com o cabelo despenteado. “Isto é uma emergência?”
“Sim. Uma emergência de memória”, disse a Leonor.
Tirou uma foto ao frasco de desejos. A fotografia saiu, ainda pálida. A Leonor abanou-a no ar.
“Não se abana muito”, avisou a mãe, que tinha lido isso num sítio.
“Eu abanarei com moderação”, respondeu a Leonor, abrandando como se estivesse a embalar um passarinho.
Tirou uma foto às uvas que sobraram, alinhadas como um exército doce. Tirou uma foto às panelas (o pai fez pose de maestro). Tirou uma foto à “Caixa de Risinhos” aberta, com confetes a brilhar. Tirou uma foto aos três juntos, apertados, a fazer caretas.
“Agora, uma para a Maya”, disse a Leonor.
Pegou num postal que tinha guardado e colou uma fotografia pequena: o frasco de desejos com a fita azul.
Escreveu: “Isto ficou na nossa casa a guardar desejos. O teu desejo também está aqui, mesmo sem eu saber qual é.”
A mãe trouxe o computador e mostrou uma mensagem nova da Maya. Tinha chegado durante a noite.
“LEONOR! Eu vi o vídeo! Adorei a caixa de estrelas! Aqui foi meia-noite e comi as 12 uvas — engasguei-me na uva do ‘abril' e a minha mãe riu-se muito. Também fizemos o frasco. Vou fazer um muro de fotos também! Olha: envio-te uma foto da neve na janela e das minhas uvas. Para colares aí!”
Junto à mensagem havia duas fotos: a janela com neve e uma mão com uvas, com unhas pintadas de azul.
A Leonor imprimiu as fotos (com ajuda) e colou-as no muro. Ao lado, desenhou uma pequena ponte e escreveu: “Daqui até lá”.
“Pronto”, disse ela, recuando para ver. O corredor parecia outro: mais vivo, como se tivesse histórias penduradas.
O pai cruzou os braços. “Então este é o nosso… museu?”
“É um muro de fotos”, corrigiu a Leonor. “Mas pode ser museu, se quiseres falar com voz importante.”
O pai fez voz importante: “Senhoras e senhores, à vossa esquerda, a panela histórica do Ano Novo.”
A mãe riu. “E à vossa direita, a Leonor, a guia mais farceira.”
A Leonor fez uma vénia. “Obrigada. A curiosidade é a entrada. E é grátis.”
Ficaram ali um momento, a olhar. As fotos não se mexiam, mas parecia que guardavam o som das risadas e o brilho dos fogos. A Leonor pensou que o ano novo não era só uma data. Era uma coleção de instantes que se podiam partilhar, misturar e transformar.
No fim, ela encostou a cabeça ao ombro da mãe e disse: “Para o próximo Ano Novo, podemos inventar outra tradição?”
A mãe beijou-lhe o cabelo. “Podemos. E até lá, vamos ter muitas coisas para descobrir.”
A Leonor olhou para a foto da neve da Maya e para a foto do confete dourado da sua caixa. Tão longe e tão perto, tudo junto na mesma parede.
“Então está decidido”, disse ela, com um sorriso traquinas e feliz. “Este ano vai ser enorme.”