Capítulo 1: A Porta do Ateliê e o “Bom Dia” em Cor
A Leonor tinha 10 anos, sardas no nariz e uma vontade enorme de meter o pincel onde não devia. O ateliê de pintura da dona Celeste cheirava a tinta fresca, a papel molhado e a aventuras que não pediam licença.
— Bom dia, dona Celeste! — disse a Leonor, bem alto, como se o “bom dia” fosse um balde de tinta que se atira para começar o dia.
— Bom dia, menina Leonor. Obrigada por chegares com essa energia… mas, por favor, sem pintar o teto hoje — respondeu a dona Celeste, sorrindo com cuidado, como quem já viu tetos em apuros.
Atrás da Leonor entrou o Tomás, que tinha 10 anos e um ar de quem ia tropeçar numa ideia a qualquer momento.
— Bom dia! Com licença… eu trouxe bolachas. Para partilhar.
A seguir veio a Rita, 9 anos, super rápida, super curiosa, e com dois elásticos no pulso como se fossem pulseiras de missão.
— Olá! Bom dia! Posso ser a encarregada das cores brilhantes?
E, por fim, o Diogo, 10 anos, que falava pouco, mas quando falava era certeiro:
— Bom dia. Prometo não encostar em nada… muito.
A Leonor bateu palmas.
— Hoje vamos fazer duos misturados! Tipo… dupla surpresa! Eu com o Tomás, Rita com o Diogo. Ou ao contrário. Ou aos ziguezagues!
— “Ziguezagues” não é um tipo de dupla — murmurou o Diogo.
— Ainda não. Mas pode ser — respondeu a Leonor, piscando um olho.
A dona Celeste apontou para uma mesa grande cheia de folhas, potes de água e pincéis arrumados como soldados.
— O desafio de hoje é pintar um cartaz para a feira da escola. Tem de ser alegre, legível e… por favor… sem pegadas de tinta.
— Sem pegadas? — repetiu a Rita, olhando para os próprios ténis como se eles tivessem planos.
A Leonor sorriu. Parecia fácil. Era aí que as coisas costumavam dar errado. Ou melhor: dar certo… de um jeito muito engraçado.
Capítulo 2: O Mistério do Pote que “Fala”
Os duos ficaram assim: Leonor com o Tomás para desenhar o fundo, Rita com o Diogo para escrever as letras gigantes.
— Tomás, tu fazes nuvens fofas e eu faço um arco-íris que não cabe na folha — decidiu a Leonor.
— Com licença… o arco-íris precisa caber — lembrou o Tomás, com a educação de quem pede desculpa até à mesa.
A Rita já tinha um pincel como se fosse uma espada.
— Diogo, tu és bom com letras certinhas. Eu faço estrelas a explodir… de alegria.
— Estrelas não explodem. — O Diogo pegou no lápis. — Mas podem brilhar.
Começaram. Pincel para cima, pincel para baixo. Um “shhh” da água no pote. Um “toc toc” dos pincéis no vidro.
Foi então que o pote de água… fez “BLUP”.
— Ouviram? — sussurrou a Leonor.
“BLUP”.
O Tomás aproximou-se, muito sério.
— Com licença, pote… estás bem?
A Rita riu.
— O Tomás a falar com um pote! Isso é novo.
“BLUP… BLUP.”
O Diogo inclinou-se, desconfiado.
— Deve ser uma bolha.
— Ou um peixe invisível — disse a Leonor, já com os olhos a brilhar de traquinice.
— Peixe invisível chama-se… — a Rita fez uma pausa dramática — O Senhor Bolhitas!
— Senhor Bolhitas, com licença, pode parar de interromper o trabalho? — pediu o Tomás, muito educado.
E, como se tivesse ouvido, o pote fez “BLUUUP” ainda mais alto. A água tremeu. O pincel da Leonor escorregou. E um fio de tinta azul caiu no cartaz, bem em cima da palavra “FEIRA”.
Agora dizia: “F—EIRA”, com um risco que parecia um bigode.
A Leonor tapou a boca para não rir. Falhou.
— Parece que a feira ganhou bigode!
O Diogo tentou manter a cara séria. Tentou. Só que o “F” bigodudo era mesmo ridículo.
— Podemos… transformar isso numa coisa — disse ele, com um sorriso a nascer.
— Sim! — a Rita apontou. — Um “F” com bigode de festa!
— Com licença… e se a dona Celeste não gostar de bigodes? — perguntou o Tomás.
— Então fazemos um bigode muito educado — disse a Leonor. — Um bigode que pede desculpa.
Capítulo 3: Duos Trocados e a Corrida do Pincel Fugitivo
A dona Celeste aproximou-se para ver o progresso.
A Leonor endireitou-se como uma artista importante.
— Dona Celeste, aconteceu uma… pequena… bolha com personalidade.
— Uma bolha com personalidade? — repetiu a dona Celeste, olhando para o “F” bigodudo.
O Tomás levantou a mão, como na sala de aula.
— Com licença, a culpa foi do pote, mas nós vamos resolver. Por favor.
A dona Celeste suspirou, mas não parecia zangada.
— Gosto que peçam “por favor”. Isso já melhora metade dos problemas. Resolvem como quiserem, desde que seja legível.
