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História que dá medo 7 a 8 anos Leitura 14 min.

O beco estreito e o apagador das luzinhas

Três amigos investigam por que as luzes do Beco Estreito se apagam e encontram um ser chamado Apagador que busca silêncio, aprendendo a enfrentar o medo juntos.

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Há 4 personagens: três crianças — Tomás, 7 anos, cabelo castanho curto, jaqueta amarelo-mostarda, segura uma pequena lanterna com um sol e fica ao centro com olhar determinado; Rui, 7 anos, cabelo preto desgrenhado, suéter azul-claro, segura uma lanterna com lua, à esquerda de Tomás, com expressão nervosa; Leo, 7 anos, cabelo loiro encaracolado, jaqueta verde, segura uma lanterna com estrela, à direita de Tomás, inclinado, curioso e terno — e uma criatura chamada Apagador, não humana, forma redonda e macia como uma mancha de tinta cinza ardósia com dois olhos cinza-claro, encolhida junto a um velho portão de ferro forjado decorado com um símbolo sol-lua-estrela. Local: um beco estreito entre muros de pedra antiga com tijolos gastos e musgo, lâmpadas pendentes piscando, prateleiras visíveis atrás do portão com velas antigas de vidro e madeira. Situação: as três crianças iluminam suavemente o velho portão com lanternas de halo dourado; uma pequena caixa de vidro quebrada dentro emite um zumbido fraco; o Apagador está diante do portão, aliviado e tímido, como se pedisse perdão. Atmosfera levemente assustadora mas acolhedora, contraste entre sombras azuladas do beco e reflexos quentes das lanternas, textura aquarela fluida com toques finos em caneta gel branca realçando brilhos e olhos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A Cidade das Luzinhas

Na Cidade das Luzinhas, quase tudo brilhava de mansinho. Havia luzes pequenas nas janelas, luzes em frascos, luzes penduradas em cordões e até luzes que pareciam estrelas dormindo dentro de bolas de vidro. À noite, ninguém ficava no escuro total. Era um lugar feito para acalmar.

Tomás, Rui e Leo tinham 7 anos e andavam sempre juntos. Os três gostavam de desafios, mas também gostavam de rir. Tomás era o mais atento; Rui era o mais falador; Leo era o mais curioso, daqueles que metem o nariz onde não devem… mas com boa intenção.

Nessa tarde, a senhora Nita, que consertava candeeiros e sabia histórias antigas, chamou-os para a sua oficina. O ar cheirava a cera de vela e a limão.

“Meninos,” disse ela, tirando do bolso uma luzinha do tamanho de uma avelã, “alguém anda a apagar as nossas luzes de noite. Não todas… só as que ficam perto do Beco Estreito.”

“O Beco Estreito?” Rui engoliu em seco, mas tentou fazer graça: “Aquele beco é tão apertado que até um espirro fica preso!”

Leo riu, mas os olhos brilharam de interesse. “E por que é que as luzes apagam lá?”

A senhora Nita abriu uma gaveta e mostrou três pequenas lanternas de bolso, cada uma com um desenho diferente: um sol, uma lua e uma estrela.

“Estas são vigias,” explicou. “Veilleuses, como dizem os livros velhos. Elas não servem só para iluminar. Também servem para… sossegar os medos. Mas perto do Beco Estreito, alguma coisa está a fazer as luzinhas tremerem.”

Tomás pegou na lanterna com o desenho do sol. Era quente na mão, como se tivesse guardado um bocadinho de tarde.

“Nós podemos ver,” disse ele, com a voz firme, mas suave. “Se for só um problema, ajudamos. Se for um mistério… resolvemos.”

A senhora Nita sorriu, como quem fica aliviada por não estar sozinha. “Lembrem-se: coragem não é não ter medo. É ir mesmo com o medo ao lado, mas com cuidado e amizade.”

Os três saíram com as lanternas no bolso e um plano simples: chegar ao Beco Estreito antes de a noite ficar muito funda.