Assim que ela virou costas, a Rita declarou:
— Troca de duos! Agora eu e a Leonor fazemos desenhos malucos e o Tomás com o Diogo salvam a escrita!
— Eu não faço “malucos”. Faço… criativos — corrigiu a Leonor, já a mudar os potes de lugar.
O Diogo assentiu.
— Eu e o Tomás fazemos a parte certinha. Certinha mesmo.
— Com licença… “certinha” pode ser um bocadinho divertida? — perguntou o Tomás.
— Um bocadinho — concedeu o Diogo.
A Leonor mergulhou o pincel no amarelo. Só que mergulhou demais. O pincel ficou tão encharcado que… escapou-lhe da mão.
— Ai! Volta! — gritou ela, e o pincel, como se tivesse pernas, saltou da mesa, rolou pelo chão e deixou um rasto amarelo.
— Pincel fugitivo! — anunciou a Rita, entrando em modo perseguição.
Os quatro começaram uma corrida pelo ateliê, desviando de cavaletes, saltando caixas, a dizer “com licença!” e “desculpa!” a cada obstáculo, como se as palavras fossem capacetes.
— Com licença, cadeira! — disse o Tomás, contornando uma.
— Desculpa, balde! — disse a Rita, quase trombando num.
O Diogo, mais rápido do que parecia, apanhou o pincel com uma pegada limpa, como se fosse um guarda de trânsito da arte.
— Capturado.
O rasto amarelo no chão parecia um raio de sol torto.
A Leonor olhou para aquilo e fez um ar inocente.
— Foi… decoração temporária?
A dona Celeste apareceu na porta, viu o chão e levantou uma sobrancelha.
— Meninos…
— Por favor, dona Celeste, nós limpamos já! — disseram os quatro ao mesmo tempo, tão afinados que parecia ensaio.
E limparam. Com panos, com cuidado, e com uma gargalhada aqui e ali, porque o Tomás estava a esfregar tão concentrado que parecia estar a polir um troféu.
— Com licença… este chão está a ficar mais brilhante do que a minha testa no verão — comentou ele.
A Rita riu-se tanto que teve de se sentar.
— A tua testa no verão devia ter um patrocínio!
Capítulo 4: O Cartaz da Feira e o Bigode Mais Educado do Mundo
De volta à mesa, o Tomás e o Diogo arrumaram as letras. A palavra “FEIRA” ficou grande e clara, e o “F” com bigode ganhou um laço pequenino.
— Um bigode com laço. Isso é… muito formal — disse o Diogo.
— É o Bigode Senhor Doutor — decidiu a Rita.
— Não, não — corrigiu a Leonor, muito séria. — É o Bigode Senhor Por Favor.
E, por baixo do “F” bigodudo, escreveram em letras pequenas: “Por favor, venham à feira!”
— Isso é simpático — disse o Tomás. — E educado. E ninguém pode discutir com um “por favor”.
Fizeram também desenhos: pincéis a dançar, um bolo sorridente, uma banca de livros com óculos. A Leonor desenhou duas mãos a partilhar uma caixa de bolachas, porque o Tomás tinha mesmo trazido bolachas e insistia em oferecer.
— Queres? Por favor, aceita — dizia ele, empurrando a caixa.
— Obrigada! — respondia a Rita, com a boca cheia, mas tentando falar bonito.
A dona Celeste voltou para avaliar. Olhou o cartaz, o bigode, o laço, as letras e os desenhos.
— Está alegre, está legível… e tem “por favor”. — Ela fez uma pausa. — Gostei muito. E parabéns por terem limpado o chão sem eu pedir duas vezes.
A Leonor endireitou o peito, orgulhosa.
— Nós somos um grupo… como é que se diz… cooperativo!
— E bem-educado — acrescentou o Diogo.
— Com licença… eu sou sempre bem-educado — lembrou o Tomás, rindo.
A Rita apontou para o pote de água.
— E o Senhor Bolhitas? Vai parar de “blupar”?
Como se respondesse, o pote fez um “blup” pequenino, quase tímido.
A Leonor inclinou-se para ele.
— Obrigada, Senhor Bolhitas. Sem ti, não havia bigode.
Capítulo 5: Um Riso Baixinho no Fim do Dia
O sol já estava mais baixo quando arrumaram os pincéis. A energia do ateliê foi desacelerando, como uma música que baixa o volume devagarinho.
A dona Celeste abriu a janela. Entrou ar fresco e o cheiro da rua.
— Podem ir. E obrigada por hoje.
— Obrigada, dona Celeste! — disseram eles, um a um, com aquele tipo de educação que aquece o coração.
A Leonor ficou um segundo a olhar para o cartaz encostado na parede. O “F” bigodudo parecia sorrir.
— Sabem… — disse ela, mais calma — quando a gente diz “por favor” e “obrigada”, até os erros ficam mais fáceis de consertar.
— Com licença… isso foi profundo — brincou o Tomás.
— Foi o bigode que ensinou — respondeu a Rita, apontando para o cartaz.
O Diogo pegou na mochila e abriu um sorriso discreto.
— Amanhã fazemos outro cartaz?
— Sim! — disse a Leonor. — Mas sem pincéis fugitivos.
Nesse instante, o pote de água, quietinho, fez um último “blup”, tão baixinho que parecia uma risadinha escondida. E os quatro, já na porta, riram também… só um bocadinho, como quem guarda um segredo feliz.