Capítulo 2: Sussurros no Beco Estreito

Quando o céu ficou azul-escuro, as luzinhas da cidade acenderam-se como vaga-lumes obedientes. Só que, ao aproximarem-se do Beco Estreito, a rua parecia mais fria. As luzes das janelas ali piscavam, como se estivessem a pestanejar de sono.

“Ou de susto,” murmurou Leo.

O Beco Estreito era uma passagem entre dois muros altos. Era tão apertado que três crianças só passavam de lado, e mesmo assim a mochila roçava na pedra.

Rui apontou para uma luz pendurada num poste. Ela tremia, tremia… e apagou-se com um “puf” tão pequeno que parecia uma palavra envergonhada.

“Isso viu?” Rui sussurrou.

“Vi,” respondeu Tomás. “E não gostamos.”

Uma corrente de ar correu pelo beco, cheirando a poeira e a chuva guardada. As lanternas deles acenderam sozinhas, como se ficassem nervosas.

“Olhem,” disse Leo, apontando.

No chão, havia marcas. Não eram pegadas normais. Pareciam riscos finos, como se alguém tivesse arrastado uma vassoura de sombras.

Rui tentou um sorriso. “Talvez seja só… um gato a brincar com tinta?”

“Gatos não fazem sombra com vassoura,” respondeu Tomás, sem ser duro, apenas muito sério.

De dentro do beco veio um som: “shhh… shhh… shhh…” como páginas a virar num livro antigo.

Leo aproximou-se um passo, com o coração a bater rápido, mas com a cabeça cheia de perguntas. “Quem está aí?”

O som parou. Depois, uma voz baixinha, quase como um bocejo, respondeu: “Eu… eu só queria silêncio.”

Tomás ergueu a lanterna do sol. A luz espalhou-se, dourada. No fundo do beco, uma mancha escura, redonda e mole, mexeu-se como gelatina. Tinha dois olhinhos cinzentos que pareciam cansados.

Rui apertou a lanterna da lua contra o peito. “É um… monstro?”

A mancha escura encolheu. “Não! Não gosto dessa palavra. Eu sou… um Apagador. Mas eu não queria assustar.”

Leo inclinou a cabeça. “Então por que apagas as luzinhas?”

O Apagador olhou para os lados, como se tivesse vergonha. “As luzes fazem barulho para mim. Um barulho de ‘tin-tin-tin' dentro da cabeça. Eu só queria um cantinho sem brilho.”

Tomás respirou fundo. O beco parecia mais estreito agora, como se ouvisse a conversa.

“Se o problema é o barulho,” disse Tomás, “talvez haja outra solução. Mas apagar as luzes da cidade deixa as pessoas inquietas.”

“Eu sei,” sussurrou o Apagador. “Eu ouço as portas a fecharem mais rápido. Ouço os ‘ai!' pequeninos. E fico… mais pesado.”

Rui, sempre pronto a falar, desta vez falou com cuidado: “Não queremos que fiques pesado. Mas também não queremos que a cidade fique com medo.”

Uma luz ao lado deles piscou e apagou-se de novo. O ar pareceu prender a respiração.

“Para resolver isto,” disse Tomás, “vamos ter de atravessar o beco até ao fim. Há um portão velho lá, não há? A senhora Nita falou de um lugar por trás.”

Leo engoliu em seco. “Um portão velho… num beco que apaga luzes… que ideia ótima.”

Rui tentou rir, mas saiu um riso fininho. “Se eu contar isto amanhã, ninguém acredita.”

“Vamos juntos,” disse Tomás. “Passo a passo.”

Capítulo 3: O Passo Apertado

O pior trecho do Beco Estreito era uma parte onde as paredes se aproximavam ainda mais. Ali, só dava para passar um de cada vez, de lado, com a barriga a puxar para dentro.

“Eu vou primeiro,” disse Tomás, com a lanterna do sol à frente.

Rui protestou logo: “Porquê tu?”

“Porque eu consigo manter a luz firme,” respondeu Tomás. “E porque, se eu tremer, vocês vão ver e… pronto. Não vale a pena.”

Leo tocou no ombro de Tomás. “Coragem, então. Mas não é coragem sozinho. É coragem com amigos.”

Tomás assentiu. Entrou no trecho apertado e sentiu a pedra fria roçar na manga. A luz do sol iluminou riscos e pequenos desenhos antigos, como estrelas rabiscadas. O ar ali cheirava a coisa guardada.

Atrás, Rui disse baixinho: “Estou a contar até dez… e depois conto outra vez.”

“Isso ajuda?” perguntou Leo.

“Não muito,” respondeu Rui, “mas ocupa a boca.”

O Apagador deslizou perto do chão, como uma sombra a tentar ser educada. “Desculpem,” sussurrou. “Eu não sei andar de outro jeito.”

“Não faz mal,” disse Leo. “Só… não apagues a nossa luz, sim?”

“Eu vou tentar,” prometeu o Apagador, e parecia mesmo sincero.

Tomás avançou mais um bocadinho. A parede apertou tanto que ele teve de virar mais o corpo. O coração fazia “tum-tum” como um tambor pequeno. De repente, a lanterna do sol piscou. A luz diminuiu.

“Tomás?” chamou Rui, a voz mais fina.

“Estou bem,” respondeu Tomás, mas a sua garganta estava seca. “Só… um tremor.”

Da pedra saiu um sussurro, como se o beco contasse segredos: “Apaga… apaga… apaga…”

Leo apertou a lanterna da estrela. “Não! Não apaga nada!” gritou, e a sua voz ecoou de um jeito engraçado, como se o beco tivesse feito cócegas no som.

Por um segundo, o medo tentou crescer, como um balão. Mas Tomás pensou no que a senhora Nita disse: medo ao lado, não na frente.

Ele levantou a lanterna bem alto e falou com firmeza, como quem conversa com um cão assustado:

“Beco, nós não queremos guerra. Só queremos passar. A luz vai ser suave.”

E então, com o polegar, ele rodou a rodinha da lanterna, baixando o brilho. A luz ficou mais mansa, como uma vela bem comportada.

O sussurro da pedra parou. O ar pareceu relaxar.

“Funcionou,” murmurou Leo, admirado.

Rui tentou fazer uma piada: “O beco só queria uma luz com boas maneiras!”

Tomás deu mais dois passos e, de repente, saiu do aperto. Respirou fundo. Atrás, Leo passou também, e depois Rui, que saiu do trecho como se tivesse espremido um limão.

“Eu sobrevivi,” declarou Rui, endireitando a camisola. “Quero um prémio. Um bolo. Dois bolos.”

À frente, o portão velho aparecia, coberto de pó e de pequenas luzinhas apagadas, como se dormissem em cima dele.

O Apagador aproximou-se, hesitante. “Atrás desse portão… é o meu cantinho. Eu escondi-me lá quando o barulho ficou demasiado.”

Tomás apontou para um símbolo gravado no metal: um sol, uma lua e uma estrela juntos.

“Parece feito para as nossas lanternas,” disse Leo.

Capítulo 4: O Segredo das Veilleuses

Os três encostaram as lanternas ao símbolo, cada uma no seu lugar. A luz do sol, da lua e da estrela misturaram-se e fizeram um brilho prateado, macio, que não doía nos olhos.

O portão abriu-se sem ranger, como se estivesse a tentar ser educado também.

Lá dentro havia uma sala pequena, redonda, com prateleiras cheias de veilleuses antigas: luzinhas em conchas, em bonecos de madeira, em pedras transparentes. No teto, um móbile de estrelas girava devagar, mesmo sem vento.

Mas no meio da sala havia um problema: uma caixa de vidro rachada, da qual saía um zumbido fininho, “tin-tin-tin”, como campainhas a tocar todas ao mesmo tempo. O som era irritante, até para os meninos.

Rui tapou os ouvidos. “Ai, agora percebo!”

O Apagador encolheu-se, quase a desaparecer. “É isso… isso faz a minha cabeça ficar pesada.”

Tomás aproximou-se da caixa com cuidado. Dentro, uma luz muito forte tremia, como se estivesse presa e zangada.

“Talvez esteja avariada,” disse Leo. “Ou triste.”

Tomás olhou em volta e viu uma pequena tampa de feltro num canto, com a etiqueta: “Abafador de Brilho”. Ele pegou nela.

“Se colocarmos isto sobre a caixa,” sugeriu Tomás, “a luz continua acesa, mas sem gritar.”

Rui, ainda com os dedos nos ouvidos, falou por entre as mãos: “Façam isso antes que eu comece a falar com as paredes.”

Leo segurou a caixa para não tremer e Tomás pôs a tampa de feltro por cima, com muito jeito. O zumbido baixou imediatamente, virando um “hummm” calmo, como um gato a ronronar.

O Apagador levantou os olhinhos. “Já… já não dói.”

As luzinhas nas prateleiras acenderam-se uma a uma, mas com um brilho suave, como se estivessem felizes por voltar sem fazer festa barulhenta. Do lado de fora, no beco, as luzes apagadas reacenderam-se também, como se alguém tivesse feito um carinho na noite.

Leo sorriu. “Então não precisas apagar as luzes da cidade. Só precisas de um lugar com luz baixinha.”

“E de uma tampa de feltro,” completou Rui. “Eu também quero uma para quando o meu primo toca flauta.”

O Apagador fez um som que parecia uma risada tímida. “Desculpem por assustar. Eu não queria ser um mistério mau.”

Tomás deu um passo em frente. “Mistérios podem ser bons, se a gente os entende. E hoje tu ajudaste a gente a aprender uma coisa: luz forte demais também pode incomodar.”

O Apagador balançou, contente. “Posso ficar aqui, então? E prometo: nada de ‘puf' nas luzinhas da rua.”

“Prometido,” disse Leo.

Rui estendeu a mão, mesmo sem saber se se apertava a mão de uma sombra. O Apagador encostou-se de leve, como um toque de algodão.

Quando saíram, a Cidade das Luzinhas brilhava outra vez. Não como um farol gigante, mas como um céu cheio de pequenos pontos seguros.

A senhora Nita esperava na esquina, com um olhar preocupado. Ao ver os três, soltou o ar como se tirasse uma mochila pesada das costas.

“Conseguiram?” perguntou ela.

“Conseguimos,” disse Tomás. “E foi… apertado.”

Rui acrescentou: “Apertado, barulhento e um bocadinho assustador. Mas… deu certo.”

Leo olhou para o beco, agora quieto. “E aprendemos que coragem é passar mesmo quando o caminho é estreito.”

A senhora Nita assentiu, com ternura. As luzinhas ao redor pareceram piscar como se aplaudissem.

E os três, ao mesmo tempo, soltaram um suspiro de alívio, longo e feliz, como quem volta a respirar com a noite finalmente em paz.

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Candeeiros
Objetos que servem para iluminar, como lâmpadas ou luminárias.
Cera
Material macio e pegajoso, usado para velas e que cheira a limão.
Veilleuses
Luminárias pequenas que ficam acesas para dar conforto à noite.
Gaveta
Parte de um móvel que se puxa para guardar coisas dentro.
Lanternas
Aparelhos portáteis que fazem luz, funcionam com pilhas ou fogo.
Portão
Porta grande de metal ou madeira que fecha a entrada de um lugar.
Prateleiras
Tábuas fixas em paredes para pôr objetos e organizar coisas.
Zumbido
Som contínuo e agudo, como de insetos ou de algo a vibrar.
Sussurro
Voz muito baixa, falada quase sem som.
Móbile
Objeto leve que gira devagar, pendurado no teto para decorar.
Abafador de Brilho
Peça de tecido que se põe sobre uma luz para deixar mais fraca.
Etiqueta
Pequeno papel ou placa que mostra o nome ou a função de algo.
Rodinha
Pequena roda ou botão redondo que se usa para ajustar coisas.

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